segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Prazeres instantâneos


Ao preencherem a necessidade dos jovens da era digital por fotos palpáveis e duráveis, as velhas  polaroides foram resgatadas para virar fetiche e itens de celebração coletiva 

Amanda Capuano | Veja

O CASAMENTO dos atores Thaila  Ayala e Renato Góes foi uma festança  como se espera das bodas de celebridades. Realizado há três semanas em  Olinda, o evento reuniu 400 convidados que vararam a madrugada se refestelando em torno de uma mesa que aludia à Última Ceia. Mas era o bolo que  captava o “espírito instagramável” reinante: em vez dos bonecos na forma  dos noivos, a iguaria era decorada com  duas fotos de polaroide do casal, capturadas na cerimônia. Os convidados  também podiam posar para polaroides  ó e levá-las para casa. Atualmente em alta em casórios e afins, esse tipo de celebração atesta um novo fenômeno da  era millennial: a volta apoteótica das  velhas fotografias instantâneas.  

Surgida nos Estados Unidos na década de 40, a máquina que produz registros instantâneos ou seja, impressos na hora no clássico filme com bordas brancas ó se tornaria um fetiche  nos anos 1970 e 1980. Na virada do  século, a praticidade oferecida pelas  máquinas digitais (e pelas câmeras  dos smartphones) levou a fotografia  analógica a um cenário insustentável. 

De queridinha por gerações, a Polaroid caiu no ostracismo. A empresa ó cujo  nome virou sinônimo de seu produto ó  faliu duas vezes e teve três donos entre  2001 e 2009. O caminho do ocaso parecia ser o destino inevitável também  de sua rival, a japonesa Fujifilm. Até  que uma notável mudança geracional  veio resgatar os instantâneos do limbo.  

Nos últimos quatro anos, as câmeras Instax, linha instantânea da Fujifilm, registraram aumento de 160%  nas vendas globais. Só em 2019 já foram comercializados 10 milhões de  unidades. O número é espantoso para  um mercado que quase deixou de existir ó e cujo ponto de virada se deu em  2009, quando a última fábrica da Polaroid, na Holanda, foi comprada por  um fã disposto a resgatar seu glamour,  o empresário austríaco Florian Kaps.  

À maneira da ressurreição do vinil,  o retorno da Polaroid tem a ver com a  nostalgia ilimitada dos jovens millennials  que sentem saudade de coisas  que nem viveram de fato. Esse apelo  vintage explica o burburinho em torno  de obras como Linda McCartney: The  Polaroid Diaries, volume recém-lançado de fotos familiares registradas  por três décadas pela ex-mulher do  beatle Paul McCartney, morta em  1998. A adesão de celebridades, de Madonna a Bruna Marquezine, turbinou a  tendência. Taylor Swift elaborou a  identidade visual de seu álbum 1989,  lançado em 2014, com polaroides. O resultado foi tão positivo que Taylor foi  creditada como salvadora da marca pelo então CEO da empresa. A concorrência não titubeou: a Fujifilm criou uma  versão da Instax assinada pela cantora.  

O retorno da fotografia instantânea  espelha a necessidade que a juventude  de hoje sente de preencher certa lacuna  deixada pela revolução digital. Com  sua mania de clicar tudo o tempo inteiro para publicar no Instagram, ela viu a  fotografia perder seu caráter único para se tornar um ato trivial. Com sede de  diferenciação, os jovens acharam na  velharia uma maneira de dar identidade a seus registros ó tornando-os não  só únicos, mas duráveis e palpáveis em  meio à cacofonia de imagens virtuais.  “As câmeras digitais democratizaram  o simples, a foto perfeita. Mas as fotos  instantâneas proporcionam ao fotógrafo o desafio, o significado especial”,  disse a VEJA Oskar Smolokowski, CEO  mundial da Polaroid. A opinião do executivo vai ao encontro do que diz Livia Camargos, estudante de 20 anos e fã  típica: “A gente acaba tirando fotos à  toa, sem perceber que fotografia é uma  arte. A câmera instantânea ajuda a  lembrar que precisamos pensar antes  de apertar o botão”.  

Como nem os millennials são de ferro, as marcas têm investido em inovações para fundir o apelo das polaroides  às facilidades das câmeras digitais.  A Instax lançou uma linha de impressoras de fotos instantâneas. Já a Polaroid tem um dispositivo que transforma fotos de smartphone em fotografias  físicas ó faz espécies de fotos analógicas das fotos digitais. “Todo mundo  gosta de polaroide porque é como se  você aplicasse um filtro do Instagram à  foto mas não soubesse como vai ficar”,  diz o fotógrafo Antonio Barros, que já  fez instantâneos de celebridades como  Rihanna e Karl Lagerfeld. Nada mais  eterno que um prazer instantâneo.


sábado, 12 de outubro de 2019

O poder das notícias falsas na era digital



Fábio Jesuíno | Startup Blog - Portugal

O mundo digital revolucionou a forma como comunicamos, permitiu dar voz a qualquer indivíduo, mas ao mesmo tempo, deu voz a campanhas de desinformação através das “Fake news”.

O termo “fake news”, ou notícias falsas ficou popular em 2016, durante as eleições dos EUA, devido as polemicas que foram criadas nas redes sociais envolvendo vários políticos e até governos externos. Foi um momento que ficou marcado pela confusão que gerou na sociedade norte-americana e influencia que teve nos resultados nas eleições, que ainda está a ser investigado.

As notícias falsas são graves ameaças às democracias e muitas vezes utilizadas como meios de interferência nos processos eleitorais, que se veio a verificar depois nas eleições presidenciais brasileiras de 2018, onde recentemente a plataforma WhatsApp confirmou o envio de propaganda e informação falsa na sua rede.

A importância do jornalismo e os meios de comunicação social independentes ganham atualmente, maior relevância na nossa sociedade, mesmo passando por dificuldades, são uma plataforma de confiança e de liberdade, principalmente neste mundo cada vez mais digital. Uma confiança que deve ser preservada e ampliada pelos governos como mecanismos de ajudas adaptados às novas realidades.

Atualmente é muito importante ter uma sociedade que saiba identificar notícias falsas, situação que ainda não acontece na maioria da população dos países da união europeia, onde só 48% portugueses admitiu, num estudo realizado recentemente pela Comissão Europeia, conseguir identificar notícias falsas, um valor que está abaixo da média da União Europeia.

Uma das maiores convicções do pensamento contemporâneo é que a internet, que deu origem às plataformas digitais, como o Facebook, YouTube e Twitter, está a transferir o poder dos governos para a sociedade civil. Fazendo com que alguns países ataquem a liberdade da internet, como acontece na Russia, China, Cuba e Turquia, que censuram claramente informações críticas.

As “fake news” são uma ameaça, mas também uma oportunidade para melhorar a educação digital de uma sociedade cada vez mais conectada.

Cálculo da inflação incluirá apps de transporte e streaming em 2020

Mudança no cálculo do IPCA faz grupo dos Transportes superar, pela primeira vez, o peso do grupo Alimentação

Exame


Uber: IPCA passa a captar o transporte por aplicativo, que não constava na lista e estreia com peso de 0,21% na nova ponderação (Germano Lüders/EXAME)

Avanços tecnológicos, envelhecimento populacional e até a opção por alimentos prontos influenciaram as mudanças na destinação do orçamento das famílias brasileiras nos últimos anos, alterando assim a cesta de produtos pesquisados na inflação oficial do País.

A partir de janeiro de 2020, saem do cálculo o aparelho de DVD, assinatura de jornal e máquina fotográfica. Ao mesmo tempo, entram bacalhau, vinho e picanha, além de aplicativos de transporte, como Uber, e serviços de streaming.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta-feira, 11, a nova ponderação que servirá como base para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no ano que vem. A primeira divulgação sob a nova ponderação será em fevereiro de 2020, referente a janeiro.

As mudanças levam em consideração os pesos referentes à Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008/2009, mais especificamente do mês de janeiro de 2009, com as contribuições atualizadas para a ponderação referente a janeiro de 2018, tendo como base as despesas monetárias das famílias captadas pela POF de 2017/2018.

A inflação passa a investigar 377 subitens, ante uma lista atual de 383. No total, o IPCA terá 56 novos subitens. Ou seja, 62 itens foram substituídos ou retirados da lista.

“Assinatura de jornal perdeu relevância no orçamento, mas não é que tenha diminuído o número de assinaturas, elas podem ter sido substituídas por pacotes de assinaturas digitais, que são mais baratas”, exemplificou Pedro Kislanov, analista do Sistema de Índices de Preços do IBGE.

O IPCA também passa a trazer macarrão instantâneo (com peso de 0,03%), polpa de fruta congelada (0,01%), papinha infantil em conserva, além de conserto de bicicleta e medicamentos neurológicos e antidiabético. No caso de transporte por aplicativo, que passa a integrar a lista, conta tanto o serviço de veículos particulares, como Uber, quanto o de táxis, como o 99 Táxi.

O cálculo desses serviços não existia e estreia com peso de 0,21% na nova ponderação. A integração transporte público estreia com 0,07%.

“O conserto de bicicleta é uma coisa que a gente não tinha antes indica que as pessoas estão usando cada vez mais a bicicleta, talvez como lazer”, notou Kislanov. “Com o envelhecimento populacional e a tendência de aumento de doenças crônicas, (o IPCA) manteve todos os farmacêuticos anteriores e ainda entraram esses aí”, completou.

O pesquisador lembra que, entre os novos subitens pesquisados, alguns já integravam subgrupos, mas ganharam importância, motivando a desagregação. É o caso do vinho consumido dentro de casa e fora de casa, que passam a ser medidos de forma separada de outras bebidas alcoólicas. Ou então passaram a integrar a lista, como a picanha, que não figurava entre as carnes investigadas.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A falta de Steve Jobs



Do computador pessoal ao smartphone, da internet comercial à música e vídeo digital, do mouse à tela de toque, há o dedo de Steve Jobs em praticamente todas as fases da revolução digital

por Pedro Doria | O Estado de S. Paulo

No último sábado, dia 5, fez oito anos que Steve Jobs morreu. E, oito anos depois, ele segue insubstituível. Nenhum líder no Vale do Silício chegou sequer próximo. E é curioso, pois como cresceu sua Apple, desde então. Era impensável, naquele 2011, que uma das maiores empresas do mundo — eram bancos e petroleiras — alcançasse o valor de mercado de US$ 1 trilhão. Mas a Apple está nessa faixa, e não sozinha. Caminham junto, e a ordem varia de acordo com o tempo em Wall Street, Microsoft, Google, Amazon e Facebook. Pois é. Mas, apesar deste sucesso posterior, ninguém chega próximo de Jobs.

Tecnologia é uma coisa tão óbvia, hoje em dia, tão parte dos nossos cotidianos. E porque tem tanta gente por aí com iPhones, iPads ou iMacs, o nome de Jobs se tornou um daqueles tão célebres que, não importa em qual canto do mundo, todos ouviram dele.

Mas, no Vale, sua mística é antiquíssima. Nos anos 1980, ali por Cupertino, Mountain View ou Palo Alto, havia Apple IIs por toda parte. Nas escolas, nos escritórios. Histórias de Steve Jobs eram contadas com admiração. Nenhum outro líder da indústria era visto como ele. Sim: temperamental. Sim, um chefe difícil para muitos, dado o tipo de bronca que passava. Mas todos sabiam que Jobs era extraordinário.

Quando no Vale dos anos 1970 um grupo de seus amigos montava computadores por diversão nas garagens, ele percebeu que um destes, bem-acabado, seria um produto com enorme potencial de mercado. Imagine só: um computador pessoal.

Quando percebeu a tecnologia que a Xerox havia desenvolvido, incluindo ícones e janelas, uma lata de lixo na tela, e tudo guiado por este apetrecho que ninguém conhecia — o mouse —, Jobs pagou um dinheiro para poder copiar. A Xerox não ligava, então foi ele, com o Mac, que pôs nas ruas o primeiro computador fácil de aprender a usar.

Expulso da Apple por ser temperamental, montou uma empresa que produzia os computadores mais bonitos jamais feitos. E bons de matemática: os NeXT. A World Wide Web foi inventada num destes. E o sistema da NeXT era tão bom que uma Apple próxima da falência comprou a empresa para tentar salvar o Mac. Levou de brinde Steve Jobs. Que em meses virou CEO.

De volta à empresa que fundara, pôs nas ruas o iMac, um computador já pronto para entrar na internet — era só ligar ao fio do telefone. (Funcionava assim naquele tempo.) Um computador cheio de curvas e num azul translúcido que permitia ver o interior. Eram todos beges e quadrados, os computadores.

Aí pôs na rua o iPod e, de repente, podíamos nós circularmos por aí com todos os discos da coleção gravados para ouvirmos.

Então reinventou o telefone celular. E veio o iPad. Neste meio tempo, reinventou o negócio da indústria da música, criando pelo iPod e depois o iTunes, a primeira loja digital de música. Para depois vender online também filmes e séries.

Do computador pessoal ao smartphone, da internet comercial à música e vídeo digital, do mouse à tela de toque, há o dedo de Steve Jobs em praticamente todas as fases da revolução digital. Nenhum executivo, nem Bill Gates, chega perto desta marca.

Os seus eram dois talentos. O primeiro era a visão. Tecnologia é coisa que se inventa, se cria do nada. Jobs intuía como aqueles chips e telas poderiam atender a usos que consumidores sequer imaginavam, mas pelos quais se encantariam. E tocava esta sua visão com rigor estético que herdou de sua religião, o Zen. O segundo talento era o da venda. Ela sabia explicar a visão que tinha de forma que parecesse óbvio.

Porque era óbvio depois que ele mostrava. Ninguém chega perto.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

TikTok, o aplicativo chinês que é febre entre os jovens

Dona do app de vídeos rápidos, a ByteDance abriu escritório na Vila Olímpia, Zona Sul de São Paulo, para administrar os negócios por aqui

Por Matheus Prado | Veja São Paulo

Criador: Carvente se destaca em vídeos de efeitos especiais (Rogerio Pallatta/Veja SP)

O aplicativo mais baixado do mundo em agosto deste ano possui vídeos de cerca de quinze segundos, edições simples e dinâmicas, filtros e músicas variados, alto potencial de viralização e “conteúdo infinito”. Ingredientes isoladamente presentes em todas as redes sociais, mas que juntos alcançaram outro patamar no TikTok. A plataforma chinesa, lançada em 2017, é febre entre os jovens, e tem crescido de maneira galopante a sua base de usuários.

A consultoria Sensor Tower, que mapeia dados de downloads da Apple Store e do Google Play, reporta que a ferramenta já foi baixada mais de 1 bilhão de vezes. Trazido para o Brasil em agosto de 2018, o TikTok figura entre os dez apps mais baixados para telefones Android localmente.

O sucesso é tanto que a startup chinesa ByteDance, dona da rede social, abriu escritório na Vila Olímpia, Zona Sul de São Paulo, para administrar os negócios por aqui. Apesar do sucesso, a firma se mantém discreta. Números de downloads, receitas e funcionários e até a localização da sede paulistana não são divulgados. A empresa chegou a ser acusada de esconder suas políticas de uso e promover censura a vídeos de temática política na China. À época, respondeu que inicialmente agia de forma dura contra conteúdos sensíveis para “evitar conflitos”, mas que hoje a moderação é internacionalizada e feita de maneira independente em cada país.

Afinal, por que o TikTok está fazendo tanto barulho? A companhia afirma que o diferencial está não apenas nos recursos especiais de captação e edição, mas também em pilares como “autenticidade, vídeos reais e pessoas reais”, o que coloca os criadores de conteúdo no centro das atenções. O paulistano Bruno Carvente (@iBugou), de 29 anos, foi um dos que assumiram esse protagonismo.

Ele possui 2,4 milhões de seguidores e utiliza seus conhecimentos em animação e computação gráfica para vídeos de efeitos especiais. Carvente explica que, apesar de o conteúdo segmentado ser o carro-chefe, com clipes cômicos, musicais ou de maquiagem, o algoritmo trabalha com tendências. A plataforma lança desafios, hashtags e músicas e faz curadoria de conteúdos, destacando os mais criativos. Os produtores têm de ficar atentos ao que ocorre dentro da rede para tentar viralizar.

Além disso, a inteligência artificial do app identifica o tipo de conteúdo preferido do usuário e o direciona para ele. “Dizem que o TikTok é uma fábrica de memes”, brinca Carvente, ao explicar o motivo de esses vídeos serem tão compartilhados nas demais redes sociais. Ele afirma que a monetização ali é feita por meio de doações de usuários nas transmissões ao vivo. Outra fonte são os vídeos pagos por marcas — podem chegar a 5 000 reais por postagem, a depender do número de seguidores.

Talita Akemy (@talita_akkemyy), 18, e Letícia Gomes (@leticiafgomes), 25, “vivem” do TikTok. Com quase 2 milhões de seguidores cada uma, elas têm foco nos vídeos de make. “O mercado de cosméticos está muito grande, então a gente recebe convites para divulgar as marcas”, diz Talita. Já Letícia, que se transforma em personagens e personalidades através das pinturas, explica que tem sido procurada para difundir lançamentos de filmes e músicas.

Thatty Ferreira (@thattyferreira), 22, aponta a consistência como um dos segredos para o sucesso. Também na casa dos 2 milhões de seguidores, ela se programa para postar pelo menos um conteúdo por dia, além de agendar cerca de três lives semanais. Quando viu que estava atraindo muito público estrangeiro, ela decidiu ir além. Criou um segundo perfil só para o público brasileiro. “Todos os dias eu posto de um a três vídeos e vou variando o conteúdo, seguindo as tendências do momento. Além disso, faço conteúdos exclusivos para o público brasileiro no segundo canal”, explica.

Os criadores acreditam ainda que o aplicativo caiu nas graças dos jovens por causa da sua simplicidade. Tudo é filmado e editado no celular, o que dá velocidade e um ar amador (proposital) à produção. “A nossa geração consome as coisas muito rapidamente, então precisamos entregar vídeos de quinze segundos com início, meio e fim”, diz Gustavo Martho (@marthow), 23, que está começando na plataforma. Com quase 90 000 seguidores, o publicitário e fotógrafo se mudou do Paraná para São Paulo a fim de investir na vida de influenciador.

Simone Cesar, 40, fez o caminho inverso. Dentista especializada em crianças há dezenove anos, ela encontrou no aplicativo, que conheceu através do filho, uma ferramenta para se conectar com seus jovens clientes. Hoje conhecida como @dentistamusical (370 000 seguidores), Simone conta que sua clientela aumentou após seu ingresso no TikTok. “Tive a sacada de usar o app dentro da clínica, interagindo com os pacientes. A ideia era fazer com que as crianças tivessem mais vontade de vir ao dentista. Agora, os pais curtem muito e, se não posto, mandam mensagem perguntando o que aconteceu.”

Mas apesar do público originalmente infantil, o TikTok acredita que tem penetrado cada vez mais as gerações mais velhas. Esdras Saturnino (@esdrassaturnino), que tem cerca de 550 000 seguidores e faz conteúdos de humor no app, conta que suas métricas apontam para um público de até 30 anos. “Alguns vídeos da plataforma podem parecer meio sem sentido às vezes, mas a minha ideia é sempre levar experiências de vida para o público”, diz. Além dos vídeos de comédia, o jovem aposta em números musicais. Ele está se licenciando em música (quer cursar letras posteriormente), dá aulas de canto popular e sonha em poder lançar canções e disponibilizá-las na rede social para que seus seguidores “dublem e recriem em cima da sua criação”. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Kindle Kids Edition: Amazon lança e-reader exclusivo para crianças

A Amazon revelou nesta segunda-feira (7) o seu primeiro Kindle exclusivo para crianças, fazendo companhia ao também recém-lançado tablet Fire HD 10 Kids.

O Kindle Kids Edition conta com quatro cases coloridos, dois anos de garantia que permitem a substituição do dispositivo, e mais um ano de acesso cortesia para o FreeTime Unlimited, que oferece conteúdo ilimitado para crianças, com mais de 20 mil vídeos, livros e aplicativos.

Para manter os leitores infantis, o Kindle acompanha dicionário nativo, um recurso chamado Word Wise, que define automaticamente palavras difíceis, além de badges de conquistas, papéis de parede personalizados e luz frontal ajustável.

O Kindle Kids Edition já está disponível em pré-venda nos Estados Unidos por US$ 109,99, com envio para o dia 30 de outubro. Ainda não há informações sobre a chegada do produto no Brasil.

via Canaltech | Yahoo Finanças

Sycamore: o supercomputador secreto da Google

Documento vazado pela Nasa revela que gigante da tecnologia criou uma máquina que realiza, em 3 minutos, cálculos que levariam 10.000 anos para ser feitos

Por Filipe Vilicic, Sabrina Brito | Veja

“Máquinas similares às hoje existentes serão construídas a custos mais baixos, mas com velocidades mais rápidas de processamento.” Assim, em um artigo de 1965, o empreendedor americano Gordon Moore, cofundador da Intel e hoje com 90 anos de idade, apresentou sua célebre ideia. Pela “Lei de Moore”, a cada cerca de dois anos o desempenho dos chips de computador dobra, sem que aumentem os custos de fabricação. A máxima, irretocável, à exceção de pequenos detalhes de percurso, funcionou tal qual intuíra Moore — e as máquinas evoluíram no ritmo imaginado por ele. É uma regra que pode estar com os dias contados. Vive-se, hoje, uma revolução tecnológica afeita a deixar no passado o raciocínio da duplicação de capacidade de cálculos à base de silício: é a computação quântica. Ela poderá nos levar a distâncias inimagináveis: tarefas que o computador mais poderoso do planeta demoraria 10 000 anos para completar seriam feitas em pouco mais de três minutos (veja o quadro).

A computação quântica era uma construção que, até o início desta década, não passava de teoria impressa em estudos universitários. Nos últimos anos, começou a ser testada na prática, com sucesso apenas parcial, até conseguir tração que, finalmente, parece se encaminhar para uma nova história. Um documento da Google, vazado recentemente, mostra que a empresa, que nasceu como um motor de buscas para depois invadir outras searas, pode estar muito próximo de romper de vez com o paradigma imposto pela Lei de Moore ao criar o primeiro computador quântico funcional da história.

A revelação foi resultado de uma distração. Algum funcionário da Nasa, também envolvido com o projeto, acidentalmente publicou, em 20 de setembro, no site da agência espacial americana, um estudo que mostra o feito da Google, realizado por meio de uma máquina, ainda sob sigilo, nomeada como Sycamore. O arquivo, programado para ser divulgado oficialmente neste mês, permaneceu poucos segundos no ar — mas foi o bastante para ser flagrado pelo jornal inglês Finan­cial Times. O supercomputador cumpriu um feito inédito: estabilizou os chamados qubits (versões quânticas dos tradicionais bits) por tempo suficiente para que fossem realizadas operações pela inteligência artificial.

A inovação do gigante americano da internet pode dar fim ao paradigma da Lei de Moore, que estabelecia um progresso sempre constante para os chips

Exige-se, aqui, uma breve pausa para explicar a computação quântica. Em um PC regular, os chips operam por meio de bits, unidades binárias responsáveis por formar a linguagem dos soft­wa­res. Esses bits regem os cálculos sempre como se desempenhassem um de dois papéis, dentro da ideia da língua das máquinas: ou são “zero” ou são “1”. No caso do qubit dá-se um comportamento simultâneo, com o “zero” e o “1” ao mesmo tempo. Grosso modo, seria como se um ser humano pudesse, ao mesmíssimo tempo, de modo correto e com perfeita dicção, falar duas palavras. Na prática, representa a possibilidade de um salto gigantesco na velocidade dos computadores.

O computador secreto da Google foi pioneiro ao efetivar essa ambição. O avanço ainda se restringe a âmbitos estritamente técnicos, sem utilidade cotidiana. Já é, porém, apelidado de “o Santo Graal da computação”. Isso porque o feito, se comprovado, atingiu o que se conhece como “supremacia quântica”. A nomenclatura indica aquele momento da civilização em que os computadores seriam tão (ou mais) competentes quanto os seres humanos. O cientista da computação americano Scott Aaronson, professor da disciplina de informação quântica na Universidade do Texas em Austin (EUA), diz, em entrevista a VEJA: “Isso não causará mudança imediata na vida das pessoas. Mas só por enquanto, pois se trata do início de um caminho que levará a transformações radicais em diversas áreas, culminando certamente no desenvolvimento de inovações que devem abranger de novos remédios à criação de materiais artificiais com atributos que hoje se restringem à imaginação”. Vale lembrar que o computador que usamos hoje também começou com um passo singelo, em 1843, quando a matemática inglesa Ada Lovelace (1815-1852) publicou um diagrama numérico que veio a ser considerado o primeiro algoritmo computacional. Foi esse trabalho, então estritamente técnico, que permitiu, quase dois séculos depois, a existência de notebooks, smartphones, tablets, robôs etc.



terça-feira, 1 de outubro de 2019

Smartphone: o novo cigarro



4 bilhões de pessoas têm  um – e o tiram do bolso  200 vezes por dia. Veja as  estratégias das gigantes da  tecnologia para transformar  o celular no objeto mais  viciante que já existiu. 

Fumar era normal. As pessoas acendiam o primeiro cigarro logo ao acordar, e repetiam o  gesto dezenas de vezes durante  o dia, em absolutamente todos  os lugares: lojas, restaurantes,  escritórios, consultórios, aviões  (tinha gente que fumava até no  chuveiro). Ficar sem cigarro, nem  pensar – tanto que ir sozinho  comprar um maço para o pai ou  a mãe, na padaria da esquina, era  um rito de passagem para muitas  crianças.

O cigarro estava na TV, nos filmes, na música, na propaganda (nos EUA,  ficou famoso um anúncio que dizia: “Os médicos preferem Camel"). 30% a 40% da população,  dependendo do país, fumava. O cigarro foi, em  termos absolutos, a coisa mais viciante que a humanidade já inventou. Hoje ele é execrado, com  razão, e cenários assim são difíceis até de imaginar. Olhamos para trás e nos surpreendemos ao  perceber como as pessoas se deixavam escravizar,  aos bilhões, por algo tão nocivo. Enquanto fazemos isso, porém, vamos sendo dominados por  um vício ainda mais onipresente: o smartphone.  Quatro bilhões de pessoas, ou 51,9% da população global, têm um, de acordo com uma estimativa da empresa sueca Ericsson. E o pegam  em média 221 vezes por dia, segundo uma pesquisa feita pela consultoria inglesa Tecmark.  O número de toques diários no aparelho é  ainda mais impressionante: são 2.600, segundo a empresa de pesquisa Dscout Research.  O smartphone já vicia mais gente, e de forma mais  intensa, do que o cigarro. 

Leia a matéria completa na revista Superinteressante de Outubro, nas bancas ou apps.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O Código Bill Gates glorifica o gênio e o filantropo, mas diz pouco

Felipe Demartini | CanalTech

O mundo real não é feito de heróis, como bem sabemos. Eles são um fruto da ficção e, apesar de nos encherem de esperança, todos sabemos que a resolução dos problemas globais é feita por um grupo de pessoas. Mas toda equipe tem um líder, e colocar Bill Gates no comando de revoluções mundiais, seja no campo do software, da engenharia e, principalmente, de questões de saúde, é o foco de O Código Bill Gates, minissérie documental que estreou nesta semana na Netflix.

Em três episódios, a produção promete ser um olhar em primeira mão sobre a mente complexa e o trabalho de uma das personalidades mais importantes da história da tecnologia, mas que agora tenta ter impacto semelhante no mundo como um todo. Associando casos do passado para mostrar como o empresário atua no presente, a produção falha no que é, justamente, seu foco principal, apesar de ter muita história interessante para contar.

Antes de mais nada, é importante deixar bem claro que não se trata de uma produção biográfica, ao contrário do que os próprios trailers e materiais promocionais da série fazem parecer. Quem procura saber mais sobre a carreira e a trajetória de Gates não encontrará um terreno muito fértil aqui, apesar de os três capítulos estarem recheados de anedotas, histórias e depoimentos de colegas e familiares. Eles são parte da vida do empresário, é claro, mas não compõem um todo nesse sentido.

Isso se prova especialmente real quando notamos que a Microsoft ganha real destaque somente na metade do segundo capítulo, mas quando somos apresentados à relação de Gates com Paul Allen, cofundador da empresa. O Windows, maior produto da empresa e responsável pela revolução no mercado de PCs, só dá as caras no terceiro capítulo e, da mesma forma que a companhia, jamais é o foco direto.

Com isso, a produção de Davis Guggenheim (Uma Verdade Inconveniente, Malala) passa longe das polêmicas e dos momentos sombrios para dar uma faceta de herói ao protagonista. Não que uma pessoa que dedique fortunas, influência e tempo para sanar os problemas globais não seja digna de nota e enaltecimento, muito pelo contrário, mas qualquer um que conhece pelo menos um pouco dessa história sabe que, aqui, estamos diante de um recorte muito particular e enobrecido sobre uma saga que se desenhou nas páginas dos jornais e noticiários de tecnologia.

Anedotas e intimidade

Menos que um olhar sobre a mente de Bill Gates, a minissérie de Davis Guggenheim (à esquerda) é uma glorificação das mudanças que o empresário tenta operar no mundo (Imagem: Divulgação/Netflix)

O Código Bill Gates é basicamente um olhar sobre a forma como o bilionário pensa e atua. Essa ideia de recortes também aparece na forma pela qual a história é contada, traçando paralelos entre a infância e a adolescência do empresário para nos ajudar a entender como ele chega às soluções para problemas tão complexos quanto o fornecimento de saneamento básico para regiões remotas do Senegal ou a erradicação da poliomielite na África.

Um extenso e complexo trabalho de montagem de currículos escolares ainda na adolescência, por exemplo, serve como ponte para a criação de um cronograma para visitas de vacinadores na Nigéria, enquanto o ímpeto por sempre saber mais acaba levando Gates a se envolver nos projetos financiados por sua fundação filantrópica. A ideia passada pela produção é a de alguém que está sempre pensando, refletindo e, sobretudo, agindo.

Essa noção é pontuada por imagens de intimidade que denotam um amplo envolvimento do próprio Gates na produção da minissérie. Fora do tom formal e quadrado de documentários que muitas vezes não contam com o envolvimento direto de seus retratados, vemos na produção da Netflix o empresário andando pela floresta, carregando livros durante viagens ou se emocionando com a lembrança de parceiros já falecidos. As imagens trazem uma proximidade interessante com uma das figuras controversas de nossa história recente.

A busca por um vaso sanitário sustentável ou pelo fim da pólio aparecem entremeadas pelas histórias pessoais de Gates (Imagem: Divulgação/Netflix)

Da mesma forma, tais cenas representam olhares pouco usuais sobre momentos grandiosos ou curiosos. Vemos o antológico momento em que Gates bebe a água tratada a partir de fezes humanas de um outro ângulo, enquanto, logo depois, o observamos em uma partida de carteado com ninguém menos do que o investidor Warren Buffett, de quem é um grande amigo. Eles também aparecem dividindo um hambúrguer e rindo da preocupação da filha do bilionário com a saúde do pai, já idoso, entre discussões sobre os problemas do mundo.

Chama a atenção, também, o destaque dado a Melinda Gates, com quem Bill dividiu não apenas a vida, mas também o trabalho de filantropia. Ela também é responsável por momentos interessantes, como o que ri quando perguntada como seria a mente do marido, e é colocada como um dos alicerces principais da atuação do empresário desde os tempos de Microsoft, bem como um testamento de como a cabeça dele funciona mesmo no âmbito pessoal.

São aspectos que trazem um tom positivo à produção, mas que contrastam, como dito, com a clara intenção de se desviar das polêmicas. Os revezes das histórias também são apresentados de forma glorificada, como a tristeza de Gates ao perceber que terroristas estavam impedindo o trabalho de vacinação contra a pólio ou o heroísmo de suas declarações de que, ainda assim, a doença seria extinta em seis anos. Pouco, porém, se fala sobre as pessoas que estavam no solo para esse trabalho, mas o sangue delas fica muito bem gravado na mente de quem assiste.

O Código Bill Gates não é uma produção biográfica, mas sim um recorte bem cirúrgico de histórias e situações, passando bem longe da maioria das polêmicas (Imagem: Divulgação/Netflix)

Da mesma maneira, soa no mínimo estranho, para não dizer pueril, um dos primeiros conflitos apresentados pela minissérie, quando Gates, Melinda e outros retratados demonstram um verdadeiro assombro pelo fato de muitas pessoas não contarem com saneamento básico e morrerem de diarreia. A comparação com os próprios filhos chega a ser risível e soa bizarra saindo da boca de alguém que está na liderança de uma organização filantrópica dedicada, justamente, a combater os problemas do mundo.

Com a bolha estourada, seguem as inovações e desafios que dão o tom de toda a minissérie, com O Código Bill Gates demonstrando que o domínio completo do mercado de PC, os problemas familiares e as relações interpessoais complicadas foram fichinha perto do que está acontecendo fora do setor de tecnologia e da própria casa dos responsáveis pela Microsoft.

Nesse sentido, que bom que essas pessoas saíram dessa zona de conforto e continuam exercendo seu poder e influência para, pelo menos, tentar mudar o mundo. Nesse sentido, a minissérie documental serve até mesmo como um fio de esperança. Mas esse, no final das contas, acaba sendo um dos pouco acertos reais de uma série que se propõe a uma coisa, se vende como outra e acaba entregando uma terceira completamente diferente, apesar da qualidade envolvida em todos os seus aspectos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Cinco razões que explicam por que o CD se tornou obsoleto

Artefato que revolucionou a indústria musical nos anos 80 virou peça de museu. Perdeu espaço para o streaming e deverá ser superado em vendas até pelo vinil.

Sérgio Martins | Veja
O CD: foi bom enquanto durou (Ilustração/Pexels)

Por quase duas décadas, o CD reinou soberano no mercado fonográfico. O disco compacto de leitura digital tomou o lugar do velho vinil graças a uma série de atributos: era inquebrável, tinha som mais apurado que os antigos bolachões de vinil, e ocupava muito menos espaço na estante que os LPs. Essas qualidades, contudo, não foram suficientes para garantir sua sobrevivência: atualmente, o CD tornou-se um primo-pobre total na indústria fonográfica. Foi superado pelas novas possibilidades das plataformas de streaming, que permitem ter tudo à disposição quando o ouvinte quiser e não ocupam espaço nenhuma em casa. Agora, eis que o CD perde espaço também para o vinil – que tornou-se um produto vintage cultuado.

Segundo relatório da RIAA (sigla em inglês para Associação de Produtores de Discos da América), em breve os CDs devem ser superados em vendas pelos vinis. O consumo das “bolachas” teve uma alta de 12,9%, passando de 198,6 milhões em 2018 para 224,1 milhões unidades comercializadas este ano. As vendas de CDs, enquanto isso, tendem a se estagnar: devem ficar em 247,5 milhões, contra 245,9 milhões no ano passado. A tendência é que, mais adiante, o LP supere o CD em vendas. A nova ascensão do vinil, no entanto, não significa que ele voltará a reinar no mercado, como fazia na segunda metade do século XX. Há uma onda de nostalgia em torno do artefato – tanto que os álbuns mais vendidos são os de medalhões. O formato físico representa 9% do mercado atual. A hegemonia hoje é, de longe, do streaming, que já domina 80% do mercado musical.

Confira cinco razões que aceleraram a queda do CD:

1 – A ascensão do streaming

Tratado como “bicho papão” quando surgiu, no final dos anos 90, o compartilhamento de músicas pela internet virou a salvação da indústria musical. Segundo relatório da agência Goldman Sachs, até 2030 as gravadoras irão faturar 41 bilhões de dólares. Dessa quantia, cerca de 34 bilhões de dólares virão do streaming.

 2 – Uma questão de espaço

Antigamente, não havia nada mais charmoso que exibir uma parede repleta de CDs. Hoje, quando tudo que as pessoas ouvem está dentro do computador ou celular, a única função deles se resume a ocupar espaço. Qual a praticidade de abarrotar as prateleiras de casa se discografias inteiras podem ser compiladas numa plataforma de streaming?

 3 – A banalização do produto

Quando lançado, no final dos anos 80, o CD era vendido numa embalagem especial (parecia até uma caixa de joias) e não era barato. Com o “boom” de vendas, na década seguinte, ele passou a ser comercializado até em lojas de departamentos, ao preço de caixas de leite. O que era nobre virou algo banal, sem uma aura de glamour convidativa.

 4 – A pirataria

O surgimento de aparelhos copiadores de CDs fez com que o produto fosse pirateado em larga escala. E não se tratava mais das fitas caseiras, que eram feitas para os amigos. Era uma produção exponencial. Muitas vezes, até coletâneas com o melhor do artista chega a ser pirateado, canibalizando os álbuns oficiais e até suas próprias versões piratas.

 5 – O charme renovado do vinil

A venda dos antigos LPs deve superar a dos CDs ainda este ano. Mas não se trata de uma ascensão tão fulgurante assim: a volta do vinil se deve ao surgimento de um mercado de nicho – tanto que boa parte das vendas no formato sai do catálogo de medalhões como Beatles e Pink Floyd. Mas não há dúvida de que, em matéria de charme para o colecionismo, o vinil oferece muito mais atrativos, do som característico às capas e encartes em tamanho grande.

sábado, 21 de setembro de 2019

Audiobook: O tempo de ouvir histórias está de volta

Novos players estão chegando e profissionais do mercado editorial acreditam que o audiolivro pode conquistar pessoas que buscam entretenimento durante o deslocamento

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

Por alguns anos até 2013, editores do mundo todo chegavam um dia mais cedo na Feira do Livro Frankfurt para tentar entender, na conferência TOC (Tools of Change), como seria o mercado dali para a frente. O futuro, era certo, seria digital – só era preciso aprender como chegar lá.

O tempo foi passando e o e-book virou uma realidade, com mais ou menos sucesso, em países leitores e não leitores, respectivamente, e o livro físico não morreu, como muito se discutiu. Estava tudo caminhando; portanto, não havia mais necessidade de continuar com a conferência. De 2014 até 2017, nenhuma grande novidade tecnológica ou indício de uma nova ‘revolução’ pelos corredores da maior feira de livros do mundo. E, então, os audiobooks ressurgiram das cinzas, e com força.


Para editores, o potencial do mercado de audiobook está nas pessoas em trânsito Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Ainda na feira, em 2017, eles começaram a ser mencionados em apresentações de empresas de tecnologia e institutos de pesquisa, e começaram a chamar a atenção de editoras, que ainda guardavam a lembrança de outras tentativas de fazer vingar o formato, com discos, fitas e depois CDs, e algum ceticismo. Ou seja, um novo futuro do livro estava começando a ser desenhado, discretamente, por empresas de tecnologia, e os resultados começam a aparecer.

Aqui, desde 2014, a Ubook e a Tocalivros investem na formação de catálogo e na criação de um mercado, que vai se tornando mais real com a entrada de players internacionais – que, aliás, contaram com a ajuda dessas empresas para começar a operar no Brasil. O Google Play Livros chegou em julho do ano passado, depois de uma parceria de conteúdo com a Ubook. A primeira vende a la carte e a segunda aposta no modelo de assinatura. O mesmo aconteceu com a canadense Kobo que, desde julho, vende audiolivro com o apoio da Tocalivros, que segue ‘alugando’ seu conteúdo e da distribuidora Bookwire.



Discos e fitas K7 com histórias eram comuns nos anos 1980 Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Na semana passada, a sueca Storytel desembarcou no Brasil e a Auti Books, uma plataforma criada por três grandes editoras brasileiras (Sextante, Record e Intrínseca) para vender seus audiolivros e os de outras editoras, soma 37 mil títulos comercializados em três meses de vida. Sem contar as plataformas de streaming de música, que começam a oferecer audiolivros a seus assinantes, e a expectativa da chegada do Audible, da Amazon, que deve redesenhar o mercado nacional.

O movimento é global, e Frankfurt, que parou de falar de e-books, vai dedicar 600 m² de seu pavilhão para empresas da área de áudio e vai realizar o Frankfurt Audio Summit, em outubro. A aposta geral é no tempo que as pessoas passam no telefone e se deslocando.

A dentista Claudia Sousa, de 63 anos, levava cerca de 10 minutos para ir de casa ao consultório, no Rio, e de repente o trajeto passou a durar 40 minutos. Leitora de livros físicos e digitais, ela nunca foi simpática à ideia de ouvir um audiobook. Achava que não ia funcionar para ela, que tem uma memória mais visual. No meio de um congestionamento, porém, resolveu comprar um título. Escolheu Me Poupe!, autoajuda financeira best-seller de Nathalia Arcuri, narrado pela própria autora – um livro que Claudia não compraria na versão tradicional. “Adorei, parecia que ela estava sentada ao meu lado.”

Em três meses, ela já ouviu cinco – cinco livros a mais do que teria lido, já que não substituiu a leitura tradicional antes de dormir por este novo jeito de ler. “O que salvou, literalmente, minha saúde física, mental e emocional foi ouvir os livros. Se as pessoas estivessem ouvindo livros no trânsito, não buzinariam tanto”, conta ao Estado.

A aposta dos fornecedores de conteúdo é mesmo no trânsito – no tempo em que as pessoas passam no carro, metrô e ônibus. Uma pesquisa feita pelo Estado com leitores em seu portal mostrou que a maioria (32,4%) ouve música no trajeto entre a casa e o trabalho. A leitura é a atividade mais frequente para 30% dos que responderam à pesquisa e 15% deles disseram que não fazem nada. Quando questionados se ouvir um audiobook seria uma boa opção de entretenimento durante os deslocamentos, 54% responderam que sim. E 60% disseram acreditar que audiolivros podem aproximá-los da literatura. 

Profissionais do mercado editorial apostam na conquista de novos leitores. “O audiobook tem um potencial não só com o público leitor, mas também com aquele que não é leitor, mas que está acostumado ao streaming, ao podcast, por exemplo. Um levantamento que fizemos recentemente, com dados do TGI/IBOPE, sobre a propensão e interesse em ouvir conteúdos em áudio no Brasil mostrou que cerca de 11% da população consome ou está propensa a consumir conteúdos em áudio e 60% das pessoas que consomem video-on-demand estão propensas a consumir conteúdo de áudio entretenimento”, explica André Palme, gerente da Storytel.

Camila Cabete, da Kobo, também acredita no audiolivro como um aliado na luta por leitores. “Mas mais do que isso: audiolivro é uma forma de entretenimento, e o consumidor vem em busca de boas produções e boas locuções. Vejo o produto como um concorrente direto dos aplicativos de streaming de vídeo.”

O editor Tomás da Veiga Pereira, da Sextante, que integra a Auti Books, diz acreditar “profundamente” no formato, mas é realista. “Nada vai acontecer do dia para a noite, pois é uma novidade para 99,9 % das pessoas, mas vai crescer e revolucionar o acesso dos livros no Brasil entre 5 e 10 anos.” 

Comparando o primeiro semestre de 2018 com o de 2019, a distribuidora Bookwire registrou 74% de crescimento em vendas. “Os e-books ainda estão em explosivo crescimento no Brasil, mas avaliando os primeiros números do mercado de audiolivro, ele aparentemente vai ser maior do que o de livro digital”, diz Marcelo Gioia, da Bookwire.

O consultor Carlo Carrenho, que prepara a chegada da editora sueca World Audio ao País, acredita que o Brasil tem potencial para ser bom mercado para audiolivro “dentro de suas limitações educacionais e de interesse por literatura” e que ele pode ser uma opção atraente para o não-leitor. Sobre o que deve funcionar melhor no formato aqui, ele diz: “Minha intuição é que, além da ficção comercial, livros religiosos, autoajuda, eróticos, romances femininos e obras comerciais de história vão funcionar bem. Não acredito que a grande literatura, nacional ou estrangeira, vai ter muita repercussão ou interesse.”

Há dois modelos de negócios: a venda tradicional e a assinatura mensal, que custa entre R$ 19,90 e R$ 27,90, dependendo da empresa, e dá acesso ilimitado a um catálogo que vem sendo ampliado, mas ainda é diminuto. A produção é cara (entre R$ 1.500 e R$ 2 mil a hora finalizada, podendo ser mais se o narrador for uma celebridade ou um autor-celebridade). Só para se ter ideia do preço para o consumir, a obra de Nathalia Arcuri que transformou Claudia em ouvinte de livro custa R$ 34,90 (físico), R$ 21,99 (digital) e R$ 27,99 (áudio).

Com um mercado ainda em construção, Carrenho diz que o consumidor já deixou claro que quer o modelo de assinatura, vide o sucesso da Netflix e Spotfy. “Os editores, portanto, devem focar seus esforços não em evitar o modelo de assinatura, mas em criar e negociar um modelo em que a remuneração seja justa e saudável para todas as partes.”

Biblioteca futurista

Mantenha a tradição de grandes bibliotecas, crie um edifício ambicioso e voltado para o futuro e projete uma estrutura orgânica que permita que o mundo natural penetre no interior. Conheça a Geelong Library and Heritage Centre (Austrália).





quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O fotógrafo que removeu os celulares de cenas cotidianas

Com imagens nos EUA e países da Ásia, americano quis retratar a dependência gerada pelos smartphones

Cesar Gaglioni | Nexo

FOTO: ERIC PICKERSGILL/DIVULGAÇÃO
O AMERICANO ERIC PICKERSGILL DECIDIU CRIAR A SÉRIE DE FOTOS ‘REMOVED’ APÓS UM EPISÓDIO ENVOLVENDO A IDA DE UMA FAMÍLIA A UM CAFÉ NOS EUA   

Além de serem parte da vida cotidiana, os smartphones e celulares se tornaram uma espécie de refúgio para muita gente. 

Um estudo feito pela empresa de segurança digital Kaspersky em novembro de 2018 demonstrou que 79% dos brasileiros que usam celular admitem que usam o aparelho como uma forma de evitar conversas com outras pessoas

O Comitê Gestor da Internet no Brasil apontou, em outubro de 2018, que, em média, o brasileiro passa nove horas conectado na internet diariamente. Isso o coloca na terceira posição do ranking mundial de países com maior tempo de tela, atrás apenas da Tailândia e das Filipinas. 

Pensando em retratar a dependência gerada pelos smartphones, o fotógrafo americano Eric Pickersgill decidiu criar uma série de imagens nas quais removeu os celulares de cenas cotidianas. O site Quartz publicou algumas as fotos no dia 28 de agosto. 

“O celular é um membro fantasma do corpo, usado como um sinal de que se está ocupado e indisponível, e existe como uma força viciante que promove a divisão da atenção entre aqueles que estão no mesmo espaço que você e aqueles que não estão”, diz a descrição do projeto. 

Em seu site, Pickersgill conta que a ideia para as fotos surgiu quando ele estava em um café e viu um casal chegar com duas filhas. Ele conta que, na ocasião, as adolescentes passaram o tempo todo no celular, bem como o homem. O fotógrafo diz que se sentiu entristecido ao ver a mulher, que não tinha um aparelho em mãos, olhar entristecida para sua família em um momento que deveria ser de interatividade mútua.

FOTO: ERIC PICKERSGILL/DIVULGAÇÃO 
PICKERSGILL TAMBÉM FEZ FOTOS DA SÉRIE ‘REMOVED’ EM PAÍSES ASIÁTICOS   

Durante uma palestra no evento Ted, Pickersgill afirmou que os smartphones e a tecnologia podem conectar pessoas que estão distantes e aproximá-las, mas que também faz com que as pessoas que estão em um mesmo cômodo fiquem emocionalmente distantes uma das outras. 

A série foi intitulada “Removed” (Removido, em livre tradução) e teve suas fotos feitas nos EUA. Pickersgill fez uma segunda série de fotos, passando pelo Vietnã, Mianmar, Indonésia e Cingapura, e está preparando uma terceira, feita inteiramente na Índia. Todas as imagens foram registradas entre 2014 e 2018 e estão disponíveis no site do fotógrafo

O trabalho de Pickersgill já foi exposto na França, Reino Unido, Itália e por diversas cidades dos Estados Unidos.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Google Search agora te leva direto para ponto exato que você procura em um vídeo


Novidade, porém, depende que criadores de conteúdo insiram marcações de tempo em seus vídeos

por Matheus Fiore | B9

Buscar por um conteúdo em um vídeo pode ser algo cansativo. Muitas vezes, os vídeos trazem longas introduções, propagandas de produtos e serviços patrocinadores, etc. O Google Search, ferramenta de buscas do Google que também é o buscador mais popular da internet, recebeu uma atualização que é bastante útil para essa questão da busca em vídeos.

A partir de agora, quando você buscar por um conteúdo no Google e o resultado apontar para um vídeo, é possível que, ao clicar no link do mesmo, você seja direcionado para o segundo ou minuto exato em que o conteúdo que você busca é abordado.

Por ora, a funcionalidade é exclusiva para vídeos do YouTube e em buscas em inglês, mas o Google afirma que aprimorará a ferramenta e a disponibilizará para outras fontes, como CBS Sports e NDTV. Há um porém no uso do novo recurso: seu funcionamento depende dos próprios produtores de conteúdo, já que o Google só será capaz de encontrar o trecho específico se este estiver sinalizado no próprio vídeo, por marcas de tempo na descrição.

Mesmo que ainda seja uma funcionalidade ainda básica e limitada, o fato de o Google afirmar estar trabalhando para expandir nos permite imaginar que, futuramente, o próprio sistema de inteligência artificial poderia encontrar os assuntos de forma autônoma. Além disso, os próprios produtores de conteúdo deverão, aos poucos, inserir tais marcas de tempo em seus vídeos, para que estes possam ser encontrados na busca.

domingo, 15 de setembro de 2019

Entenda por que as redes sociais estão escondendo as ‘curtidas’ dos usuários

Facebook, Twitter, YouTube e Instagram fazem testes e deixam de exibir outros dados, como total de inscritos em canais e perfis; mudança pode ser sinal de esgotamento de modelo atual e tentativa de deixar internet mais íntima

Por Bruno Romani - O Estado de S. Paulo

Para os especialistas ouvidos pelo ‘Estado’, uma nova internet vai surgir após o fim da contagem de ‘likes’, mais focada em pequenos nichos

Parecia um teste inofensivo, mas virou uma tendência que dominou a web: nos últimos meses, Twitter, Instagram, YouTube e Facebook anunciaram ou já implementaram testes para esconder números cruciais de suas plataformas – como o de curtidas em uma foto ou de inscritos em um canal popular (veja abaixo). Por trás do discurso de melhorar a experiência – e a saúde mental – dos usuários, porém, as redes sociais podem estar prestes a se deparar com o esgotamento de um modelo que moldou a internet na última década: o “like” como sinônimo de expressão online e métrica de negócios. 

Em fevereiro, o botão Curtir fez dez anos. De lá para cá, ajudou a popularizar um tipo de interação que funciona como fast- food: rápida, instantaneamente prazerosa, mas também superficial e que, em demasia, pode fazer mal. Mais do que uma forma de manifestação, a curtida virou base para um sistema de métricas para direcionamento de anúncios e incentivou o surgimento de influenciadores digitais. 

O número de curtidas no Facebook passou a empilhar dados sobre hábitos e gostos, além de indicar quais conteúdos e personalidades são populares nas redes socais. Tudo isso se espraiou para outras redes – como o Instagram, comprado pelo Facebook em 2012 – e também em produtos de rivais, como o Twitter e o YouTube, do Google. Procuradas, as quatro plataformas não quiseram participar da reportagem, mas confirmaram os testes ou a intenção de fazê-los em breve. 

Do lado do usuário, nasceu a cultura de produzir conteúdo em busca de likes, em uma espécie de concurso de popularidade. Para quem não consegue criar conteúdos que “viralizam”, surgiram empresas que vendem likes – com a ajuda de “fazendas de robôs”, milhares de dispositivos prontos para curtir algo ou popularizar uma #hashtag nas redes. 

Hoje, basta abrir a carteira para ser popular – mas esse comércio gerou desequilíbrio. “O like funcionou bem até os robôs surgirem”, diz Luis Peres Neto, professor da ESPM. Para as empresas e marcas, ficou difícil determinar o que de fato fazia sucesso e o que era artificial. Para os usuários, a pressão só cresceu. 

Das plataformas citadas acima, a primeira que promove um teste amplo para remover a contagem de curtidas de suas plataformas foi o Instagram – que diz lutar justamente contra a busca desenfreada por aprovação e o custo mental que isso traz aos usuários. Há motivos para a preocupação: em 2017, a agência de saúde pública do Reino Unido considerou o app como a pior rede social para a saúde mental e o bem estar das pessoas. Hoje, usuários de sete países, incluindo o Brasil, já não veem mais quem aprecia suas fotos de comida, selfies e pôr-do-sol. 

“As curtidas ajudam a determinar quais conteúdos são distribuídos pelos algoritmos – quanto mais likes, mais uma publicação aparece”, explica Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). “Isso gerou um ambiente tóxico, que favorece o extremismo – algo que não é benéfico para as redes sociais e seus clientes, os anunciantes.” 

Como poderá ser a internet 'pós-like'
Para analistas, o sumiço dos números de likes pode ser um teste para o futuro das redes sociais. “Acho que as empresas querem entender se, sem os likes, poderão reverter a tendência de queda nas postagens e no número de usuários”, diz Leandro Bravo, diretor de relacionamento da agência Celebryts, que lida com influenciadores digitais. 

Na visão de Bravo, é possível que o sumiço dos likes seja até uma medida para camuflar uma possível queda na popularidade. A teoria se aplica principalmente ao Facebook, que registra quedas no engajamento dos usuários. Em abril deste ano, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 56% dos brasileiros online tinham uma conta na rede social. Em 2017, eram 61%. 

Esconder o número de curtidas também pode ajudar a mascarar como seu algoritmo – uma receita cheia de temperos secretos – funciona. Sem a referência dos likes, é mais difícil perceber as mudanças da “fórmula mágica”. 

Antes de ter uma resposta definitiva, é possível imaginar que nenhum dos testes seria realizado caso as redes sociais não estivessem de olho em outras métricas de sucesso dos conteúdos.  “O ‘fim dos likes’ é um certificado de que as coisas se tornaram mais complexas do que há uma década”, diz Peres Neto. Entre os dados já usados estão comentários, compartilhamentos, engajamento, número de postagens por usuário e visualizações. “O número de visualizações passa a importar mais que o like”, diz Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo. 

Malini lembra que os Stories, recurso criado pelo Snapchat e copiado pelo Instagram, já dispensa os likes e entrega o número de visualizações para o dono da conta. O Facebook acrescentou Stories em todos os seus serviços, incluindo o WhatsApp. Segundo o professor, essa aura mais intimista impulsiona a quantidade de postagens por parte dos usuários – o que ajuda a garantir a atenção de todos e o funcionamento das redes. 

A internet “pós-like”, dizem especialistas, é mais focada em pequenas comunidades do que numa multidão de conexões. É quase uma antítese da promessa de conectar todo mundo o tempo todo. Agora, será cada um na sua bolha, criada em torno de um interesse específico. “Você não precisa de mil amigos, porque só se importa com 50”, diz Steibel. “A meta das redes é que você interaja cada vez mais com esse pequeno grupo.”

O que cada rede social está fazendo

Facebook

A rede social confirmou testes internos com o fim da contagem de ‘likes’. Ainda não está disponível para os usuários. 


Instagram

Em sete países, não é possível ver os ‘likes’ dos outros nas versões do app para celular. Só é possível ver os números da sua conta. Já na web, os números aparecem. 


Twitter

Desde março, o Twitter testa no app protótipo twttr um recurso que esconder o número de curtidas, retuítes e comentários. Mas a função pode nem ser lançada. 


YouTube

O YouTube deixou de mostrar o números exato de inscritos nos canais. A contagem só mostrará números aproximados: se um canal tem 6.344.700 inscritos, ele exibirá agora 6,34 milhões.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Quanto mais informação, mais dúvidas

Por Carlos Castilho | Observatório da Imprensa


Este é o grande paradoxo que todos nós começamos a vivenciar na era digital quando nos defrontamos com uma avalanche de versões contraditórias sempre que a imprensa aborda um tema complexo – como, por exemplo, a reforma da previdência ou a crise na Amazônia. É um fenômeno que contraria nossa maneira de ver a informação e sinaliza um profundo desajuste em todo o sistema de produção, processamento e disseminação de notícias jornalísticas.

A avalanche de dados, fatos, ideias e eventos publicados na internet multiplicou também as incertezas sobre quase tudo o que conhecemos sobre a sociedade e o mundo em que vivemos. É que a avalanche informativa ampliou exponencialmente o número de percepções e opiniões tanto sobre o que já sabemos como sobre aquilo que começamos a descobrir. Trata-se de uma mega transformação irreversível em nossa cultura informativa e sobre a qual a grande imprensa mantém um intrigante silêncio.

O paradoxo mais informação/menos certezas abala um dos princípios básicos da mídia tradicional, que é a ideia da notícia como instrumento eficaz na definição do que é certo ou errado, verdadeiro ou falso. Trata-se de uma percepção difundida massivamente na opinião pública e que viabiliza o negócio da imprensa, quando ela troca noticias por receitas publicitárias.

Quanto mais abstratos forem os processos, fenômenos e ideias tratados pelos meios de comunicação, maior a quantidade de dúvidas e inseguranças, fenômeno que acaba alimentando o discurso do ódio porque, diante de incertezas, as pessoas tendem a agarrar-se ao que consideram seguro, rejeitando o que contraria suas convicções. Para ter uma ideia deste fenômeno basta ver a radicalização nas discussões sobre o governo Bolsonaro em redes sociais como Facebook, Twitter e WhatsApp.

A avalanche informativa é um fato concreto e irreversível. Até 2010, institutos especializados mediam o volume de material inserido em sites da internet, mas a quantidade cresceu tanto que os números tornaram-se pouco significativos. O IDC (International Data Corporation) afirma que, até o final de 2020, cerca de 1,7 megabytes de novas informações estarão sendo disponibilizados online por segundo e por ser humano. As estimativas sinalizam que até dezembro do ano que vem, o total de dados digitalizados na web deve atingir os 44 zetabytes, ou 44 trilhões de gigabytes. Trata-se de um volume tão grande que supera em muito a nossa capacidade de imaginá-lo.

A era da complexidade
O aumento vertiginoso das incertezas no trato diário com a realidade que nos cerca configura aquilo que os especialistas batizaram de era da complexidade. Não há mais coisas simples, tipo preto ou branco. Tudo agora é potencialmente complicado dependendo da intensidade de dois fenômenos conhecidos como visibilidade seletiva (selective exposure) e percepção seletiva (selective perspective), ambos estudados pelos psicólogos norte-americanos Albert Hastorf e Hadley Cantril (*) a partir da comparação das reações dos torcedores ao resultado de um jogo de futebol americano.

A pesquisa mostrou que as pessoas tendem a se informar, preferencialmente, em jornais, revistas, livros, rádio e televisão com os quais possui algum tipo de simpatia política, ideológica, religiosa ou social. A selective exposure, no jargão acadêmico, é uma forma que o indivíduo usa por dois motivos predominantes: sentir-se confortável porque compartilha as mesmas ideias políticas, religiosas, econômicas ou sociais da publicação; e filtrar os conteúdos a que tem acesso para reduzir o índice de complexidade da leitura, audição ou visualização.

Já a selective perception é um processo pelo qual as pessoas avaliam um novo dado, fato, evento ou notícia em função daquilo que já sabem ou conhecem. Os dois processos acabam por consolidar opiniões e conhecimentos pré-existentes, sendo fundamentais na formação das chamadas “bolhas informativas”, um recurso que a maioria das pessoas usa para evitar a perturbadora sensação de dúvida, incerteza e vulnerabilidade a posições antagônicas.

As bolhas informativas estão em rota de colisão direta com a irreversível avalanche informativa na internet. Não é mais possível frear o aumento de dados digitalizados e disponibilizados pela internet, o que gera o inevitável corolário de que as incertezas também tendem a se tornar mais intensas e permanentes. Tudo indica que já estamos sendo levados a optar entre aderir a alguma das milhares de “bolhas informativas” ou aprender a conviver com a dúvida e a incerteza.

A primeira opção é a mais fácil, porque não implica grandes dilemas ou conflitos, mas nos coloca num ambiente irreal. Já a convivência com a dúvida altera fundamentalmente a nossa maneira de ver o mundo e as pessoas, porque nos obriga a levar sempre em consideração a possibilidade de que nossas opiniões ou percepções estejam equivocadas. Significa admitir que alguém sabe o que eu não sei, e que a solução de qualquer dilema, ou dificuldade, exige um diálogo. É o mundo das novas tecnologias nos forçando a assumir novos comportamentos, regras e valores.

(*) They saw a game; a case study. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 49(1), 129–134. http://dx.doi.org/10.1037/h0057880