sexta-feira, 14 de junho de 2019

5 aplicativos para ler livros no celular


Marcella Blass | Diário do Grande ABC
Imagem: Internet

Nem sempre dá para carregar livros na mochila ou na bolsa. Seja por hábito ou necessidade, quando isso acontece, a solução que muita gente encontrou é ler por meio de smartphones e tablets, com ajuda de aplicativos específicos. O 33Giga separou cinco boas opções de softwares dedicados à leitura e te conta os detalhes abaixo:

Amazon Kindle
Versão para Android e iOS de um dos eReaders mais populares do mundo, o aplicativo oferece os recursos do Kindle aos usuários de tablet e smartphone. Com o software, na hora da leitura, você pode personalizar a cor do plano de fundo da página, intensidade do brilho da tela e o contraste. Também é possível criar coleções de leitura, fazer pesquisas no dicionário e em outros sites, e ainda levar para seu aparelho os eBooks comprados na Amazon.

Aldiko
Este aplicativo roda arquivos em vários formatos, incluindo os com proteção DRM da Adobe. A ferramenta de leitura tem recursos como marcação de texto, compartilhamento, anotações e pesquisas no dicionário. Também é possível configurar brilho e contraste da tela para melhorar a experiência para os olhos e conforme a luminosidade do ambiente. Além de servir como leitor de textos, ele também ajuda o usuário a gerenciar sua biblioteca e organizar leituras de forma automática. Está disponível para Android e iOS.

Google Play Livros
Disponível para Android e iOS, esta é a loja de eBooks do Google. Com uma infinidade de livros digitais pagos e gratuitos, o aplicativo também permite que o usuário utilize as funcionalidades disponíveis para ler documentos carregados no smartphone ou tablet, como arquivos em PDF e ePUB. Com uma interface bastante intuitiva, o aplicativo já vem instalado nos dispositivos Android, mas precisa ser baixado nos aparelhos da Apple.

Kobo Reader
Desenvolvido pela empresa que produz o eReader Kobo, também é a versão para Android e iOS de um gadget muito popular no mundo.  No Brasil, você pode usar o app para ler os eBooks que comprou na Livraria Cultura (parceira da Kobo Inc. no País) ou adicionar documentos em PDF, por exemplo. É importante destacar que o software também é indicado para quem gosta de ler revistas e HQs pelo celular.

Ebook Reader
O aplicativo lê arquivos em vários formatos, comprados ou não na loja virtual ebook.com. Isso significa que o usuário pode transformar o app em um gerenciador de biblioteca, com a possibilidade de editar manualmente as tags referentes a cada título. Entre outros recursos, o leitor também pode fazer backup de toda a sua leitura, marcar partes do texto, personalizar o tamanho da fonte e usar o sistema de buscas para encontrar trechos específicos com mais rapidez. Disponível para Android e iOS.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Itália lança portal com diário de emigrados


O Ministério das Relações Exteriores da Itália lançou nesta segunda-feira (10) uma plataforma na internet com os diários de cidadãos que emigraram para o exterior desde o século 19.   

IstoÉ | ANSA

A página, chamada “Italianos no exterior: os diários contam”, é abastecida com relatos armazenados no Arquivo Nacional de Pieve Santo Stefano e digitalizados.   

Cartas, fotos, diários e lembranças contam as vidas de alguns dos mais de 30 milhões de italianos que emigraram desde a unificação do país, em 1861. O objetivo é alcançar os milhões de ítalo-descendentes que vivem no exterior para mostrar “que seu país não os esqueceu”, segundo a secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores da Itália, Elisabetta Belloni.   

“Nosso objetivo é que a plataforma continue sendo alimentada por histórias antigas, porém também mais recentes, dos tantos jovens que vivem no exterior e seguem mantendo um vínculo com sua pátria”, acrescentou.   

Entre os mais de 200 relatos presentes no portal, há mais de 30 provenientes do Brasil, como o de Antonio Ghinato, agricultor de Fratta Polesine que partiu para São Paulo em 1908, deixando sua esposa grávida, Argia.   

Em 15 de agosto de 1916, após oito anos sem comunicações, ele escreveu para Argia: “Gostaria de saber se você quer vir pra cá, onde o sol tropical faz renascer uma nova vida. Onde se vive sem remorsos, que como você é minha mulher perante Deus, também o será perante os homens. Argia, agora os anos que deveriam ser os mais belos já passaram, se quiser dar esse passo, o faça por amor àquele filho que saiu de suas vísceras”.   

Dois meses depois, Ghinato respondeu a uma carta de Argia que trazia uma foto do filho do casal, Gilberto. “Com quanto prazer recebi tua carta, e que alegria senti ao ver-me em posse da foto do filho Gilberto, mas da felicidade passei à dor lendo suas palavras. Eu não sei o que te dizer, apenas que aqui tem paz”, disse.

E aí, trocaria o papel pela tela? Alguns motivos que justificam ter um e-reader

Mobilidade e economia estão entre as razões que levam as pessoas a comprar um leitor digital

Por Juliana Guzzo | Multiplix


Mobilidade e economia estão entre as razões que levam as pessoas a comprar um leitor digital | Foto: Banco de Imagem

Os e-readers, ou leitores digitais, são a escolha de muitos leitores assíduos e estudantes. Compactos, fáceis de usar e muito práticos, eles atendem as necessidades dos amantes da literatura e tecnologia. Esses aparelhinhos permitem que você consiga ter vários livros em um único dispositivo, evitando que você carregue peso e também eliminam a necessidade de um espaço físico para guardá-los em sua casa, como no caso dos livros físicos.

Diferente dos tablets, que atendem a usos mais diversos, permitindo a instalação de aplicativos e uma série de funcionalidades, o e-reader serve apenas para a leitura. Com menos funções, por que escolher um leitor digital? Entre os principais motivos elencados pelos leitores estão os displays em preto e branco, que não emitem luz, buscando um resultado que é bem próximo ao que você teria se estivesse folheando um livro de verdade. Além disso, por não emitirem luz, não cansam os olhos, mesmo depois de longos períodos dedicados à leitura.

A autonomia e consumo de energia são outros pontos de diferença. As telas dos leitores digitais não consomem muita energia para funcionar, permitindo que o aparelho tenha semanas de uso com apenas uma recarga.

Para o contador Tarcísio Ferreira, de Cantagalo, Região Serrana do Rio, a mobilidade e a capacidade de armazenamento são as melhores características desse tipo de aparelho.

Gosto muito do aparelho, é muito útil pois posso utilizar em qualquer momento, em viagens em minha residência e no intervalo do trabalho. A maior utilidade é pelo fato de poder guardar vários arquivos. Só vejo um ponto negativo: o tamanho da tela, pois deveria haver maiores.

Essa é outra diferença entre os aparelhos, enquanto os tablets têm telas de até 12 polegadas, nos e-reader elas têm entre 6 e 7.

Acesso a livros estrangeiros e economia estão entre os motivos que levaram o servidor público do município de Cantagalo, Thiago Valente, a optar pelo leitor digital.

“Os preços dos ebooks são bem mais em conta do que os dos livros físicos. A questão de acesso a livros em outras línguas também foi fundamental. Há livros que demoram ou nem chegam a serem vendidos no Brasil. Com o leitor eu consigo comprar, assim que são lançados, na versão digital. A duração da bateria e as opções de marcação e anotação nos textos foram importantes para minha escolha pelo leitor”, enumera Thiago.

Com preços que variam entre 299 até pouco mais de mil reais, os e-reader ainda são opções mais baratas e econômicas ao longo do tempo, já que gastam menos bateria do que os tablets. Algumas marcas também oferecem como atrativos aos consumidores acesso a vários livros de forma gratuita ou com descontos, além de antecipar lançamentos para os leitores mais ansiosos.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Obras de HP Lovecraft e Edgar Allan Poe estão disponíveis gratuitamente

Universidade de Adelaide, na Austrália, tem em seu acervo virtual milhares de títulos para leitura e download 

Rolling Stone


Cthulhu, criatura mais famosa de H. P. Lovecraft (Foto: Sofyan Syarief / Wikimedia Commons)

A Universidade de Adelaide, uma das mais célebres instituições de ensino da Austrália, disponibilizou em seu acervo virtual todos os títulos de H. P. Lovecraft, o autor rei do horror. São, ao todo, 59 obras, todas em inglês, idioma original, disponíveis em Zip, ePub e Kindle.

H. P. Lovecraft nasceu em 1890, nos Estados Unidos, e começou a publicar terror em 1917, com o conto Dagon, sobre uma entidade mitológica que habita os oceanos. O Chamado de Cthulhu, sua obra mais famosa, veio em 1936, dois anos antes de sua morte precoce e decorrida de câncer no intestino.

Embora em vida Lovecraft não tenha feito sucesso, ainda no século XIX começou a ter renome no gênero horror. É visto, hoje, com um dos maiores percussores e influências do estilo, e compete pelo trono apenas com Edgar Allan Poe (1809 - 1949), o autor de outros clássicos como O Corvo (1845) e Os Assassinatos da Rua Morgue (1841). Seus livros também estão disponíveis para download.

O acervo digital da Adelaide disponibiliza, além do trabalho de Lovecraft, e Poe, obras de centenas de autores históricos, como Franz Kafka (Metamorfose, 1915), J. M. Barrie (Peter Pan e Wendy, 1911), William Shakespeare (Romeu e Julieta, 1597), e diversos acadêmicos e filósofos clássicos, todos em inglês. 

Veja a lista de autores aqui.  Para baixar, basta clicar no nome do autor, escolher a obra, e clicar em "download" no fim da página. 

domingo, 9 de junho de 2019

Google Arts & Culture disponibiliza 5.000 obras de arte de Portinari

O Google Brasil anunciou a disponibilidade de mais de 5.000 obras de arte, além de 15.000 cartas e documentos do arquivo pessoal do artista, alocados em vinte exposições virtuais.

Por Renê Fraga | Google Discovery

A coleção “Portinari: O Pintor do Povo” é a primeira retrospectiva dedicada a um artista brasileiro no Google Arts & Culture.


“É resultado de uma grande colaboração entre museus e Instituições culturais liderada pelo Projeto Portinari, instituição fundada pelo filho de Portinari, João Candido Portinari, e a plataforma do Google que uniu seus esforços para disponibilizar todas as obras do pintor on-line, incluindo documentos e fotografias, cartas históricas, uma visita em realidade virtual de 360° à casa do artista e vários detalhes de suas pinturas e esboços”, diz a empresa.


As vinte exposições virtuais destacam as principais fases da trajetória do artista e os grandes temas sociais levantados por ele em sua obra.

A coleção virtual conta ainda com 10 imagens capturadas em altíssima resolução (gigapixel) pela Art Camera, entre elas “Mestiço” (1934), “Lavrador de Café” (1934) e “Café” (1935).

Também estão disponíveis no acervo virtual as imagens das obras “Guerra” e “Paz”, ambas em exibição no prédio das Nações Unidas, em Nova York.  

Street View

Os usuários ainda podem navegar por um Street View da casa do artista em Brodowski, em São Paulo, que mostra os espaços e exemplos da rotina que ele vivia no momento em que criou várias de suas famosas pinturas.


“Esse é também o local onde ele conduziu seus experimentos com pinturas murais, uma técnica na qual ele se aprofundou ao longo dos anos”, explicou o buscador.

Junto com as obras de arte, estão disponíveis cerca de 15.000 documentos históricos, incluindo cartas como o manifesto-carta para Rosalita, e fotografias que explicam a vida do artista e sua importância para todo o mundo.

Números da coleção “Portinari: O Pintor do Povo

1 tour de Street View (360 graus): a casa de Portinari em Brodowski, São Paulo.
Mais de 20 exposições virtuais, com curadoria de pesquisadores sobre o artista.
10 quadros e painéis capturados pela Art Camera (Gigapixel).
5.000 obras de arte digitalizadas que mostram toda a produção do artista.
15.000 documentos históricos, cartas e fotografias que retratam a vida do artista e a sua importância para o cenário mundial de arte.
6 instituições culturais, entre elas Pinacoteca de São Paulo, Museu Nacional de Belas Artes, Fundação Ema Klabin, MASP, e Museus Castro Maya, além da instituição comandada pelo filho do artista, Projeto Portinari.

sábado, 8 de junho de 2019

Os mapas que ajudaram a orientar a era das grandes navegações

Site apresenta linha histórica com os primórdios da cartografia e seu papel nas explorações marítimas dos séculos 14 a 18

Camilo Rocha | Nexo

MAPA DO TIPO 'PORTOLANO' RETRATA O CONTINENTE EUROPEU NO FIM DO SÉCULO 14   

O ano é 1375, mas o mapa do cartógrafo Abraão Cresques, de Maiorca, ilha do Mar Mediterrâneo, é notavelmente parecido com qualquer imagem feita por um satélite nos dias atuais. É possível identificar com facilidade os contornos do continente europeu, do norte da África e de parte do Oriente Médio.


A carta faz parte de um atlas “portolano”, tipo de publicação cartográfica disponível entre os séculos 14 e 16. O nome vem da ênfase dada aos portos nos mapas. As áreas costeiras aparecem em detalhes, enquanto as regiões interiores apresentam poucos elementos nos desenhos. Os mapas portolanos eram desenhados por cartógrafos do oeste do Mediterrâneo e contavam com informações trazidas por marinheiros. 

Exemplos de atlas portolanos, que também incluíam linhas meridianas, informações sobre comércio e tarifas e pesos e medidas, fazem parte de uma publicação do site da revista literária americana Lapham’s Quarterly. Com texto acompanhando os mapas, o conteúdo traça um histórico da importância das cartas para navegações realizadas entre os séculos 14 e 18, principalmente as realizadas pelos europeus no período conhecido como a era das Grandes Navegações. 

O príncipe português Henrique, conhecido como Navegador, é um personagem importante nessa linha do tempo. Responsável por liderar o início das grandes explorações marítimas portuguesas, ele montou mapas náuticos apurados a partir de diversas fontes, incluindo estudiosos árabes, comerciantes judeus e marinheiros holandeses, escandinavos, alemães e italianos.

MAPA DO MILITAR OTOMANO CONHECIDO COMO PIRI REIS   

As cartas mais elaboradas produzidas por Henrique ajudaram os portugueses a estabelecer colônias em ilhas do Atlântico, como Açores e Madeira, e no oeste da África. O texto da Lapham’s observa que Henrique foi um dos primeiros europeus a promover a captura e venda de escravos da África subsaariana em grande escala. 

O conteúdo também destaca cartógrafos não europeus, como Shihab al-Din Ahmad ibn Mājid al-Saʿdi al-Najdi — mais conhecido como Ahmad ibn Majid. Nascido em Omã, em 1432, Majid também era navegador. Seu trabalho trouxe informações detalhadas sobre rotas do Oceano Índico. Outro nome evidenciado é o do almirante otomano (o Império Otomano é a atual Turquia) Muhiddin Piri, mais conhecido como Piri Reis. 

A linha histórica termina no início do século 18. Nesta época, tem fim a era da “cartografia dominada por indivíduos”. É a vez de agências governamentais, como departamentos hidrográficos fundados na França e na Grã Bretanha. Administrados pela marinha, publicavam mapas oficiais.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Esta coleção traz mais de 90 mil mapas dos séculos 16 ao 21

Entre as obras de coleção mantida pela Universidade de Stanford está um 'Atlas do Imperio do Brazil', produzido em 1868 por Candido Mendes de Almeida e usado como referência para obras posteriores

André Cabette Fábio | Nexo

MAPA DA ‘PROVÍNCIA DO AMAZONAS’, PRESENTE NO ATLAS DO IMPÉRIO DO BRASIL, DE 1868   

Lançada no final dos anos 1980, a David Rumsey Map Collection foca em mapas raros produzidos entre os séculos 16 e 21 de várias partes do globo. 

Formado em artes plásticas na Universidade de Yale, Rumsey atuou em instituições de cultura antes de partir para os mercados imobiliário e de finanças. Em paralelo, passou a compor uma extensa biblioteca de mapas com mais de 150 mil itens. 

A digitalização da coleção em alta resolução se iniciou em 1996. A partir de 2016, as obras coletadas por Rumsey passaram a ser geridas pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Todo o conteúdo está disponível para visualizar online, assim como baixar, no site David Rumsey Map Collection. São mais de 90 mil obras. 

Hoje, ela traz tanto atlas geográficos, como mapas para navegação e mesmo obras artísticas, como um “Mapa antigo da Terra do Nunca” criado em 1918, que reúne, em um mesmo mundo imaginário, a geografia de dezenas de mitologias fantásticas. 

Uma nota de apresentação afirma que “materiais criados na América distinguem a coleção. Eles ilustram a evolução da cultura, da história e de sua população. Uma inspeção mais de perto dos mapas frequentemente revela seu crescimento e o declínio de cidades, escavações de mineração, o desenvolvimento das estradas de ferro e a ‘descoberta’ do Oeste americano por exploradores europeus”. Entre as obras, há representações antigas do Brasil.

Entre eles, um "Atlas do Império do Brasil", produzido em 1868 por Candido Mendes de Almeida. 

Segundo uma nota presente no site, esse foi o primeiro atlas do país e um marco da cartografia brasileira. No total, o atlas reúne 24 mapas das províncias daquela época, além de estatísticas de sua população e informações administrativas, eleitorais e eclesiásticas.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

"Os robôs serão melhores do que os humanos"


Entrevista Michio Kaku

Isto É | Hélio Gomes

Desde a morte de Stephen Hawking (1942-2018), o físico teórico norte-americano Michio Kaku, 72 anos, tornou-se uma das faces mais pop da ciência — seja na lista de best sellers do “The New York Times” ou em um documentário da BBC. Pertence, portanto, a uma linhagem que conecta Isaac Newton a Carl Sagan, passando por Albert Einstein e Neil deGrasse Tyson. No campo acadêmico, Kaku fez história ao ser um dos autores da Teoria das Cordas, uma ambiciosa tentativa de unificar a mecânica quântica e a Teoria da Relatividade. Hoje, atua como professor titular da City University of New York. Na entrevista a seguir, concedida a um seleto grupo internacional de jornalistas — presentes no evento SAS Global Forum, em Dallas (EUA) —, o cientista faz um resumo da sua visão a respeito do futuro da humanidade. E decreta: “No século 22, vamos acabar nos fundindo às máquinas. Seremos super-humanos.”

O senhor afirma que a aceitação ou não da revolução digital dividirá a humanidade entre vencedores e perdedores. Como lidar com os últimos?

As pessoas jamais serão inúteis. E a chave para transformá-las é a educação. O avanço dos robôs é iminente, e eles serão melhores que os humanos em algumas funções. Mas precisaremos de pessoas para montá-los, limpá-los, mantê-los. Afinal, a indústria robótica será maior que a automobilística, muitos empregos serão gerados por ela.

E como o senhor vê essa transformação numa escala global?

Na verdade, já sabemos quais serão as nações perdedoras e vencedoras do futuro. O primeiro grupo reúne aquelas que ficarem atreladas às suas commodities, como a comida. O preço dos alimentos vem caindo nos últimos 200 anos, mas os países que estão presos à agricultura ainda acreditam que a produção de comida garantirá a prosperidade eterna. As nações que não investem em educação, ciência e tecnologia serão pobres no futuro. Por outro lado, os governos que compreenderem as conexões entre a velha economia e o capital intelectual irão prosperar. E a tecnologia sempre pavimentará o caminho.

Como mudar a cabeça de governantes que não pensam assim?

Bem, vocês podem tirá-los do poder pelo voto (risos). A internet dissemina a democracia e a informação. Isso empodera as pessoas, que passam a pensar que é possível viver melhor. Sou positivo em relação ao futuro. Especialmente quando vejo países como a China, que já entendeu que não é possível fazer cópias baratas para sempre, e agora investe em seu capital intelectual. Precisamos criar indústrias para a era moderna, não para o mundo do passado.

Um dia as máquinas ganharão consciência e serão senhoras do universo?

Mark Zuckerberg (criador do Facebook) costuma dizer que a inteligência artificial cria empregos e traz prosperidade. Por sua vez, Elon Musk (fundador da Tesla e da SpaceX) afirma que não é bem assim. Para ele, estamos falando de nossos sucessores existenciais e, por isso, a inteligência artificial é potencialmente perigosa. Ambos têm razão — Zuckerberg no futuro próximo; Musk, daqui um século. Tive a chance de entrevistar o criador do Asimo, um famoso robô doméstico criado pela Honda, e perguntei a ele quão esperto é o nosso andróide mais inteligente. Ele me disse que o Asimo pode ser comparado a uma barata!


"Tive a chance de entrevistar o criador do Asimo e perguntei a ele qual a inteligência do robô doméstico desenvolvido pela Honda. Ele me disse que o Asimo pode ser comparado a uma barata!"

Mas a evolução dos robôs não é inevitável?

Sim, um dia as máquinas serão tão sagazes quanto um rato, depois um coelho, e, consequentemente, um cão ou um gato. Até esse ponto, tudo bem. O problema começa quando os robôs alcançarem a inteligência dos macacos. A partir daí, provavelmente no final deste século, a coisa ficará perigosa. Macacos têm autoconsciência, eles sabem que não são humanos. Nesse momento, teremos de incluir um mecanismo capaz de travar os robôs caso eles tenham pensamentos homicidas. Olhando mais adiante, para o século 22, acredito que acabaremos nos fundindo às máquinas. Seremos super-humanos, superfortes, superbonitos, capazes de viver em Marte ou em qualquer lugar do universo.

E como serão os relacionamentos afetivos entre humanos e computadores?

Já estamos desenvolvendo robôs emocionais. No MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA), por exemplo, os pesquisadores estão quantificando as emoções humanas. E o interessante é que o nosso rosto é um ótimo instrumento para isso. Os cientistas criaram um boneco capaz de reproduzir todas as expressões humanas já catalogadas. Está tudo lá, ao toque de um botão: tristeza, felicidade… Tudo é manipulável. E o mais incrível é que o robô parece entender as emoções humanas! Mas o detalhe é que ele ainda não consegue fazer isso de verdade, trata-se apenas de um fantoche. E aí entra o avanço da inteligência artificial, já que os computadores ainda não compreendem os nossos sentimentos. Esses robôs emocionais serão usados primeiramente como animais de estimação, em asilos e hospitais, ajudando e fazendo companhia às pessoas mais solitárias.

Hoje, “conversar” com os assistentes virtuais dos smartphones pode ser enfadonho. Como a interação com as máquinas pode evoluir?

Sim, temos os chatbots (sistemas de inteligência artificial que “dialogam” com o usuário), mas eles têm um problema sério. A conversação humana requer não mais que uma centena de poucas palavras. Mesmo com um vocabulário limitado, é possível falar qualquer língua do planeta Terra. Mas o significado real por trás dessas palavras é muito complicado. Logo, conversar é fácil para os computadores. Mas contextualizar esse diálogo ainda é muito difícil para eles. Se você fizer a pergunta “a água é molhada?” a um robô, ele pode ficar bastante confuso. Senso comum é algo que os computadores não têm, é muito delicado. Parece que ainda não aprendemos a tirar o melhor dos aparelhos eletrônicos de uso diário…

Para onde todos esses gadgets e equipamentos estão nos levando?

Na verdade, eles nos ajudam a ter um retrato melhor do valor das coisas. Com um celular, você é capaz de saber se está fazendo um bom negócio ou até mesmo quanto uma empresa está lucrando com os produtos que você compra no dia a dia. Você não precisa mais “chutar” quanto o concorrente está cobrando por um artigo similar. Basta perguntar à internet. Com a análise de dados, é possível entender melhor quem você é e quais são as suas necessidades. Isso me faz crer que estamos prestes a alcançar o capitalismo perfeito, graças à popularização da tecnologia. O que o Uber fez? Ele eliminou o intermediário, ligando o motorista diretamente ao passageiro pelo celular.

Como o senhor enxerga o futuro do comércio?

O segmento tem evoluído muito com o investimento de empresas como a Amazon. Mas a inteligência artificial não vai superar a interação humana. Advogados robôs simplesmente não funcionam, eles seriam incapazes de interagir com um júri ou um juiz. As máquinas são completamente ignorantes a respeito de dilemas éticos, por exemplo. Os robôs poderão responder às perguntas mais simples numa loja, mas as questões importantes ainda serão feitas a um funcionário. O capital intelectual, da mente, será a coisa mais valorizada nos humanos do futuro. Os computadores não têm criatividade, nem são inovadores ou capazes de pensar estrategicamente.

A inteligência artificial será mais importante que os robôs?

Pode ser. No Japão, por exemplo, já existe um hotel totalmente automatizado. Você chega e é atendido por um recepcionista virtual, que despacha a bagagem automaticamente para o seu quarto. Por lá, também há restaurantes inteligentes, que demoram 1 minuto e 29 segundos para preparar o seu prato de noodles. Você senta à mesa, escolhe o que vai comer em um tablet e um chef digital prepara o prato. O interessante é que falamos de um serviço que atende às classes mais baixas da população, e não de uma eventual robotização da alta gastronomia — mais um exemplo de como o capital intelectual garantirá o trabalho dos humanos no futuro.

Como definir o conceito de humanidade depois que os robôs forem mais inteligentes do que nós?

Nós simplesmente teremos de conviver com eles — pelo menos, até o ponto em que as máquinas se tornarem perigosas. Elas serão benéficas à sociedade, realizando tarefas básicas muito mais rápido do que os humanos. Falo dos trabalhos perigosos, sujos e elementares. Essas serão as funções assumidas pelos robôs em primeiro lugar. Mas, daqui a mais ou menos um século, devemos começar a nos conectar intelectualmente com as máquinas. E aí teremos de criar “direitos civis” para os andróides. Os robôs terão de sentir algum tipo de dor, inclusive. Eles terão autoconsciência e saberão, por exemplo, que “morrerão” caso um humano ordene que eles saltem de um prédio. Novas leis serão criadas especialmente para os robôs.


"O comércio tem evoluído muito com o investimento de empresas como a Amazon. Mas a inteligência artificial não vai superar a interação humana "

O senhor é otimista em relação ao futuro da espécie?

O comércio tem evoluído muito com o investimento de empresas como a Amazon. Mas a inteligência artificial não vai superar a interação humana 
Sim, sabe o porquê? Do ponto de vista histórico, considero uma década como a menor unidade de tempo mensurável. Quando olhamos para trás, é possível perceber o enorme progresso que atingimos nas últimas décadas. Nossos avós viveram em um mundo com a expectativa de morrer perto dos 40 anos de idade, essa era a média por volta do ano 1900. A vida era curta e cruel. Uma viagem em alta velocidade para o meu avô envolvia ficar atolado com uma carroça, em uma estrada de terra. A comunicação a distância não passava de um grito, era assim que nos comunicávamos antes da invenção do telefone. Então algo aconteceu, há mais ou menos uns 150 anos. A ciência surgiu, criando a revolução industrial, a revolução elétrica e a revolução tecnológica. Por isso sou um otimista.

Quais são os maiores obstáculos para a evolução da humanidade?

Há três problemas criados por nós mesmos: aquecimento global, armas biológicas e proliferação nuclear. Também enfrentamos os desastres naturais, já que a mãe natureza costuma destruir suas próprias criações. Quase 100% das formas de vida sempre são extintas. Os dinossauros não tinham um programa espacial, por isso eles não estão aqui hoje. A extinção é a regra. Então temos de conter nosso desejo pela autodestruição, e o único caminho para isso é a democracia. Hoje, ela depende da internet. Somente com informação as pessoas serão responsáveis por seus próprios destinos.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Este acervo reúne documentos da Revolução Francesa

Parceria entre a Universidade de Stanford e a Biblioteca Nacional da França, The French Revolution Digital Archive compila panfletos literários, registros legais e 14 mil imagens de época

Juliana Sayuri | Nexo

FOTO: FRENCH REVOLUTION DIGITAL ARCHIVE

ILUSTRAÇÃO DA QUEDA DA BASTILHA, MARCO DA REVOLUÇÃO FRANCESA   

No ar desde 2013, o projeto The French Revolution Digital Archive, uma parceria entre a Universidade de Stanford, na Califórnia, nos Estados Unidos, e a Biblioteca Nacional da França, reúne o maior acervo documental sobre a Revolução Francesa (1789-1799). 

O projeto contou com a participação de historiadores, designers e bibliotecários americanos e franceses. A proposta, segundo os organizadores, é disponibilizar documentos com acesso fácil, flexível (e gratuito) a estudiosos que pesquisam o movimento revolucionário que levou ao fim da monarquia na França no século 18.

“A própria Revolução Francesa produziu diversos documentos de participantes, espectadores e críticos. Esses materiais incluem textos de todo tipo - documentos legais, panfletos literários, ‘belles lettres’, composições musicais e um rico acervo de imagens. Dispersos em bibliotecas e arquivos, escondidos em séries documentais e pequenos livros individuais, essa herança documental diversa pode ser agora acessada por pesquisadores no formato digital”, diz a nota de apresentação do projeto. 

Idealizado em 2006 pelo historiador Dan Edelstein, autor de “On the spirit of rights” (“No espírito dos direitos”, ed. da Universidade de Chicago, 2018) e professor de história francesa do século 18 na Universidade de Stanford, o acervo está estruturado em duas partes principais: arquivos parlamentares e registros imagéticos. 

FOTO: FRENCH REVOLUTION DIGITAL ARCHIVE

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO, DE 1789 

Organizados em ordem cronológica, os arquivos parlamentares incluem cartas, discursos, relatórios e outros registros intelectuais e políticos, datados de 1787 a 1794. Originalmente reunidos por arquivistas do governo francês, em 1862, os documentos foram incorporados a um projeto acadêmico dirigido por historiadores da Universidade de Paris 1, em 1962. Atualmente, totalizam 101 volumes. 

Os registros imagéticos, por sua vez, somam 14.000 itens, entre ilustrações, medalhas e moedas, principalmente do período de 1787 a 1799.

Disponibilizadas em alta resolução, as imagens foram selecionadas de coleções do Departamento de Impressões e Fotografia da Biblioteca Nacional da França, inclusive fontes do antiquário francês Michel Hennin (1777–1863) e do diplomata belga Carl de Vinck (1859-1931). 

Entre os registros históricos estão diferentes impressões da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada em 1789, que firmou os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade na república francesa - e posteriormente inspirou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelos Estados-membros das Nações Unidas, em 1948.

Mais de 120 mapas antigos permitem ver o passado de diferentes partes do mundo no Google Maps e Earth

Mais de 120 mapas antigos da David Rumsey Map Collection foram inseridos no Google Maps e Google Earth, permitindo conhecer como eram no passado diferentes partes do globo. As cartografias podem ser vistas acionando a camada "Rumsey Historical Maps" no Earth ou através desta versão do Maps desenvolvida para o projeto.


Os mapas abrangem o período entre 1680 e 1930 e, além dos desenhos cartográficos, contêm informações sobre a história do local. Cada mapa foi georreferenciado, assim, é possível navegar pelo globo e ver as antigas cartografias sobrepostas e ajustadas às imagens de satélite.

De modo geral, os mapas mais recentes se encaixam quase que perfeitamente na geografia real que pretendem representar, no entanto, as cartografias mais antigas muitas vezes mostram interpretações equivocadas dos contornos geográficos e, por este motivo, sofreram maiores distorções para se adequarem ao Earth e ao Maps.


A comparação entre as imagens do Google e os mapas antigos, facilitada por um cursor que permite alterar o nível de transparência das cartografias, revelam informações interessantes sobre a evolução das representações da geografia do planeta, que com o passar do tempo ganharam precisão e definição antes inimagináveis. Mas além disso, revelam dados preciosos sobre a urbanização no mundo - regiões outrora rurais se transformaram em cidades, ao passo que centros urbanos mais antigos mostraram, a partir do século XIX, grande crescimento populacional e expansão territorial.

O processo de inserção dos mapas antigos no Maps e Earth é relativamente simples. Primeiramente, os desenhos históricos originais são digitalizados com câmeras de alta resolução. Estas imagens digitais passam, então, por um processo de georreferenciamento com softwares específicos que demarcam pontos nos mapas antigos (até 200 deles, dependendo da dimensão do mapa) que devem se conectar com os mesmos pontos nos mapas modernos feitos por imagens de satélite. Para se sobrepôr corretamente às imagens recentes, as antigas cartografias geralmente resultam curvadas e levemente distorcidas, informa a David Rumsey Map Collection.


Para navegar pelos mapas antigos no Earth, é preciso baixar o programa, já que a coleção de Rumsey não está disponível na versão online do programa. Para navegar no Maps, clique aqui.

Fonte: Archdaily / David Rumsey Map Collection.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Conheça o acervo digital que reúne as principais inovações dos 100 anos da Citroën


Com ‘cheiro de graxa’, plataforma interativa disponibiliza informações, detalhes, fotos e até o som do motor dos veículos produzidos pela Citroën nos últimos 100 anos.

Imagine se você pudesse ter em uma garagem todos os carros produzidos pela Citroën ao longo dos seus 100 anos de história. No espaço, você teria acesso a todas as especificações dos veículos, história, curiosidades e, é claro, poderia dar partida e ouvir o motor de cada um. Com o objetivo de oferecer a experiência descrita acima, a Citroën disponibiliza o espaço Citroën Origins.

Maior acervo digital da montadora, a plataforma é um verdadeiro presente para os fãs do automobilismo. Além de oferecer um catálogo completo de todos os produtos fabricados pela Marca entre 1919 e 2019, a espaço apresenta todas as especificações dos produtos, uma galeria exclusiva de cada modelo, vídeos, curiosidades, além de publicações históricas da época de produção.

Além disso, também é possível ter acesso à árvore genealógica de cada modelo, entendendo em quais tecnologias passadas deram origens às atuais e entender a filosofia de inovação da Citroën, inspirada nos seus clientes. Para oferecer uma experiência ainda mais imersiva, também é possível “dar partida” em cada um dos carros da Marca e ouvir o barulho do motor de cada um. Um prato cheio para qualquer amante do automobilismo!

Além do acervo, o Citroën Origins também oferece um mapa interativo, onde cada dono de um veículo da Marca pode dar “check-in” em seu país. Para ter acesso ao espaço histórico, basta entrar no link.

via PlanetCarsZ

domingo, 19 de maio de 2019

Portal reúne acervo da congada



O MDCSP – Memória Digital do Congado de São Paulo é um portal que abriga diversos títulos de produtos culturais sobre a Congada e suas variações, que foram publicados, redigidos, produzidos ou realizados a partir de sua ocorrência no Estado de São Paulo. Idealizado pelo músico e produtor cultural Déo Miranda, a sua finalidade é tornar acessível a qualquer tipo de público materiais que foram lançados somente em formato físico, entre discos, documentários e livros, bem como pesquisas, registros raros de acervo familiar, imprensa, entre outros formatos, cujo acesso é muito limitado, uma vez que produtos e materiais dessa natureza não tem grande circulação ou comercialização e nem estão disponíveis em lojas.

sábado, 18 de maio de 2019

A era digital é o fim da TV?


         
Vanessa Souza | O Estado de S. Paulo
Imagem: Internet

Sempre que novas ondas tecnológicas surgem, especula-se quais hábitos de consumo e equipamentos serão postos em obsolescência. Foi assim quando o rádio e a TV surgiram, no século 20. Ambos, acreditava-se, iriam soterrar os jornais de papel e o cinema. As décadas passaram e, na essência, nenhuma destas mídias acabou, apesar de a seleção natural do mercado ter imposto adaptações ao longo do tempo.

A era da internet e da revolução da informação faz com que as dúvidas recaiam sobre a TV aberta. As novas plataformas lastreadas na web, como o streaming, fizeram com que os telespectadores deixassem de ser meros receptores, dando-lhes o poder de dar feedbacks imediatos e, mais importante, escolher quando, onde e como consumirão seus filmes e programas.

A virada de mesa no modelo de comunicação – antes restrito ao engessado polinômio emissor-canal-receptor-feedback – leva à pergunta sobre qual é a principal marca da sociedade contemporânea frente à nova oferta de consumo de produtos de mídia.

Primeiramente, relatarei uma experiência diária, como residente no Vale do Silício, a mais famosa capital “tech” do planeta. Ao chegar em casa, ou mesmo ao receber muitos amigos que são CEOs em grandes empresas de tecnologia, a primeira coisa que fazemos é ligar o aparelho televisor e deixá-lo num tradicional programa de notícias. Note-se que, mesmo num ambiente imerso na inovação, mantém-se um hábito arraigado de tempos “ancestrais”.

A discussão sobre o entrechoque entre novos e velhos hábitos é vista sob dois prismas nas universidades americanas nos estudos de mídias digitais e entertainment law. Por um destes primas, há fortes indícios de que os novos hábitos da era digital, apesar de assustarem os canais de televisão tradicionais, não são suficientes para decretar seu fim. Pesquisa realizada pela BBC, de Londres, nos Estados Unidos e Reino Unido aponta que ingleses e americanos se mantêm dentro da tradição de assistir TV passivamente, sintonizando os canais tradicionais sem qualquer programação prévia ou posterior.

O outro prisma vê a era digital como um fenômeno incontrolável que terá um poder de, ao longo do tempo, erodir os antigos hábitos de consumo, o que colocaria em maus lençóis os modelos de negócios das TVs tradicionais. O temor se dá principalmente por causa dos mais jovens, que conseguem acesso aos programas em streaming a partir de celulares e tablets, em trens e fora de casa, sem depender dos imóveis e “pesados” televisores. Aqui, o receptor escolhe quando quer fazer sua imersão.

Em recente pesquisa realizada pela Universidade de São Francisco, nos Estados Unidos, descobriu-se que jovens com menos de 35 anos gastam muito mais tempo no Youtube e outros serviços de vídeo sob demanda, como o Netflix. No entanto, se há esta tendência, ela ainda não chegou a níveis profundos de danos às TVs – na Inglaterra, o tempo das televisões tradicionais teve uma redução média de audiência de somente quatro minutos diários nos últimos dez anos.

Trocando em miúdos, o que vem se destacando nas conferências do Vale do Silício sobre Media and Entertainment Law é que o negócio de televisão tradicional, que se acreditava em perigo, é bastante resiliente. Ao mesmo tempo, muitos de canais digitais passaram a sentir o perigo de estar construindo um negócio em castelos em areia.

Cabe frisar que os canais tradicionais norte-americanos, outrora vistos como dinossauros após o “cataclisma” digital, estão se adaptando à seleção natural. Passaram a buscar rentabilidade com a diversificação, seja com assinaturas ou vendas de conteúdos a outros países. Passaram, elas mesmas, a contar com serviços complementares de streaming. De repente, várias empresas digitais bem financiadas, que eram vistas pelos executivos da TV tradicional como algo completamente diferente, não estão mais sozinhas.

O futuro dirá qual será o desenrolar do processo. Sabe-se, de antemão, no entanto, que sobreviverá quem tiver maior capacidade de adaptação. E claro, quem conseguir entregar o melhor conteúdo, porque, por mais que as plataformas mudem, os consumidores ainda procuram boas histórias ou programas de notícias realizados com excelência. Quem atender a este requisito, permanecerá.

Vanessa Souza, advogada no Vale do Silício, nos Estados Unidos, e no Reino Unido. É especialista em Leis de Tecnologia, privacidade de dados, crimes na internet, patentes e inovações tecnológicas, financiamento para startups, fintechs de blockchain e tecnologia aplicada no poder público

domingo, 5 de maio de 2019

Como se faz uma ditadura digital


Um dos primeiros sinais de que um regime é uma ditadura é o controle pleno da informação. Não é uma arma pequena. Ajuda, e muito, a quem não pretende deixar o poder

Por Pedro Doria - O Estado de S.Paulo

Em inglês há uma grande expressão: take for granted. É algo como ‘dar por certo’, sequer cogitar que algo possa não existir. Estamos lidando, no Brasil, com um novo governo de corte particularmente autoritário, que parece agir como se tivesse o direito de perseguir quem não compartilha de suas ideias. É, em sua ação, ímpar, único na Nova República. Mas não custa olhar para o norte do mapa, encarar de frente a Venezuela, para lembrar como é uma ditadura. Como é censura. Por aqui, a gente take for granted certas coisas – como internet e redes sociais, por exemplo. Nos queixamos de como operam. Cá esta coluna, um quê ranzinza, certamente o faz com frequência. Pois é. Como estão fazendo falta, as redes sociais, para nossos vizinhos.

É impossível saber o quanto o bloqueio à internet interferiu na quantidade de pessoas que foram às ruas apoiar o levante promovido pelo presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Juan Guaidó. Mas, como é o único meio de comunicação com o qual a oposição conta, o impacto certamente foi severo. Não é difícil, para o regime liderado por Nicolás Maduro, controlar a internet. E alguns números explicam o porquê.

A fonte é a BuddeComm, uma consultoria especializada no ramo de telecomunicações que pesquisa uso e tamanho das redes pelo mundo. O principal provedor de banda larga da Venezuela é a CANTV, uma estatal que ainda conta com uma infraestrutura baseada em par trançado de cobre. Algumas das companhias de televisão a cabo também oferecem acesso, mas são muito menores. A velocidade média da banda larga no país dos bolivarianos é de 1,61 Mbits/s. No Brasil, como margem de comparação, a velocidade média é de 24,62 Mb/s. A Netflix, por exemplo, para garantir qualidade SD – abaixo de HD – exige uma conexão de pelo menos 5 Mb/s.

Na telefonia celular o cenário não é diferente. O número de pessoas com smartphone, que chegou a passar de 100% da população por conta de muitos terem mais de um aparelho, vem caindo. Cada vez mais gente não tem como pagar as contas. É o líder regional em troca de mensagens de texto – o bom e velho SMS. Não à toa: a velocidade à qual muitos estão submetidos dificulta uso da internet. Uma boa parte dos usuários sequer têm conexões 3G.

Por controlar boa parte da infraestrutura de telecomunicações, não é difícil para o governo controlar quem pode acessar o quê. E o regime não hesita em adotar censura pontual, sempre que considera necessária. Imediatamente após Juan Guaidó divulgar no Twitter um vídeo afirmando ter as Forças Armadas ao seu lado, na manhã de 30 de abril, a internet começou a oscilar.

Segundo análise da NetBlocks, uma ong europeia que estuda censura das redes, estão fora do ar, desde a terça-feira, Twitter, Facebook, Instagram, YouTube, Bing, os serviços de mensagem do Google e o Periscope, usado para vídeos ao vivo. O Telegram foi bloqueado na web, mas tem recursos para furar censura via app. WhatsApp permaneceu instável o dia todo.

A NetBlocks entende do riscado – seu diretor, Alp Toker, vem da Turquia, um país no qual o governo Erdogan usa deste tipo de artifício a toda hora. 

Um dos indícios de que o governo tinha controle da rede é que, 20 minutos antes de Maduro falar à população, naquela noite, a rede voltou a funcionar normalmente. Terminado o pronunciamento, foi a vez de Guaidó se manifestar – a intermitência retornou.

Um dos primeiros sinais de que um regime é uma ditadura é justamente este: controle pleno da informação. Não é uma arma pequena. Ajuda, e muito, a quem não pretende deixar o poder.

Como é bom viver numa democracia. Até para reclamar das redes. E do governo.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Algoritmos confundem e sobrecarregam nossas vidas

Apesar dos laivos de esnobismo intelectual, o filme francês 'Vidas Duplas' discute, com charme, a vida imaterial e digitalizada

Por Léa Maria Aarão Reis  | Carta Maior


O principal cartão de visitas do francês Olivier Assayas apresenta o cineasta como autor de "um dos melhores filmes do século 21 – até agora", título que lhe foi agraciado pelo New York Times pelo filme que dirigiu, em 2008, Horas de Verão. Premiado habitual dos festivais de cinema de Veneza e de Cannes, Assayas, um dos favoritos da crítica européia, atualmente filma em Cuba um projeto especial que nos interessa de perto. 

Com Wagner Moura, Penelope Cruz, Gael Garcial Bernal e Edgar Ramirez no elenco, o seu novo longa é Wasp Network, baseado no livro do jornalista Fernando Morais, editor do site Nocaute, Os Últimos Soldados da Guerra Fria. O tema - não se trata de ficção -, é fascinante: a ação da Rede Vespa, um grupo de agentes secretos cubanos de elite que se infiltraram em organizações anti castristas em Miami, no começo dos anos 90 quando Cuba começou a sua bem sucedida investida no turismo internacional. 

Mas esta semana – a segunda – o artista plástico, ex-editor do Cahiers du Cinéma e reconhecido cinéfilo está em cartaz numa boa rede de cinemas das principais cidades brasileiras com o seu mais recente filme, Vidas Duplas, do ano passado, que por sua vez sucede a outro filme seu já exibido aqui: Personal Shopper, de 2017.

Tanto no anterior como neste de agora, Assayas se concentra e matuta sobre a existência dos duplos, do palco e dos bastidores, das vidas duplas, das dúvidas, reticências, das personalidades rachadas e mais ainda inconclusas diante das imensas mudanças atuais na vida humana real cada vez mais desmaterializada pelas invenções digitais.

Doubles vies acompanha Alain (Guillaume Canet) um editor de livros com sérias dúvidas se deve adaptar-se – ou conformar-se?-no seu trabalho, à era digital. Suas dúvidas vão da permanência e do êxito consumado dos e-books (como alimento cultural e também como fonte de lucros; como um bom negócio) à sua efêmera existência de uma moda como outra qualquer. 


Paralelamente a essa discussão, o editor recusa publicar o segundo livro de um autor seu, de sucesso comercial, Léonard (Vincent Macaigne), ao contrário do que pensa sua mulher, uma atriz de teatro ocasionalmente estrela de uma série policial de TV, Selena (Juliette Binoche), que acredita no projeto. 

Como pano de fundo, as relações duplas das duplas de amantes eventuais que se formam no coração do grupo de casais e mais uma jovem participante avulsa ocasional do clã. 

Atriz, editor, escritor, político, jornalista, especialista em marqueting digital (é claro) são os protagonistas que, na cama, acabam preferindo discutir algoritmos e a nossa vida digital a usufruir prazer, tesão, repouso e paixão. 

Assuntos na cama: os livros acessados em celulares, a mais recente novidade em investimento com grande perspectiva de lucros. O gênero literário da autoficção. O desapontamento da inversão nos e-books.



Angústias das bolhas de intelectuais burgueses.

Mas Juliette Binoche continua cativante, o modo de viver parisiense segue sedutor (o modelo de Assayas filmá-lo se inspira na espontaneidade milimetricamente estudada e no aconchego dos filmes do cinema oriental) e o negócio é acompanhar as mudanças mesmo que (como se diz ao final do filme, diante de um mar nublado singrado por pequeno barco) mulheres e homens continuem sendo, desde a sua minúscula origem "como uma ervilha" dentro da barriga da mãe, ou um canalha ou alguém íntegro.

"Vidas duplas não tenta analisar o funcionamento dessa nova economia, mas sim observar como essas questões nos abalam, pessoal, emocional e às vezes humoristicamente", propõe Olivier Assayas sobre esta sua comédia de costumes.

"A digitalização do nosso mundo e sua reconfiguração em algoritmos é o vetor moderno de uma mudança que nos confunde e sobrecarrega". Tem razão.

"A economia digital infringe regras e, muitas vezes, leis. Além disso, questiona o que parecia sólido na sociedade". É o mantra da insustentável leveza do ser, de Kundera.

Para além dos traços esnobes de Doubles vies vale a pena dar uma olhada neste filme que, no mínimo, confunde. 

sábado, 27 de abril de 2019

Google assistente agora lê livros



Por enquanto, o recurso está disponível apenas em inglês – e em alguns países, como Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Índia. A partir dele, o Google Assistente substitui os pais na tarefa de ler livros em voz alta para as crianças. Aliás, as próprias crianças podem acionar o recurso, simplesmente pedindo para o Google Assistente fazer a leitura dos livros. O único detalhe é que ele só consegue ler os livros que já tenham sido comprados e façam parte da biblioteca virtual da família. O novo recurso vai ser disponibilizado no próximo domingo. A data foi escolhida porque, nos Estados Unidos, é o dia nacional da leitura de livros – um evento criado, entre outras coisas, para incentivar a leitura para crianças. O que talvez quem criou a data nunca tivesse imaginado é que as histórias poderiam um dia ser lidas por uma inteligência artificial, sem nenhuma participação humana.

via Olhar Digital

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Um Twitter muito diferente

Se é nas redes sociais que se dá o debate político, é preciso que ele estimule o avanço das ideias

Pedro Doria | O Estado de S. Paulo

Fundador e presidente da rede social, Jack Dorsey é o homem por trás das mudanças do Twitter

Na tarde da terça-feira, o presidente executivo do Twitter, Jack Dorsey, entrou no Salão Oval para uma conversa com o presidente americano, Donald Trump. Foi Trump quem o convidou. Dorsey, que quando em público costuma se vestir muito informal, usa uma barba espessa e tem uma pegada hipster, estava de terno e gravata. Muito pouco foi divulgado a respeito da conversa. Mas o Washington Post ouviu de uma fonte que, por um longo tempo, Trump se queixou da perda de seguidores. Ele parecia acreditar que há uma política não declarada da plataforma de diminuir seu tamanho online. Dorsey, por outro lado, gostaria de ter falado mais sobre a qualidade das conversas.

É bem menor do que o Facebook, o Twitter. Segundo estimativa, fechou o primeiro trimestre com 330 milhões de usuários ativos por mês contra 2,37 bilhões da rede de Mark Zuckerberg. Mas é a plataforma favorita de Trump por lá, de Bolsonaro aqui, é quase uma unanimidade entre jornalistas, inúmeros cientistas políticos, assim como economistas. É a rede onde fervilham conversas de interesse público como nenhuma outra, é onde batalhas políticas são travadas. Pode ser menor que o Facebook, mas é profundamente influente.

No início do mês, Dorsey se sentou no palco do TED em Vancouver, no Canadá, para ser entrevistado durante 25 minutos pelo curador do evento, Chris Anderson. Assim como o Facebook, sua empresa está sob pressão, tendo de encarar questões ligadas a abuso e agressividade, informação falsa, e a toxicidade geral do debate político. Diferentemente de Zuckerberg, porém, Dorsey está desenhando em público um conjunto claro de metas sobre como mudar. Caso realmente execute o que promete, em alguns anos o Twitter será um bicho muito diferente do que é.

Redes sociais podem não parecer, mas são programas de computador. O tipo de interação que ocorre nelas é resultado dos incentivos que os arquitetos nelas puseram. Assim, destaque para o número de seguidores, de retuítes, de likes, dá a medida do que buscam seus usuários. É um jogo de números. E muito rápido todos aprendem que quanto mais indignação provoca um tuíte, quanto mais rábicos os debates, quanto mais emoções intensas são postas nas conversas — mais seguidores, retuítes e likes. Mudar quer dizer criar números muito distintos para acompanhar.

O Twitter já sabe quais serão estes novos medidores. Em conjunto com o MIT, chegou a quatro indicadores que se concentram em conversas acontecendo na rede. O primeiro é atenção compartilhada. O quanto do diálogo trata do mesmo assunto. Depois, realidade compartilhada. Ou seja: quanto das pessoas conversando partem dos mesmos fatos — mesmo que discordem das conclusões. Daí receptividade. Se o bate papo é educado, se avança com civilidade. E o quarto é variedade de opiniões a respeito do tema, desestimulando a formação de bolhas.

Agora, os engenheiros estudam como calcular cada um destes indicadores. Não é simples. Na sequência, antes de implementar, passarão um tempo avaliando como os quatro números se relacionam entre si. Afinal, por vezes quanto maior a variedade de opiniões, por exemplo, menor a concordância a respeito dos fatos essenciais do tema. É a partir deste aprendizado que Jack Dorsey pretende reinventar o Twitter.

Sua preocupação é a de todo mundo: se é nas redes sociais que o debate político se dá, é preciso que este debate realmente estimule o avanço das ideias. Mais encontros, menos separações. Mais trocas, menos carnificina. Talvez, quem sabe, daí outros tipos de políticos chamarão mais atenção.