terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Universidade dos EUA abre arquivos de Garcia Márquez

Instituição disponibiliza gratuitamente mais da metade do arquivo de 27 mil páginas do Nobel em Literatura. Medida chama a atenção, já que obra do colombiano continua protegida por direitos autorais.

Deutsche Welle

 Schriftsteller Gabriel Garcia Marquez (picture-alliance/AP Photo/E. Verdugo)
'Gabo' em foto de 2011

Mais da metade de um arquivo de 27 mil páginas referentes ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez foi liberada para uso público gratuito, informou o jornal The New York Times nesta segunda-feira (11/12).

O material em questão envolve diversos manuscritos, fotografias, roteiros e cartas, além de 22 cadernos de anotações pessoais e de memórias do prêmio Nobel de Literatura, tudo issoagora disponível na internet tanto em inglês como em espanhol.

A iniciativa partiu do Centro Harry Ransom, da Universidade do Texas, que adquiriu o arquivo literário do autor em 2014 por 2 milhões de dólares. A medida chama a atenção pelo fato de a obra ainda estar sob proteção dos direitos autorais.

"Muitas vezes, tem-se uma visão limitada da propriedade intelectual, com a ideia de que o uso acadêmico ameaça ou diminui seu interesse comercial", disse ao jornal Steve Enniss, diretor do Harry Ransom Center.

"Agradecemos a família de Gabo por liberar o arquivo e reconhecer esse trabalho como uma prestação de serviço a seus leitores em todo o mundo", acrescentou, usando o popular apelido pelo qual Garcia Márquez é conhecido.

Desde 2015, quando foi aberto para pesquisas, o arquivo do escritor colombiano se tornou uma das coleções mais circuladas da instituição, um fenômeno que agora deverá se expandir ainda mais.

"Qualquer pessoa com acesso à internet pode ter uma visão aprofundada do arquivo de García Márquez", disse Jullianne Ballou, bibliotecária do projeto Ransom Center. "Abrangendo mais de meio século, o conteúdo reflete a energia e a disciplina de García Márquez e revela uma visão íntima de seu trabalho, família, amizades e política."

O escritor alcançou renome internacional graças ao uso do chamado "realismo mágico”, especialmente em romances aclamados como 100 anos de solidão e O amor nos tempos de cólera. Após sua morte em 2014, ele chegou a ser descrito pelo presidente Juan Manuel Santos como o "maior colombiano que já viveu".

Garcia Márquez começou a carreira de escritor como jornalista e não teve medo de tecer críticas tanto contra políticos colombianos como contra estrangeiros. Um crítico ardente do capitalismo desenfreado, também se opôs ao que ele apontou ao longo de sua vida como um imperialismo arrebatador por parte do governo dos Estados Unidos.

Seus laços com o partido comunista da Colômbia foram inclusive motivo para que ele fosse proibido de entrar nos EUA por três décadas. Ironicamente, Garcia Márquez é o romancista favorito do ex-presidente americano Bill Clinton, que uma vez o chamou de "o mais importante escritor de ficção em qualquer idioma desde a morte de William Faulkner".

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A máquina que trava a ciência


Como exigências burocráticas e uma cultura que privilegia a quantidade em vez da qualidade levam cientistas à exaustão - e à malandragem.

Superinteressante (Dezembro/2017)

O tcheco Ján Hoch tinha 16 anos em 1940, quando perdeu a família nas câmaras de gás de Auschwitz. Sem lenço e sem documento, alistou-se em um contingente de exilados do exército inglês, mudou de nome para Robert Maxwell e combateu na 2a Guerra Mundial. Ao final do conflito, ganhou condecorações e cidadania britânica. Acabou destacado para uma base na Berlim ocupada.

O militar não sabia, mas sua temporada na capital alemã o tornaria um milionário – e mudaria a história da ciência. Lá ele conheceu a Springer, uma editora alemã fundada em 1842. Eles eram especialistas em publicar artigos científicos: os textos que todo pesquisador precisa escrever para divulgar seus experimentos, descobertas e resultados de pesquisa.

Investir nesse ramo em um continente destruído não é um jeito óbvio de ganhar dinheiro. Maxwell, porém, enxergou longe: percebeu que a ciência iria bombar no pós-guerra. Os governos, afinal, já tinham percebido que, quanto maior o avanço nos laboratórios, maior a vantagem no front (a bomba atômica, filhote da Teoria da Relatividade, que o diga). Então não faltaria dinheiro público para as pesquisas. Além disso, era óbvio que os cientistas britânicos precisariam cada vez mais de notícias sobre a ciência que estava sendo feita em outros países – a começar pela própria Alemanha, onde ele estava.

Bingo. Maxwell acionou sua rede de contatos e em dois tempos se tornou distribuidor oficial de artigos científicos da Springer no Reino Unido e nos EUA. A sacada foi tão lucrativa que em 1951 ele já tinha capital e contatos para fundar sua própria editora, agora em território britânico – a Pergamon Press. Maxwell prosperou, criou um império midiático e passou décadas nas listas de homens mais ricos da Inglaterra.

Mas o grande legado do magnata não foi exatamente a Pergamon. Foi ter criado um modelo de negócios extremamente lucrativo. E que ainda dá um belo dinheiro: a editora Elsevier – que comprou a Pergamon em 1991 e hoje é a maior editora de literatura científica do planeta – lucrou US$ 1 bilhão sobre um faturamento de US$ 2,7 bilhões, margem de lucro de 36,7%, maior que o do Google (26,5%).

Lindo. Só tem um detalhe: essa indústria pode ser péssima para a ciência. É o que vamos ver a seguir.

De Newton à Nature

Na ciência, não basta descobrir, é preciso contar aos outros o que você descobriu. Copérnico, Galileu e Newton, por exemplo, escreviam livros técnicos, relatando suas experiências e resultados. Com o tempo, a divulgação passou a acontecer menos por livros e mais por artigos científicos – peças curtas, publicadas em revistas e periódicos especializados.

As primeiras revistas científicas, lá no século 18, não tinham fins lucrativos. Mas com o aumento dos investimentos públicos nos laboratórios, a partir da década de 1950, as universidades passaram a ter muito mais pesquisadores. São todos funcionários com carteira assinada, que precisam mostrar serviço – e que recebem avaliações de desempenho.

Pois bem. Para fazer essas avaliações, a comunidade acadêmica adotou basicamente dois critérios: a quantidade de artigos científicos publicados em revistas – um suposto sinal de produtividade e dedicação – e o número de vezes em que esses artigos são citados em outros artigos – o que, em teoria, é uma evidência de que o trabalho foi relevante e influente.

Bom, os cientistas não querem lucro, só divulgação. Então entregam o material de graça. Na outra ponta da equação, há as universidades, que não têm outra opção a não ser pagar o que as editoras pedem para ter acesso às pesquisas mais importantes (afinal, um pesquisador só consegue trabalhar se puder ler o trabalho de outros pesquisadores). Isso deu origem a um modelo de negócio sem igual: você, dono da editora de periódicos científicos, recebe conteúdo de graça e vende a um público disposto a pagar muito.

“Quando os cientistas passaram a ser avaliados por produtividade, eles tiveram de publicar mais”, diz Fernando Reinach, ex-biólogo da USP. Empresários como Maxwell farejaram o bom negócio – pegar de graça do governo [que financia as pesquisas] para vender de volta para o governo [que financia as universidades] – e mais do que isso: perceberam que era fácil incentivá-lo com um empurrãozinho.

O empurrãozinho, no caso, foi criar grifes da ciência: periódicos muito seletivos, que só publicam a nata das pesquisas. Sair em títulos como Cell, Nature ou Science dá visibilidade e é bom para a carreira dos cientistas. Outro estímulo para o lucro foi criar uma maré de revistas extremamente especializadas, que abarcavam todos os nichos da ciência – até os que ainda nem existiam.

“Quando um periódico fica famoso, ele cria um monopólio em sua área. Se há um periódico de um determinado campo [de pesquisa], todas as bibliotecas universitárias precisam ter uma assinatura”, explica Neal S. Young, chefe do setor de Hematologia do Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos EUA. “Com isso, as editoras podem cobrar preços muito altos.” A própria Elsevier tem 2,7 mil títulos – entre eles Revascularização Cardiovascular e o Periódico Internacional de Adesão e Adesivos.

As bibliotecas, com orçamentos na casa dos milhões de dólares, se entupiram de revistas especializadas. Em 1988, Maxwell afirmou que, com a internet e o fim dos custos de impressão, as editoras científicas lucrariam mais ainda. Acertou.

“Na era digital, a figura da editora científica é ainda mais importante”, afirma Dante Cid, vice-presidente de relações acadêmicas da Elsevier no Brasil. “Ela inibe a disseminação de informações equivocadas e colabora com a distribuição da pesquisa de qualidade.”

De fato, os padrões de excelência da Elsevier e de outras editoras de peso continuam altos. Mas o sistema causa distorções. “Um Newton da vida, que passava a vida toda trabalhando e publicava pouco, não teria chance no século 21”, diz Fernando Reinach.


2,7 mil: É o número de revistas científicas de uma única editora, a Elsevier. São títulos ultraespecializados, como “Periódico Internacional de Adesão e Adesivos” e “Revista da Sociedade da Fertilidade do Oriente Médio”. 

Masturbação acadêmica

Hoje, para um cientista brasileiro da área de Farmácia receber a classificação máxima (1A) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, ele precisa ter publicado 70 artigos científicos nos últimos dez anos. Ou seja: ele é obrigado a criar um avanço científico a cada dois meses.

Como a classificação de um cientista no CNPq define quanto dinheiro ele pode receber para suas pesquisas, surge a mentalidade do “quanto mais, melhor”. A quantidade bruta de artigos passa a valer mais do que a criatividade e a originalidade de cada um. Os pesquisadores, sob pressão, se preocupam mais em bater metas do que em produzir boa ciência. “É aflitivo”, resume Kenneth Camargo, professor de saúde coletiva da UERJ e editor de revistas científicas. “Para conseguir promoções na carreira e recursos de pesquisa, você é induzido a publicar o tempo todo. E isso gera expedientes eticamente discutíveis.”

Um desses expedientes é o “pedágio”: você, cientista, exige ser creditado como autor em alguma pesquisa que tenha usado equipamento do seu laboratório – mesmo que você nem tenha participado do estudo. Outro é a “ciência salame”: fatiar uma pesquisa longa, que deveria ser apresentada de uma vez só, em vários pequenos artigos com conclusões parciais – o que aumenta o volume de produção e a classificação acadêmica do autor.

Uma consequência do salame é que o impacto científico de cada artigo diminui. E aí surge um problema: não basta publicar muito. Suas publicações também precisam servir de referência para pesquisas futuras no mesmo assunto. Se seu trabalho é fragmentado e inconclusivo, outros cientistas não terão motivo para consultá-lo.

É fácil verificar essa infestação de artigos pouco relevantes nos números. Um estudo feito por Sidney Redner, da Universidade de Boston, revelou que, dos 353  mil estudos publicados entre 1893 e 2003 na Physical Review, apenas 2 mil (0,56%) tiveram mais de cem citações. Oitenta e quatro mil (24%) foram citados só uma vez.

O número de citações, porém, também adiciona pontos de desempenho. Então não vale a pena fazer um monte de salames, certo? Não: os pesquisadores criaram artifícios para obter citações do nada. É o caso d0s “clubes de citações”. Você força a barra no seu artigo para citar trabalhos dos colegas. Os colegas sabem que você faz isso por eles, e também dão um jeito de citar seus artigos pouco relevantes. Pronto, está formado o clube. Também há as autocitações: você chega e cita a si próprio. Masturbação acadêmica.

Pagou, passou

Se nada da lista acima der certo, ainda há as revistas científicas do tipo “pagou, passou.” Esse nicho de mercado surgiu na última década, com intenções boas: as gigantes, como Nature e Science, ofereceram aos pesquisadores a opção de pagar pelos custos de publicação de seus artigos. Assim, o conteúdo fica disponível gratuitamente na internet, sem paywall ou assinatura – colaborando com a democratização da ciência.

Era só uma transferência do custo de publicação: parar de cobrar do leitor e passar a cobrar do autor, sem diminuir as exigências de qualidade. Mas é claro que a fronteira entre pagar para liberar o acesso à pesquisa e pagar para conseguir publicar um artigo péssimo é tênue, para dizer o mínimo. Tanto que surgiu um mercado paralelo de revistas picaretas, que topam qualquer negócio.

Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, estima que entre 5% e 10% dos artigos open access tenham sido publicados por periódicos que nem leem o material enviado por pesquisadores desesperados – e cobram centenas de dólares por essa conveniente vista grossa.

70 artigos científicos em 10 anos: É o que um cientista brasileiro da área de Farmácia precisa publicar para chegar ao topo da carreira. Nem um Isaac Newton teria chance nesse modelo. A solução? “Fatiar” uma única descoberta em vários artigos. Diluindo, rende mais. 

Em 2014, para fazer um teste bem-humorado, o cientista da informação australiano Peter Vamplew enviou a uma dessas publicações caça-níqueis um artigo falso intitulado Get Me Off Your Fucking Mailing List (em bom português, “me tire da sua p**** de lista de e-mails”). A coisa consistia, dos gráficos à conclusão, no pedido do título repetido 870 vezes.

Algumas semanas depois, recebeu a resposta da revista – que, apesar do site de aparência amadora, leva o pomposo nome de Periódico Internacional de Tecnologia Computacional Avançada: os editores pediram algumas “referências a mais”. De resto, tudo ótimo: Me tire da sua p**** de lista de e-mails foi aprovado para publicação.

Esse arsenal de truques deixa claro: publicar com qualidade e em quantidade ao mesmo tempo é impossível. “A boa ciência, que é de fato inovadora, sempre foi rara”, afirma Kenneth Camargo. “Muita gente trabalha, mas as grandes contribuições são agulhas no palheiro. Com essa maré de artigos científicos, você multiplica os palheiros, mas não as agulhas.”

Por outro lado, avaliar ciência sem usar números não é tarefa fácil. Mesmo o CNPq tem consciência de que quantidade não é sinônimo de qualidade. Acontece que não há uma maneira objetiva de medir criatividade e inovação. No final do dia, as bolsas ainda precisam ser distribuídas e os professores ainda precisam ser contratados de acordo com seus méritos. As universidades concordaram que citações e artigos são o melhor jeito de fazer isso – e as editoras pularam dentro. Mesmo assim, não falta quem nade contra essa corrente.

Robin Hood na pós

Em junho deste ano, aos 28 anos de idade, a pesquisadora Alexandra Elbakyan, nascida no Cazaquistão, foi condenada pela Justiça americana a pagar US$ 15 milhões à Elsevier. A ativista começou uma carreira promissora na neurociência, mas não tinha verba para consultar as dezenas de artigos científicos que precisava para sua pós-graduação. Se uma universidade não assina um determinado periódico, o pesquisador precisa desembolsar em média US$ 30 para acessar um único artigo por apenas 48 horas. Salgado.

Dante Cid, da Elsevier, justificou à SUPER que os preços altos são reflexo da enorme operação da editora – que emprega 7,5 mil pessoas em 12 países e publica 16% de todas as descobertas do mundo.

Seja como for, Alexandra Elbakyan estava em busca de uma solução para o bolso dos cientistas. Descobriu, então, que vários deles usavam fóruns na internet para compartilhar senhas e assinaturas de periódicos. Inspirada pelo método, em 2011 criou o Sci-Hub: um banco de artigos pirateados que contém 64,5 milhões de arquivos – tudo alimentado por senhas fornecidas anonimamente.

“O Sci-Hub é para a ciência hoje o que o Napster foi nos anos 1990”, avalia Marco Mello, professor de ecologia da UFMG. “Se ele não tivesse aparecido, a indústria da música não teria se reinventado. Essas iniciativas estão forçando o sistema a se repensar.”

Elbakyan se exilou e está fora do alcance da Justiça americana, mas o Sci-Hub continua no ar, hospedado em domínios exóticos como o das Ilhas Cocos (.cc). De que a iniciativa é ilegal, não há dúvida. Mas sua popularidade silenciosa entre acadêmicos é um sintoma da frustração com o status quo da publicação científica. Dá para entender por quê.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Coleção "500 Perguntas 500 Respostas" Embrapa



As publicações dessa coleção foram elaboradas a partir de perguntas formuladas por produtores, associações de produtores, cooperativas, etc. e respondidas pela Embrapa. Além de ter acesso aos conteúdos de cada edição, você pode fazer o download dos títulos em versão digital ou comprar a versão impressa.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

‘Eis o Admirável Mundo em Rede’: internet, anonimato, desumanização

A Internet é aquilo que ninguém conseguia prever

Sandro Cantante | Comunidade Cultura e Arte (Portugal)


Na Internet, ninguém sabe se tu és um cão. A frase vem associada a um cartoon da New Yorker (1993), referindo-se ao anonimato que marca as comunicações na Internet e é recuperado por Werner Herzog no seu documentário Eis o Admirável Mundo em Rede ou, no original, Lo and Behold, Reveries of the Connected World (2016). [Eis os Delírios do Mundo Conectado  no Brasil] Contrastando com esta ideia, o informático americano Danny Hillis, um dos muitos entrevistados pelo realizador alemão, relembra os tempos em que havia apenas outros dois Dannys a utilizar a Internet e que ele os conhecia aos dois. A evolução até aos tempos correntes é tão impressionante como inesperada, mas a tarefa de catalogar todos os utilizadores da Internet tornou-se impossível. Esta evolução alterou irremediavelmente o modo como comunicamos, mas considerando factores como a desumanização das interações sociais associada, serão estas mutações sinônimo de progresso?

O físico americano Lawrence Krauss, entrevistado em Lo and Behold, afirma que a Internet é aquilo que ninguém conseguia prever. Os filmes de ficção científica retratavam carros voadores e naves espaciais a explorar o Universo, mas poucos conseguiram imaginar algo que se assemelhasse ao que hoje é a Internet e ao modo como as pessoas comunicam. A busca pelo progresso está hoje no seu pico e muitas são as situações ilustradas por Herzog no seu documentário que demonstram que o ser humano não pretende desistir do aperfeiçoamento do sintético. Torna-se muitas vezes mais fácil dar valor ao veículo da comunicação, seja um computador ou um smartphone, do que ao aspecto humano que se materializa no receptor da nossa mensagem. No momento em que escrevo este texto, num de muitos cafés em Lisboa, das onze pessoas presentes apenas duas estão a ter uma conversa sem ser por meio de qualquer dispositivo. As restantes nove estão fixadas em telemóveis, tablets ou computadores, grupo onde eu próprio me incluo.


Hoje contamos com Facebook, WhatsApp, Skype, Tinder, entre inúmeras outras aplicações e plataformas que permitem conectar instantaneamente com outras pessoas localmente ou em qualquer ponto do globo. No entanto, a desumanização é uma realidade e torna-se mais comum ver um perfil, um avatar ou um simples nome a representar aquilo que é uma pessoa, sendo muitas vezes essa toda a informação que temos acerca dela. Longe está o tempo em que apenas três Dannys navegavam na Internet e se conheciam entre si, quando existia um pequeno livro com poucos centímetros de volume com todos os utilizadores da Internet. Herzog aponta que a desumanização e o anonimato da comunicação validam o ódio e o abuso, indicando o exemplo de uma família americana que recebeu de anônimos fotos da filha decapitada, depois de esta ter morrido num despiste de carro. Se somarmos os vários custos – especialmente morais – e a utilidade das várias possibilidades que nascem da Internet não é tão óbvio que o resultado seja positivo.

Um dos principais conselhos que damos aos mais novos relativamente à Internet é para não acreditarem que toda a gente é quem diz ser. Não é um perigo exclusivo da era digital, mas este é um veículo que facilita a tarefa de quem pretende tirar proveito de um anonimato quase total. Os acessos à Internet são localizáveis, os utilizadores do computador a que acederam também, mas talvez pedir às crianças que localizem o IP das pessoas com quem falam online antes de confiarem seja um conselho demasiado complexo. Dificilmente do outro lado está um cão, como brinca em 1993 a New Yorker, mas facilmente está alguém que não é quem diz ser e esta não é uma situação que afete apenas crianças. A instituição que nos pede dados bancários, que nos partilha a informação acerca do local de uma entrevista de emprego ou que nos indica onde determinado evento vai acontecer pode, com relativa facilidade, ter intenções diferentes das que parecem ser óbvias.


A web está bem viva e nunca como hoje a celebramos tanto, seja através de grandes eventos como a Web Summit ou das vantagens que nos fazem acreditar que tem a mais recente app ou mais um produto inovador. Estamos a explorar a realidade virtual na expectativa de encontrar o que não é possível ver no mundo que nos rodeia e perdemo-nos no que nos surge do outro lado de um ecrã, seja qual for o seu tamanho. Esta é a opinião também de Herzog, que nos mostra o caso de jogadores de videojogos que procuram reabilitação, apresentando casos como o de um casal coreano que deixou morrer o filho bebé por esquecimento, enquanto evoluíam a sua personagem num jogo online. Todos os ganhos que temos deste avanço tecnológico contrastam com as perdas a nível de comunicação e de humanização. Até podia mesmo estar um cão do outro lado do avatar que nos surge num jogo online, na foto de uma rapariga sorridente numa rede social ou no detentor do canal de YouTube que adoramos seguir, mas a verdade é que isso deixou de interessar.

Nos capítulos Life Without the Net e The End of the Net, Hergoz procura perceber como será a vida na eventualidade da Internet deixar de existir. O maior problema é o caráter viciante que está associado ao mesmo, podendo o ser humano não saber como voltar atrás, especialmente no caso de gerações que nasceram já num mundo em que a Internet é uma realidade. O que nos é pedido agora e cada vez mais é que nos adaptemos às novas formas de comunicar ao mesmo tempo que se procuram mecanismos para combater aspectos negativos como os que foram aqui listados. A Internet evoluiu, ultrapassando os limites controláveis que são apresentados por Danny Hillis na forma de uma pequena comunidade digital, sendo esta hoje a realidade de uma percentagem bastante significativa da população global. Podemos estar longe de um mundo onde duas pessoas nunca precisem de se cruzar, mas esse parece ser um dos objetivos últimos que a Internet pretende atingir. Não é um cenário tão difícil de imaginar no futuro que o mesmo café onde me encontro possa ser habitado exclusivamente por pessoas ligadas em rede, recebidas por sistemas computorizados inteligentes. Evolução? Sem dúvida, é fascinante o que conseguimos atingir nas ultimas décadas. Progresso? Dificilmente.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Leitor eletrônico faz 10 anos, mas pode sumir antes do livro de papel

E-readers devem ter quedas consecutivas nas vendas até 2022, devido a ascensão dos smartphones e baixos índices de leitura no mundo todo

Por Bruno Capelas e Andre Klojda, especial para O Estado de S. Paulo


Lançado em 2007, o Kindle, da Amazon tem 61% do mercado global, segundo a consultoria de mercado Euromonitor

Há mais ou menos uma década, uma profecia amedrontou o mercado editorial: o livro de papel, essa invenção de cinco séculos, estava com os dias contados. Seu algoz seria o leitor eletrônico, o tal e-reader, que faria as pessoas trocarem o folhear de páginas pelo toque em botões num aparelho esquisito: Kindle. Lançado há dez anos pela Amazon, ele não foi o primeiro da categoria, mas virou seu sinônimo. Apesar disso, a profecia apocalíptica daqueles dias parece longe de se cumprir.

A verdade é que o livro tradicional continua aí, firme e forte. Além disso, os e-readers não fazem parte do cotidiano de muita gente. Segundo a consultoria Euromonitor, 131 milhões de aparelhos foram vendidos no mundo desde 2007. Após um pico em 2011, as vendas só caíram (ver gráfico abaixo).

Anticlímax
Após pico, venda de e-readers deve cair nos próximos anos



No Brasil, a base instalada desses aparelhos é quase insignificante: desde 2010, quando começaram as pesquisas no País, só 76,2 mil e-readers foram comercializados por aqui. O ano em que se comprou mais desses aparelhos por aqui foi em 2015, com 16,2 mil unidades – em cinco anos, porém, menos de 10 mil dispositivos serão comprados por brasileiros. 

Além disso, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL), os e-books – o conteúdo que motiva a compra desses aparelhos – representaram apenas 1,09% da receita das editoras no País em 2016. Ao todo, 2,75 milhões de e-books foram vendidos aqui em 2016, contra 39,4 milhões de livros de papel.

Tropeços. Há diversos motivos para a revolução prometida pelo Kindle – e seus rivais, como o Kobo, da Rakuten, e o Lev, da Saraiva – não ter acontecido. O primeiro deles é que há leitores que simplesmente não conseguem se acostumar. “O livro de papel tem uma dimensão artística e aspectos sensoriais, como tato e olfato; o e-reader, não”, diz Thiago Salla, professor de Editoração da Universidade de São Paulo.

Além disso, por ser um dispositivo dedicado à leitura, o leitor eletrônico tem um público-alvo reduzido. São poucas as pessoas que topam pagar caro por algo que não vão usar tanto. Nos EUA, a média de leitura é de 12 livros por ano. No Brasil, o cenário é pior: a média é de 4,96 livros lidos por ano. “A falta de leitores é um problema histórico do nosso mercado e não mudou com o livro digital”, diz Luís Antonio Torelli, presidente da CBL.

Outro fator que mudou a rota do e-reader foi o smartphone, que também ganhou impulso em 2007, com o iPhone. Se no início esses aparelhos tinham poucos recursos e telas pequenas, pouco convidativas à leitura, hoje eles se tornaram “canivetes suíços” contemporâneos com telas gigantes de até 6 polegadas. 

Para Elton Morimitsu, analista da Euromonitor, os smartphones tornaram os e-readers menos atraentes. “O consumidor está disposto a investir em um aparelho que agrega diversas funções”, diz.

É por isso que hoje, em vez de falarem só nos dispositivos, as fabricantes de e-readers preferem o termo “ecossistema de leitura digital”, que compreende também apps para leitura em dispositivos móveis e nos PCs. Hoje, segundo Samuel Vissotto, diretor da Kobo na América Latina, 75% do tempo gasto pelos leitores da Kobo é no aplicativo, contra 25% nos e-readers. 

É evidente que há diferenças de experiência entre o smartphone e o e-reader. “O celular não foi desenhado para a leitura e oferece distrações aos usuários, como redes sociais e jogos”, diz Arthur van Rest, diretor global de Kindle na Amazon. “É a diferença entre a leitura casual e a leitura dedicada.”. A existência do smartphone, porém, permite que os usuários flertem com a leitura digital, sem precisar firmar um relacionamento sério com um leitor eletrônico.

Resistência. Nesse cenário complexo, impressiona o lançamento de novos modelos de leitores eletrônicos todos os anos. A explicação está no fato de que o usuário do e-reader é um bibliófilo – capaz de ler (e comprar) muitos livros. Isso faz as empresas ganharem não com hardware, mas com conteúdo.

Segundo a Kobo, quem tem e-reader compra o dobro de e-books que aquele que só usa o aplicativo da empresa. Na Saraiva, quem tem um Lev compra 20% mais livros de papel e e-books. Já na Amazon, quem navega entre diferentes formatos consome três vezes mais livros. “O mercado tinha receio do digital canibalizar o livro físico. Aconteceu o contrário: eles se complementam”, diz Gustavo Mondo, gerente de e-commerce da Saraiva.

Epílogo. No futuro, o e-reader parece ter dois caminhos. Ou segue vivo, como um objeto de nicho, mas rentável o suficiente para se manter de pé; ou será “morto” pelo smartphone. “Ainda acho que o e-reader tem seu tempo de vida, mas a curva de inovação nos smartphones e suas telas pode mudar esse jogo”, diz Vissotto, da Kobo. “Se eu tiver um celular com tela realmente boa de leitura, que não canse a vista, e uma configuração para desligar notificações, a experiência será bem parecida com o e-reader.” 

Em entrevista ao Estado em 2010, o filósofo Umberto Eco defendeu que o livro de papel seria um objeto eterno, como a colher, o machado e a tesoura. Na época, foi bastante criticado, mas hoje, sua visão integrada (e nada apocalíptica) parece mais próxima da verdade. Por ironia do destino, quem deveria “matar” o livro de papel pode, na verdade, morrer primeiro que ele. Sinal dos tempos.


Leitura digital divide brasileiros
Há quem não troque o livro físico, mas também pessoas que não ficam mais sem o leitor digital

Por Andre Klojda, especial para O Estado de S. Paulo

Júlia migrou do papel para o digital e só lê livros de papel quando pega emprestado

Mesmo entre os jovens, ainda há quem não dispense ter o livro em mãos. É o caso do advogado Caio Felippe: após uma breve experiência com um leitor digital emprestado por uma amiga, há pouco mais de um ano, ele logo voltou ao papel. “A tela remete muito ao celular, à televisão, e isso geralmente não prende tanto a minha atenção quanto o livro”, diz.

Ao analisar os aspectos que o fizeram abandonar o dispositivo, o jovem de 23 anos ressalta a questão do brilho da tela – mesmo sendo ajustável, diz preferir a luz ambiente – e as funcionalidades de manuseio do aparelho, como o mecanismo de passagem de páginas. “Não que não seja uma ferramenta eficiente, mas, para mim, foi uma questão de adaptação”, conta.

Já a analista de produtos Júlia Bandeira, de 24 anos, relata ter feito a migração do papel para o leitor digital. “Só uso livros físicos quando me emprestam, não costumo comprar”, afirma. Por causa da área em que atua, ela conta estar acostumada a lidar com novas tecnologias e não sente falta da relação afetiva com o impresso.

Usuária do Kindle desde 2011, Júlia também considera importante o fato de a opção digital prescindir da produção de papel e enfatiza a facilidade de “carregar uma biblioteca inteira num único lugar”.

Essa praticidade também faz com que Felippe não descarte uma nova tentativa com os leitores eletrônicos: “Pode ser que, no futuro, desenvolvam um que me atraia mais. Mas, hoje em dia, meu posicionamento é a favor do livro físico”, afirma.

Meio a meio. Entre aqueles totalmente adaptados à leitura digital e os que ainda não abrem mão do impresso, existem também os que adotam os dois meios, a depender da circunstância.

A estudante de letras Mariana Fortes, de 22 anos, declara-se adepta dos leitores digitais há cerca de cinco anos, apesar de certa resistência inicial. “Acho que quem tem relação afetiva muito forte com o livro sempre quer tê-lo na estante. Mas o leitor digital também tem vantagens”, afirma.


Pelo lado positivo, Mariana, assim como Júlia, destaca aspectos práticos: ela o considera o leitor eletrônico mais fácil de manusear e carregar no ônibus e metrô, possibilitando melhor aproveitamento da leitura em seu trajeto diário. “Além disso, há livros que quero ler, mas que não faço tanta questão de ter no formato físico”, acrescenta ela.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

China inaugura biblioteca pública futurista

Mar do conhecimento? Oceano dos livros?

Arquitetura que impressiona!

A deslumbrante Biblioteca de Tianjin Binhai é um centro cultural de 33.700 m² que possui um luminoso auditório esférico em torno do qual encontram-se cascatas de livros do chão ao teto. As estantes onduladas são o principal dispositivo espacial do edifício. A biblioteca de 5 andares tem espaço para 1,2 milhões de livros.















quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Imprensa Nacional encerra versão impressa do Diário Oficial da União



O Diário Oficial da União (DOU) não será mais comercializado na forma impressa a partir de novembro. Uma portaria publicada no próprio DOU, na quarta-feira (25), afirma que a Imprensa Nacional decidiu “encerrar a comercialização de assinaturas e venda avulsa”. 

Atualmente, o DOU é o principal produto da Imprensa Nacional, órgão vinculado à Casa Civil da Presidência da República. O DOU circula desde outubro de 1862. Com a decisão, a publicação na qual são editadas as normas que regem o Brasil poderá ser acessada via internet.

O DOU divulga atos de nomeação e exoneração de agentes públicos, assim como aqueles referentes a contratações, convênios e licitações da Administração Pública Federal e dos Poderes Legislativo e Judiciário. A publicação é formada por um conjunto de três seções diárias.

A portaria da Imprensa Nacional informou também que “as assinaturas dos Jornais Oficiais, na versão impressa, passam a ter periodicidade diária ou proporcional, até a data de encerramento da comercialização”.

Segundo dados divulgados pela Agência Brasil, o DOU já chegou a ter 90 mil exemplares impressos por dia e, em 2017, teve cerca de seis mil cópias impressas distribuídas em todas as unidades da Federação.

Redação Portal IMPRENSA

Biblioteca do Congresso americano apresenta portal da Divisão de Livros Raros e Coleções Especiais.



As coleções alojadas em "The Rare Book e Special Collections Division" totalizam quase 800.000 livros, abrangendo quase todas as eras e assuntos mantidos em mais de 100 coleções separadas. Todas essas coleções oferecem documentação acadêmica sobre as tradições de vida e de aprendizagem ocidentais e americanas.

O acervo teve seu início no desejo de Thomas Jefferson de criar uma biblioteca para estadistas e para os povos da nova nação. Depois que os britânicos queimaram o Capitólio e sua biblioteca em 1814, Jefferson ofereceu vender sua coleção de livros ao Congresso. 




Destaques da coleção:


- Manuscritos medievais (1300-1320) - http://bit.ly/2z1NGc8 

- Bíblia de Gutenberg (1454) - http://bit.ly/2yjiaqo

- Declaração de Independência (1776) - http://bit.ly/2z3ylFw

- O Federalista (1787), cópia de Thomas Jefferson - http://bit.ly/2yjrFGe

- O Mágico de Oz, primeira edição (1900) - http://bit.ly/2A3Rtn7


terça-feira, 31 de outubro de 2017

O site que reúne milhares de imagens sobre a cultura e história do Brasil

Lançada em parceria entre acervos públicos e privados, ‘Brasiliana Iconográfica’ traz obras, textos de análise e curadoria de especialistas

 Juliana Domingos de Lima | Nexo

'Dama em Literia, carregada por escravos e suas acompanhantes'

“Iconografia” consiste em um conjunto de imagens que se consolidam ao longo do tempo, formando um imaginário a respeito de um determinado assunto. 

No caso das imagens presentes na Brasiliana Iconográfica, plataforma digital que entrou no ar na sexta-feira (27), esse conjunto corresponde a tudo o que diz respeito à cultura e história do Brasil, a partir do século 16, quando começaram a circular os primeiros mapas e livros sobre a América Portuguesa.

A definição de iconografia mencionada acima foi dada ao Nexo pela coordenadora de Iconografia do Instituto Moreira Salles, Julia Kovensky. “São imagens fundadoras do nosso imaginário de nação brasileira. Isso é gigante. Envolve registros etnográficos, registros científicos de flora e de fauna, pinturas históricas, de paisagens”, disse Kovensky em entrevista. 

O site disponibiliza, inicialmente, cerca de 2.500 obras dos acervos da Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Itaú Cultural e Pinacoteca de São Paulo, trazendo informações sobre a origem, temas, histórias e a ficha catalográfica de cada uma das obras. Há também uma seção de artigos.

O período abarcado pela coleção de iconografia brasiliana do site vai do século 16 ao 20. Em volume, a maior parte do material data do século 19 em diante: segundo Julia Kovensky, há pouquíssimos registros anteriores nos acervos de todas as instituições participantes. Segundo ela, isso se dá pela natureza da história do Brasil e da formação de sua iconografia. 

Foi a partir do início do século 19, com a chegada da família real portuguesa ao Brasil – evento de 1808 que marcou também o início da imprensa no país –, que os registros aumentaram.

A criação da plataforma, inédita nesse campo, potencializa o alcance das obras. “Normalmente, só se tem acesso a essas obras em uma exposição que uma dessas instituições decida organizar ou dentro das reservas técnicas de cada museu, a que pouquíssima gente tem acesso. Acho que disponibilizar isso em um portal pra todo mundo tem um potencial que a gente ainda nem consegue imaginar”, disse Kovensky. 

Crianças e adolescentes que explorem o acervo para um trabalho de escola, por exemplo, passam a acessar a mesma fonte de grandes especialistas, sem distinções.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Leitores de eBooks seriam uma tecnologia estagnada?


Postado Por Carlos Cardoso | MeioBit 

O Tech Crunch publicou uma matéria bem interessante destacando como leitores de eBooks estariam estagnados. É verdade, não só não apresentam nenhuma evolução tecnológica como as vendas também estão decepcionantes desde sempre, com nomes famosos saindo do mercado, mas o quanto disso é culpa da tecnologia?

Imagine que você chega hoje, 2017 entra em uma loja pede um PC Gamer e recebe um PC com 1 GB de DDR 400, HD de 128MB e placa de vídeo AGP com 128 MB de DDR2. No mínimo tem uma crise de riso.

Agora imagine que você precisa vingar a morte de sua família pelas mãos do Lorde Obo-Kan. Entra em uma passagem no Desfiladeiro dos Espelhos, acha a lendária loja do Hitaro Kako, armeiro. Ele te vende uma katana de 400 anos feita pelo insuperável Hatori Hanzo. Você sai satisfeito.

O primeiro Kindle tinha CPU de 400 MHz, 250 MB de armazenamento e tela de e-ink de 800 × 600. Isso foi em 2007, mesmo ano do PC descrito acima. Um Kindle de oitava geração, vendido no site hoje tem um processador mais rápido, 4 GB de armazenamento e tela de e-ink de 800 × 600. Tirando alguns refinamentos é essencialmente o mesmo aparelho de 10 anos atrás. Será esse o motivo de não vender tanto?

Eu pessoalmente acho a “acusação” de que o Kindle não evolui no mínimo engraçada. Querem um killer app em um leitor de livros? Ou querem transformar o Kindle em um tablet? Pra isso já existe o iPad. O acesso web “experimental” do Kindle já é uma aberração desnecessária.

Um leitor de ebooks é uma descaroçadora de azeitonas em um mundo de canivetes suíços, esse é o grande problema. As pessoas se acostumaram, mal, a ter uma ferramenta genérica que faz tudo mais ou menos bem, mas nada excelente. O Kindle é excelente para leitura de textos, e só.



Ele faz sucesso em um subgrupo de leitores vorazes, que se preocupam mais com o conteúdo do que com a forma, gente que não tem que desfilar com um tijolo de 800 páginas para provar a superioridade intelectual. Gente também que não está presa ao passado, dependendo da resposta táctil do livro para entender que está consumindo literatura.

É a mesma coisa que um livro? Não, claro que não, um livro é muito mais gostoso de manusear do que um Kindle, mas é um preço pequeno por poder levar sua biblioteca inteira dentro dele.

A triste realidade é que não é a tecnologia que está matando os leitores de ebooks, são os leitores. As pessoas não leem tanto assim, nem compram tantos livros. Quando compram querem o sentimento de posse, que não existe com o formato eletrônico. Vide a moda de livros de YouTubbers, os fãs não ligam pra ler, mas querem ter o objeto físico relacionado com o ídolo. Uma versão eletrônica? Qual a graça?

Qual a solução para os ebooks? Por hora, nenhuma. Eles continuarão sendo um produto de nicho, como audiobooks. Não que isso signifique fracasso, o mercado continua existindo e se você achar um subnicho conseguirá fazer dinheiro até escrevendo contos eróticos de dinossauros gays, mas a mídia física, o livro de papel nem de longe está tão ameaçado quanto todo mundo acreditava uns anos atrás.

Fim da versão impressa da Revista Época


A revista Época deve se transformar apenas em 1 veículo digital em 2018. O formato impresso nunca rendeu o que o Grupo Globo esperava e a medida visa a reposicionar o título e reduzir os custos da operação.

Em maio de 2017, a tiragem em papel de Época foi de 170.058 exemplares, em média, a cada edição. É muito menos do que a líder desse segmento, Veja, com 861.065 exemplares.

No mundo digital, Época também registrou 1 desempenho modesto, com 91.173 assinantes online.

via Poder 360

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Agora você pode ler a tese de doutorado de Stephen Hawking

Vai encarar? O documento agora está disponível no site de Cambridge, e é parte de uma campanha pelo livre acesso à informação científica

Por Bruno Vaiano | Superinteressante

(University of Cambridge/Stephen Hawking/Reprodução)

Você é do tipo que tatuou frases de Tchékhov no antebraço? Que zerou Proust no original? Que leva os hexâmetros da Ilíada para o banheiro de tão fáceis? Então chegou a hora de uma mudança de hábito: que tal ler a tese de doutorado do astrofísico Stephen Hawking, terminada em 1966?

O documento – um dos mais importantes da história da física – agora pode ser baixado gratuitamente no site da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Você pode encontrá-lo aqui, mas não fique triste se não conseguir acessar a página de primeira. O banco de teses da instituição não está acostumado a receber um número de cliques tão grande em uma tacada só, e acabou congestionando. Não tire o dedo do F5!

Propriedades dos Universos em Expansão foi disponibilizada ao público a pedido do autor, que apoia iniciativas de acesso aberto. “Qualquer um, em qualquer lugar do mundo deve ter acesso livre não só à minha pesquisa, mas à pesquisa de cada grande mente questionadora de todo o espectro da conhecimento humano”, declarou Hawking. “Cada geração se apoia nos ombros daqueles que vieram antes dela. Eu, quando era um jovem doutorando em Cambridge, me inspirei nos trabalhos de Isaac Newton, James Maxwell e Albert Einstein. É maravilhoso saber quantas pessoas já demonstraram interesse em baixar a minha tese – espero que elas não se desapontem.”

Cambridge aproveitou o ato simbólico de Hawking para pedir a seus 8,6 mil professores, aposentados ou não, que façam o mesmo com suas teses e dissertações. A instituição foi responsável, ao todo, por 98 prêmios Nobel. A partir de outubro, para comemorar a Semana Internacional do Acesso Aberto, todo mundo que completar um doutorado na universidade britânica – eleita a segunda melhor do mundo por alguns rankings – será convidado a doar uma cópia digital de seu trabalho à biblioteca virtual Apollo, que é completamente gratuita.

A Apollo contém 200 mil itens, que incluem 15 mil artigos científicos, 10 mil imagens, 2,4 mil teses e mil bancos de dados. É muito, mas não chega aos pés dos 8 milhões de itens da biblioteca física.

O livre acesso à pesquisa científica está em pauta desde a criação do Sci-Hub, um repositório ilegal de artigos científicos pirateados criado pela pesquisadora e ativista cazaque Alexandra Elbakyan. A plataforma é conhecida popularmente como “o Pirate Bay da ciência”.

A atitude radical de Elbakyan reflete a posição de muitos cientistas que não têm problemas com a lei, mas consideram desonesto o modelo de negócio adotado pelas grandes editoras de ciência, como a Elsevier e a Springer. “É óbvio que o Sci-Hub é ilegal”, afirmou o biólogo Stephen Curry à equipe de notícias da Nature. “Mas o fato de que ele é tão popular, dentro e fora da academia, é um sintoma da frustração das pessoas com o status quo das publicações acadêmicas.” A Elsevier, em 2010, lucrou 724 milhões de libras com só 2 bilhões de libras de receita – uma margem de lucro de 36%, e um contraste notável com o Art. 27 da Declaração Universal de Direitos Humanos, que garante o direito de “compartilhar o avanço científico e seus benefícios”.

É claro que, políticas de democratização à parte, há uma grande diferença entre ter a tese de Hawking em seu computador e conseguir entendê-la. É por isso que, se você não é graduado em Física, a SUPER recomenda Uma Breve História do Tempo (Intrínseca, R$ 39,90). O livro, voltado para o público leigo, atesta o talento de Hawking para explicar conceitos complicados de forma simples – e pode te inspirar (quem sabe?) a entrar em uma faculdade de exatas bem cabeludas.

sábado, 21 de outubro de 2017

Bomba, o futuro chegou!



"Este CD-ROM pode conter mais informações do que a montanha de papel que está abaixo de mim." – Bill Gates [1994] 💿

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O digital ainda nem começou, diz CEO da quinta maior editora dos EUA

Pelo nono ano seguido, os principais veículos de cobertura do mercado editorial no mundo – incluindo orgulhosamente o PublishNews – realizaram o CEO Talk em Frankfurt. No palco e no centro das atenções desse ano, estavam Carolyn Reidy, presidente e CEO da Simon & Schuster, a quinta maior editora dos EUA, e Guillaume Dervieux, que está à frente da prestigiada editora independente francesa Albin Michel. 

Em comum, essas duas editoras têm a decisão em publicar em uma única língua. Mesmo estando em vários territórios (além dos EUA, está presente na Inglaterra, na Austrália e na Índia), a Simon & Schuster editora somente em inglês e a Albin Michel, só em francês. Ser editora de uma língua só é uma estratégia? Carolyn responde na lata: “toda editora é local”. “Publicar em uma única língua não significa que não somos internacionais, porque você pode trazer autores internacionais para o seu mercado e também ‘exportar’ esses mesmos autores por meio da venda de direitos”, completou.


Rüdiger, Carolyn e Guillaume no palco do CEO Talk de 2017 | © Leonardo Neto

O líder da Albin Michel ressalta que, embora seja uma editora francesa, fortemente enraizada no país, deu um passo importante na sua expansão internacional ao comprar recentemente uma editora especializada em educação na Bélgica.

O digital e a autopublicação
Reidy, ao ser questionada sobre o que poderia ter dado errado com o digital, cujas vendas apresentaram uma queda em países onde o formato já estava consolidado, ela respondeu dizendo que o digital ainda nem começou. “Uma nova versão do e-book deve surgir. Há uma pessoa, que ainda é muito jovem, mas nasceu na frente de uma tela, que aparecerá com um novo formato, que a gente ainda não conhece. Acredito que ainda não encontramos isso ainda. Mas quando isso acontecerá, será um dia incrível”, disse a CEO. A executiva observou ainda para um "booming" de audiolivros, especialmente nos EUA.

Outro tema tratado na sabatina que os CEOs se submeteram foi a autopublicação. Reidyn destacou que ela é “enorme”, que tem levado alguns clientes embora e colocado uma pressão no preço dos e-books. “É, no entanto, um bom lugar para se encontrar novos títulos”, completou. Já Guillaume pontuou que o self-publishing é o oposto simétrico daquilo que a Michel Albin faz. Ele completou dizendo que, no esquema da autopublicação, todo manuscrito é aceito e cada título recebe a quantidade mínima de recursos. “Nós fazemos exatamente o contrário disso. Nós rejeitamos muitos manuscritos e concentramos nossos recursos e esforços naquilo que selecionamos com paixão”, disse o editor independente.

via Publishnews

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A livraria do futuro (do substantivo)


Mais importante intermediária entre autor, editora e leitor, eles enfrentam grandes desafios para mantar e ampliar sua relevância no mercado livreiro. Mas fica a pergunta: como serão no futuro?

por Jr. Bellé | Revista da Cultura

Antes de viajarmos ao futuro do subjuntivo das livrarias, é preciso dar uma volta em seu pretérito mais-que-perfeito: quando Santo Inácio de Loyola fundou a Companhia de Jesus, por volta de 1534, mal sabia ele que, cerca de um século e meio depois, seus jesuítas seriam os primeiros a comercializar livros neste Brasil brasileiro, em uma paragem maravilhosa, o colégio da ordem, no Morro do Castelo, coração da futura capital nacional, o Rio de Janeiro. Somente em 1750 uma livraria seria aberta, a Loja de Livros de Manuel Ribeiro dos Santos, em Vila Rica, Minas Gerais. Ainda assim, mais de cem anos depois, a compra e venda de livros em nossa continental Ilha de Vera Cruz ainda era tacanha, inexpressiva. Difícil dizer se as pequenas lojas e empórios estavam mais para livrarias ou espaços de encadernação, que as precederam. Na época, quem estivesse disposto a produzir uma obra teria de procurar um encadernador, devido à afinidade de negócios; aqueles que desejavam desfazer-se de obras deixavam-nas nas mesmas mãos, fertilizando assim um mercado embrionário. 

No século 19 e princípios do 20, quem se empenhou com mais ardor no ramo foram os imigrantes europeus, daí surgiram, por exemplo, Laemmert (1833), Garnier (1845), Lombaerts (1848) e Garraux (1850). A livraria mais antiga ainda em atividade no país também data desse período: Ao Livro Verde, na cidade fluminense de Campos dos Goytacazes, aberta em 1844. Mas o mais interessante de toda essa história, de todo esse conjunto de dados pretéritos, é que eles estão disponíveis, quem diria, justamente em um livro, esse amontoado de páginas sujas de tinta e costuradas em prensas industriais, especificamente no Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras (Ateliê Editorial), da pena do historiador Ubiratan Machado, que hoje pode ser encontrado facilmente nas mais de 4 mil livrarias espalhadas pelo Brasil ou nos incontáveis sebos – e mesmo em seus respectivos, ou singulares, sítios virtuais.

A história das livrarias começou em pequenos espaços, ousadia de gente inventiva, mas aos poucos foi se transformando no que nos acostumamos a ver: grandes e imponentes extensões, latifúndios de histórias, poemas, crônicas, missivas, contos de fadas e de fatos, salvas de aparelhos eletrônicos, produtos de papelaria, cafés, restaurantes, jornais, revistas, áreas para teatro, cinema, saraus, shows, lançamentos, tardes de autógrafo, eventos dos mais diversos. As livrarias foram se moldando a seu tempo, escolhendo seus formatos de negócio, ora curtindo a crista da onda do mar tormentoso e egoísta do mercado, ora enfrentando suas ondas, naufragando e ressurgindo. É notório seu papel na difusão cultural e literária, seu ponto central como referência nas marés e ressacas que levam e trazem a literatura. Disso resulta a pergunta: qual será o papel que as livrarias interpretarão no futuro? E qual será seu figurino?

Para o poeta Fernando Paixão, a relevância das livrarias do futuro depende do modelo de negócios que adotarão e também se serão capazes de impor um aspecto orientador para leituras temáticas. “Acredito na sobrevivência de livrarias especializadas. No mundo em que a gente vive, com tanta informação, precisamos de gente que conheça o assunto e apresente para nós uma espécie de síntese, um resumo inteligente da conjuntura, e que ofereça um lugar em que tenha produtos que interessem, selecionados por um livreiro que entenda do assunto, que traga novidades surpreendentes. Esse aspecto orientador da livraria tem de permanecer. O conceito de livraria é menos o lugar onde você vai comprar o livro e mais um lugar que sinaliza o que há de mais importante, de pautar o que é mais relevante nos temas em que se trabalha.”

Paixão entende do riscado. Atualmente, é professor no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) e trabalhou por mais de 30 anos como editor e gerente editorial da editora Ática. “Mas falo também como leitor, sempre fui um rato de sebos e livrarias.” Não agrada a ele o modelo “que parece um supermercado, onde a gente vê os produtos que fazem mais marketing e não os que são realmente bons”. A livraria do futuro precisa retomar seu papel de bússola, sinalizando os melhores nortes para cada tema, os pontos de fuga, as ilhas esquecidas, paradisíacas ou infernais, no meio do oceano de publicações. “Esse modelo de supermercado só serve para um pedaço do mercado, que é o da novidade, mas o mundo do livro não vive apenas disso. Uma coisa é um atacadão e outra é uma livraria que tem uma curadoria, propondo um conceito de qualidade e de orientação. Essa livraria especializada continua e continuará sendo muito necessária.”

A aposta de Leonardo Chianca, editor há mais de 30 anos, é similar. As livrarias têm e continuarão tendo um papel fundamental no mundo dos livros, ainda que seu modelo possa se transformar: espaços físicos menores e mais especializados tendem a oferecer aos futuros leitores e compradores experiências mais ricas e únicas. “Já estamos vendo isso acontecer no Brasil, principalmente em centros menores. A valorização de espaços e editoras independentes, a exploração de novos nichos e o estímulo cultural da diversidade são uma tendência e um valor a ser perseguido.” No entanto, na opinião de Chianca, para continuarem sendo centrais nesse mercado, o espaço físico das livrarias também precisa ganhar novo foco: “Como espaços culturais, elas não devem seguir apostando em sua transformação em salões de entretenimento e diversão, mas sim em espaços de exposição, reflexão e difusão da cultura como um todo”.



POR OUTRO LADO...
A discussão, no entanto, não é simples, e há inúmeras e imprescindíveis variáveis nessa matemática do futuro. Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura desde 2011, discorre sobre tal complexidade: “Essa é uma discussão difícil, lojas muito pequenas restringem a experiência e a quantidade de produtos que podem ser oferecidos. Lojas muito grandes são caras. É uma discussão que surge pela frente, de um varejo que vai entregar uma nova experiência. O varejo terá de rentabilizar os espaços de forma que não seja apenas pela venda de mercadorias. Isso passa por eventos, espaços de sublocação, formas de sinergia com outros parceiros, para atrair público e expor suas marcas”. Isso porque, de acordo com o CEO, a maior parte da venda de livros e produtos será feita por meio de comércio eletrônico, enquanto às lojas físicas caberá o papel de socializar as experiências. “É para encontrar gente, para sair de casa, o ser humano não perderá essa característica de ter um ambiente assim, de diversão e interação, no futuro. A loja do futuro será social, pura. E muito menos especializada; você terá muitos produtos, capazes de complementar a experiência da leitura.”

A reflexão de Herz vai ao encontro das análises do espanhol Javier Celaya, economista que há 14 anos estuda o mundo dos livros para entender os caminhos vindouros inaugurados pela era digital. Seu portal, dosdoce.com, é referência na investigação do mercado editorial para todos os setores, incluindo livrarias, bibliotecas e agentes literários. “As pequenas livrarias, especializadas, são uma tendência na Europa e nos Estados Unidos, mas elas têm um problema: seus catálogos são muito reduzidos, assim como a oferta de produtos relacionados a eles. Há um lado bom, pois o livreiro conhecerá a fundo as obras e poderá recomendar boas leituras. Mas há um lado ruim, a experiência de ir até a loja física possivelmente não compensará, já que o consumidor pode adquirir os livros pela internet.” 

Essa experiência a que se refere Celaya é sua aposta para as livrarias do futuro e tem sua origem em uma indagação: por que alguém sairia de casa para comprar um livro se pode fazê-lo sentado no sofá? Isso é ainda mais complicado em grandes metrópoles, cujos deslocamentos, até os menores, podem levar horas. “A única coisa que fará com que as pessoas se desloquem até uma livraria, seja ela pequena ou grande, especializada ou não, é que ela terá lá, no espaço físico, uma experiência melhor, mais proveitosa e rica, do que se fosse comprar de casa.” 

Para enriquecer a experiência de compra, segundo Celaya, é preciso que as livrarias disponham de produtos que complementem a leitura desejada. Mas não só isso: “O espaço físico das livrarias não será mais onde vamos descobrir novas leituras, porque provavelmente já vamos descobri-las na internet, mas será um lugar para compartilhar nossas experiências de leitura, estar junto com pessoas que também gostam de ler, seja em formato de papel ou digital”. 

Dessa forma, as livrarias terão um papel fundamental no que tange a agregar pessoas interessadas e refletir sobre a literatura, criar eventos e disponibilizar produtos que suplementem as leituras. “Papel e pixels conviverão juntos por muito tempo, mas acredito que a sociedade do futuro lerá principalmente no digital e comprará mais pela internet. Acredito que em 30 anos viveremos num mundo inteligente, em que a livraria utilizará essas tecnologias com um olhar humano, incorporará o conceito de big data, dos algoritmos, e o livreiro, apoiando-se nessas tecnologias, poderá recomendar melhor novas leituras e produtos. Serão livrarias que se apoiarão nessas tecnologias para conhecer mais ainda seus leitores e clientes, para assim oferecer uma experiência de compra e de leitura mais rica. Hoje em dia, publicar livros é um negócio de risco, porque se sabe apenas quanto desse livro foi vendido, mas não se sabe qual foi o estado emocional do leitor ao lê-lo, se leu até o fim, qual o personagem que mais o fascinou, etc. Essas informações, que já estão e estarão cada vez mais disponíveis, farão o livreiro e a livraria mais assertivos e inteligentes.” 

É sempre importante lembrar, por fim, que, para além dos formatos e tecnologias vindouros, o mercado de livros não é uma indústria papeleira, não é uma indústria eletrônica, de hardwares e softwares. É, sim, uma indústria de histórias, de contar histórias – é esse seu papel mais importante, sua essência, que jamais pode ser perdida (sequer de vista). As livrarias, nesse cenário, são e serão seu ínterim, para que essas histórias continuem chegando aos leitores, emocionando-os, fazendo-os chorar, sorrir, questionar e, por que não, criar novas histórias e mudar aquela que já é sua. 

Há 20 anos atuando na Cultura e há seis como CEO, Sergio reforça que o “maior aprendizado nesse processo de transformação do mercado é conseguir alinhar crescimento de maneira sustentável sem perder valores e DNA. Isso é o maior desafio de qualquer empresa”. Caso contrário, como ele alerta, ao crescer vertiginosamente sem controle, uma empresa acaba trazendo para a equipe muitas pessoas que nem sempre compartilham dos mesmos valores ou têm outros em mente, o que acaba prejudicando por demais todo o negócio. “Por isso, hoje, se eu fosse lá atrás me preparar para os próximos 70 anos da Cultura, entre um crescimento acelerado, qualidade e DNA, iria muito mais me voltar para como mantenho meu valor. Se eu não tiver muito claro como manter valor no crescimento, prefiro crescer devagar.”