segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O que os likes dizem do nosso narcisismo (e da nossa inadequação)?


Christian Dunker | Tilt

Quando o Instagram anunciou que o número de curtidas em cada postagem não ficaria mais disponível para os usuários, você pode ter pensado que ainda era possível descobrir quantas pessoas curtiram uma publicação contando manualmente os nomes dos que se envolveram. Parece a mesma coisa, mas não é.

Existe uma relação intrínseca entre o narcisismo digital e a velocidade de interpretação da imagem. A contabilidade estimula a comparação entre pessoas, transferindo uma hierarquia de relevância e confiabilidade para o conteúdo e trazendo potenciais prejuízos psicológicos, aos que se obsessionam com a busca de curtidas.

Lembremos que o narcisismo é uma estrutura fundamental para todas nossas experiências de reconhecimento social e intersubjetivo. Alguém desprovido de narcisismo seria alguém incapaz de reconhecer o outro como semelhante e igualmente capaz de afetos, interesses e sofrimentos. Alguém com uma pane narcísica deste tipo seria incapaz de reconhecer até mesmo seus próprios sentimentos. A imagem popular do narcisista como alguém voltado só para si, incapaz de reconhecer desejos e valores diferentes dos seus, é muito parcial.

O narcisismo tem uma estrutura de palco: um ator contracena com alguém, para uma plateia. Às vezes o ator, coincide com o personagem e o diretor da peça. Dentro disso podemos encontrar muitas combinações: estar na plateia de si mesmo imaginando-se um protagonista. Sentir-se o coadjuvante que quer tomar o lugar do protagonista. Perceber-se como impostor do protagonista. Descer sistematicamente para a posição de plateia ou do sádico crítico de nosso teatro particular. Podemos estar cronicamente diminuídos em nossa estima, sempre no anonimato da plateia, ou, transparentes e invisíveis, nunca convidados para o espetáculo.

Alguns estão realizados apenas por participar da peça, ainda que como coadjuvantes, outros ressentem-se porque seu estrelato ainda não chegou. Certos narcisos decidem que serão grandes vilões. Há até mesmo aqueles que escolhem o personagem mais humilde, considerando que a verdadeiro espetáculo está acontecendo em outro lugar, por exemplo, no teatro celestial, ou em outra época, por exemplo, no vindouro futuro.

Podemos sentir, persistentemente, que nosso corpo, nossa forma de amar ou de consumir está inadequada ao personagem que queremos ou devemos desempenhar.

Todas as montagens narcísicas acima são fonte de sofrimento potencial, mas nem todas elas reduzem-se ao exibicionista latifundiário, empreendendo sua fazenda de likes. A linguagem digital, com sua métrica de curtidas, altera profundamente nossas gramáticas narcísicas porque amplia o acesso ao palco simbólico, estimula a variação de personagens imaginários e precifica o valor real da influência (ainda que a quantidade de likes não seja sempre um bom parâmetro para a efetivação e vendas). Barthes dizia que no interior de uma narrativa existem palavras "nós" e palavras "rede" de tal forma que no espaço digital cada qual se mede pela extensão e qualidade dos nós e das redes que formam seu algoritmo narcísico. Nesta situação não basta agredir-se ou praguejar contra o sistema. Uma vida isenta de narcisismo seria como tentar arrancar todas as máscaras em busca de nossa face real, autêntica e essencial, o que nos levaria apenas ao estado de carne viva ardente, diante do espelho digital.

Dar mais trabalho aos usuários para identificar o número de curtidas nas redes sociais é como fazer a gente assistir a partida sem saber se o estádio está lotado ou se estamos sozinhos apreciando o espetáculo. Talvez isso nos faça oferecer um tempo a mais para o que estamos realmente vendo e ouvindo; para a qualidade da peça e menos peso para a fama dos atores, para o sucesso de crítica ou bilheteria. Talvez isso permita estarmos um pouco mais advertidos diante das novas ilusões narcísicas trazidas pela linguagem digital.

domingo, 18 de agosto de 2019

A história das bibliotecas pelo mundo, segundo dois pesquisadores

A forma física dos livros, que mudou significativamente desde a Antiguidade, determinou os formatos e a organização das bibliotecas em diferentes séculos

Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

“Que a deusa Ishtar olhe com benevolência o letrado que não mudar a tabuinha de lugar, mas que a coloque novamente na biblioteca; que ela denuncie com indignação aquele que a levar para fora.” Datada de 600 a.C., tal inscrição pouco sutil encontrada em uma tabuinha de Uruk, antiga cidade da Suméria, chega até nós quase como uma anedota de como a organização dos escritos da humanidade jamais foi empreendimento simples.

Biblioteca da Abadia de Admont, construída em 1776, na Áustria Foto: Will Pryce

O desenvolvimento da escrita, dos suportes, dos métodos de conservação e catalogação percorre período nada modesto da história da civilização, estendendo-se, pelo menos, de 4 mil a.C. aos dias de hoje. Em outras palavras, vem desde a época em que se estabeleceram suportes como as tabuinhas de argila e os rolos de papiro, na qual nasceram os signos cuneiformes e hieróglifos, para alcançar nossas mais recentes experiências de armazenamento digital.

As bibliotecas, espaços que respondem precisamente a essa necessidade do homem de abrigar seus registros, são tema de duas obras lançadas este ano no Brasil – História das Bibliotecas: de Alexandria às Bibliotecas Virtuais, de Frédéric Barbier, e A Biblioteca: uma História Mundial, de James W.P. Campbell e Will Pryce. Embora os títulos guardem semelhanças e seus autores empenhem-se igualmente na tarefa de estabelecer uma linha do tempo da formação desses espaços, o leitor encontrará abordagens bastante distintas.

A Biblioteca Marciana de Veneza, construída em 1564, uma das maiores da Itália Foto: Will Pryce

Pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique e herdeiro de Henri-Jean Martin na direção da cátedra História e Civilização do Livro, da École Pratique des Hautes Études, Frédéric Barbier expõe uma visão muito mais teórica em relação à constituição das bibliotecas como instituições dotadas de estruturas, identidades e funções variadas. Como ele nos lembra, o sintagma de “biblioteca” é de origem grega e significa “o armário dos livros”. Passando, com o tempo, a designar os ambientes onde esses móveis estão dispostos, é transposto diretamente para o latim, mas permanece em desuso por boa parte da Idade Média, época em que “livraria”, ainda sem o caráter comercial, é o termo mais empregado. A acepção comum nos dias de hoje só se firmaria no século 18, quando a Encyclopédie incorporou “biblioteca” como um de seus verbetes.

Biblioteca do Palácio de Mafra, em Portugal, construída em 1771 Foto: Will Pryce

Posto isso, o autor propõe uma análise que privilegia a antropologia, a partir da qual ele forja uma sofisticada teoria: a das bibliotecas como instituições de transferência cultural. Em sua visão, mais do que simples espaços de armazenamento, elas adquirem relevância “na medida em que oferecem uma parte mais ou menos importante da informação disponível sob uma forma escrita num dado momento”. Isso fica evidente, por exemplo, quando pensamos na importação de livros da cultura grega clássica para as bibliotecas abertas da Roma pré-imperial, muitas delas fruto de pilhagens de guerras no Oriente.

Vale lembrar que foi na Grécia, sobretudo, que ocorreu a passagem da literatura oral para a referência escrita, no momento em que Licurgo, legislador espartano, teria decidido copiar os poemas homéricos. Bem mais tarde, Alexandre, o Grande, que havia estudado com ninguém menos que Aristóteles, é quem daria as bases, na nova capital que instaura no Egito, para o grande modelo de biblioteca que inspira até hoje a nossa civilização: a da Alexandria. Pautada, segundo Barbier, pela curiosidade intelectual que marca o pensamento grego e comandada, então, pelos sucessores da Dinastia Ptolemaica, a instituição reuniria esforços para adquirir as obras aristotélicas, assim como os originais de nomes como Ésquilo, Sófocles e Eurípides.

Biblioteque Sainte Genevieve, construída em Paris em 1850 Foto: Will Pryce

Conforme o autor, não apenas os conteúdos dos livros são objetos de tais transferências, mas a própria instituição das bibliotecas, com seus modos de funcionamento e representações, também o são. E o termo “representação” aparece mesmo ligado a “encenações” que governantes propõem-se a fazer com esses espaços, ao verem a apropriação do que Barbier chama de “imagem refratada do saber universal” como formas de legitimação.

Biblioteca Malatestiana de Cesena, na Itália, construída em 1452 Foto: Will Pryce

É nesse mesmo sentido que elas passam a ser pensadas, em momentos históricos determinantes, sob perspectiva, ao mesmo tempo, humanista e política, o que ajuda a disseminar a prática da criação de grandes bibliotecas de vocação enciclopédica. Na Renascença, por exemplo, soberanos e príncipes, além do próprio papado, chegavam a concorrer uns com os outros para criar as mais relevantes coleções.

A partir desses e outros casos, Barbier nos convida a viajar pelos distintos processos que marcaram nossa busca por sabedoria. Relata-nos detalhes de escavações que levaram à descoberta de histórias como as das tabuinhas; passa pela criação e queda das bibliotecas da Antiguidade; mostra-nos a retomada dessa tradição pelo Cristianismo; a multiplicação de instituições de ensino e a revolução de Gutenberg que têm início no período medieval, assim como a ideia renascentista das bibliotecas como conservatório do pensamento humano; salienta as bases da biblioteconomia moderna estabelecidas na era barroca; o ideal iluminista de esclarecimento público, as revoluções industriais, até a atual e complexa desmaterialização dos livros. 

O grau de detalhamento do qual o autor lança mão se repete, pois, em uma obra de quase 400 páginas de texto, poucas ilustrações, mas vasto e enriquecedor material que o pesquisador disseca ao modo acadêmico comum aos franceses. Por isso, antes de contrastar, complementa tão bem o de Campbell e Will Pryce.

Verdadeira obra-prima do objeto livro e muito mais concisa e direta na apresentação histórica, a segunda obra foca, essencialmente, as edificações. Enxergando a história das bibliotecas como um campo da arquitetura, o professor James Campbell convidou o fotógrafo Will Pryce para uma viagem por 80 bibliotecas ao redor do mundo. Seguramente, o leitor ficará deslumbrado com as belíssimas imagens em alta definição que são apresentadas – embora os próprios autores reconheçam a experiência singular que é visitá-las. Afinal, os bibliófilos gostam, entre outros aspectos, de sentir o cheiro dos livros.

Sem deixar de lembrar que as bibliotecas, antes de meros depósitos, sempre foram “símbolos ativos de cultura e civilização”, Campbell ressalta que uma característica que as diferencia de outros espaços é a importância primária de seus móveis e acessórios, sem os quais é muito difícil discutir sua arquitetura. Assim, a forma física dos livros, que, como já vimos, mudou significativamente ao longo do tempo, sempre determinou seus formatos e formas de organização, como, por exemplo, a disposição das prateleiras.

Segundo o autor, preocupações envolvendo aspectos como a calefação, a iluminação e métodos de conservação também favoreceram certos modos de construção – e essa variedade, por isso mesmo, nunca seguiu uma evolução direta. Não por isso, o livro deixa de apresentar um panorama histórico mais ou menos linear, em um percurso semelhante ao apresentado por Barbier. Devido ao esforço da dupla em selecionar as 80 belíssimas bibliotecas que encontramos no livro, é válido nos determos em alguns desses projetos específicos. 

Tida como a mais conservada entre as da Antiguidade, a Biblioteca de Celso foi construída a mando do filho do cônsul Tibério Júlio Celso Polemeno, por volta de 135 d.C, na cidade grega de Éfeso, atual Turquia. A ideia era celebrar o pai em um espaço que também funcionasse como mausoléu. Decorada com relevos e estátuas como a de Sofia, simbolizando a sabedoria, a fachada conta hoje com cópias reconstruídas, no século 20, a partir de suas ruínas. Se a deterioração do local embaça as noções de como a biblioteca era, o autor mostra-nos, com uma planta baixa, como era pensada para que fosse iluminada completamente pela frente. Assim como as paredes, separadas, possivelmente foram pensadas assim para evitar que a umidade chegasse aos livros.

Em um salto para a Idade Média, podemos observar, a partir de construções como a Biblioteca Malatestiana, em Cesena, na Itália – praticamente inalterada há 560 anos –, características comuns ao período, como as fileiras de banchi (termo para designar bancos parecidos com os de igreja) e também a posição fixa dos livros, acorrentados a uma mesa cujo suporte se dá pelo assento do banco da frente. Com mobília original intacta ainda hoje, a biblioteca holandesa da paróquia da igreja de St. Peter e St. Walburga, em Zutphen, é um resquício do mesmo período, sendo um exemplar das denominadas bibliotecas de atril, com os livros acorrentados por um bastão no topo, diante dos quais, sentados em bancos estreitos, os leitores ficam um de frente para o outro.

De importantes exemplares renascentistas, como a luxuosa Biblioteca Marciana, em Veneza, projetada por Sansovino e decorada por pintores como Paolo Veronese, assim como a Laurenziana, em Florença, projetada por Michelangelo como um espaço perfeitamente simétrico destinado a guardar a coleção dos Médici, o livro chega ao estilo barroco e ao rococó que caracterizam uma série de bibliotecas reais. Nesse grupo, encontramos emblemáticas construções portuguesas, como a Biblioteca Joanina, localizada na Universidade de Coimbra, e a do Palácio de Mafra, situada no distrito próximo a Lisboa. 

Ambas do século 18, foram construídas a mando de João V, a partir das enormes reservas de ouro provenientes do Brasil, que, por si só, garantem opulência a esses espaços – hoje também lembrados pelo uso que fazem de morcegos para exterminar os insetos que deterioram suas coleções. Do mesmo período, é impossível passar incólume pela Biblioteca da Abadia de Admont, na Áustria, cujos abades, em sua criação, envolviam-se diretamente nas escolhas decorativas, como as impressionantes pinturas de seu teto, inspiradas pela Iconologia de Cesare Ripa.

Não apenas pela riqueza de detalhamento das imagens, mas pelas límpidas descrições apresentadas, o livro é capaz de fazer o leitor se sentir transportado a esses espaços, que incluem ainda aqueles do neoclassicismo, como a Bibliothèque Sainte-Geneviève, em Paris; construções do século 20, como a New York Public Library; e tantas outras que marcam o domínio do modernismo (“funcionais e esteticamente poderosas”), como a Biblioteca Beinecke, da Universidade de Yale. 

Diante das incertezas a respeito do futuro dos livros, os autores de ambas as publicações parecem mostrar relativa esperança. Para Campbell, é difícil conciliar a ideia de morte iminente dos livros ao observarmos a “explosão contínua” de construção de bibliotecas. Para Barbier, trata-se de uma questão de sobrevivência da democracia e de nossas identidades coletivas. Certo é que, ao desbravar as obras, o leitor terminará, no mínimo, orgulhoso do enorme patrimônio que a humanidade, em seu incessante projeto de espelhar o mundo, já foi capaz de construir.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Em novo momento, obra de J. D. Salinger finalmente chega ao digital


O espólio do autor de 'O Apanhador no Campo de Centeio' era o mais resistente à digitalização e a chegada dos quatro primeiros e-books de Salinger vai preencher um vazio que havia na biblioteca digital

Alexandra Alter, The New York Times | O Estado de S. Paulo

Nas cinco décadas desde que J. D. Salinger publicou seu último conto, Hapworth 16,1924, sua pequena obra reverenciada ficou praticamente oculta. Mesmo quando editores e consumidores vêm adotando os e-books e o áudio digital, os livros de Salinger se mantêm desafiadoramente offline, uma consequência da aversão do escritor por computadores e tecnologia. E, embora ele tenha continuado a escrever até sua morte, há quase 10 anos, nenhuma palavra escrita por ele foi publicada desde 1965.

Isso em parte porque seu filho, Matt Salinger, que administra o J. D. Salinger Literary Trust (espólio do escritor) é um guardião vigilante do legado e da privacidade do seu pai. Mas agora, num esforço para manter os livros do pai ao alcance de uma nova geração de leitores, Matt começa a gradativamente desvendar o segredo que obscureceu a vida e a obra de um dos mais influentes e enigmáticos escritores dos EUA.

No primeiro passo de um grande revival que poderá mudar a compreensão do mundo de J. D. Salinger e suas obras, a editora Little, Brown publica edições digitais de quatro livros dele, o que o torna talvez o último ícone literário do século 20 a se render à revolução digital

No último trimestre do ano, com ajuda de Matt Salinger, a New York Public Library terá a primeira exposição dos arquivos pessoais de Salinger, incluindo cartas, fotos de família e o manuscrito datilografado do livro O Apanhador no Campo de Centeio, com as correções feitas à mão pelo autor.

E em breve, escritos de décadas de J.D. Salinger serão liberados, um projeto de Matt Salinger. Revisar os manuscritos e cartas do seu pai foi não só esclarecedor, mas emocionalmente desgastante, disse Matt em entrevista para promover as novas edições digitais.

“Meu pai detestava publicidade e certa vez afirmou: ‘Publicar é uma invasão terrível da minha privacidade’.” O que J. D. Salinger deixou quando morreu em 2010, aos 91 anos, é um dos mais fascinantes mistérios na literatura americana. Matt Salinger, de 59 anos, até certo ponto se tornou o representante improvável de um ícone literário recluso. Hoje, os fãs do autor correm atrás dele em busca de autorização para adaptar histórias do pai para filme, peça de teatro, pôr sua foto em sacolas (Matt se opõe terminantemente a tudo isso). 

Há sinais de que a profunda influência de J. D. Salinger sobre gerações de escritores e leitores americanos está desaparecendo. No Guardian, a autora Dana Czapnik escreveu sobre estudantes e professores que não se mostram enamorados de Holden Caulfield, o protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio, como as gerações anteriores.

Só recentemente Matt Salinger se abriu mais sobre seu pai e contestou afirmações feitas em documentário de 2013 e em livro de David Shields e Shane Salerno, que causaram alvoroço com a revelação de que Salinger havia deixado cinco livros inéditos com instruções para publicá-los apenas entre 2015 e 2020. “Muita coisa no livro e no filme são pura ficção e ficção ruim.”

Segundo Salerno, livro e documentário se basearam em quase uma década de pesquisa e foram legalmente aprovados. “Matt Salinger finalmente confirmou que o que escrevi em 2013 era verdade e que obras escritas por seu pai por mais de 40 anos serão publicadas”, garantiu ao New York Times.

No momento o material dos arquivos de J.D. Salinger continua secreto. Sua obra inédita está guardada em local seguro entre a casa do seu filho em Connecticut e a casa da outra administradora do espólio, em New Hampshire, a viúva do escritor Colleen Salinger. 

Matt Salinger se prepara para liberar a obra para publicação desde 2012. Às vezes se sentiu perdido em meio aos arquivos. “Tudo era um labirinto.”

Criar arquivos digitais é algo terrível, disse, porque ele não consegue encontrar software de reconhecimento ótico confiável para converter as páginas escritas à mão em texto eletrônico, de modo que ele manualmente digita o material. O espólio do escritor era o mais resistente à digitalização e a chegada dos seus e-books vai preencher um vazio que havia na biblioteca digital.

“É o último chip em termos de obras clássicas”, disse Terry Adams, vice-presidente e editor digital e da parte impressa da editora Little, Brown. “Todos os outros espólios de grandes escritores do século 20 se inclinaram para os e-books, mas Matt estava muito cauteloso.” Matt resistiu a pedidos para publicar e-books durante anos, sabendo da aversão do pai pela internet.

“Ouço sua voz em minha cabeça e não há dúvida sobre as decisões que devo tomar, porque sei o que ele queria”, acrescentou Matt. “Coisas como e-books e audiolivros são difíceis, porque ele não os desejava.”

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O tempo dos jornais

Os jornais dependiam de um modo de vida que se foi extinguindo no novo milênio

João Pereira Coutinho | Folha

A crise dos jornais bateu à minha porta. Literalmente. Durante anos, a rotina era simples: acordava, saía, passava pela banca, abastecia-me com a mesma dieta (quatro jornais nacionais, três estrangeiros). O vendedor já nem fazia perguntas: quando me via, entregava a dose como se fosse um dealer profissional.

Depois, regressava a casa, preparava o café da manhã (muito café para uma manhã) e abria os jornais sobre a mesa da sala. Com uma lapiseira na mão, partia em busca da minha presa.

O ritual durava duas horas, às vezes três, dependendo das matérias. No fim, eu podia ostentar alguns recortes como se fosse um caçador orgulhoso. Várias vezes escrevi crônicas diretamente sobre a notícia impressa.

E quando, por acaso, eu me ausentava da cidade, nem aí o fornecimento parava: no meu regresso, tinha 10 quilos de papel à espera. Com uma tesoura, desbastava tudo para uns aceitáveis 4 ou 5 quilos.

A banca fechou no ano passado. O dealer, pesaroso, alegou a idade e a quebra do negócio. Já ninguém comprava jornais. Um dos diários que eu consumia era mesmo a única cópia que ele encomendava. 


Banca de jornal no centro de São Paulo, em foto de 2013 - Gabo Morales/Folhapress

Despedi-me do homem, ainda tentei mudar de dealer mas rendi-me ao ar do tempo: hoje, tomo o café da manhã (menos café para uma manhã) com um iPad à frente. Às vezes, ainda sinto a tentação de usar a lapiseira na tela luminosa, como se fosse um amputado que sente dores no seu membro inexistente. É triste. É patético. 

Não sou caso único. Lizzie Widdicombe, na New Yorker (versão digital, claro), oferece alguns números para dinossauros como eu: na década de 1950, havia mais de 1500 bancas de jornais em Nova York. Em 2019, restam trezentas. Um bom dia de negócio, para esses resistentes, é vender 50 jornais. 

Fato: o que não se vende em papel é consumido online. Aliás, a “crise dos jornais” pode ser explicada pela ascensão triunfal da internet. Eu próprio sou um traidor da minha classe.

Mas não só. Os jornais também dependiam de um modo de vida que se foi extinguindo com o novo milênio.

Para começar, um modo de vida lento, ou pelo menos mais lento do que a patética aceleração em que vivemos. Bem sei: os nossos antepassados sentiram o mesmo, sobretudo nos começos das três revoluções industriais. 

Mas nós estamos na quarta, afogados em hiper-conexão, o que não deixa de ser uma forma regressiva de comunicabilidade: a forma como a maioria consome notícias remete-nos para os tempos do telégrafo, em que a brevidade instantânea era a alma do negócio. 

Quem, de entre os leigos, tem uma hora para dedicar a um jornal? Quem tem meia hora, ou até 15 minutos?

O meu avô tinha. O meu pai também: o dia não poderia começar sem essa hora de leitura matinal. O que para eles era uma rotina para os nossos contemporâneos é um luxo bizantino. 

Por outro lado, não havia apenas disponibilidade de tempo. Havia disponibilidade intelectual: uma curiosidade permanente para conhecer algo mais do que os horizontes estreitos do próprio umbigo.

Hoje, na era narcísica das redes sociais, não temos propriamente leitores; temos “voyeurs” uns dos outros, sempre em canibalismo mútuo. Quando não estamos obcecados com as nossas neuroses, estamos obcecados com as neuroses dos outros. Não há negócio que resista a esse circuito fechado.

Pessimista? Não estou. É preciso não confundir o jornal (como objeto) e o jornalismo (a segunda mais antiga profissão do mundo, nas palavras de Paulo Francis). O segundo continuará por outros meios, ainda que o rumo permaneça nebuloso.

Mas terei saudades do jornal. Aliás, já tenho, sobretudo quando passo pelo lugar onde existia a velha banca.

É agora uma estação de patinetes.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Bem-vindos à era da transcendência digital


Marcelo Gleiser, trecho do livro "O Caldeirão Azul", (Record, 2019)
Imagem: Internet

Tenho idade suficiente para me lembrar dos antigos telefones rotatórios, aqueles que a gente tinha que colocar o dedo no número para "discar".

Imagino que a maioria das crianças de hoje não saberia o que fazer com um deles. Já meus avós, se pudesse trazê-los de volta à vida, não teriam a menor ideia do que fazer com um telefone celular.

Ao mudar como vivemos nossas vidas, a tecnologia também nos muda, irreversivelmente.

Continuando com o telefone como ilustração, uma transformação profunda ocorreu na sociedade nos últimos 40 anos, mais ou menos o período da transição entre os telefones rotatórios e os celulares. No caso dos rotatórios, a família dividia um único número, o número da sua casa. Raramente, famílias tinham mais de um número na mesma casa. Se alguém estivesse usando o telefone, você tinha que esperar a vez. A linha estava ocupada.

Já os celulares são aparelhos pessoais. O telefone é seu. E ao contrário de uma caneta ou até um carro, a verdade é que ninguém gosta muito de dividir o celular com outro. As pessoas não gostam nem que outros olhem o seu, imagine usá-lo.

Por que isso?

A resposta mais imediata é que o celular não é meramente um aparelho que você usa para se comunicar com outros ou para se conectar com a internet. O celular é uma extensão digital de quem você é. Ele faz parte da sua pessoa. Você e a máquina são um.

Não acredita? Imagine que, em uma reunião no trabalho ou com amigos, você compare os celulares de todo mundo. (Se deixarem, claro.)

Esqueça os modelos que cada um escolhe; isso depende de muitos fatores, como quando decidimos que carro comprar, qual a cor etc. Foque sua atenção nos aplicativos de cada um. Certamente, muitos serão iguais: correio, alarme, câmera, Twitter, WhatsApp... Mas cada celular terá uma coleção de aplicativos única, que é só sua.

Essa coleção individual de aplicativos é uma espécie de impressão digital do dono do celular. Mesmo se considerarmos que, estatisticamente, é possível imaginar dois celulares com o mesmo grupo de aplicativos, imagino que a probabilidade de isso ocorrer seja bem baixa, mesmo dentre pessoas próximas ou da mesma família.

É por isso que, como escrevi acima, o celular é uma extensão digital da sua pessoa. Através dos aplicativos, o instrumento permite que você seja mais você, amplificando o seu senso de quem você é, o seu alcance no mundo. Ele estende sua presença muito além do seu corpo, permitindo que você esteja, virtualmente, em qualquer lugar do mundo, participando de conversas com pessoas em outras cidades, países, ou pertencendo a culturas muito diferentes da sua.

O celular dissolve a essência de quem você é num código digital transportável através do mundo. Juntando a isso o acesso à informação, a verdade é que nunca estivemos mais próximos da onipresença e da onisciência. O celular faz isso, ao menos metaforicamente, nos aproximando de uma existência divina: sem um corpo e cientes de tudo o que ocorre no mundo.

O que explica por que os celulares são tão sedutores. Se não temos um, ou porque esquecemos o nosso em casa ou porque quebrou, nos sentimos confinados a uma espécie de solitária digital, separados de parte de quem somos e do resto do mundo. São poucas as pessoas que, hoje, optam por não ter um. O homo não-digitalis é uma espécie em extinção acelerada!

Bem-vindos à era da transcendência digital.

Esse processo é irreversível. Não temos como voltar atrás. Podemos tentar monitorar o uso, e até desligar o aparelho de vez em quando. Mas difícil acreditar que a maioria das pessoas seja capaz de colocar o seu na gaveta, ou se recusar a usá-lo por períodos longos (dias, por exemplo). A menos que seja uma espécie de desafio pessoal, ou uma viagem de auto(rre)descoberta, como as pessoas que passam uma semana num retiro budista em meditação intensiva.

Com os celulares, expandimos nossa presença no mundo, ampliando nossos horizontes sociais e culturais. Nas mídias sociais, podemos expandir nossas tribos, estabelecendo contato com pessoas que dividem nossos valores, mesmo se vivendo em algum outro canto do mundo.

Mais dramaticamente, os celulares permitem que nossas vidas sejam transferidas para o éter digital, baixáveis em qualquer lugar do mundo, por quem quer que seja. Eles permitem que sejamos admirados, até mesmo endeusados, por outras pessoas. Ou, claro, odiados e invejados. A transcendência digital e o narcisismo estão intimamente ligados.

Acho que poucos estavam preparados para isso. O lado bom dessa tecnologia, que nos permite estar mais próximos dos amigos e da família, ou dividir momentos importantes ou informações relevantes, é indiscutível. Mas existem problemas sérios também.

Por exemplo, como evitar o narcisismo digital? Todas essas fotos, milhares delas, divididas em Instagram e Facebook; todos esses detalhes das nossas vidas, a maioria irrelevantes, agora disponíveis na nuvem, acessíveis a todos. O tempo investido –nas fotos, na sua edição, na sua disseminação, na contagem dos "likes"– parece um ritual do Eu, milhões de pessoas disputando o tempo de milhões, clamando pela atenção dos outros. E o que parece estar acontecendo é o efeito inverso, as pessoas se sentindo cada vez mais sozinhas, apesar de toda essa comunicação.

O tempo passa tão rápido que queremos nossas vidas registradas na memória, mesmo se em um eu virtual. Afinal, se só morremos quando as pessoas se esquecem de nós, na nuvem digital podemos viver para sempre. Você já visitou o portal ou página de Facebook de alguém que morreu?

Os que não querem participar da nova era se sentem pressionados, náufragos de um mundo do passado, que afundou. Quem não participar, perde. É esquecido.

Como toda outra tecnologia com profundo poder transformador, não há como escapar. E não temos por que. Os celulares e a mídia social são uma extensão digital de quem somos, amplificando o que temos de bom e de ruim, redirecionando nossa existência a uma dimensão virtual.

Espero apenas que essa festa do Eu não acabe por criar uma apatia social, as pessoas, com cada vez menos tempo, ficando cansadas dos detalhes dos outros, perdendo o interesse em se comunicar e trocar experiências e informação. Mas acho pouco provável.

A aliança entre as forças de mercado que promovem sem trégua essa revolução da transcendência digital com nosso apetite pelo que é belo, estranho ou violento, vão nos manter flutuando na nuvem virtual para sempre, tentando, como sempre fizemos, entender quem somos e qual o sentido de nossas vidas.

domingo, 4 de agosto de 2019

Esalq disponibilizará online e gratuitamente dissertações e teses defendidas desde 1966

Mais de 5.000 obras que existiam apenas no acervo da biblioteca no campus de Piracicaba (SP) serão digitalizadas e disponibilizadas para qualquer interessado.

Por Murillo Gomes, G1 Piracicaba e Região


Trabalhos produzidos na Esalq desde 1966 serão disponibilizadas online — Foto: Divulgação/Esalq Trabalhos produzidos na Esalq desde 1966 serão disponibilizadas online — Foto: Divulgação/Esalq

A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), de Piracicaba (SP), vai tornar pública digitalmente todas as teses e dissertações produzidas nos cursos de pós-graduação da universidade desde 1966 que não possuem impeditivos para serem publicadas. A iniciativa, de acordo com a chefe técnica de Divisão da Biblioteca da Esalq, Marcia Saad, é democratizar o conhecimento e levar para todo mundo as produções da universidade.

“O papel da biblioteca é o de disponibilizar aos seus usuários aquilo que os beneficie de todas as maneiras. Como nós entendemos que nosso usuário não é só o que está aqui, no campus, mas em todo o mundo, tudo aquilo que for possível e legal em relação aos direitos autorais, nós vamos usar”, explica Marcia.

5.079 teses e dissertações
No início dos anos 2000, a política do campus da Universidade de São Paulo (USP) de Piracicaba passou a ser de que todas as produções fossem disponibilizadas em dois formatos. O impresso, que seria encaminhado para a biblioteca, e o digital, para ficar nos arquivos da universidade. Hoje em dia já existem trabalhos que são entregues apenas no formato eletrônico.

Antes disso, porém, a Esalq recebia apenas projetos impressos. De 1966, ano em que ocorreu a primeira defesa em um curso de pós-graduação da universidade, até 2000, foram produzidas 5.079 teses e dissertações, que agora estarão disponíveis no site da universidade gratuitamente. A previsão, segundo Marcia, é que esse processo seja concluído até 2021.

Trabalhos poderão ser encontrados na biblioteca do campus ou de forma online — Foto: Divulgação/Esalq Trabalhos poderão ser encontrados na biblioteca do campus ou de forma online — Foto: Divulgação/Esalq


Trabalho detalhista
O projeto começou de fato em 2018, e o longo prazo para ser concluído se justifica. Com a ideia de disponibilizar todas as teses e dissertações, surgiram também os desafios, como lidar com recursos limitados para a execução. Foi necessário, então, criar um projeto para organizar o processo e fazer com que todos os profissionais disponíveis ajudassem a executá-lo. Ao todo, 22 funcionários técnicos estão envolvidos, além de profissionais de outros setores.

Antes de um trabalho ser digitalizado, o técnico analisa todos os detalhes para que nada seja perdido. Detalhes esses que vão de carimbos, fotos e anexos até anotações a lápis incluídas pelo autor na obra original.

“Por uma iniciativa própria nossa, decidimos digitalizar essa parte retrospectiva, que não estava disponível em digital. Como hoje existe uma política de a universidade estar aberta aos seus conteúdos, sem precisar pagar, resolvemos fazer isso com relação a essas teses. É um trabalho detalhista”, explica a chefe técnica da biblioteca da Esalq.

Pouco mais de 2.000 desses trabalhos já foram digitalizados. Eles ainda passam pelo processo de edição, submissão e, enfim, são encaminhados para a equipe que os disponibiliza digitalmente. Cerca de 500 teses e dissertações anteriores aos anos 2000 e que tinham acesso restrito ao acervo da biblioteca em Piracicaba já estão disponíveis no site da USP.


“Colocar tudo que é conhecimento científico produzido na universidade em acesso aberto. Esse é o nosso objetivo”, conclui Marcia.

Como acessar
Todo o acervo de teses e dissertações digitais da USP está disponível no site da biblioteca digital da universidade. É possível buscar trabalhos pelo ano em que foram defendidos, a área de conhecimento, autor, nível de graduação, orientador ou unidades. O acesso é gratuito e pode ser feito por qualquer pessoa. Atualmente, já existem mais de 5 mil teses e dissertações da Esalq, somando as que foram produzidas já na era digital, disponíveis aos interessados.

Teses da Esalq estão disponíveis gratuitamente na biblioteca digital da USP — Foto: Gerhard Waller - ESALQ/DvComun Teses da Esalq estão disponíveis gratuitamente na biblioteca digital da USP — Foto: Gerhard Waller - ESALQ/DvComun



domingo, 28 de julho de 2019

Arquivo online reúne manuscritos de Jane Austen



Site agrega mais de mil páginas digitalizadas do trabalho de ficção da escritora inglesa, até então dispersas em diferentes acervos

Juliana Domingos de Lima | Nexo

Para estudiosos ou apreciadores de uma obra literária, os manuscritos podem ser reveladores do processo criativo de um autor. 

No caso da inglesa Jane Austen (1775-1817), estes documentos foram, literalmente, escritos à mão. E estão reunidos em imagens de alta qualidade em um site que agrega cerca de 1.100 páginas de ficção escritas por ela, dispersas em diferentes bibliotecas e coleções particulares. 

Os manuscritos digitalizados abrangem todo o período de produção da autora, entre 1787 e 1817, de sua infância até sua morte aos 41 anos. Entre eles há rascunhos, cópias integrais e publicações para circulação privada, relativos a romances como “Persuasão”, de 1817, e à obra inacabada “Sandition”.  

Até 1845, ano da morte de sua irmã Cassandra, todos eles faziam parte de uma mesma coleção. Foram, em seguida, dispersos entre membros da família e, mais tarde, nos anos 1920, passaram a fazer parte de instituições públicas e coleções privadas. 

O projeto de arquivo online foi uma ação conjunta da Universidade de Oxford e do King's College, de Londres. A iniciativa é importante por reunificar os documentos, permitindo que pesquisadores façam comparações simultâneas dos manuscritos e estudem as práticas da escritora ao longo da carreira, uma área ainda negligenciada nos estudos que tratam de sua obra.

Como funciona o arquivo 

No menu do site, é possível buscar por um item específico ou navegar pela seção manuscritos, na qual eles estão agrupados cronologicamente. 

Cada item do acervo online pode ser acessado de múltiplas maneiras: em fac-símile, uma reprodução imagética dos documentos originais que pode ser ampliada por uma ferramenta de zoom; pela transcrição do texto ao lado do manuscrito original ou por meio de uma nota introdutória que fornece detalhes sobre a história e o estado de conservação do documento.

A excepcionalidade de Jane Austen 

Os romances de Austen só passaram a ser publicados com o nome da autora após sua morte. “Razão e Sensibilidade”, de 1811, trazia a inscrição “by a lady” (por uma dama) no lugar de sua assinatura – no século 19, muitas autoras publicavam sem assinar ou sob pseudônimos masculinos. Ainda assim, Jane Austen goza de enorme popularidade 200 anos depois de sua morte, tanto no Reino Unido quanto em outros países. 

Sobre as dificuldades de ser uma mulher escritora na época, e o contexto em que os manuscritos do arquivo foram produzidos, a autora inglesa Virginia Woolf cita, em seu ensaio “Um teto todo seu”, de 1929, um trecho das memórias do sobrinho de Austen. Ele afirma que ela não dispunha de um espaço reservado para escrever e que o fazia na sala de estar comum, sujeita a todo tipo de interrupções. 

Tomava o cuidado para que ninguém fora de seu círculo familiar suspeitasse de sua atividade. “Jane Austen escondia seus manuscritos ou cobria-os com um pedaço de mata-borrão”, escreveu Woolf.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Privacidade Hackeada: novo filme da Netflix fará você repensar o que compartilha no Facebook



Nesta quarta-feira, 24 de julho, chegou à Netflix o filme documentário Privacidade Hackeada (The Great Hack, em inglês), inspirado no escândalo de roubo de dados em que o Facebook foi acusado, após a empresa Cambridge Analytica coletar dados de 87 milhões de usuários sem consentimento. O escândalo levou ao primeiro depoimento do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, perante o Congresso Americano, e provocou investigações no Reino Unido, na Índia e no Brasil.

O documentário estreou no Festival de Cinema de Sundance no início deste ano e foi divulgado no início da campanha presidencial de 2020. O timing de estreia do filme não poderia ser mais perfeito: esta semana, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos deve multar em US$ 5 bilhões o Facebook por seus supostos incidentes de privacidade. E, como se isso não bastasse, Robert Mueller, o ex-conselheiro especial que investigou a interferência russa nas eleições de 2016, algumas das quais ocorreram no Facebook, vai testemunhar nesta quarta-feira.

A Cambridge Analytica é uma empresa de análise de dados baseada no Reino Unido, cuja controladora é a Strategic Communication Laboratories. A Cambridge Analytica ajuda campanhas políticas a alcançarem potenciais eleitores online. A empresa combina dados de várias fontes, incluindo informações online e pesquisas, para criar “perfis” de eleitores.

Privacidade Hackeada
O filme documentário de duas horas é mais do que sobre a queda de uma empresa de análise de dados ou seu papel em uma eleição histórica. Privacidade Hackeada (The Great Hack) apresenta uma pergunta simples: “Estamos sendo manipulados pelas mídias sociais, mesmo quando fornecemos às empresas de tecnologia nossas informações pessoais?”

Privacidade Hackeada (The Great Hack) segue o escândalo através dos olhos de vários participantes, incluindo Brittany Kaiser , ex-diretora de desenvolvimento de negócios da Cambridge Analytica que virou delatora. Kaiser foi questionado pelos legisladores do Reino Unido e por Mueller. Antes de ingressar na Cambridge Analytica, ela trabalhou na campanha presidencial de Barack Obama.

Os diretores de Privacidade Hackeada, Jehane Noujam e Karin Amer também acompanham David Carroll, professor associado da Parsons School of Design, de Nova York, que se empenha em descobrir quais dados Cambridge Analytica reuniu sobre ele. O filme apresenta aparições de Carole Cadwalladr, um jornalista investigativo do The Guardian, que conta como descobriu o escândalo, e Julian Wheatland, ex-diretor de operações da Cambridge Analytica.

A diretora Jehane Noujam argumenta que podemos encontrar um equilíbrio limitando a quantidade de informações pessoais que compartilhamos em troca dessas conexões pessoais. Ela diz que as empresas de mídia social devem se ver como “empresas de serviços públicos” com responsabilidades éticas.

O escândalo da Cambridge Analytica
O Facebook afirmou em um comunicado em 16 de março de 2018, que o Cambridge Analytica recebeu dados de usuários a partir de Aleksandr Kogan, um professor da Universidade de Cambridge. Kogan teria criado um aplicativo chamado “thisisyourdigitallife”, que ostensivamente oferecia previsões de personalidade aos usuários, enquanto se autodenominava uma ferramenta de pesquisa para psicólogos.

O aplicativo pediu aos usuários que fizessem login usando suas contas do Facebook. Como parte do processo de login, ele solicitou acesso aos perfis do Facebook dos usuários, locais, suas curtidas e, mais importante, os dados de seus amigos também.

Segundo o Facebook, o problema é que a Kogan enviou esses dados dos usuários para a Cambridge Analytica sem a permissão dos usuários, algo que é contra as regras da rede social. Um ex-executivo da empresa, Brittany Kaiser, disse que é possível que mais perfis de pessoas tenham sido apanhados no escândalo do que os 87 milhões que o Facebook já contou até agora.

O atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contratou a Cambridge Analytica para executar operações de dados durante a eleição de 2016. A empresa ajudou a campanha a identificar os eleitores para segmentar com anúncios e deu conselhos sobre a melhor maneira de focar sua abordagem, como onde fazer paradas na campanha. Também ajudou na comunicação estratégica, como o que dizer em discursos.

Privacidade Hackeada (The Great Hack) está disponível na Netflix. O filme documentário também será exibido em cinemas selecionados dos Estados Unidos.

sábado, 6 de julho de 2019

Como será o futuro digital dos filmes e séries?

Foi em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895, que os irmãos Auguste Marie Louis Nicolas Lumière e Louis Jean Lumière apresentaram, pela primeira vez, um filme numa exibição pública.

Com quase 125 anos de idade, ao menos em sua forma moderna, a chamada Sétima Arte faz parte da nossa vida cotidiana e está longe de ser um fenômeno excêntrico como na época dos irmãos Lumière.

Com a difusão dos cinemas, que ganhavam cada vez mais popularidade, especialmente em épocas de crise (como na década de 1930, nos Estados Unidos, por exemplo), os filmes se tornaram uma parte “comum” do entretenimento das pessoas, especialmente nos grandes centros urbanos.

Auguste Marie Louis Nicolas Lumière e Louis Jean Lumière.

E, principalmente a partir dos anos 1950, a grande produção e comercialização de aparelhos de TV (inicialmente, objetos de luxo para um pequeno número de pessoas) fez com que a Sétima Arte se expandisse para outros nichos, com novelas, dramas, telejornais e todo o tipo de conteúdo imaginável.

Mais tarde, principalmente com o conceito de sitcom estadunidense, as séries (histórias divididas em vários episódios, geralmente de curta ou média duração) se transformaram em uma captação massiva de audiência, sendo produzidas em grande escala principalmente a partir dos anos 1970.

Os cinemas vão morrer?

Inicialmente, assistir TV era uma atividade “social”: a família inteira reunida em frente a um único aparelho televisor. Os cinemas, então, eram o “ápice” e os templos para essa atividade social.

Hoje, mesmo que isso ainda possa acontecer, a realidade é bastante diferente. Com dispositivos móveis como tablets e smartphones conectados à internet, e por meio de vários serviços de streaming, assistir esses conteúdos se transformou em uma atividade essencialmente “individual” – cada membro da família com os olhos grudados em seu próprio celular.

Muitos especialistas previram o fim dos livros convencionais (impressos em papel) por conta dos e-books e outras formas digitais de leitura. Obviamente, isso não aconteceu.


Embora seja impossível afirmar o mesmo em relação aos cinemas, é bem difícil definir se esses espaços serão extintos por causa de serviços como Netflix e outros agregadores de filmes.

Assim como a pirataria não matou a indústria de games (que, hoje, já lucra muito mais do que a própria indústria de filmes), é praticamente ilógico dizer que o entretenimento de massas em dispositivos móveis vai destruir os templos sagrados da Sétima Arte.

Algumas tendências possíveis

Mesmo em um mercado praticamente dominado pela Netflix, os serviços de streaming já são uma tendência e há várias outras plataformas do tipo, como o Spcine Play, Looke e Crackle.

Ao invés de competir diretamente com os gigantes do ramo, é bem lógico afirmar que haverá plataformas do tipo com uma segmentação cada vez maior, ou seja, plataformas criadas para atender gêneros e públicos específicos – como, por exemplo, o Philos, que é um serviço de streaming totalmente voltado para documentários, e o Afroflix, com foco em produções africanas ou que envolvam temáticas da África.

Desde opções totalmente gratuitas até serviços pagos, nós já podemos afirmar que esses tipos de estruturação de conteúdos já estão substituindo, em larga escala, as programações convencionais dos canais de TV, mesmo os pacotes TV por assinatura – ao menos em termos de entretenimento, embora os telejornais tradicionais ainda sejam difusos entre o grande público.


Mas, assim como refletimos sobre o cinema, será possível dizer que os serviços de streaming serão a causa da morte da televisão? Definitivamente, a TV não vai morrer (não por enquanto, pelo menos).

O que a internet está fazendo é influenciar a programação de vários canais tradicionais, que já buscam referências no meio virtual e, inclusive, criam programas e linguagens baseados nos padrões de usuários da internet (embora, é claro, a mídia convencional ainda não lide muito bem com isso, inclusive falhando, em alguns casos, ao tentar copiar a linguagem dos memes).

É o fim do conceito de privacidade?

Por mais incrível (e ilógico) que possa parecer, a tendência das mídias é individualizar o consumo dos conteúdos, e, ao mesmo tempo, romper as barreiras da privacidade. As redes sociais, em sua maioria esmagadora, são um ótimo exemplo disso.

Se os aparelhos de televisão possuem o mítico e lendário aparelho de medição de Ibope, para que as emissoras tenham uma noção de seus públicos, por outro lado os serviços por internet vêm associados a uma série de informações e dados do usuário, como dados do cartão de crédito, por exemplo.

Se até pode parecer bizarro e invasivo saber que alguém pode registrar a programação que você vê na TV, imagine como seria nossa reação diante do fato de que, literalmente, muitos desses serviços podem até comercializar suas informações.


A tendência é perceber a difusão das informações do usuário seja por meios formais, como nos contratos dos serviços (aqueles que, geralmente, o usuário não lê antes de confirmar) ou por meio de hackers.

A integridade das informações será a nova realidade do consumo de entretenimento.

Além de manter a segurança da sua rede, é interessante usar mecanismos como provedores VPN. Mas, o que é VPN? São aplicativos que ajudam a criptografar os dados transmitidos pela rede à qual você se conecta, e, de quebra, melhora a velocidade de conexão e evitam aqueles temidos travamentos nos serviços de streaming.

Não temos uma bola de cristal, mas é possível fazer uma “previsão”: Os filmes e séries não serão o futuro, eles já são a realidade e farão cada vez mais parte do nosso cotidiano, cada vez mais acessíveis e popularizados.

via Promoview


sexta-feira, 5 de julho de 2019

Liberdade pessoal e os perigos da ditadura digital


Marcelo Gleiser, trecho do livro "O Caldeirão Azul" (Record, 2019)
Imagem: Internet

Será que a humanidade está criando o seu próprio fim? Será que somos umas das últimas gerações da espécie Homo sapiens que, em breve, será suplantada por seres cibernéticos que mal se parecem com seus criadores (nós)?

No dia 24 de janeiro, o historiador e autor Yuval Harari apresentou sua visão do futuro no Fórum Mundial de Economia em Davos, na Suíça. Harari é famoso no Brasil por seus best-sellers "Sapiens - Uma Breve História da Humanidade" e "Homo Deus - Uma Breve História do Amanhã".

Em uma apresentação fascinante, Harari construiu um futuro terrível —mas possível— baseado em sua tese de que estamos agora na terceira grande revolução, o controle de dados, que segue o controle da terra (Revolução Agrária) e o controle das máquinas (Revolução Industrial).

O fim da nossa espécie, segundo ele, ocorrerá quando for possível extrair de cada indivíduo dados biométricos de alta precisão que serão, então, analisados por um sistema centralizado de decisões controlado por governos ou corporações (ou ambos).

Dados biométricos incluem, por exemplo, o seu batimento cardíaco, pressão arterial, composição do suor, dilatação das pupilas etc. Uma espécie de detector de mentiras de alta sofisticação que permite mapear fisiologicamente suas emoções.

Imagine, sugeriu Harari, que o governo da Coreia do Norte force seus cidadãos a usar um bracelete que transmite dados biométricos aos centros de dados do governo. Com isso, o governo poderá monitorar o que as pessoas pensam do seu líder e, essencialmente, como vivem o seu dia a dia. Poderão até saber mais sobre você do que você mesmo, visto que muitas vezes nem sabemos o que está ocorrendo com nossas emoções.

A visão de Harari ecoa, com tons de historiador, a “singularidade” do inventor americano Ray Kurzweil, sem a expectativa um tanto romântica de Kurzweil de que a tecnologia nos trará a imortalidade. (Ao menos, uma versão de imortalidade, com nossa essência, a informação de quem somos, transferida a computadores com capacidade de emular nosso consciente.) Convido os leitores que queiram saber mais sobre Kurzweil a assistir o documentário "Transcendent Man".

A ideia central de Harari é que estamos próximos a conseguir modificar o “programa da vida”. Se pensarmos em organismos como sendo algoritmos, basta termos capacidade de computação e dados biométricos suficientes para criarmos qualquer tipo de criatura viva.

Afinal, se a vida é como um programa de computador (o software) que roda nas reações bioquímicas que definem nosso metabolismo (o hardware), podemos modificar o programa e criar novos algoritmos correspondendo a outros tipos de criatura. Juntando a isso os avanços na área da inteligência artificial, podemos contemplar o fim da nossa espécie, que se tornaria obsoleta.

Outro modo de ver isso: pela primeira vez na história, podemos controlar as rédeas da evolução, que deixa de depender da seleção natural.

A questão essencial, portanto, é: Quem controlará esses dados? Como que esta nova fonte de riqueza será regulada? Temos leis que regulam a possessão da terra e das máquinas. Quais as leis que regulam os dados e a privacidade das pessoas?

Harari especula que a maioria das pessoas doará suas informações privadas de graça, seus dados biométricos, especialmente em troca de uma saúde melhor. Ou, em uma ditadura, talvez não tenham outra opção.

Ou ainda, e mais pertinente com o que já está acontecendo, pessoas fornecem dados biométricos em troca de serviços oferecidos por empresas: “Receba suas entregas de graça em casa e muitas outras ofertas se você nos passar os dados biométricos registrados no seu relógio esportivo ou Fit-Bit”.

Harari é corretamente vago ao prever quando isso vai ocorrer: décadas, talvez um século. Mas na sua visão, como na de Kurzweil, esse futuro é inevitável.

Obviamente, ninguém pode prever o futuro. O que podemos fazer é extrapolar o que sabemos no presente da melhor forma possível.

Não há dúvida de que computadores serão cada vez mais poderosos, e que a genética e a bioengenharia continuarão a avançar rapidamente. A ciência de dados (do inglês data science), que atende principalmente aos interesses de empresas e governos, vai ficar cada vez mais sofisticada. Forças de mercado e a gana de investidores vão continuar a alimentar a nova revolução.

Será que não existem outras tendências, capazes de equilibrar essa inevitabilidade?

Felizmente, acho que sim.

Os tempos estão mudando de várias formas. Em primeiro lugar, estamos testemunhando o surgimento da ética empresarial. Um número cada vez maior de empresas está percebendo que se não alinharem seus valores com os dos seus clientes, irá perdê-los.

Um exemplo recente nos EUA é o boicote de várias empresas à Associação Nacional do Rifle, que defende o direito do cidadão ao porte de armas de fogo. (Lamentavelmente, um projeto do Senado propõe a revogação do Estatuto do Desarmamento no Brasil. Não existe um modelo pior do que o americano a ser copiado, vide os constantes massacres em escolas e lugares públicos.)

O consumidor tem poder, mais do que imagina. Empresas e instituições com padrões éticos baixos podem ser forçados a mudar de posição.

Outro ponto é que a ciência tem limites, em particular do quanto podemos saber do mundo e de nós mesmos. Essa convicção, inclusive de Harari, de que a ciência irá saber tudo, conquistar tudo, não tem nenhum respaldo na prática ou historicamente.

A onisciência é reservada aos deuses. A tecnologia é limitada, mesmo se avança sempre. Monitorar a atividade de 85 bilhões de neurônios e dos neurotransmissores fluindo através de trilhões de sinapses é impossível. No máximo, podemos ter um mapa incompleto do que ocorre no nosso corpo e cérebro.

Harari parece confundir o mapa (como descrevemos o mundo) com o território (o mundo como ele é de fato), um erro típico de uma cultura que defende o triunfalismo científico como uma espécie de nova religião.

Nossa percepção da realidade depende de como vemos o mundo. A ciência jamais responderá todas as perguntas. Pelo contrário, no seu avanço, encontra novas perguntas que não poderia ter antecipado.

De qualquer forma, mesmo com dados biométricos limitados, governos e empresas podem causar sérios danos.

Concordo com Harari que precisamos começar essa conversa sobre nosso futuro coletivo imediatamente. Concordo, também, que de forma alguma essa conversa pode ser relegada a políticos, que tipicamente pouco ou nada sabem sobre avanços científicos.

Quem, então, irá controlar o armazenamento de dados pessoais? Quais os limites e salvaguardas que devem ser impostos para garantir nossa liberdade na era da ditadura digital?

Precisamos de uma pluralidade de opiniões: cientistas, humanistas, empresários, artistas, advogados, líderes comunitários. O perigo maior é a apatia, é o não fazer nada. Historicamente, as maiores tensões ocorreram quando o controle da terra e das máquinas ficou na mão de poucos. Com dados, temos o mesmo desafio, e com um bem muito mais fluido, muito mais difícil de controlar.

No meio tempo, tenha cuidado com os seus dados biométricos. Aqueles que você capta no seu Fit-Bit ou relógio esportivo e divide inocentemente na rede, achando que só você e seus amigos se importam com eles.

Revista MAD deixará as bancas nos EUA e será vendida apenas em lojas de quadrinhos

Clássica publicação satírica só vai sair agora com coletâneas de histórias "vintage" e em especiais de fim de ano

Bloomberg | O Globo

Mark Zuckerberg, do Facebook, na capa da revista, com Alfred E. Neuman. Foto: reprodução


A revista satírica MAD vai deixar as bancas nos Estados Unidos depois de 67 anos e não publicará mais conteúdo novo. Segundo sua editora, a DC, a revista, famosa pela onipresente cara sardenta de Alfred E. Neuman em suas capas, só vai sair, a partir de agora, em edições vintage e especiais de fim de ano.

Em alguma semanas, disseram os editores, a revista bimensal trará apenas conteúdo antigo e passará a ser vendida em lojas de quadrinhos. Os assinantes continuarão a recebê-la, e ainda haverá livros e coletâneas da publicação.

"Trabalhar na MAD era um sonho de infância que realizei. A MAD é uma instituição com uma história riquíssima", escreveu a ex-editora Allie Goertz numa rede social. "Ela influenciou praticamente todo comediante e escritor que admiramos".

A revista era a última das publicações satíricas ainda impressa. A Spy, fundada e editada por Carter e Kurt Anderson, fechou em 1998. The Onion parou de ser impressa em 2013, mas ainda está atuante na internet e nas mídias sociais.

"Estou muito triste ao saber que, depois de 67 anos, a MAD vai parar de ser publicada. Nem sei como descrever o impacto que ela teve em mim na infância", tuitou o humorista ‘Weird Al’ Yankovic, que foi o primeiro editor convidado da revista em 2015. "Adeus a uma das maiores instituições americanas de todos os tempos".