terça-feira, 21 de março de 2017

"O uso pesado das mídias sociais começou a criar ansiedades"

Orkut Buyukkokten, criador do famoso Orkut, fala sobre as mudanças no comportamento social com a 'vida online'

por Mariana Zirondi | Propmark

Uma rede social baseada no amor e não nos likes. Essa é a proposta de Orkut Buyukkokten, fundador da rede social que leva seu nome, para a recém-criada Hello. O objetivo, basicamente, é construir relações fundamentadas nas paixões, unindo pessoas em ‘comunidades’, que ficaram muito populares no extinto Orkut. Os sentimentos verdadeiros, inclusive, fazem parte do discurso do executivo, que analisa como a internet mudou as relações humanas e substituiu o ‘olho no olho’.

Orkut Buyukkokten aposta na rede social Hello para melhorar as relações humanas

O Brasil tem uma visão realista sobre ele mesmo, afirma Buyukkokten. Expressividade, receptividade e amizade são características apontadas pelo executivo que ajudam os usuários brasileiros a transferir o comportamento offline para a ‘vida online’. Além disso, o país tem abertura às novas tecnologias e são ‘early adoptors’.

“Nosso mundo está mais conectado que nunca, porque se tornou fácil estar ligado a milhões de pessoas ao mesmo tempo. Tudo está ao nosso alcance e, infelizmente, o uso pesado das mídias sociais começou a criar ansiedades e depressões nas nossas vidas. Na maioria das vezes, nos escondemos atrás das nossas telas e assistimos a feeds de destaques, evitando interagir com as pessoas cara a cara”, afirma Buyukkokten.

Como resultado, segundo ele, as pessoas ficam mais solitárias e infelizes do que nunca. Afinal, conhecer alguém pessoalmente ou ter experiências reais é o que aproxima e conecta. O medo de expressar a autenticidade e a personalidade criada no ambiente online podem estar construindo barreiras. Como consequência, se torna muito difícil encontrar intimidade, companheirismo e amor no mundo real.

"Existem centenas de aplicativos e sites que prometem nos ajudar a fazer amigos e encontrar o amor, mas ainda há muito ódio no mundo e estamos sozinhos. Me entristece ver que, com todos os avanços em tecnologia e software, estamos mais solitários do que nunca. O que compartilhamos online representa o que pensamos e o que achamos que o mundo quer ver, e não realmente aquilo que temos por dentro. Quando não nos sentimos seguros, expressando nossos verdadeiros ‘eus’ online, nos isolamos ainda mais. Espero que o futuro da mídia social nos aproxime, nos conecte e crie um mundo melhor", diz Buyukkokten. 

A rede social Orkut foi criada em 2004 com o nome de seu fundador. O objetivo inicial da rede era os Estados Unidos, mas a maioria dos usuários estavam localizados no Brasil e na Índia. Em solo brasileiro, foram conquistados mais de 30 milhões de usuários, mas a rede perdeu popularidade com o crescimento de seu principal concorrente, o Facebook. O Google, do qual a rede social era filiada, anunciou o seu fim no dia 30 de setembro de 2014, gerando comoção dos usuários brasileiros. No entanto, um ‘museu de comunidades’ foi criado e reúne mais de um bilhão de mensagens trocadas nos tópicos de discussão. Além disso, até 30 de setembro de 2016, os internautas puderam resgatar as informações armazenadas na rede social através da ferramenta Google Takeout. 

Buyukkokten conta que o Orkut.com foi construído e pensado para uma geração diferente. Há um pouco mais de uma década, ele explica que o mundo estava vivendo, pela primeira vez, a exposição nas redes sociais. “Hoje em dia, as pessoas estão em vários serviços de mídia social ao mesmo tempo. Outra grande mudança nesse cenário foi a transição do desktop para os navegadores em smartphones e dispositivos móveis. Estamos sempre conectados, online e multitarefas, em múltiplas plataformas”, comenta.

Quando questionado sobre tendências para os próximos anos, os vídeos aparecem como a grande aposta de Buyukkokten para as redes sociais. A mobilidade vai viabilizar, cada vez mais, a produção de filmes e da experiência online relevante. “A mídias sociais são uma paisagem em constante evolução. É muito importante inovar e permanecer em contato com as novas gerações, atualizando os padrões de uso e usando a sensibilidade das comunidades. As redes sociais que não evoluem ao longo do tempo correm o risco de ficar desatualizadas ou irrelevantes”, diz.

Nesse contexto, o fim do Orkut para o seu fundador foi um ‘capítulo incrível da história’, mas uma experiência para outro tipo de geração. Com isso, a proposta da Hello se configura destinada a aproximar pessoas por suas paixões e expandindo as possibilidades a quem se conectar. O lançamento de Buyukkokten chegou ao Brasil em julho de 2016 e está presente em 13 países. 

“Ela é a primeira rede social construída sobre ‘amores’ e não ‘likes’. Na Hello, estamos construindo um caminho mais fácil para fazer conexões, e tudo começa com um ‘Olá’. Um gesto simples e amigável pode ser o começo de algo novo e bonito. Estamos criando uma comunidade onde todos se sentem bem-vindos, incluídos, e não são julgados. Quando expressamos ou somos autênticos, em nossas paixões e interesses genuínos, seguimos pelo caminho do amor e da felicidade, que é a coisa mais importante que você poder ter nesse mundo”, esclarece.  

quinta-feira, 16 de março de 2017

“A Wikipédia é uma ferramenta de ensino eficaz”

LiAnna Davis fala sobre o potencial educativo da plataforma livre e sobre o programa que coloca alunos universitários para editar verbetes

Thais Paiva | Carta Educação

Ao editar verbetes, alunos têm a chance de interagir com pessoas de todo o mundo

Sexto site mais visitado do mundo, com aproximadamente 500 milhões de visitantes únicos todo mês, e um acervo que ultrapassa o de qualquer enciclopédia impressa, a Wikipédia é hoje a maior comunidade colaborativa de conteúdo livre do mundo. Apesar disso, ou talvez por conta disso, seu uso como fonte confiável de pesquisa é ainda questionado.

O julgamento, no entanto, não poderia estar mais equivocado, defende a americana LiAnna Davis, diretora de programas da Wiki Education Foundation. “Quando os estudantes aprendem a navegar pela Wikipédia, eles têm acesso a uma fonte riquíssima de informação. Ao invés de proibir o uso da Wikipédia em pesquisas, os professores deveriam ensinar os alunos a como utilizar a plataforma de forma efetiva”, diz.

Em visita à São Paulo, onde palestrou a convite do centro de pesquisa NeuroMat, da USP, LiAnna falou sobre a necessidade de desmistificar a ferramenta e integrá-la à educação. Também comentou sobre uma iniciativa pioneira que coordena nos Estados Unidos, na qual professores e alunos do Ensino Superior se unem para melhorar o conteúdo disponível sobre diversos tópicos na versão em inglês da enciclopédia.

Carta Educação: É comum a ideia de que a Wikipédia não é uma fonte confiável de informação. Por que essa concepção prevalece e como mudá-la?

LiAnna Davis: Creio que essa ideia vem do fato de qualquer um poder acrescentar ou editar um verbete na plataforma. Logo, as pessoas pensam: como é assegurado que a informação contida ali é confiável? Mas o que elas não compreendem é que a comunidade de editores da Wikipédia desenvolveu uma série de estratégias e diretrizes que sinalizam se aquele é ou não um bom verbete. Por exemplo, verbetes de baixa qualidade possuem um aviso no topo alertando que alguns pontos são duvidosos, que faltam citações e outras coisas do gênero. Então, claro, existem verbetes muito confiáveis e de alta qualidade na enciclopédia, mas também há outros não tão bons. Ao invés de proibir o uso da Wikipédia em pesquisas, os professores deveriam ensinar os alunos a como utilizar a plataforma de forma efetiva. Quando os estudantes aprendem a navegar pela Wikipédia, eles têm acesso a uma fonte riquíssima de informação e oportunidade de aprendizado. Na versão em língua portuguesa da plataforma, por exemplo, são 1 milhão de verbetes disponíveis. Para se ter uma ideia de comparação, a enciclopédia inglesa possui apenas 40 mil.

CE: Você diz que a Wikipédia e a Educação têm tudo a ver. Como os alunos podem usar a plataforma em suas pesquisas?

LD: A Wikipédia como uma enciclopédia virtual é uma ótima fonte preliminar de informação. Se você está começando a pesquisar um determinado tópico, poderá abrir a Wikipédia e ter uma visão geral do assunto muito valiosa. Se você precisa de informações rápidas e pontuais como “onde essa pessoa nasceu” ou “qual era sua profissão”, a informação que está lá com certeza é confiável e te servirá perfeitamente. Além disso, há uma série de notas de rodapé e referências que te levam para as fontes primárias e secundárias de pesquisa. É claro que você não deveria colocar a Wikipédia como a bibliografia do seu estudo, pesquisa, mas é um ótimo começo para ter essa visão genérica do assunto e então se aprofundar. No entanto, ela não deve ser sua única fonte de informação. O estudante deve sempre recorrer a outras fontes para ter um quadro mais abrangente do assunto que está investigando.

CE: Como funciona o programa desenvolvido pela Wiki Education Foundation que coloca professores e estudantes universitários para editar verbetes da plataforma?

LD: Começamos o programa em 2010 nos Estados Unidos e, nesses últimos sete anos, temos crescido bastante. Cada vez mais, novos professores universitários aderem ao nosso programa e integram a Wikipédia com as ciências ensinadas em suas salas de aula. Funciona assim: os docentes participantes pedem para que seus alunos adicionem conteúdo a artigos sobre o curso na Wikipédia. Para isso, passam por um treinamento online onde aprendem como utilizar a Wikipédia como uma ferramenta de ensino e então criam uma página de seu curso conosco. Hoje, apoiamos 300 classes nesse modelo, envolvendo cerca de 7 mil alunos do Ensino Superior. Nós, da Wiki Education Foundation, não somos especialista nos assuntos de todas essas classes, mas somos especialistas em Wikipédia e orientamos os professores que, por sua vez, proveem suas expertises nos tópicos e asseguram que os conteúdos adicionados pelos alunos são de alta qualidade e confiáveis. Nesse processo, os alunos também recebem treinamento online e diretrizes para que possam fazer contribuições valiosas para a plataforma. Além disso, temos uma equipe de apoio disponível para responder perguntas que os estudantes possam ter, rever o trabalho deles e assim por diante. Para participar do programa, professores e alunos podem entrar em contato conosco por meio do nosso website.

CE: Quais são os ganhos que os estudantes têm ao participar desse programa?

LD: Os estudantes aprendem pontos-chave para desenvolver habilidades relacionadas à alfabetização mediática, escrita, pesquisa, comunicação online e trabalho colaborativo, pois geralmente eles trabalham em conjunto com colegas. Além disso, ao editar os verbetes, eles têm a chance de interagir com pessoas de toda a parte do mundo. O público de seu trabalho deixa de ser uma pessoa só, o professor, e passa a ser toda a comunidade global, o que é muito mais impactante. Para os professores, os ganhos são alunos muito mais engajados com seu trabalho acadêmico, pois quando estão escrevendo para a Wikipédia não o fazem apenas para conseguir uma nota, mas para ajudar pessoas que realmente vão ler e usar aquilo. Logo, eles costumam despender muito mais tempo e esforço nesse tipo de atividade, pois a julgam útil. A Wikipédia é uma ferramenta de ensino eficaz.

CE: No ano passado, a Wiki Education Foundation desenvolveu o projeto Ano da Ciência. No que consistiu?

LD: Nós nos focamos em melhorar a qualidade da informação sobre Ciências disponível na Wikipédia em inglês. Para isso, lançamos uma campanha para trazer publicidade e atenção para a defasagem de conteúdo nesse tipo de área e convencer os alunos a trabalharem nisso. Conseguimos mobilizar cerca de 6 mil estudantes que editaram quase 5 milhões de conteúdos científicos, o que é equivalente a 3,5 volumes impressos da última enciclopédia britânica. Então foi um impacto gigante que os alunos promoveram na Wikipédia.

CE: Fora isso, houve também um esforço para promover a igualdade de gênero na plataforma. Como foi?

LD: Dentro do Ano da Ciência, queríamos focar também no aumento do número de biografias de mulheres cientistas na Wikipédia em inglês. Com a campanha, fomos capazes de acrescentar 125 novas biografias de mulheres cientistas durante 2016 e o trabalho continua nesse sentido. Fora da área da ciência, temos uma parceria com o Natural Women’s Studies Association, que é uma associação acadêmica nos Estados Unidos que congrega professores que ensinam estudos relacionados à mulheres e gênero, como Gênero e Comunicação e Feminismo. A associação encoraja esses professores a participar do nosso programa, o que é muito importante dado que 90% dos editores da Wikipédia são homens. Essas pessoas estão desenvolvendo um trabalho importantíssimo e ajudando a equipar a cobertura desigual sobre mulheres na plataforma. No nosso programa o cenário já começa a se nivelar, já que 68% dos nossos editores são mulheres.

Acesse o acervo digital de Paulo Freire gratuitamente

No ano do 20º aniversário da morte do pensador, o Centro de Referência Paulo Freire disponibiliza o acesso ao seu acervo

Nairim Bernardo | Nova Escola


O próximo dia 2 de maio marcará o 20º aniversário da morte de Paulo Freire. Até hoje sua obra é referência e, para facilitar o acesso dos professores ao trabalho do educador, o projeto “Memórias do Patrono da Educação Brasileira” disponibiliza gratuitamente o acesso a fotografias, vídeos, áudios e textos do pensador.

Ao todo, são 30 mil páginas de texto, mais de 500 fotos, 100 vídeos e áudio de cerca de 2 mil páginas de livros. No meio disso tudo, você pode encontrar conteúdos como o livro Pedagogia do Oprimido, biografias do autor, dissertações sobre sua obra, documentações acumuladas durante sua vida profissional e entrevistas com ele. Tudo isso foi organizado pelo Centro de Referência Paulo Freire (CRPF) como um modo de relembrar os 20 anos da morte do pensador. O projeto começou em 2016 e contou com o patrocínio do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), por intermédio da Lei Federal de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura.

Paulo Freire nasceu em Recife em 1921 e se tornou reconhecido internacionalmente pelo seu método de alfabetização de adultos e pensamento pedagógico político. Condenava a Educação bancária, como chamava os métodos em que o professor depositava o conhecimento no aluno que tinha um papel passivo no processo. O pedagogo defendia a formação de um cidadão crítico. Foi professor no Brasil, Estados Unidos e Suíça (durante o exílio no período militar) e secretário municipal de Educação de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para mais de 20 idiomas.

Se além de consultar o arquivo online (clique aqui), você tiver a disponibilidade de visitar o arquivo físico, na capital de São Paulo, é possível agendar uma visita por meio do e-mail sonia@paulofreire.org

quarta-feira, 15 de março de 2017

Projeto vai digitalizar acervo de bibliotecas italianas


O governo italiano apresentou um projeto para digitalizar as bibliotecas de todo o país. A iniciativa, que contará com um financiamento de 2 milhões de euros, visa a agregar um valor econômico e comercial a todo o patrimônio na era das redes sociais.

“No país, há 101 arquivos e 46 bibliotecas, além de outras coleções. Monumento a monumento, peça a peça, temos o censo e as fotografias de toda nossa história”, destacou o ministro da Cultura, Dario Franceschini, em uma coletiva de imprensa.

“Apenas para dar um exemplo, há mais de 10 milhões de fotografias dos Instituto cinematográficos ‘Luce’ e do Centro Experimental”, afirmou. O projeto garantirá a preservação de um tesouro único. Segundo o ministro, digitalizar essa quantidade de documentos, materiais e fotografias será um trabalho árduo que durará anos. “Ao fim do processo, virá um grande resultado”, prometeu.

Franceschini também afirmou que, com a “Digital Library”, o objetivo é evitar que todo esse patrimônio se transforme num grande negócio entre os institutos italianos, os colossos da web e as grandes fundações. “Sem dúvida alguma, é possível ter uma relação de colaboração com elas, mas a partir de uma posição justa”, afirmou.

Durante a coletiva de imprensa, o minstro relembrou ainda o próximo encontro do “G7 da Cultura”, que acontecerá na cidade italiana de Florença, nos dias 30 e 31 de março. “Estou convencido que, através desta primeira experiência na Itália, o formato do G7-Cultura será confirmado também para outras reuniões do grupo”, acrescentou.

Na reunião de Florença, participarão os ministros da Cultura e representantes dos grandes órgãos internacionais. “Vamos propor um documento conjunto sobre os grandes temas da cultura como um instrumento de diálogo. Também vamos abordar a questão do compromisso da comunidade internacional para recuperar e preservar os bens que são patrimônios da humanidade dos conflitos e do terrorismo, além de combater o tráfico ilegal de bens culturais”, concluiu.

via Mancheta Online

Rádios do Mundo


Gire o globo terrestre e sintonize milhares de rádios existentes pelo mundo. O projeto do Netherlands Institute for Sound and Vision, feito com software livre, foi lançado em dezembro de 2016. Há uma clara diferença entre a quantidade de rádios nos Estados Unidos e na Europa em relação à África e à América Latina. Os autores explicam que o problema é em parte técnico e em parte cultural. Há a questão da banda larga e de sistemas proprietários que não permitem o acesso do software. Mas a curadoria foi feita por europeus. "Adoraríamos ter ajuda para crescer nossa coleção nas partes do mundo que não pudemos mapear", diz o Studio Moniker, realizador do projeto. 


Radio Garden - http://radio.garden/

via El País Brasil

sexta-feira, 10 de março de 2017

Um lento carro de boi


Existe algo estranho num país de 200 milhões de habitantes em que a primeira edição de um livro é de apenas 2 mil exemplares

por Rodrigo Gurgel | Gazeta do Povo

O modelo das megalivrarias está falido ou em vias de acabar? Notícias esparsas têm indicado que as grandes redes nacionais enfrentam diversos problemas: em resumo, no fim do mês, as contas não fecham.

Ao mesmo tempo, a Amazon não para de crescer e diversificar seus negócios: na ofensiva há anos, quando se trata de vendas on-line, a empresa começou testes para lojas de conveniência nos EUA, mas segue modelo atraente, de alta tecnologia, que dispensa os caixas – o que significa ausência de filas, menos tempo perdido para os clientes. A Amazon também aposta agora nas livrarias físicas, com wi-fi de altíssima velocidade e livros organizados segundo uma lógica simpática: as capas são voltadas para o cliente, que não é obrigado ao desconforto de se inclinar e ficar virando o pescoço para este ou aquele lado. Sob cada livro, um cartão oferece brevíssima resenha e a posição que o título ocupa no ranking da Amazon.com.

Quando leio tais notícias, lembro-me de minha adolescência, entre as décadas de 1960 e 70, que passei frequentando livrarias de pequeno ou médio porte em São Paulo – como a velha Mestre Jou, ou a Teixeira, na Rua Marconi, ou a antiga Brasiliense, na Barão de Itapetininga, ou a Duas Cidades, sem esquecer a pequeníssima Belas Artes, na Avenida Paulista. Quem não viveu aquele tempo não entenderá minha afirmação: hoje não existem mais livrarias.

O Brasil precisa aprender muitas coisas – mas seria ótimo se reaprendesse o que é uma simples e boa livraria

Enquanto professor de escrita criativa, crítico literário e autor de três livros, estou na outra ponta do sistema: sou um produtor de conteúdo, não um comerciante. Mas minha formação teria sido imperfeita sem os livreiros que me atenderam bem, que me indicaram as melhores edições, mostraram-me erros de tradução, chamaram minha atenção para uma brochura esquecida e empoeirada que tratava exatamente do meu tema predileto.

O Brasil precisa aprender muitas coisas – mas seria ótimo se reaprendesse o que é uma simples e boa livraria. Apesar do espaço exíguo, se comparado às lojas de hoje, a diversidade de títulos impressionava. Aqueles livreiros desconheciam a palavra preconceito, não estavam à esquerda ou à direita do espectro político – e, se estavam, isso era apenas uma escolha pessoal, jamais interferiria no relacionamento com os clientes ou nas escolhas para compor o acervo da loja. Não eram apenas comerciantes, mas cenobitas dedicados ao amor pelo conhecimento.

Fadadas ao insucesso ou não, as grandes redes de hoje romperam com a possibilidade dessas experiências – exatamente o que a Amazon parece querer recuperar: no mínimo, a sensação de aconchego, a possibilidade de, por alguns minutos, alhear-se da loucura e do movimento incessante dos centros urbanos, folheando livros e conhecendo novos autores numa atmosfera de intimidade e silêncio.

À parte qualquer saudosismo, a crise das megalivrarias revela também aspectos da nossa economia e da nossa cultura: existe algo estranho num país de 200 milhões de habitantes em que a primeira edição de um livro é de apenas 2 mil exemplares. Poucos percebem o que se esconde sob tal número, mas o comércio livreiro jamais se firmará enquanto não tivermos leitores – ou enquanto o principal comprador de livros for o governo. Nada pode dar certo se permanecemos submetidos a regras que jamais apostam no que o capitalismo tem de melhor: liberdade para inovar e diversificar negócios. O sucesso da Amazon escancara nossa realidade: somos uma vasta propriedade rural – ou melhor, um lento carro de boi cruzando desgastada, empobrecida monocultura.

Rodrigo Gurgel, professor de escrita criativa e de literatura, é crítico literário do Jornal Rascunho e da Folha de S.Paulo e autor de Crítica, literatura e narratofobia.

Distopia ou realidade?


Biblioteca pessoal de Fernando Pessoa está disponível online e gratuita


Somente uma visita à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, permitiria uma consulta à Biblioteca pessoal do poeta. Mas a internet estreitou laços, diminuiu fronteiras e proporcionou a oportunidade do acesso rápido e gratuito ao acervo.  São mais de 1140 volumes, incluindo a coleção de manuscritos (ensaios e poemas), deixados pelo próprio poeta. Clique aqui para acessar o conteúdo.

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É possível consultar as obras do acervo por título, data, gênero, anotações, dedicatórias, selos e estudos. Todas as páginas de cada uma das obras foram digitalizadas e disponibilizadas para consulta página a página, com a possibilidade de download de obras completas.

De acordo com o site, a coleção começou a ser construída gradualmente em 1898, com livros escolares. Alguns dos últimos livros a fazerem parte da biblioteca provavelmente foram publicações de 1935. Oito línguas encontram-se representadas no acervo: espanhol, francês, galego, grego, inglês, italiano, latim e português.

Trata-se de uma biblioteca única em Portugal, não só por ter pertencido ao seu maior poeta, mas porque nela encontram-se títulos raros que não estão disponíveis em nenhuma outra biblioteca pública do país.

via Secretaria da Educação SP

quinta-feira, 9 de março de 2017

STF amplia imunidade tributária de livros, e 'e-books' ficam livres de impostos


Com decisão do Supremo Tribunal Federal, os 'e-readers', equipamentos para leitura dos 'e-books', também serão beneficiados por isenção tributária.

Renan Ramalho, G1

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quarta-feira (8) estender aos “e-books” – livros eletrônicos – a imunidade tributária concedida pela Constituição a livros, jornais, periódicos e ao papel de impressão.

Com a decisão da Corte, além do próprio conteúdo do livro eletrônico, estarão livres de impostos também aqueles equipamentos utilizados exclusivamente para comportá-los, os chamados “e-readers”.

No mesmo julgamento, o STF ainda concedeu o mesmo benefício a componentes eletrônicos destinados exclusivamente a integrar materiais didáticos compostos de fascículos.

A decisão tem repercussão geral e assim deverá ser aplicada pelas demais instâncias judiciais em processos semelhantes, nos quais o governo vinha cobrando os tributos de editoras nos tribunais.

Durante a sessão, os ministros analisaram recurso apresentado pelo governo do Rio de Janeiro contra decisão do Tribunal de Justiça (TJ-RJ), que livrou uma editora de pagar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na venda de uma enciclopédia jurídica eletrônica.

Por unanimidade, os ministros entenderam que a imunidade prevista na Constituição visa a difusão do conhecimento e da informação.

“A imunidade serviria para se conferir efetividade aos princípios da livre manifestação do pensamento e da livre expressão da atividade intelectual, artística, científica ou de comunicação, o que, em última análise, revelaria a intenção do legislador constituinte em difundir o livre acesso à cultura e à informação”, disse o relator da ação, Dias Toffoli.

Outros ministros, como Luiz Fux e Gilmar Mendes, ressaltaram as vantagens do livro eletrônico em relação aos impressos, pela fácil distribuição e dispensa do papel.

“Afinal não é preciso matar árvores para garantir a liberdade de informação por meio da mídia”, disse Fux.

“Negar-se imunidade em formato outro que não seja papel convencional pode ser gravíssimo equívoco que revela desprezo com a inovação institucional”, acrescentou Gilmar Mendes.

Imagem: Internet

Logobook: uma biblioteca sem fim de identidades gráficas

Milhares de ícones e símbolos

João Ribeiro | Shifter (Portugal)


Se você é designer ou daqueles que gosta de perder umas horas em sites de design gráfico, vais gostar do que o coletivo de designers Svriza preparou.

O Logobook.com é enorme um arquivo de logotipos em preto-e-branco que reúne os mais diversos trabalhos da especialidade desde 1950. Basicamente, é um daqueles livros de lombada grossa que encontramos à venda por preços pouco convidativos, transposto para o mundo digital e de acesso aberto a todos.



Com o projeto ainda em fase beta e a base de dados em franco crescimento, Seymour Auf Der Maur não se coíbe de traçar objetivos concretos em prol da comunidade. O editor do site, que por agora serve de arquivo de referências e inspiração para trabalhos editados em livros raros ou disponíveis online, espera que no futuro o Logobook e outros projetos consequentes possam ajudar na criação de uma comunidade global de pessoas dedicadas ao design e às suas várias disciplinas. A ideia é, acima de tudo, promover o contato entre profissionais e o conhecimento do trabalho existente na busca pela originalidade e a inovação.

O imenso repositório já existente pode ser consultado seguindo uma série de índices como forma, categoria ou autor. Todos os trabalhos são apresentados no icônico preto e branco o que na opinião dos editores do projeto beneficia a sua compreensão e descodificação. Sendo esta uma base de referências profissionais, a simplicidade da apresentação pode ajudar designers e diretores de arte a comparar com mais precisão os factores objetivos de determinado conceito ou representação.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Obras do Museu Afro Brasil estão disponíveis na galeria virtual do Google


Agora é possível visitar o acervo do Museu Afro Brasil sem sair de casa, por meio de uma parceria entre o museu e o Google Cultural Institute. Confira!

Vá de Cultura

Depois de impressionar o mundo com o lançamento do Google Earth e o Street View, na área de mapas, a Google lançou há um tempo, uma ferramenta chamada Museum View, que possibilita um tour virtual pelos principais museus do mundo, permitindo que o internauta tenha acesso às principais obras de arte da história, sem sair de casa.

Desde o último dia 21 de janeiro, o Museu Afro Brasil, localizado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, passou a integrar o acervo digital da Google com mais de 100 obras de sua coleção. Por meio de uma parceria entre a instituição da Secretaria de Cultura do Estado e o Google Cultural Institute, milhões de pessoas, de todo o mundo, poderão apreciar as exposições do Museu Afro por meio do computador, ou de qualquer outro dispositivo móvel conectado à internet.

A ferramenta permite que o usuário se movimente pelas instalações do museu, e veja as obras das exposições que estão em cartaz. podendo inclusive selecionar alguma obra do seu interesse, que esteja disponível e com apenas um clique saber mais sobre ela.

O equipamento “trolley” especialmente desenvolvido para o Street View capturou imagens em 360 graus de coleções pré-selecionadas, um trabalho conjunto entre as duas instituições, permitindo uma navegação tranquila em aproximadamente 10 mil m2 de área expositiva, especialmente as dedicadas às exposições temporárias e à exposição de longa duração, que ocupam os 3 pisos do Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, do arquiteto Oscar Niemeyer, dentro do Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Algumas exposições temporárias que já estiveram em exibição passaram por uma curadoria especial para continuar disponíveis virtualmente, podendo ser vistas a qualquer hora, como é o caso de “Espírito da África – Os reis africanos” que exibe fotografias de Alfred Weidinger, o conhecido fotógrafo austríaco especializado em África, que buscou os remanescentes das monarquias dos maiores reinados africanos.

Além dela, outras Exposições Virtuais poderão ser apreciadas com o tempo e a atenção que merecem, como “Arte, Adorno, Design e Tecnologia no Tempo da Escravidão”, uma exposição temporária que ficou em exibição por mais de 2 anos devido ao seu grande sucesso de público e ganhou nova montagem no Dia da Consciência Negra de 2015. Agora a mostra poderá ser apreciada online por qualquer visitante a qualquer momento.

A mostra é composta por objetos de ofícios urbanos e rurais, muitos deles usados em fazendas e engenhos de açúcar, formando um conjunto que realça as contribuições dos negros para a ciência e a tecnologia no Brasil, como mesas de lapidação, moendas de milho, forjas de ferreiro, prensas de folha de tabaco e outros objetos dos séculos XVIII e XIX. “O Banzo, o Amor e a Cozinha de casa”, uma mostra individual do artista Sidney Amaral é outra exposição virtual que está disponível e que venceu o Prêmio Funarte de Arte Negra 2012. Além, claro, do próprio acervo do “Museu Afro Brasil”, que ganhou destaque nas galerias virtuais do Google Cultural Institute.

"É grande a importância para o Museu Afro Brasil, a ampliação do acesso a essas coleções que esta tecnologia permite. É incrível poder levar a qualquer pessoa, onde quer que ela esteja, a qualquer hora, com apenas alguns cliques, usando a internet, obras e coleções de tamanha relevância para a cultura brasileira.”, comenta Natalia Moriyama, Coordenadora de Desenvolvimento Institucional do Museu Afro Brasil.

Ficou curioso, ou tem um tempo sobrando? Acesse o link do Museu Afro no Google Cultural Institute e veja as exposições agora mesmo.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Nós ainda gostamos de ler livros impressos



Há dez anos, quando Jeff Bezos lançou o Kindle em Nova York, ele declarou que "o livro é tão altamente evoluído e tão adequado para sua tarefa que é muito difícil tirar seu lugar". O fundador da Amazon estava certo: nesta primavera americana, apesar da reviravolta digital desencadeada pelo Kindle, A AMAZON VAI ABRIR UMA LIVRARIA FÍSICA EM MANHATTAN.

Há sinais de renascimento do livro impresso. A Waterstones, cadeia de livros do Reino Unido, voltou a lucrar ano passado depois de sofrer seis anos de perdas. As vendas de livros impressos nos EUA subiram 3% , enquanto as de livros eletrônicos caíram. A tecnologia digital não desencadeou a mesma revolução no impresso do que na música, televisão e notícias; Nós ainda gostamos de ler livros impressos.

O livro, em formato digital ou impresso, tem sido mais estável do que outros tipos de mídia. 

Leia o artigo de John Gapper publicado no Financial Times: http://on.ft.com/2klM7Ln

quinta-feira, 2 de março de 2017

Diário Oficial de SP deixará de ter versão impressa



A Prefeitura de São Paulo deixará de publicar, já nesta quinta-feira, 2, as edições impressas do Diário Oficial da Cidade. O informativo, que reúne todos os atos dos poderes Executivo e Legislativo da capital, além do Tribunal de Contas do Município (TCM) passará a ser exibido apenas na internet, no site da Imprensa Oficial do Estado, que publica as edições digitais do Diário desde 2002.

O anuncio foi feito pelo prefeito João Doria (PSDB) por meio de um vídeo postado em suas redes sociais. Na gravação, o prefeito afirmou que a medida irá gerar economia de R$ 1,5 milhão por ano por causa dos gastos com papel. Ele mostra ainda um site desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), o Diário Livre, que se propõe a fazer buscas no histórico das edições do impresso de forma mais fácil e está no ar desde 2015.

Segundo a Prefeitura, no site da Imprensa Oficial, o jornal continuará a ser exibido com a mesma diagramação da edição impressa, sem alterações.

via Estadão Conteúdo

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Crítica | Eis os Delírios do Mundo Conectado


Se verificarmos com cuidado a carreira de Werner Herzog em retrospecto, perceberemos que o cineasta alemão, apesar de ter se notabilizado com obras de ficção como Aguirre, a Cólera dos Deuses, O Enigma de Kaspar Hauser, Stroszek e Fitzcarraldo, é, fundamentalmente, um documentarista. Desde 1970, ele vem legando ao mundo suas fantásticas visões sobre os mais diversos assuntos que comentam a Humanidade de uma forma ou de outra, desde corajosos médicos que levam tratamento para regiões inóspitas da África, passando pela trágica biografia de um homem que passou sua vida em meio a ursos selvagens até um olhar sobre os primórdios do Homem a partir das pinturas rupestres na caverna de Chauvet.

Eis os Delírios do Mundo Conectado é sua visão lírica, mas preocupada sobre o quanto somos dependentes da tecnologia, mais especificamente da internet. Como o título original e o em português tentam dar a entender, o que vemos no documentário são quase que devaneios sobre o passado, presente e futuro da tecnologia, em uma visão que não condena, mas também não aplaude os vários acontecimentos desde o fatídico dia em que, em 1969, a primeira mensagem foi enviada de um computador a outro separados por 400 milhas de distância. Que mensagem foi essa? “Lo”, pois a intenção era escrever LOG, mas a “rede” caiu e “LO” virou um termo profético, já que é costumeiramente usado na inglesa na expressão lo and behold, que significa “e eis” (em um contexto de surpresa e estupefação) e que  dá nome ao documentário.

Herzog, que também faz as vezes de narrador e entrevistador, dividiu seu longa em dez curtos capítulos, um sobre um assunto diferente dentro da proposta. Com isso, ele manipula aquilo que a Internet e a facilidade de acesso à informação acabou criando no inconsciente coletivo: nossa incapacidade em geral em lidar com narrativas longas. Ao quebrar sua história em 10 segmentos de poucos minutos, Herzog garante – ou espera fortemente – que nossa atenção não se perderá e sua mensagem será passada.

Por outro lado, os poucos minutos impedem que as questões ganhem qualquer tipo de desenvolvimento e profundidade. Novamente uma característica do tipo de informação que as pessoas normalmente procuram, bastando notar como é comum lermos apenas as manchetes de uma notícia (ou as estrelas em uma crítica como esta), mas creio que, aqui, Herzog tenha perdido a oportunidade de mergulhar em questões controversas como a cultura hacker, a circulação de imagens sem autorização do fotografado, os possíveis efeitos de um mundo repentinamente sem internet, o desenvolvimento da inteligência artificial dentre outras.

O que ele faz – e claramente foi de propósito – é jogar as questões. Ele se recusa a dar soluções ou a dar sua própria impressão sobre as matérias que seu documentário lida. É como aquele professor de faculdade que levanta a boa para seus alunos, então, discutirem entre si durante toda a aula. Sem dúvida é uma forma de se abordar matérias importantes e sem dúvida seu longa leva à discussões potencialmente interessantes, mas é como se Herzog tivesse feito um esforço sobre-humano para trazer os assuntos da maneira mais básica possível, quase que como um “assuntos quentes da Internet for dummies“.

Considerando o calibre do diretor, algo que é visto em suas magníficas composições nas entrevistas estáticas ao longo do filme, com especial destaque para o quadro surrealista que “pinta” com uma família que perdera uma das filhas em acidente automobilístico, ele talvez pudesse ter trazido algo mais detalhado para seu público. Quando ele começa cronologicamente com a origem da Internet, parece que ele fará algo de teor mais histórico, mas logo no capítulo seguinte ele pula para questões polêmicas (uma delas particularmente ininteligível sobre a arquitetura da internet na visão de um de seus pioneiros) e não para mais, em uma sucessão de assuntos conectados unicamente pela questão macro de seu documentário.

Não esperava, de forma alguma, um mergulho técnico em cada matéria, mas algo fosse um meio termo, um compromisso entre a matéria do Fantástico e a análise dedicada de uma série do Discovery Channel. Herzog tinha capacidade para isso, sem dúvida, mas decidiu trilhar um caminho que, se não chega a desapontar, pelo menos leva o espectador com senso crítico a coçar a cabeça em dúvida.

E de forma alguma, com isso, eu quero dizer que Eis os Delírios… é comparável a uma matéria do Fantástico, mas apenas que o diretor mirou baixo demais e acabou gerando uma obra de pouco valor intrínseco. Bastaria, por exemplo, que ele tratasse de metade dos assuntos no dobro do tempo para cada um. Ou se ele usasse algum tipo de linearidade no desenvolvimento histórico da internet, sem pulos quase que aleatórios. Ou mesmo se ele tornasse os comentários dos entrevistados menos utópicos e mais diretos, como é o caso da fascinante – mas curta – entrevista com a celebridade hacker Kevin Mitnick.

Eis os Delírios do Mundo Conectado é bem menos do que poderia ter sido, mas não deixa de ser entretenimento bem acabado e que pode levar a conversas interessantes se o espectador não tiver sua atenção desviada por tuíte de um amigo ou a mais nova atualização de status no Facebook de alguém que segue. Mas sobre o que mesmo estava falando?

Eis os Delírios do Mundo Conectado (Lo and Behold, Reveries of the Connected World, EUA – 2016)
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Com: Lawrence Krauss, Kevin Mitnick,  Elon Musk, Sebastian Thrun, Lucianne Walkowicz, Robert Kahn, Ted Nelson, Hilarie Cash, Christina Catsouras, Sam Curry, Leonard Kleinrock, Tom Mitchell
Duração: 98 min.

via Plano Crítico

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A geração de leitores digitais em uma Cuba 'off-line'



Gerações de cubanos estão criando redes de intercâmbio de textos, compartilhando arquivos através de pen drives ou HDs externos

Cubanos usam um aplicativo para compartilhar textos pelo celular sem necessitar de uma conexão de internet

Yamil Lage | AFP
Ne10

Ainda sem livrarias atualizadas e com acesso restrito à internet, os jovens cubanos estão lendo o que querem, e talvez mais do que o Estado pensa - mas não em papel. Como foi possível entrar no mundo da leitura digital em um país praticamente "off-line"?
Como gerações passadas de cubanos, eles estão criando redes de intercâmbio de textos, vídeos e notícias, com uma característica: agora os armazenam e os fazem circular em HDs ou pen drives.

O Estado socialista controla a impressão e a internet, que além de limitada (só um terço da população, de 11,2 milhões de habitantes, tem acesso ao serviço) é cara (1,5 dólar por hora).
Apesar das restrições, Javier Peña lê a literatura anglo-saxã do seu gosto. Este tradutor "freelance" de 27 anos fala com orgulho dos seus milhares de títulos digitalizados e da biblioteca física de centenas de volumes que montou.

"Sempre que alguém chega à minha casa com um disco duro me diz: 'o que você tem aí para copiar para mim?' E eu pergunto a mesma coisa", diz Peña à AFP.

Peña, que em troca de literatura ou artigos em inglês oferece sua coleção digital de "comics americanos", afirma que em Cuba se impôs a "teoria anarquista da informação". "O importante é que alguém a tenha", mesmo que não pague por ela.

As redes não são novas. Até alguns anos atrás, quando um artista era censurado em Cuba, por homossexualismo ou "desvio ideológico", um só exemplar da sua obra circulava de mão em mão entre centenas de pessoas.

Bibliotecas em desuso
Neus Pechero, uma estudante de letras de 20 anos, fã de literatura americana, recorre à troca digital, embora prefira os impressos.

"Todos nós temos celulares capazes de intercambiar informações através do 'zapya'", aponta. Esta ferramenta sem conexão à internet permite a transferência sem fio de arquivos entre usuários a curta distância.

Taimí López, de 12 anos, utiliza o mesmo sistema. Até 30 crianças da sua escola, calcula, podem compartilhar um conteúdo nos intervalos entre as aulas.

Assim, de telefone em telefone, circula hoje boa parte da leitura em Cuba, um país que na década de 1960 alcançou altos níveis de escolaridade.

Estudos oficiais estimam que a metade dos cubanos lê revistas e jornais, e 20%, dois livros por ano. Segundo um documento divulgado no Parlamento, 60% dos universitários leem em formato digital, e mais da metade já não frequenta bibliotecas.

O vice-presidente do Instituto Cubano do Livro, Edel Morales, estima que no final desta década 90% dos jovens estarão lendo em telas.

Mas o país, afetado desde 1962 pelo embargo americano, ainda aposta no impresso.
Pagar pelo gratuito?

Na maior fortaleza colonial das Américas, San Carlos de La Cabaña, se celebra a Feira Internacional do Livro de Havana. Uma legião de cubanos compram livros ao custo médio de 50 centavos de dólar cada.

Para esta edição foram impressos quatro milhões de exemplares de 700 títulos, enquanto os livros digitais não chegam a 200 por ano, afirma Morales.

Em declarações à AFP, Morales se mostra empenhado em que o Estado acompanhe "o crescimento do hábito de leitura" digital.

Em um pequeno estande, Mariana Saker, filóloga de 57 anos, oferece livros digitais, além de filmes e músicas em CDs. Há 15 anos a Citmatel, a empresa estatal em que trabalha, ingressou neste mundo.

Um cliente seleciona o título que quer em um computador "off-line", e baixa o arquivo em seu suporte digital por quase o mesmo preço que um impresso. O catálogo inclui 900 produtos, incluindo livros, em sua maioria de escritores cubanos.

Quem vai pagar pelo que pode conseguir grátis? "É um desafio que sem dúvida alguma vai ser vencido" aos poucos, aponta Saker.

"Tivemos alguns exemplos" de pessoas que começaram a "desfrutar" pagar pelos arquivos que baixam.

Ao mesmo tempo em que tenta alcançar a nova geração de leitores, Cuba enfrenta os desafios de ampliar o acesso à internet, destinar recursos para o pagamento de direitos autorais e oferecer suportes digitais de leitura.

Na ilha, é quase impossível conseguir dispositivos deste tipo, e leitores como Javier e Neus não gostam de ler textos longos no celular.