sábado, 16 de junho de 2018

Argentina: uma biblioteca digital para todos


Por meio de financiamento da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), e em colaboração com editoras argentinas, a Tiflolibros, uma biblioteca digital para cegos, produziu 800 livros didáticos em espanhol.

As obras são para pessoas com deficiência visual ou com incapacidade de leitura de material impresso. O acesso a estes livros foi facilitado pelo Tratado de Marrakech – cujo nome oficial é Tratado de Marrakech para facilitar o acesso a obras publicadas às pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades para acessar texto impresso, adotado em junho de 2013. A Argentina foi um dos Estados que adotou a convenção internacional.

Saiba mais: www.tiflolibros.com.ar

via ONU

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Plataforma dá acesso à produção intelectual da USP desde 1985

Além do acesso à íntegra de textos, ferramenta indica caminho para material ainda não digitalizado; é possível encontrar até teses de 1914 da Poli

Por Luiza Caires -| Jornal da USP


O público tem agora disponível uma plataforma que simplifica o acesso à produção intelectual dos pesquisadores da USP. No momento em que este texto era escrito, a Biblioteca Digital da Produção Intelectual (BDPI) da USP reunia quase 925 mil registros, incluindo a produção científica, acadêmica, artística e técnica de pesquisadores, mais as teses e dissertações defendidas desde 1985 na maior universidade da América Latina. E, diariamente, esses números são atualizados, à medida que os bibliotecários cadastram novos documentos.

Idealizada para funcionar como um buscador sofisticado, mas ao mesmo tempo fácil de personalizar para o usuário de acordo com seus interesses, a ferramenta proporciona, a partir de uma única interface, a descoberta, recuperação e rastreabilidade da produção de pesquisadores, departamentos e unidades da Universidade.

Além do acesso à íntegra de documentos que estão disponíveis para acesso aberto na internet, a BDPI indica o caminho para o material mais antigo, que ainda não foi digitalizado. Os registros remontam ao ano em que se tornou obrigatório aos pesquisadores da USP o depósito de sua produção nas bibliotecas da Universidade. Mas é possível resgatar até mesmo alguns itens mais antigos que 1985, de períodos anteriores à criação da própria USP – por exemplo, teses e dissertações defendidas na então Faculdade de Direito e na Escola Politécnica em 1912 e 1914, que estão nas respectivas bibliotecas (essas unidades já existiam antes da fundação da USP, sendo depois a ela incorporadas).

Assim, mais que um mapa de todo esse conteúdo, “a BDPI é uma ação que valoriza a memória institucional da Universidade”, diz Tiago Murakami, chefe da Divisão de Gestão de Tratamento da Informação do Sistema Integrado de Bibliotecas (SIBi) da USP.

Está tudo lá?
Em relação ao conteúdo, todos os registros apresentam link para o texto completo, desde que o mesmo esteja disponível e acessível na Universidade. “No cerne da iniciativa está a ideia de promover o acesso aberto aos documentos na íntegra, democratizando esse acesso e estimulando o compartilhamento do conhecimento gerado”, afirmam Murakami e Elisabeth Dudziak, chefe da Divisão de Gestão de Desenvolvimento e Inovação do SIBi. Por isso, explicam eles, a associação de documentos aos registros existentes está sendo feita gradualmente, sempre em colaboração com os autores USP e as bibliotecas do sistema, resgatando e integrando dados e conteúdos que hoje estão disponíveis em uma plataforma mais antiga. “A unificação dos dois sistemas será realizada pouco a pouco”, ressaltam.

Algo que não será encontrado nesta Biblioteca Digital é a produção de alunos que não se trate de teses de doutorado e dissertações de mestrado. Essa limitação está relacionada, entre outras coisas, a direitos autorais, já que o vínculo do aluno com a Universidade é transitório. De qualquer forma, como uma grande parte da produção científica e acadêmica de alunos – a exemplo de artigos em periódicos – é feita em coautoria com docentes, também podemos esperar encontrar uma boa parte desse material na base. Da mesma maneira, não entram para o registro as produções de docentes que tiverem data anterior ao seu ingresso formal ou posterior à sua saída da USP.


Diferentes usos
A BDPI pode ser utilizada para descoberta de artigos, trabalhos de evento, livros e capítulos de livro, teses e dissertações por assunto, autor e por unidade, expressando competências e especialidades dos pesquisadores da USP.

Mas também é fonte de indicadores e métricas associadas às produções registradas, apresentando os totais por tipo de material, autor, ano de publicação, idioma, título da fonte, editora, idioma, agência de fomento, indexação em bases de dados, entre outras opções de recuperação de dados, apresentados em gráficos.

Permite ainda a geração de relatórios que podem ser visualizados na própria interface ou podem ser exportados. Tudo isso a torna uma ferramenta estratégica para o planejamento de unidades, departamentos e da USP como um todo, naquilo que é um dos pilares da sua existência: a pesquisa científica.

Além disso, os registros são enriquecidos com aplicativos que integram dados de outras bases para periódicos, incluindo informações sobre citações, tudo atualizado em tempo real. Isso quer dizer que se o paper de um pesquisador da USP for citado em algum periódico um pouco antes que alguém faça uma pesquisa por esse paper na Biblioteca Digital, os aplicativos que buscam essas citações as encontrarão e já as exibirão junto ao registro.

Painel de indicadores: Dashboard
O Dashboard permite visualizar de maneira simples informações pré-configuradas, podendo ser personalizado pelo usuário, com aplicação de filtros. O pesquisador poderá ter informações agregadas sobre sua unidade, departamento ou sobre um pesquisador, permitindo ter uma visão global do conjunto. Acesso pelo endereço http://bdpi.usp.br/dashboard.php.

Aspectos técnicos
A BDPI foi desenvolvida dentro da Universidade, por sua equipe, e customizada de acordo com as características da USP, com forte inspiração na Vufind, ferramenta aberta de busca para bibliotecas. Feita a partir de um software livre, a BDPI é totalmente compatível com o Google: para os nomes dos campos, foi utilizado um formato de metadados estruturados que este buscador utiliza, facilitando a indexação e recuperação por quem procura o conteúdo no google.com.

A plataforma reúne informações a partir dos registros cadastrados no Dedalus (Banco de Dados Bibliográficos da USP) e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, e enriquece esses registros coletando informações de outras fontes, desde o Currículo Lattes até bases internacionais como Web of Science, Scopus e Dimensions. A coleta é feita via aplicativos do tipo Application Programming Interface (APIs).

“Esforço conjunto de autores USP, das equipes das bibliotecas e do Departamento Técnico do SIBi”, como ressaltam Murakami e Elisabeth Dudziak, “a iniciativa revigora o objetivo de preservar a produção intelectual da Universidade e promover o efetivo acesso aberto”.

Conheça mais detalhes da plataforma no texto Plataforma BDPI revela indicadores e a produção de pesquisadores da USP, publicado no site do Sibi.

Luiza Caires, com informações de Tiago Murakami e Elisabeth Dudziak / Sibi

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Há tanta vida na tela

É fato que a leitura digital está sujeita à fragmentação e dispersão da atenção, mas também é verdade que recursos online enriquecem a experiência

Abel Reis | Época Negócios

"UM CASAL LENDO LIVROS IMPRESSOS EM UM RESTAURANTE INCOMODARIA TANTO QUANTO SE ESTIVESSE LENDO PELO CELULAR?" (FOTO: PEXELS)

O Google anda preocupado com o tempo que passamos online, especialmente no smartphone. Por isso lançou, em maio de 2018, um programa batizado de “Bem-estar Digital”. Considerado prioridade pela empresa, a sua promessa é frear o excesso de atividades em dispositivos eletrônicos. Ele permite monitorar a rapidez para atender uma ligação, quantos e-mails respondemos por dia e até programar o aparelho para ficar menos interativo durante conversas presenciais ou à noite. Claro que tudo isso deve ser ativado e acompanhado por ele, ele mesmo: o celular.

O pressuposto da plataforma é que estamos perdendo um mar de oportunidades lá fora. É sintomático que essa grande “campanha do bem” aconteça em um dos períodos mais críticos da empresa, pressionada duramente por temas como privacidade e segurança (ou melhor, a falta delas). A Organização Mundial da Saúde (OMS) pensa parecido. Incluiu o vício em games na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). A indústria da saúde curtiu e compartilhou a novidade. Nos Estados Unidos, surgiram clínicas de rehab para dependentes em tecnologia e prescrições médicas a rodo.

Os pesquisadores Christopher J. Ferguson e Andrew Przybylski, em estudos separados, concluíram o contrário do que dizem Google, medicina e senso comum. Os efeitos da dependência tecnológica não chegam aos pés da química. Gamers adoecidos são raríssimos, apenas 3% do total. Para a maioria dos adolescentes, celular e redes sociais aprofundam laços e interesses reais. Apenas uma minoria, já predisposta à depressão e ansiedade, comete abusos. E, de certa forma, se tornou conveniente culpar gadgets por problemas em casa ou na escola.

Ainda estamos nos habituando à onipresença da tecnologia em nossas vidas. Estivéssemos fissurados por escrever em um caderno - no trânsito, trabalho, na cama etc - seríamos criticados, vistos com pena ou encaminhados ao médico? Se andássemos para cima e para baixo com as 700 páginas do Ulisses de James Joyce - e não um dispositivo eletrônico -alguém acharia um exagero? E um casal lendo livros impressos em um restaurante? Incomodaria tanto quanto se estivesse lendo pelo celular?

Tudo que é novo - e a tecnologia sempre será - gera estranhamento e até medo. A leitura digital (ainda) não tem o charme da leitura em papel. Enquanto o e-reader “paga” de objeto técnico, a obra impressa tem status de objeto cultural. Por isso é socialmente mais aceita e até admirada, mesmo se consumida em doses cavalares. Como fica essa comparação se cotejarmos uma obra impressa medíocre com um poema digital de Jason Nelson? Por aí se vê a complexidade de definir o que é saudável ou não.

Se recuarmos à Idade Média, veremos que a consolidação da imprensa de tipos móveis - e o livro impresso - redefiniu o ato de leitura: a leitura silenciosa e introspectiva sobrepôs-se à leitura em voz alta, e as técnicas de memorização caíram em desuso. Vale dizer que um novo suporte físico para a palavra escrita trouxe consigo uma revolução semiótica que por sua vez trouxe impactos dramáticos nas sociedades europeias à época - que o diga a disruptiva reforma protestante!

É fato que a leitura digital está sujeita à fragmentação e dispersão da atenção típicas do novo meio. Mas também é verdade que recursos online como pesquisa, dicionários, tradução e comentários de outros usuários enriquecem a experiência, tornando a leitura introspectiva e social ao mesmo tempo. A história seria outra se o papel (por algum milagre da ciência e tecnologia) oferecesse essas mesmas facilidades? Provavelmente, sim. Provavelmente, haveria muitos fãs e poucos detratores da hiperconectividade, por mais viciante que ela fosse. Resumindo: estamos na infância de uma nova revolução semiótica.

*CEO da Dentsu Aegis Network Brasil e Isobar Latam

terça-feira, 12 de junho de 2018

Facebook: hora de compartilhar ou desgrudar?


A onipresente rede social de Mark Zuckerberg tornou-se um problema político, econômico e existencial – e já há quem defenda um êxodo em massa

Por Alexandre Matias | ] cultura [
Ilustrações Lucas Levitan

O SENADOR NORTE-AMERICANO Dick Durbin olhava para o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, por cima dos óculos, durante o interrogatório que o dono da maior rede social do planeta atravessou no início de abril. “Você ficaria à vontade em compartilhar conosco o nome do hotel em que ficou na noite passada?”, perguntou. “Ahn…”, balbuciou o cacique de uma tribo digital com mais de dois bilhões de pessoas, para responder em seguida, com um sorriso constrangido, “não”. A resposta foi recebida com uma explosão de gargalhadas dos presentes na sessão do senado americano, em Washington. 

O inquérito respondido por Zuckerberg dizia respeito ao escândalo envolvendo a maior rede social do mundo, que fora usada pela consultoria política inglesa Cambridge Analytica como plataforma digital para sugar dados de quase 90 milhões de pessoas e depois manipular suas escolhas online para que elas fossem refletidas em votos. A Cambridge gaba-se de ter sido decisiva em recentes terremotos políticos modernos, como a eleição de Donald Trump nos EUA e o Brexit, referendo que desconectou o Reino Unido do Mercado Comum Europeu. 

A bomba explodiu quando um ex-funcionário da empresa, o programador Christopher Wylie, veio a público para revelar que a Cambridge Analytica havia usado um inocente teste de personalidade postado na rede para drenar informações dos usuários do Facebook e influenciar suas escolhas a partir de anúncios e posts patrocinados direcionados para diferentes tipos de eleitores. A crise foi tamanha que a Cambridge anunciou em maio que fechará suas portas.

O teste vinha dentro de um aplicativo que pedia para que o público entregasse todo o tipo de informação sobre si mesmo armazenada pelo Facebook: agenda de contatos, quantidade de likes, links clicados, histórico de buscas. A minúcia chegava ao extremo de colher dados sobre pessoas que nem sequer estão na rede social, através de contatos digitais diferentes, como a agenda de telefones no celular ou o histórico de e-mails daqueles que aceitaram usar o app clicando inocentemente na caixinha de permissões do teste de personalidade.

Embora o próprio Zuckerberg lave as mãos e diga que foram as pessoas que aceitaram os termos de uso tanto do aplicativo quanto do Facebook, o fato é que a empresa controla uma quantidade de informações pessoais cada vez maior e tem se tornado central na maioria das conexões entre pessoas atualmente. Mesmo fora de seu domínio azul, Zuckerberg ainda rastreia as pessoas pelo Instagram e pelo WhatsApp, duas ferramentas independentes que tiveram saltos de popularidade e foram compradas pelo Facebook.

A era digital fez nascer um novo tipo de oligopólio: o dos dados pessoais. Aproveitando-se da ingenuidade do público e de uma nova legislação norte-americana que permitia a vigilância online após os atentados de 11 de setembro de 2001, novas empresas passaram a oferecer produtos online aparentemente gratuitos – sejam redes sociais, e-mails online, aplicativos de comunicação e de relacionamento, serviços na nuvem e mapas digitalizados – que coletam informações sobre cada passo dado por seus usuários. Ao aceitar os termos de uso destes novos serviços, as pessoas aos poucos foram abrindo mão de sua privacidade e até de sua liberdade, carregando dispositivos de monitoramento online em seus bolsos.

Corporações como Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft começaram a desdobrar suas atividades para além de suas funções originais, aumentando o nível de consentida invasão de privacidade de seus usuários. Conhecendo melhor seus clientes como nenhum outro tipo de empresa na história, eles começaram a vender estas informações em forma de publicidade, personalizando os anúncios de acordo com os hábitos digitais de seus “consumidores” – que são, na realidade, o verdadeiro produto oferecido aos anunciantes pela rede social.


Empresas menores como Twitter, Spotify, Uber e Netflix, entre inúmeras outras, também coletam seus dados para “melhorar seus serviços”, embora todos almejem ter a influência e o tamanho dos dois maiores gigantes digitais: Google e Facebook. Se o primeiro não tem uma grande rede social para conectar as pessoas, é simplesmente dono do maior site de buscas do mundo, do principal serviço de streaming do planeta (o YouTube), do principal sistema operacional para celulares (o Android) e do principal serviço de mapas online do mundo (o Google Maps).

Já o Facebook parece ter uma influência maior do que a simples inteligência artificial bradada pela empresa. Ele bane a nudez (incluindo mães que amamentam), mas não tira do ar cenas violentas, por alegada “liberdade de expressão”. No mesmo inquérito realizado nos EUA, Zuckerberg assegurou que grupos de ódio são proibidos no Facebook, quando qualquer usuário percebe a tendência belicosa por trás de comentários, likes e compartilhamentos. 

A crescente polarização ideológica da sociedade no mundo todo parece ter sido reforçada pela distribuição eletrônica de publicações da rede, com a criação de bolhas de interesse que não conversam entre si. Problema que o indiano Chamath Palihapitiya, que chegou a ser vice-presidente de crescimento de usuários da rede entre 2007 e 2011, apontou no fim do ano, em uma palestra na Escola de Negócios de Stanford sobre o vício em redes sociais. Para o ex-diretor da empresa, o Facebook está destruindo o funcionamento da sociedade e rasgando o tecido social ao fazer as pessoas se tornarem compulsivas no uso e na recompensa mental que seu uso traz. Na mesma época, o primeiro presidente do Facebook, Sean Parker, admitiu em um evento na Filadélfia que a rede foi desenhada para ser viciante: “Só Deus sabe o que estamos fazendo com o cérebro de nossas crianças.”

Todas essas revelações não alteraram significativamente o engajamento de seus usuários, embora um movimento de êxodo digital tenha se intensificado desde então, e o Facebook venha encontrando dificuldades em atrair usuários mais jovens. Obviamente, a opção de abandonar o Facebook é complicada, pois a rede se tornou central em uma série de relações sociais e comerciais – e ainda não encontrou um rival à altura (quadro acima).

O que nos deixa a um clique da tirania, como alertou a professora Melissa K. Scanlan, da Escola de Direito de Vermont, em um artigo no jornal britânico The Guardian: “O uso nefasto de nossos dados pessoais está em toda parte. Se a Cambridge Analytica pode obtê-los, o que impede que um governo também os tenha?” E prosseguiu: “A maior tirania seria a fusão do monopólio corporativo e do poder governamental, criando o estado de vigilância mais invasivo da história.”

Jamais poderíamos imaginar que a distopia do futuro digital que habitamos hoje fosse mais assustadora que a ficção de George Orwell e Aldous Huxley, que cogitaram, respectivamente, o estado de vigilância máxima personificado na figura do Grande Irmão no livro 1984 e o estado de êxtase alienante em Admirável Mundo Novo. O início do século 21 parece ser uma mistura destes dois cenários, em que alimentamos um Grande Irmão digital com nossos êxtases pessoais. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Como é a experiência de ter livros físicos ou e-books, segundo este estudo

Posse de bens digitais é diversa por fatores como impessoalidade e impossibilidade de presentear ou doar uma obra literária


Juliana Domingos de Lima | Nexo

CONSUMIDORES DE LIVROS DIGITAIS TÊM PERCEPÇÃO REDUZIDA DA POSSE DESSE ITENS EM RELAÇÃO À SENSAÇÃO DE TER LIVROS FÍSICOS

Um estudo publicado em maio de 2018 na revista Electronic Markets indica que a experiência psicológica de possuir livros digitais difere da sensação de ter livros físicos. 

Feito por pesquisadores da Universidade do Arizona e Universidade Towson, ambas nos Estados Unidos, o estudo “Consumer interpretations of digital ownership in the book market” (Interpretações da propriedade digital pelo consumidor no mercado livreiro, em tradução livre) confirma a percepção já relatada, informalmente, por leitores e profissionais do mercado editorial. 

A digitalização de livros e outros produtos de informação transformou a interação de pessoas com esses bens, segundo o estudo. 

Com o objetivo de explorar “como consumidores conceituam a posse de bens digitais” (se e-books, no caso, são percebidos como sendo “deles” mesmo sendo imateriais, armazenados em uma “nuvem”), a pesquisa entrevistou grupos focais de consumidores americanos.

Metodologia 

Os participantes dos grupos focais foram recrutados com base na utilização de tecnologias digitais e e-books. Foram formados quatro grupos, divididos segundo categorias geracionais. 

Um total de 31 pessoas – 26 mulheres e 5 homens – participaram de quatro sessões de uma hora de duração cada. O desequilíbrio no gênero entre os membros foi puramente incidental. 

Os dados qualitativos da pesquisa foram extraídos de transcrições das conversas com os grupos.

Os seis temas 

A partir dos dados extraídos dos grupos focais, os pesquisadores identificaram seis temas principais que esclarecem o “significado” da posse de bens digitais para as pessoas.

1 Limitações na posse do livro digital restringem sua experiência de uso 

A posse de um livro digital possui algumas limitações. Restrições de compartilhamento, por exemplo, são parte da gestão dos direitos digitais do produto, imposta pelas editoras como meio de impedir a perda de receita que seria causada pelo compartilhamento ilimitado do arquivo. 

Os participantes relataram frustração e sensação de injustiça relacionados a esse controle. Cientes das limitações jurídicas mas acostumados aos direitos de propriedade normalmente associados à aquisição de bens físicos, não aceitam o fato de não ter plenos direitos sobre um bem após a compra. 

Para eles, o custo dos e-books não corresponde ao valor experimentado no uso e na posse desses bens. Deveriam ser mais baratos.

2 Esse controle limitado sobre a posse do e-book prejudica as trocas sociais e o estabelecimento de conexões 

Donos de livros digitais não têm a possibilidade de vender, emprestar, doar ou dar esses livros de presente. Pelo menos não com a mesma facilidade com que fariam com um livro físico. 

Por inibir as interações sociais mediadas pelo livro, o livro digital acaba levando a uma percepção reduzida da posse, tanto no aspecto psicológico quanto legal. 

Embora a Amazon permita o empréstimo de e-books adquiridos na plataforma, participantes argumentaram ser um procedimento mais complicado em relação ao livro físico.

3 Senso de identidade, pertencimento e vínculo são maiores a partir de livros físicos 

A imaterialidade dos livros digitais prejudica a habilidade de quem os têm de se relacionar com eles como únicos ou pessoais, impedindo que se crie um senso de identidade a partir deles, de desenvolver apego e sentimento de posse. 

Nesse aspecto, o ato de fazer anotações ou grifos em um livro físico foi citado como um meio de torná-lo “seu”. Embora leitores digitais apresentem essas mesmas opções, notas ou destaques digitais não pareceram facilitar o sentimento de personalização relativo ao e-book. 

O cheiro, o tato e as informações trazidas pela capa e contracapa dos livros físicos também foram mencionados por participantes. Segundo o estudo, o emprego de diferentes sentidos na interação com o bem em questão realça a percepção de posse. 

A exibição de uma coleção de livros foi levantada, ainda, como um fator importante na expressão da identidade do indivíduo, o que só teria sentido com livros físicos. 

O caráter temporário e facilmente substituível do livro digital indicam falta de conexão de quem o possui com relação a ele.


4 Estilo de vida minimalista estimula preferência por livros digitais 

Apesar de reconhecerem a sensação de posse do e-book como reduzida, alguns participantes veem a posse como um fardo e usam produtos digitais para se livrar do trabalho de manutenção (como tirar pó) e requisitos para o armazenamento (como espaço) associados a livros físicos.

5 Preferência pelo valor de uso estimula uso de livros digitais 

E-books oferecem vários benefícios específicos, derivados do uso do produto, e não de sua posse. O acesso facilitado a um grande número de títulos vem ganhando aceitação de consumidores. 

Os hábitos de consumo de diversos participantes eram mais próximos do aluguel do que da compra. Outros acessam conteúdo digital de bibliotecas, alternativas que tornam as restrições de propriedade mais aceitáveis no ponto de vista dos consumidores de livros digitais.

6 Jovens não necessariamente preferem o digital A suposição típica de que consumidores mais jovens preferem produtos digitais não foi confirmada pelo estudo. 

Os grupos focais do estudo foram divididos de acordo com um critério geracional, com o objetivo de examinar se hipóteses relacionadas à adoção da tecnologia por gerações distintas impactariam a maneira como participantes interagem com seus bens digitais.

Os “millennials” (nascidos entre 1982 e 2000, segundo considerou o estudo), frequentemente descritos como “letrados” em tecnologia, mostraram, no geral, uma atitude mais negativa com relação aos e-books do que o esperado.  O grupo etário mais jovem manifestou forte preferência por livros físicos, o que difere significativamente dos grupos mais velhos, nos quais a adoção do e-book pareceu mais difundida, que valorizam funções como a possibilidade de aumentar o tamanho a fonte do texto. 

Independentemente da idade, quase todos os participantes se mostraram fortemente apegados aos livros físicos em determinadas circunstâncias e contextos e nenhum se declarou confortável com a ideia de uma experiência de leitura integralmente digital. 
Os resultados sugerem que o produto digital poderia se beneficiar da emancipação de seu correlato físico. “Descobrimos que os consumidores que associam o consumo digital aos significados de propriedade tradicionalmente ligados a bens materiais mostraram maiores níveis de frustração [com relação à posse de itens digitais]”, diz o estudo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Celular: como dar um tempo


Um plano para se livrar da ansiedade e retomar a sua vida

Dicas práticas testadas para realmente mudar a vida de todo mundo que já sofreu com a ansiedade de ter um smartphone.

Seu telefone é a primeira coisa que você procura ao acordar e a última coisa na qual toca antes de dormir? Você já sentiu ansiedade de passar muito tempo longe do celular — ou muito tempo nos aplicativos dentro dele? Já se viu pegando o seu smartphone apenas para responder uma mensagem e quarenta e cinco minutos depois se assustou ao descobrir quanto tempo se passou? Já disse que gostaria de passar menos tempo com o aparelho, mas não sabe como fazer isso sem perder os benefícios que ele trouxe para a sua vida? Se respondeu sim a qualquer dessas perguntas, este livro é a solução para você. 
A premiada jornalista Catherine Price apresenta um plano prático e detalhado de como dar um tempo na relação com o celular – e depois fazer as pazes. O objetivo? Um relacionamento duradouro e livre de anseios no qual você se sinta bem.


Título: Celular: como dar um tempo: o plano de 30 dias para acabar com a ansiedade e retomar a sua vida
Autora: Catherine Price
Páginas: 176
ISBN: 9788584391141
Editora: Fontanar

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O Brasil paralelo no WhatsApp


Durante a crise dessa semana um outro mundo acontecia nos grupos de WhatsApp

Pedro Doria | O Estado de S. Paulo
Imagem: Internet

Há, nas entranhas do WhatsApp, um outro Brasil. Nele, uma quantidade imensa de pessoas vive uma realidade paralela. Passei a última semana me dividindo entre seis grupos distintos. Estes ‘grupos de notícias’ informam aquilo que a imprensa ‘não tem coragem’ de contar. Para o observador atento, os grupos revelam dois processos paralelos: Um deles é uma estrutura de marketing político de guerrilha em formação, fazendo um jogo sujíssimo. O outro é um novo tipo de brasileiro, despolitizado e no entanto engajado, tentando compreender a confusa realidade à volta, com as poucas ferramentas de que dispõe.

Grupos no WhatsApp têm um limite de tamanho: 256 usuários. E os convites podem ser distribuídos por links. Essas são informações chaves para compreender a dinâmica de como funcionam. Os links para entrar nos grupos de notícias vão circulando, do grupo de família para o do serviço.

Quem entra é abastecido com centenas de mensagens por dia. São vídeos, áudios e imagens, quase nunca texto. Muitos memes com críticas ao governo. Os vídeos e os áudios carregam um sentido de urgência, de que é preciso encaminhar, que a notícia tem de alcançar a maior quantidade de pessoas possível. Rápido. Sempre falsas.

Durante o estirão final da greve, as mensagens principais eram três: não confie na imprensa, a intervenção militar está para acontecer – basta um dia a mais de caminhões parados. Os generais estão decididos. É segurar um pouco mais, e quem fica na fila de posto de gasolina é burro. Em memes e vídeos, burros foram imagens constantes. É a gente que não aguenta o tranco. Os caminhoneiros parados conseguiram baixar o preço do seu combustível, as cidades precisam ir às ruas, também parar, mostrar sua fibra. Derrubar o governo é fundamental.

Nada é acidental ou espontâneo nestes grupos. Muitos leem, dois ou três os alimentam com a torrente de posts. E alguém, por trás, passou dias produzindo material. A cada dez minutos tem alguma coisa nova para que todos sejam mantidos em alerta. O conjunto oferece uma mensagem organizada e calculada com um efeito em mente. E, sempre que um grupo começa a encher, um novo grupo é publicado.

Há uma operação por trás deste processo, gente especializada construindo a mensagem. O governo, já frágil por deméritos próprios, sofreu uma tentativa de sabotagem por equipes que sabiam muito bem o que estavam fazendo. Tentaram aproveitar-se da greve dos para provocar um novo 2013 nas cidades. Não conseguiram.

Mas conseguiram outras coisas. Porque todo mundo que se inscreve nos grupos deixa duas informações essenciais: é alguém que procurou, que está querendo notícias novas e o número do celular com DDD, ou seja, origem geográfica. A turma do marketing de guerrilha construiu um banco de dados bem fornido de pessoas crédulas, engajadas, que formarão o marco zero da distribuição de fake news na campanha eleitoral.

Não é o fato de os grupos serem de extrema-direita que mais impressiona. É sua credulidade, ingenuidade política. “Os militares já estão chegando em Brasília”, dizia um áudio. Como se eles precisassem ir para a capital. “O general Beltrano vai subir a rampa do Senado às 15h”, informava outro. A rampa é do Planalto. “O deputado Cicrano deu ordens.” Deputados não dão ordens. As incongruências, as notícias falsas tão vagas, não ligam o alerta de ninguém, mas alimentam uma raiva já existente. Terreno fértil para um demagogo populista. 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Philip Roth (1933-2018)

"Roth começou irritando os conservadores dos anos 60 (com “O Complexo de Portnoy”) e terminou irritando os neomoralistas de internet. Deixou, além da grande obra, a expressão “êxtase da santimônia”: impossível definição melhor da mediocridade deste nosso tempo ávido por “likes” nas redes sociais."


Roth: "Todos trabalham para mudá-los, persuadi-los, tentá-los e controlá-los. Os melhores leitores vêm à ficção para livrar-se desse barulho" (Eric Thayer/Reuters)

Rui Goiaba, na Revista Crusoé

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Queimando livros na era digital

Possuir livro físico que não pode ser rastreado ou hackeado pode ser visto como ato de rebelião
         
Matt Wasielewski, The New York Times
via Estadão

Num tribunal de Nova York, advogados debatiam as ideias racistas de Atticus Finch. Enquanto isso, livros, incluindo “O Sol é para todos", no qual Finch é o virtuoso herói, eram queimados na televisão numa refilmagem de “Fahrenheit 451.” É algo que lembra meados do século 20, mas esses clássicos americanos ainda ecoam em 2018.

Produzida com 7 milhões de dólares, a adaptação de Aaron Sorkin trazendo para os palcos o romance de 1960, “O Sol é para todos”, que lida com o racismo, deve estrear na Broadway em dezembro após acordos que puseram fim a uma série de processos judiciais este mês.

O patrimônio da autora, Harper Lee, processou a produção, alegando que o rascunho do roteiro era demasiadamente diferente do romance. Mas o principal produtor do espetáculo, Scott Rudin, disse ao Times que não estava disposto a manter alguns dos antiquados pontos de vista do livro a respeito do racismo.

“Não quero e não vou apresentar um espetáculo que, em se tratando de políticas raciais, dê a impressão de ter sido escrito no mesmo ano que o livro", disse Rudin. “O mundo mudou de lá para cá.”

A questão foi complicada pela publicação de “Vá, coloque um vigia", no qual Lee retrata Finch como um velho racista e segregacionista.

“O gênio saiu da garrafa", disse ao Times Joseph Crespino, autor de um livro a respeito de Atticus Finch. “Não podemos ter a figura idealista e descomplicada de Atticus, principalmente quando sabemos que ela estava lutando para compreender o personagem.”

Enquanto Rudin debatia no tribunal o contexto contemporâneo do romance, Ramin Bahrani o estava queimando, juntamente com as obras de Platão, Kafka, Marx e J.K. Rowling.

A versão cinematográfica de Bahrani para “Fahrenheit 451” está em cartaz na HBO. Inicialmente, Bahrani temeu que o alerta de Bradbury mostrando um mundo distópico e sem livros, sem o conhecimento que eles contêm, não ecoaria na cultura contemporânea e sua preferência pelo digital. Mas, nas páginas do Times, ele escreveu dizendo ter percebido que a mensagem do romance continua tão relevante hoje quanto na época de sua publicação, em 1953.


Possuir um livro físico que não pode ser rastreado ou hackeado pode ser visto como ato de rebelião Foto: Pixabay

“Bradbury estava preocupado com o advento da Reader’s Digest. Hoje, temos a Wikipedia e o Twitter", escreveu ele. “O autor temia que as pessoas se limitassem a ler as manchetes. Hoje, parece que os emojis substituíram metade das palavras na internet.”

Bahrani disse que Bradbury previu a ascensão dos “fatos alternativos” numa era da “pós-verdade”. Num mundo digital, possuir um livro físico que não pode ser rastreado, hackeado ou alterado pode ser visto como um ato de rebelião.

A indústria da moda também está reinventando uma relíquia da era pré-digital para fazer uma afirmação contemporânea. Das passarelas às butiques de Paris boutiques, os padrões estampados das colchas são o último grito.

Na loja da Calvin Klein em Manhattan, os fregueses podem escolher a partir de um acervo de colchas estampadas artesanais dos séculos 19 e 20. Em abril, a fabricante de acessórios Loewe apresentou uma coleção de estampas na Feira de Móveis de Milão. E as marcas começaram a oferecer jaquetas masculinas decoradas com tecidos estampados do mesmo tipo.

“Para mim, essa é a relação com a vida doméstica e com as emoções de um consumidor", disse Emily Bode, estilista da Bode, marca de moda masculina que oferece paletós exclusivos com estampas tradicionais a 1,5 mil dólares.

Ela disse que as estampas como as das colchas oferecem uma sensação física e emocional de conforto. 

“Tivemos dois fregueses que compraram seus casacos estampados e, no mesmo dia, dormiram usando as peças”, disse ela ao Times.

Com o mundo da moda ligado nos perfis do Instagram, a sensação caseira dessas colchas é um atrativo.

Amelia Peck, curadora de arte decorativa americana no Metropolitan Museum of Art, disse, “O engraçado é que as colchas já foram redescobertas outras vezes”.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A França contra os Robôs


"O perigo não está nas máquinas, senão teríamos de sonhar o absurdo: destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, ao quebrar as imagens, se vangloriavam de aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número crescente de homens habituados desde a infância a desejar apenas o que as máquinas podem dar." Georges Bernanos


Além de ser contado entre os maiores escritores franceses, Georges Bernanos foi, durante a Segunda Guerra Mundial, desde o seu autoexílio no Brasil, uma voz incisiva na denúncia do colaboracionismo de parte da França com o regime nazista. Perante a derrota de Hitler, sua batalha deveria terminar? De maneira nenhuma: sem concessões em seu antitotalitarismo, ele antevê e se opõe a uma nova ameaça à liberdade, ascendente tanto no mundo capitalista como no mundo comunista – o império da técnica, do dinheiro, do controle mecânico. A França contra os Robôs é uma eloquente defesa da liberdade humana diante do crescente predomínio da tecnologia. Esta edição conta com uma seção de textos inéditos, incluindo correspondências, entrevistas, discursos e anotações de Bernanos concomitantes à escrita do livro.


A França contra os Robôs
Georges Bernanos
É Realizações, 2018
256 páginas

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Como a inteligência artificial está ajudando a decifrar os códigos do Arquivo Secreto do Vaticano


Um novo software pode fazer com que séculos de documentos escritos em latim sejam disponibilizados na internet

Zelda Caldwell | Ateteia

O Archivum Secretum Vaticanum ou Arquivo Secreto do Vaticano (ASV) parece algo tirado das teorias conspiratórias de ficção, bem ao estilo do escritor Dan Brown.

Mas, na realidade, os ASV são simplesmente um conjunto de arquivos privados (melhor tradução para a palavra “secretum”) do Papa. Porém, desde que o Papa Leão XIII abriu o arquivo a alguns estudiosos, em 1881, ele deixou de ser particular.

Teoricamente, desde o século VIII, todos os textos, documentos históricos, atas promulgadas pelo Vaticano, livros de contas e correspondências dos papas estão disponíveis aos pesquisadores qualificados para isso.

O único problema é que o enorme volume de arquivos os torna virtualmente inacessíveis.

De acordo com um artigo de Sam Kean publicado no The Atlantic, dos 85 quilômetros de fila de estantes do Arquivo Secreto do Vaticano, somente poucos milímetros de páginas foram escaneados, transcritos e preparados para ficarem acessíveis aos serviços de busca na internet.

Agora, o In Codice Ratio, um programa que utiliza inteligência artificial e reconhecimento ótico de caracteres (OCR) para transcrever automaticamente conteúdos, está sendo utilizado para digitalizar os arquivos do Vaticano.

Porém, segundo Kean, o OCR faz maravilhas com documentos escritos à máquina, mas não pode processar o texto manuscrito. As letras tendem a se misturar e nem sempre o que se encontram são “exemplos claros e nítidos” das letras que supostamente representam.

É aí que entra em jogo a inteligência artificial. Os pesquisadores recrutaram estudantes de um instituto italiano sem nenhum conhecimento em latim medieval. Com base em exemplos de letras que o software de OCR já havia identificado, os estudantes deveriam comprovar se elas correspondiam ou não aos símbolos corretos. Tudo o que eles tinham que fazer era comprovar os padrões visuais. O software anotou os apontamentos que os estudantes fizeram e corrigiu os erros.

Quando o projeto teve início, “a ideia de envolver os estudantes era desacreditada”, contou Paolo Merialdo, cientista da Codice Ratio. “Mas, agora, a máquina está aprendendo com os esforços dos estudantes. É incrível como uma pequena e simples contribuição de muitas pessoas pode ajudar a solucionar um problema tão complexo”, comemora Paolo.

Transcrever ao computador os antigos escritos também não está sendo tarefa simples. Um terço das palavras continha erros, o que atrapalhava a leitura. Mas o trabalho já foi considerado um grande avanço.

“As transcrições imperfeitas podem oferecer informações suficientes sobre o contexto do manuscrito em questão”, contou Merialdo a Kean.

Além disso, os cientistas que estão por trás do projeto esperam que o software melhore com o tempo, já que, quanto mais se aprende com a inteligência artificial, melhores são os resultados obtidos.

Para ler o artigo completo do The Atlantic (em inglês), clique aqui.

domingo, 13 de maio de 2018

Como sobrevivem as editoras de DVD nos tempos de streaming?

Versátil Home Video e Obras-Primas do Cinema resistem ao cenário desfavorável e apostam nos colecionadores
        
André Cáceres, O Estado de S.Paulo

Em 1997, Reed Hastings alugou o filme Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo na Blockbuster e teve de pagar uma multa por atrasar a devolução da fita cassete. Esse pequeno infortúnio o motivou a livrar os cinéfilos das taxas por atraso e criar a própria empresa: a Netflix. Duas décadas mais tarde, a Blockbuster foi à falência e as assinaturas de serviços de streaming superaram as vendas de filmes em mídia física nos Estados Unidos. 

Fernando Brito, curador da Versatil Home Video, uma das últimas editoras de DVDs do Brasil Foto: Gabriela Biló/Estadão

Desde 2016, o valor arrecadado por plataformas como Netflix, Hulu e Amazon Prime cresceu 53% enquanto o que se gastou em discos diminuiu 24%. O abismo entre os modelos de negócio parece cada vez maior, tanto que a Criterion Collection, uma das mais respeitadas editoras de DVDs do planeta, se rendeu ao charme do streaming: em parceria com a TCM, lançou o FilmStruck, uma plataforma dedicada aos clássicos do cinema. No Brasil, porém, duas editoras ainda resistem em um cenário nada auspicioso para os DVDs: a Versátil Home Video e a Obras-Primas do Cinema. 

Fernando Brito, curador da Versátil, lembra que o mercado já passou por outras crises quando a TV a cabo chegou ao País, na década de 1990, com uma oferta maior de filmes clássicos, e, nos anos 2000, com a proliferação da pirataria pela internet. “O que muda agora é a questão geracional”, afirma Brito ao Aliás. “O jovem de hoje não faz questão da mídia física. A relação que se dá com a arte e a cultura é muito mais líquida, ágil e superficial”, lamenta ele.

Valmir Fernandes, cofundador da Obras-Primas, explica que existem dois nichos principais que ainda consomem DVDs e mantém o mercado funcionando: os colecionadores e os estudantes. Para os primeiros, “a escolha vem de pesquisa de filmes que foram lançados dos anos 1940 aos 1970 e não são encontrados hoje ou não tiveram o complemento de outros títulos”. Já para os que cursam faculdades de cinema, jornalismo e publicidade, Valmir centra os esforços em filmes mudos ou coleções sobre a história do cinema. 

“No mercado de nicho para filmes clássicos, europeus, independentes, fora do circuito comercial mais óbvio, você tem um circuito de arte que é ativo”, informa Fernando, e por isso a Versátil e a Obras-Primas lançam recorrentemente caixas temáticas de cinema de gênero, cult e obras antigas em geral. “Na internet, é difícil o acesso a esse conteúdo. A legenda é ruim, há links quebrados… Isso cria uma demanda, porque os colecionadores não deixaram de existir”, diz Fernando. 

Colecionismo. Nesse cenário em que o público geral deixou de consumir mídia física, mas ainda existe uma audiência carente por filmes de arte, é inviável competir com as plataformas de streaming em termos de preço, pior ainda publicar um produto descuidado. “Não adianta lançar apenas um DVD simples”, adverte Valmir. “É importante fazer um box que a pessoa ache legal ter na sala, no quarto, uma coisa bonita, para apreciar em mãos.” O cuidado com a edição dos filmes soa semelhante ao que ocorre hoje na indústria fonográfica, em que o LP, após ter quase morrido (no Brasil, não havia mais nenhuma fábrica de vinis até poucos anos atrás), retornou a todo vapor. “O vinil estava morto, renasceu, hoje você tem fábricas sendo abertas”, comemora Fernando. “Tem toda a mística de pegar um álbum, do som, de ter uma relação ritual de abrir os encartes; a geração nova não conhecia o vinil e redescobriu”, completa ele.

Fernando admite que os chamados millennials ainda não demonstraram pelo DVD o apreço que parecem ter adquirido recentemente pelo vinil, portanto também aposta nos colecionadores mais velhos. “A geração anterior ainda valoriza o colecionismo e tem um poder de compra mais elevado. É um nicho, mas que está ávido por conteúdo, portanto é preciso investir justamente na qualidade, pensando no produto não só como o filme em si, mas a cópia restaurada, com qualidade de imagem, conteúdo extra, comentários, depoimentos, uma edição crítica”, explica o curador.

Apesar do crescimento do setor de streaming e da recente investida da Criterion Collection, nem a Versátil e nem a Obras-Primas pensam em migrar para essa área. “Acredito que o colecionador ainda vai existir por um bom tempo. Se eu levasse meu conteúdo para o streaming, estaria dando um tiro no meu pé. O cinéfilo não gosta de ver o filme no computador ou baixar. Ele gosta de ter na mão”, insiste Valmir. Fernando concorda, e ainda tece críticas ao formato atual: “O problema do streaming é que os filmes não ficam em catálogo constantemente. Não é um conteúdo fixo, de referência. É mutável, está no ar por um curto período de tempo e depois sai da disponibilidade.”

Se por um lado a vantagem econômica das mídias digitais parece cada vez maior, por outro a relação mais profunda e duradoura que surge do contato com o material físico ainda pode seduzir os mais jovens. Em 2017, as vendas de CDs e vinis superaram pela primeira vez em anos as receitas do download de música. Se o mercado cinematográfico ainda não seguiu os passos da indústria fonográfica, pelo menos a esperança permanece viva. “Esse renascimento me faz pensar que essa geração millennial e a anterior pode redescobrir a mídia física”, acredita Fernando. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

E o Google sacudiu o mundo digital

Muito raramente há algo realmente novo na temporada de conferências para desenvolvedores. Foi o caso do Google, este ano. Deu um salto – e, nesta, deixou todo mundo para trás. A sério.

Pedro Doria - O Estado de S. Paulo




O presidente executivo do Google, Sundar Pichai, fala na abertura do evento Google I/O, em Mountain View: foco em inteligência artificial

Entre maio e início de junho ocorre a temporada das conferências para desenvolvedores no Vale do Silício. Abre com a F8, do Facebook, passa pela Build, da Microsoft, daí Google I/O, e se encerra com a WWDC, da Apple. É uma oportunidade para as grandes empresas apresentarem a quem escreve programas os caminhos de suas plataformas. Em geral, com muita fanfarra, o que mostram mesmo são pequenos incrementos do que já existia. Muito raramente há algo realmente novo. Foi o caso do Google, este ano. Deu um salto – e, nesta, deixou todo mundo para trás. A sério.

O anúncio mais espetacular foi Duplex, um adicional à Assistente digital da plataforma. Quem tem celular Android conhece. O Assistant é aquela moça para quem damos comandos de voz. A Apple tem a Siri, a Amazon, a Alexa, Samsung programa a Bixby e, a Microsoft, a Cortana. Todo mundo tem a sua. Mas, com o Duplex, a assistente do Google liga para o salão de cabeleireiro, conversa com a atendente, marca um corte para segunda às 10h porque meio-dia já estava ocupado. E a moça do salão sequer desconfia que está conversando com um computador.

Muitas décadas atrás, o pai do computador, Alan Turing, propôs um teste para uma inteligência artificial. Ela passa o teste quando um ser humano travar uma conversa sem desconfiar que o papo se deu com uma máquina. O Google passou no Teste de Turing. E, por si, este é um feito extraordinário.

Deixou também muita gente tensa. Será ético? Não custa deixar claro o que a tecnologia faz. Não dá para sacar o telefone e conversar com o Google Duplex no bar sobre a vida, o universo e tudo mais. O sistema cumpre missões bem delimitadas: marca hora num salão, explica o serviço e põe na agenda. Pode fazê-lo também num restaurante. Possivelmente será capaz de resolver problemas no banco ou cancelar serviços daqueles que nos penduram três horas e meia ao telefone.

E daí o dilema ético: no primeiro momento, acentua um apartheid social. Enquanto pessoas mal pagas estão penduradas no telemarketing, quem tem acesso à tecnologia não precisa mais se dar ao trabalho de conversar com essa turma. Dificilmente dura muito tempo – na hora que robôs assumirem a burocracia, o processo todo vai se digitalizar e aqueles empregos acabam. De qualquer forma, Siri e Alexa sequer viram o caminhão passar. Terão dificuldades de se recuperar desta. O Duplex, porém, não está pronto e vai demorar.

O que está pronto e chega em breve é o novo Android, versão P. E ele faz algo também radical: incentiva o usuário a não consultar seu telefone. Até agora, smartphones haviam sido criados para viciar. Uma engenharia cuidadosamente influenciada pela antropologia e psicologia para nos fazer consultar o aparelho de cinco em cinco minutos.

Com o novo Android, o usuário pela primeira vez terá ferramentas que lhe informam quanto tempo gastou no Twitter, no Facebook ou no e-mail. Quem achar que uma hora por dia nas redes já é demais pode colocar um timer: bateu naquele limite, o ícone do app fica cinza e não liga ou abre de jeito nenhum. Só se dando ao trabalho de voltar e reconfigurar.

Há macetes mais simples. Vire a tela de cabeça para baixo e luzes, bipes e tremores se calam. O aparelho para de ficar chamando sua atenção toda hora. Sim: é possível escolher um grupo de pessoas cujas ligações passam. Mas só aquelas. Desta forma, o jantar com os filhos ou o chope com os amigos é poupado das tentações.

O vício em tecnologia é, cada vez mais, reconhecido como um problema. Ao invés de conectar, nos desconecta de quem está em volta. Pela primeira vez, um sistema de celular encara este monstro de frente. É só o início. Mas é uma baita transformação cultural no Vale.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Internet será inundada com trabalhos protegidos há décadas por direitos autorais em 2019


Chaplin em “Pastor de Almas”, e o cartaz do filme || Créditos: Getty Images

Pela primeira vez em mais de duas décadas, uma quantidade sem precedentes de filmes, músicas e outros trabalhos artísticos publicados há quase 100 anos se tornará domínio público nos Estados Unidos e no resto do mundo. A liberação está marcada para o dia 1º de janeiro de 2019, e inclui clássicos da telona como “Pastor de Almas”, o filme mudo lançado em 1923 por Charles Chaplin, e “Os Dez Mandamentos”, o longa de 1956 dirigido por Cecil B. DeMille e estrelado por Charlton Heston.

Há ainda composições da dupla Bela Bartok e Aldous Huxley e todos os seis volumes da coletânea “The World Crisis”, um relato em primeira pessoa sobre a primeira Guerra Mundial escrito por Winston Churchill, além do texto completo do musical “London Calling!”, de Noël Coward, e vários contos de P.G. Wodehouse. Tudo faz parte de um movimento que começou a tomar forma nos EUA em 1886.

Pioneiro em questões de direito autoral no cenário global, o país trata o tema com a devida importância desde aqueles tempos, e a partir de 1922 várias instituições públicas de lá passaram a incluir em seus acervos trabalhos relevantes de autores que os cederam depois da morte. Isso geralmente ocorre em intervalos de dez a 50 anos, mas desde 1998 não acontecia algo parecido e e uma escala tão grande.

A maior parte do conteúdo será disponibilizada na biblioteca virtual Google Books, e engenheiros do site de busca trabalham desde já na digitalização de tudo. Novas leis aprovadas mundialmente nos últimos anos deverão tornar esse tipo de “democratização artística” cada vez mais comum. A propósito, o curta de 1928 “Steamboat Willie”, estrelado por Mickey Mouse e há anos alvo de disputas da Disney para protegê-lo, tem tudo pra ser finalmente liberado no começo de 2024. 

Anderson Antunes | /Glamurama

Depósitos do conhecimento



Cena do episódio "Safe And Sound" da série distópica "Philip K. Dick's Electric Dreams" (Amazon Prime, 2018)

Jovem dominada por fobia social muda-se com a mãe para uma cidade futurística. Diante da ênfase em segurança e prevenção contra o terrorismo do local, não demora e sua vida escolar é consumida por medo e paranoia. Logo, ela encontra orientação e companhia nos lugares mais inesperados.