domingo, 7 de outubro de 2012

Biblioteca circulante: A BN argentina entra na guerra pró-Kirchner


Entrevista - Horácio González


Sylvia Colombo | Folha de S. Paulo | Ilustríssima

RESUMO O presidente da Biblioteca Nacional da Argentina, Horácio González, comenta projetos editoriais como a reedição da revista "Proa", analisa aspectos políticos e intelectuais de sua gestão, que busca imprimir perfil social à instituição, e dá sua visão sobre a polarização ideológica que domina o país de Cristina Kirchner.

O prédio da Biblioteca Nacional da Argentina, suspenso em altos pilares, é um cartão-postal portenho. Nos últimos anos, mais do que mera moderna sede da instituição bicentenária fundada pela junta que declarou a primeira independência do país, em 1810, a BN virou também um agente que influencia o debate político, hoje tão dividido entre kirchneristas/peronistas e a oposição.

À frente da instituição está Horácio González, 68, um dos ideólogos do grupo Carta Abierta, de intelectuais que apoiam o governo. O sociólogo, que se doutorou no Brasil durante a ditadura em seu país (1976-83), é presença constante na mídia, em intervenções de apoio a Cristina Kirchner.

Chegou a se exceder, como no episódio em que tentou impedir a participação do liberal Mario Vargas Llosa no salão do livro portenho de 2011, por não se alinhar ao pensamento dominante.

González, porém, reivindica um papel mais amplo para a BN: com um frenético calendário de publicações, debates, eventos literários e oficinas, quer tornar a instituição um órgão de consulta "em diversos níveis".

Um dos lançamentos mais recentes é a edição fac-similar de todos os 18 números da mítica revista "Proa", fundada em 1922 por Jorge Luis Borges, e que reúne produção deste, Macedonio Fernandez, Roberto Arlt e outros.


Folha - Qual deve ser a função de uma biblioteca latino-americana?

González - Primordialmente, uma biblioteca deve voltar-se à pesquisa. Mas aqui, com nossas condições econômicas e sociais, isso é impossível, por isso creio que o que se ajusta mais é um modelo que a torne acessível em diferentes níveis. Em nossos países a função é aproximar o livro do cidadão. Por isso valem ações como eventos, edições populares etc.

Sou partidário de que uma instituição tenha várias possibilidades de consulta. Uma superespecialização leva a uma sacralidade, a biblioteca vira um sarcófago.

O que pensa sobre a digitalização do acervo de grandes bibliotecas?

Os benefícios são mais do que conhecidos. O principal é dar acesso sem fronteiras às obras, e é inegável o avanço nesse sentido. Por outro lado, a digitalização virou fetiche universal em bibliotecas. Não há bibliotecário no mundo que não fale essa novilíngua.

É preciso discutir também o que se perde com o fim da relação leitor-livro físico. O contato tátil é parte da experiência da leitura e tendo a achar que o livro físico é insubstituível na apreensão de significado. O vínculo digital deveria ser só um tipo de vínculo, um recurso a mais para pesquisa, não um substituto. O livro é uma forma perfeita, não vai desaparecer.

O programa de publicações da BN traz obras importantes a preços acessíveis. Qual deve ser o papel da instituição no mercado editorial?

Há grande discussão sobre se o Estado deve ter editora própria. A Argentina não tem, a nossa é a que chega mais perto disso. Publicamos com subsídios do governo, mas temos total liberdade para escolher os títulos.

Defendo a necessidade de o Estado cobrir o que a iniciativa privada não faz. Certo tipo de publicação científica, e até um tipo de autor jovem que não teria espaço numa editora privada, mas a questão é como avaliar esses escritores e escolher entre os consagrados a serem reeditados.

O Estado tem má fama, e os processos de seleção de obras e autores nunca são bem-vistos pelo mercado. A tendência é enxergar clientelismo em nossas escolhas.

Por outro lado, ao fazer escolhas, uma editora do Estado não pode ter só critérios estéticos, não pode ter curadores com o perfil dos que estão no mercado. É preciso ter critérios técnicos e sociais.

Como é o programa de publicações da Biblioteca Nacional?

Promovemos obras de acervo argentino. Já temos mais de 300 livros editados em oito anos. Vão de publicações tradicionais a edições de fac-símiles, como a da revista "Proa", fotos, partituras e livros de bolso. Fizemos uma máquina de cigarros que vende minilivrinhos e que é um sucesso.

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A íntegra da entrevista está aqui.

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