sábado, 6 de julho de 2019

Como será o futuro digital dos filmes e séries?

Foi em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895, que os irmãos Auguste Marie Louis Nicolas Lumière e Louis Jean Lumière apresentaram, pela primeira vez, um filme numa exibição pública.

Com quase 125 anos de idade, ao menos em sua forma moderna, a chamada Sétima Arte faz parte da nossa vida cotidiana e está longe de ser um fenômeno excêntrico como na época dos irmãos Lumière.

Com a difusão dos cinemas, que ganhavam cada vez mais popularidade, especialmente em épocas de crise (como na década de 1930, nos Estados Unidos, por exemplo), os filmes se tornaram uma parte “comum” do entretenimento das pessoas, especialmente nos grandes centros urbanos.

Auguste Marie Louis Nicolas Lumière e Louis Jean Lumière.

E, principalmente a partir dos anos 1950, a grande produção e comercialização de aparelhos de TV (inicialmente, objetos de luxo para um pequeno número de pessoas) fez com que a Sétima Arte se expandisse para outros nichos, com novelas, dramas, telejornais e todo o tipo de conteúdo imaginável.

Mais tarde, principalmente com o conceito de sitcom estadunidense, as séries (histórias divididas em vários episódios, geralmente de curta ou média duração) se transformaram em uma captação massiva de audiência, sendo produzidas em grande escala principalmente a partir dos anos 1970.

Os cinemas vão morrer?

Inicialmente, assistir TV era uma atividade “social”: a família inteira reunida em frente a um único aparelho televisor. Os cinemas, então, eram o “ápice” e os templos para essa atividade social.

Hoje, mesmo que isso ainda possa acontecer, a realidade é bastante diferente. Com dispositivos móveis como tablets e smartphones conectados à internet, e por meio de vários serviços de streaming, assistir esses conteúdos se transformou em uma atividade essencialmente “individual” – cada membro da família com os olhos grudados em seu próprio celular.

Muitos especialistas previram o fim dos livros convencionais (impressos em papel) por conta dos e-books e outras formas digitais de leitura. Obviamente, isso não aconteceu.


Embora seja impossível afirmar o mesmo em relação aos cinemas, é bem difícil definir se esses espaços serão extintos por causa de serviços como Netflix e outros agregadores de filmes.

Assim como a pirataria não matou a indústria de games (que, hoje, já lucra muito mais do que a própria indústria de filmes), é praticamente ilógico dizer que o entretenimento de massas em dispositivos móveis vai destruir os templos sagrados da Sétima Arte.

Algumas tendências possíveis

Mesmo em um mercado praticamente dominado pela Netflix, os serviços de streaming já são uma tendência e há várias outras plataformas do tipo, como o Spcine Play, Looke e Crackle.

Ao invés de competir diretamente com os gigantes do ramo, é bem lógico afirmar que haverá plataformas do tipo com uma segmentação cada vez maior, ou seja, plataformas criadas para atender gêneros e públicos específicos – como, por exemplo, o Philos, que é um serviço de streaming totalmente voltado para documentários, e o Afroflix, com foco em produções africanas ou que envolvam temáticas da África.

Desde opções totalmente gratuitas até serviços pagos, nós já podemos afirmar que esses tipos de estruturação de conteúdos já estão substituindo, em larga escala, as programações convencionais dos canais de TV, mesmo os pacotes TV por assinatura – ao menos em termos de entretenimento, embora os telejornais tradicionais ainda sejam difusos entre o grande público.


Mas, assim como refletimos sobre o cinema, será possível dizer que os serviços de streaming serão a causa da morte da televisão? Definitivamente, a TV não vai morrer (não por enquanto, pelo menos).

O que a internet está fazendo é influenciar a programação de vários canais tradicionais, que já buscam referências no meio virtual e, inclusive, criam programas e linguagens baseados nos padrões de usuários da internet (embora, é claro, a mídia convencional ainda não lide muito bem com isso, inclusive falhando, em alguns casos, ao tentar copiar a linguagem dos memes).

É o fim do conceito de privacidade?

Por mais incrível (e ilógico) que possa parecer, a tendência das mídias é individualizar o consumo dos conteúdos, e, ao mesmo tempo, romper as barreiras da privacidade. As redes sociais, em sua maioria esmagadora, são um ótimo exemplo disso.

Se os aparelhos de televisão possuem o mítico e lendário aparelho de medição de Ibope, para que as emissoras tenham uma noção de seus públicos, por outro lado os serviços por internet vêm associados a uma série de informações e dados do usuário, como dados do cartão de crédito, por exemplo.

Se até pode parecer bizarro e invasivo saber que alguém pode registrar a programação que você vê na TV, imagine como seria nossa reação diante do fato de que, literalmente, muitos desses serviços podem até comercializar suas informações.


A tendência é perceber a difusão das informações do usuário seja por meios formais, como nos contratos dos serviços (aqueles que, geralmente, o usuário não lê antes de confirmar) ou por meio de hackers.

A integridade das informações será a nova realidade do consumo de entretenimento.

Além de manter a segurança da sua rede, é interessante usar mecanismos como provedores VPN. Mas, o que é VPN? São aplicativos que ajudam a criptografar os dados transmitidos pela rede à qual você se conecta, e, de quebra, melhora a velocidade de conexão e evitam aqueles temidos travamentos nos serviços de streaming.

Não temos uma bola de cristal, mas é possível fazer uma “previsão”: Os filmes e séries não serão o futuro, eles já são a realidade e farão cada vez mais parte do nosso cotidiano, cada vez mais acessíveis e popularizados.

via Promoview


sexta-feira, 5 de julho de 2019

Liberdade pessoal e os perigos da ditadura digital


Marcelo Gleiser, trecho do livro "O Caldeirão Azul" (Record, 2019)
Imagem: Internet

Será que a humanidade está criando o seu próprio fim? Será que somos umas das últimas gerações da espécie Homo sapiens que, em breve, será suplantada por seres cibernéticos que mal se parecem com seus criadores (nós)?

No dia 24 de janeiro, o historiador e autor Yuval Harari apresentou sua visão do futuro no Fórum Mundial de Economia em Davos, na Suíça. Harari é famoso no Brasil por seus best-sellers "Sapiens - Uma Breve História da Humanidade" e "Homo Deus - Uma Breve História do Amanhã".

Em uma apresentação fascinante, Harari construiu um futuro terrível —mas possível— baseado em sua tese de que estamos agora na terceira grande revolução, o controle de dados, que segue o controle da terra (Revolução Agrária) e o controle das máquinas (Revolução Industrial).

O fim da nossa espécie, segundo ele, ocorrerá quando for possível extrair de cada indivíduo dados biométricos de alta precisão que serão, então, analisados por um sistema centralizado de decisões controlado por governos ou corporações (ou ambos).

Dados biométricos incluem, por exemplo, o seu batimento cardíaco, pressão arterial, composição do suor, dilatação das pupilas etc. Uma espécie de detector de mentiras de alta sofisticação que permite mapear fisiologicamente suas emoções.

Imagine, sugeriu Harari, que o governo da Coreia do Norte force seus cidadãos a usar um bracelete que transmite dados biométricos aos centros de dados do governo. Com isso, o governo poderá monitorar o que as pessoas pensam do seu líder e, essencialmente, como vivem o seu dia a dia. Poderão até saber mais sobre você do que você mesmo, visto que muitas vezes nem sabemos o que está ocorrendo com nossas emoções.

A visão de Harari ecoa, com tons de historiador, a “singularidade” do inventor americano Ray Kurzweil, sem a expectativa um tanto romântica de Kurzweil de que a tecnologia nos trará a imortalidade. (Ao menos, uma versão de imortalidade, com nossa essência, a informação de quem somos, transferida a computadores com capacidade de emular nosso consciente.) Convido os leitores que queiram saber mais sobre Kurzweil a assistir o documentário "Transcendent Man".

A ideia central de Harari é que estamos próximos a conseguir modificar o “programa da vida”. Se pensarmos em organismos como sendo algoritmos, basta termos capacidade de computação e dados biométricos suficientes para criarmos qualquer tipo de criatura viva.

Afinal, se a vida é como um programa de computador (o software) que roda nas reações bioquímicas que definem nosso metabolismo (o hardware), podemos modificar o programa e criar novos algoritmos correspondendo a outros tipos de criatura. Juntando a isso os avanços na área da inteligência artificial, podemos contemplar o fim da nossa espécie, que se tornaria obsoleta.

Outro modo de ver isso: pela primeira vez na história, podemos controlar as rédeas da evolução, que deixa de depender da seleção natural.

A questão essencial, portanto, é: Quem controlará esses dados? Como que esta nova fonte de riqueza será regulada? Temos leis que regulam a possessão da terra e das máquinas. Quais as leis que regulam os dados e a privacidade das pessoas?

Harari especula que a maioria das pessoas doará suas informações privadas de graça, seus dados biométricos, especialmente em troca de uma saúde melhor. Ou, em uma ditadura, talvez não tenham outra opção.

Ou ainda, e mais pertinente com o que já está acontecendo, pessoas fornecem dados biométricos em troca de serviços oferecidos por empresas: “Receba suas entregas de graça em casa e muitas outras ofertas se você nos passar os dados biométricos registrados no seu relógio esportivo ou Fit-Bit”.

Harari é corretamente vago ao prever quando isso vai ocorrer: décadas, talvez um século. Mas na sua visão, como na de Kurzweil, esse futuro é inevitável.

Obviamente, ninguém pode prever o futuro. O que podemos fazer é extrapolar o que sabemos no presente da melhor forma possível.

Não há dúvida de que computadores serão cada vez mais poderosos, e que a genética e a bioengenharia continuarão a avançar rapidamente. A ciência de dados (do inglês data science), que atende principalmente aos interesses de empresas e governos, vai ficar cada vez mais sofisticada. Forças de mercado e a gana de investidores vão continuar a alimentar a nova revolução.

Será que não existem outras tendências, capazes de equilibrar essa inevitabilidade?

Felizmente, acho que sim.

Os tempos estão mudando de várias formas. Em primeiro lugar, estamos testemunhando o surgimento da ética empresarial. Um número cada vez maior de empresas está percebendo que se não alinharem seus valores com os dos seus clientes, irá perdê-los.

Um exemplo recente nos EUA é o boicote de várias empresas à Associação Nacional do Rifle, que defende o direito do cidadão ao porte de armas de fogo. (Lamentavelmente, um projeto do Senado propõe a revogação do Estatuto do Desarmamento no Brasil. Não existe um modelo pior do que o americano a ser copiado, vide os constantes massacres em escolas e lugares públicos.)

O consumidor tem poder, mais do que imagina. Empresas e instituições com padrões éticos baixos podem ser forçados a mudar de posição.

Outro ponto é que a ciência tem limites, em particular do quanto podemos saber do mundo e de nós mesmos. Essa convicção, inclusive de Harari, de que a ciência irá saber tudo, conquistar tudo, não tem nenhum respaldo na prática ou historicamente.

A onisciência é reservada aos deuses. A tecnologia é limitada, mesmo se avança sempre. Monitorar a atividade de 85 bilhões de neurônios e dos neurotransmissores fluindo através de trilhões de sinapses é impossível. No máximo, podemos ter um mapa incompleto do que ocorre no nosso corpo e cérebro.

Harari parece confundir o mapa (como descrevemos o mundo) com o território (o mundo como ele é de fato), um erro típico de uma cultura que defende o triunfalismo científico como uma espécie de nova religião.

Nossa percepção da realidade depende de como vemos o mundo. A ciência jamais responderá todas as perguntas. Pelo contrário, no seu avanço, encontra novas perguntas que não poderia ter antecipado.

De qualquer forma, mesmo com dados biométricos limitados, governos e empresas podem causar sérios danos.

Concordo com Harari que precisamos começar essa conversa sobre nosso futuro coletivo imediatamente. Concordo, também, que de forma alguma essa conversa pode ser relegada a políticos, que tipicamente pouco ou nada sabem sobre avanços científicos.

Quem, então, irá controlar o armazenamento de dados pessoais? Quais os limites e salvaguardas que devem ser impostos para garantir nossa liberdade na era da ditadura digital?

Precisamos de uma pluralidade de opiniões: cientistas, humanistas, empresários, artistas, advogados, líderes comunitários. O perigo maior é a apatia, é o não fazer nada. Historicamente, as maiores tensões ocorreram quando o controle da terra e das máquinas ficou na mão de poucos. Com dados, temos o mesmo desafio, e com um bem muito mais fluido, muito mais difícil de controlar.

No meio tempo, tenha cuidado com os seus dados biométricos. Aqueles que você capta no seu Fit-Bit ou relógio esportivo e divide inocentemente na rede, achando que só você e seus amigos se importam com eles.

Revista MAD deixará as bancas nos EUA e será vendida apenas em lojas de quadrinhos

Clássica publicação satírica só vai sair agora com coletâneas de histórias "vintage" e em especiais de fim de ano

Bloomberg | O Globo

Mark Zuckerberg, do Facebook, na capa da revista, com Alfred E. Neuman. Foto: reprodução


A revista satírica MAD vai deixar as bancas nos Estados Unidos depois de 67 anos e não publicará mais conteúdo novo. Segundo sua editora, a DC, a revista, famosa pela onipresente cara sardenta de Alfred E. Neuman em suas capas, só vai sair, a partir de agora, em edições vintage e especiais de fim de ano.

Em alguma semanas, disseram os editores, a revista bimensal trará apenas conteúdo antigo e passará a ser vendida em lojas de quadrinhos. Os assinantes continuarão a recebê-la, e ainda haverá livros e coletâneas da publicação.

"Trabalhar na MAD era um sonho de infância que realizei. A MAD é uma instituição com uma história riquíssima", escreveu a ex-editora Allie Goertz numa rede social. "Ela influenciou praticamente todo comediante e escritor que admiramos".

A revista era a última das publicações satíricas ainda impressa. A Spy, fundada e editada por Carter e Kurt Anderson, fechou em 1998. The Onion parou de ser impressa em 2013, mas ainda está atuante na internet e nas mídias sociais.

"Estou muito triste ao saber que, depois de 67 anos, a MAD vai parar de ser publicada. Nem sei como descrever o impacto que ela teve em mim na infância", tuitou o humorista ‘Weird Al’ Yankovic, que foi o primeiro editor convidado da revista em 2015. "Adeus a uma das maiores instituições americanas de todos os tempos".

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Aplicativo brasileiro que traduz português para Libras ganha prêmio do Google


Fundadores do Hand Talk e o intérprete Hugo / Foto: Divulgação

Januele Melo / O Povo

O aplicativo brasileiro Hand Talk ganhou o prêmio do Desafio Google de Impacto em IA, que tem como objetivo premiar iniciativas tecnológicas de impacto social do mundo todo. Ao utilizar inteligência artificial para traduzir textos e vídeos na internet em Português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), o programa foi um dos 20 vencedores do Desafio.

A plataforma foi criada em 2012 por Ronaldo Tenório, um jovem empreendedor digital de 33 anos. O aplicativo ajuda na comunicação de surdos e de pessoas com deficiência auditiva. As informações são do site Só Notícia Boa e da revista Galileu.

A startup foi escolhida entre 2.602 inscrições de 119 países. Com o prêmio, o aplicativo ganhou R$5 milhões, uma consultoria do Google e a entrada em uma aceleradora de empresas.

Disponível em Android e iOS, a versão mobile já conta com mais de dois milhões de downloads e o aplicativo possui um módulo de extensão para sites, nos quais textos e áudios são traduzidos por um personagem 3D chamado Hugo.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Microsoft fecha livraria digital e apaga bibliotecas dos leitores

Clientes serão reembolsados. Episódio reacende debate sobre a propriedade de bens digitais

Sérgio Matsuura | O Globo


Os consumidores não compram livros digitais, como fazem com livros físicos, mas adquirem uma licença para o uso Foto: Cora Rónai

Os livros digitais , ou ebooks , são práticos e dispensam o uso do papel. Podem ser comprados de qualquer lugar, a qualquer hora, dependendo apenas de conexão com a internet, mas podem desaparecer de uma hora para outra. É isso o que está acontecendo com clientes da livraria virtual da Microsoft , que será encerrada neste mês, junto com todas as licenças vendidas.

Em comunicado divulgado em abril, a companhia informou aos consumidores que o acesso aos livros seria encerrado no início deste mês. Todas as compras realizadas serão reembolsadas pelo valor pago, sendo que livros que tiveram anotações e marcações receberão um adicional de US$ 25 em créditos.

“A categoria livros na Microsoft Store será fechada. Infelizmente, isso significa que a partir de julho de 2019 seus ebooks  não estarão mais disponíveis para leitura, mas você será reembolsado por todos os livros comprados”, informou a companhia, em comunicado.

A loja funcionava desde 2017 e, diferente dos principais concorrentes, como Amazon e Google, não possuía um aplicativo ou dispositivo próprio para a leitura. Os livros eram abertos diretamente nos navegadores. Mas mesmo com a imensa base de usuários Windows, o serviço nunca emplacou.

'Não é livro, é software'
O episódio levanta o debate sobre o modelo DRM (sigla em inglês para gestão de direitos digitais) adotado por distribuidores de conteúdos digitais para combater a pirataria. Diferente dos livros físicos, que são bens adquiridos pelos consumidores, nos ebooks  a compra é dos direitos de uso. As lojas usam essa tecnologia para evitar que os livros sejam copiados e distribuídos publicamente, sem pagamento.

Em termos práticos, no caso da Microsoft, é a loja que detém os direitos de distribuição dos ebooks , e cede essas licenças mediante pagamento. Por isso, com o fechamento da loja, as licenças irão expirar e os ebooks , literalmente, deixarão de funcionar.

— Apesar do nome, o ebook  não é um livro. Está muito mais para um software — explica Mário Pragmácio, doutor em Direito, especializado em direitos culturais e digitais. — Em regra, quando você adquire um software, você está pagando por uma licença, e não pelo software em si.

O problema, da perspectiva dos consumidores, é que eles estão acostumados com o comércio físico. Quando se compra um bem, você passa a ser dono dele. Isso não acontece em alguns modelos de comércio de bens digitais, como o implantado pela maioria das livrarias digitais, como Amazon e a própria Microsoft.

— Um problema sério nesses novos modelos de negócio é que os “termos de uso de serviço” são enormes e ninguém lê. O ideal é que eles sejam diretos e compreensíveis — critica Pragmácio.

O advogado lembra que este episódio não é o primeiro envolvendo o DRM. Em 2009, a gigante Amazon se viu envolvida num escândalo após remover, secretamente, cópias de livros do escritor George Orwell dos Kindles dos consumidores. Licenças de livros como “1984” e “A revolução dos bichos” tinham sido comercializadas por uma empresa que não possuía o direito de distribuição.

'Perdi 300 livros'
A consultora em TI Cristiane Ferreira, autora do blog Vida sem papel, é grande entusiasta dos ebooks, mas já ficou no prejuízo após o fechamento de uma loja digital. Ela era cliente da eReader.com, que foi comprada pela Barnes & Noble e, posteriormente, fechada. Os clientes americanos migraram para a plataforma Nook, mas usuários de outros países ficaram a ver navios.

— Eu tinha uns 300 livros, perdi todos — conta Cristiane. — Os que eu gostava mais, comprei de novo pela Amazon. A conveniência do eletrônico é tão grande que eu não abandonei o formato mesmo depois do prejuízo.

Contrária à pirataria, Cristiane defende o direito de as empresas se precaverem, mas, como ávida consumidora de livros digitais, enxerga o DRM como um inconveniente. Um casal, por exemplo, que deseja ler um mesmo livro, precisa comprar duas licenças, uma para cada conta. Fazer empréstimos é uma dificuldade, impossível em algumas plataformas. E a dependência dos hardwares limita a competição. Licenças adquiridas na Amazon, por exemplo, só funcionam em aplicativos e no leitor Kindle.

— É bem inconveniente, mas o que eu percebo é que a indústria ainda está tentando se encontrar — opina Cristiane. — Acho pouco provável que o DRM seja abandonado, como aconteceu com músicas e filmes, que migraram para a assinatura por streaming. O livro é diferente, tem a parte emocional, o livro de cabeceira que precisa estar sempre ali, à mão, pronto para ser lido e relido.

domingo, 30 de junho de 2019

'Não deixe que as telas digitais sejam tudo', alerta a neurocientista Maryanne Wolf

Pesquisadora americana publica livro sobre o impacto da leitura digital na nossa capacidade de interpretação de textos, cognição e concentração
        
André Cáceres, O Estado de S.Paulo

Quem lê com atenção a passagem do romance Anna Kariênina, de Liev Tolstoi, em que a protagonista comete suicídio, não passa incólume por essa experiência. “Os mesmos neurônios que você utiliza quando mexe as pernas e o tronco são ativados também quando você lê que Anna se jogou na frente do trem”, descreve a neurocientista cognitiva e pesquisadora da leitura Maryanne Wolf, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, em seu livro O Cérebro no Mundo Digital, lançado no Brasil pela editora Contexto. “Uma grande parte de seu cérebro foi ativada tanto pela empatia ante o desespero visceral da personagem, quanto pela ação motora de neurônios-espelho interpretando esse desespero. Quem leu essa passagem no romance de Tolstoi também se jogou.” No entanto, Wolf argumenta que somente quem leu atentamente passou por esse processo mental – e estamos perdendo a capacidade de imergir dessa forma nos livros.


A instalação ‘Light Reading’, criada em 2010 pela artista contemporânea sul-coreana Airan Kang, cria uma espécie de biblioteca digital com livros em luzes néon multicoloridas Foto: BRYCE WOLKOWITZ GALLERY

Seres humanos não nasceram para ler. A leitura é uma das aquisições evolutivas mais importantes do Homo sapiens, e uma característica única na natureza, que implicou em um processo de mudança da estrutura e das conexões do cérebro. Tanto que, em analfabetos, “a maior parte dos grupos de trabalho neuronais que usamos hoje para as letras e palavras são amplamente associados a tarefas visualmente semelhantes, mas funcionalmente diferentes, como a identificação de objetos ou rostos”, de acordo com Wolf. 

A primeira carta de O Cérebro no Mundo Digital (o livro é dividido em epístolas e escrito com a linguagem intimista de um diálogo da autora com o leitor) se dedica a explicar didaticamente como funciona o circuito da leitura no cérebro para, nas outras cartas, detalhar como a leitura em telas de computadores, celulares, tablets – e até mesmo e-readers projetados especificamente para isso – vem perturbando esse processo intrincado e reduzindo nossa capacidade cognitiva de imergir em um texto. “A qualidade de nossa leitura não é somente um índice da qualidade de nosso pensamento, é o melhor meio que conhecemos para abrir novos caminhos na evolução cerebral de nossa espécie. Há muito em jogo no desenvolvimento do cérebro leitor e nas rápidas mudanças que caracterizam atualmente suas sucessivas evoluções.” 

A escrita – e, portanto, a leitura – é uma das mais poderosas ferramentas que a humanidade já concebeu. No também recente O Mundo da Escrita (Companhia das Letras), o crítico Martin Puchner mostra como ela foi sinônimo de poder ao longo dos milênios. “Os sacerdotes indianos se recusavam a escrever as histórias sagradas por medo de perder o controle sobre elas, sentimento compartilhado pelos bardos da África Ocidental, que viveram 2 mil anos depois, quase do outro lado do mundo. Os escribas egípcios adotaram a escrita, mas tentaram mantê-la em segredo, com a esperança de reservar o poder da literatura para si mesmos.” Ele perpassa a história da civilização para evidenciar como a escrita transformou o mundo irremediavelmente – até chegar à era da internet. 

Os livros de Puchner e Wolf revelam, juntos, um amplo panorama do passado e um assombroso prognóstico do futuro da leitura. E ambos compartilham uma preocupação em comum: que essa ferramenta tão valiosa esteja em risco graças ao progresso tecnológico. Não que as pessoas não estejam lendo: Wolf mostra que um americano médio lê, por dia, uma quantidade de palavras equivalente à de um romance curto. “Infelizmente, é raro que essa leitura seja contínua, constante ou concentrada”, lamenta. 

As telas digitais, de acordo com Wolf, oferecem obstáculos muito mais severos que o papel para alcançar a concentração, como a iluminação, a disputa pela atenção do usuário e a poluição sinestésica. E não são apenas os leitores em formação que sofrem: ao se submeter aos próprios testes, ela identificou em si mesma uma perda na capacidade de imersão. 

A autora relaciona, por meio d e outros estudos, essa defasagem na qualidade da leitura à perda da capacidade de interpretação de texto e, por conseguinte, ao empobrecimento do pensamento crítico e até à redução coletiva da empatia. As sequelas para a sociedade, segundo ela, vão muito além de crises no mercado editorial, tendo efeitos práticos – e políticos – preocupantes. 

Leia a seguir a entrevista que a neurocientista Maryanne Wolf concedeu ao Aliás:

Como a leitura rasa pode afetar fisicamente a formação do cérebro a longo prazo?

A atenção inicia o resto do que acontecerá no circuito leitor. Se você está parcialmente atento, o circuito não funciona de modo ideal. Por exemplo, há uma relação entre atenção e memória. Quando você não está atento, não consolida a informação de modo que a lembre. Se não há essa consolidação, você não tem como fazer analogias, porque o cérebro está sempre comparando o que já sabe com informações novas. Se você lê com atenção parcial, não será capaz de inferir o que é verdade e fica mais vulnerável às informações falsas, menos capaz de ler crítica e analiticamente. 

Um leitor experiente também pode perder sua habilidade?

Eu testei a mim mesma e foi realmente frustrante descobrir que eu estava me tornando cognitivamente impaciente, e com essa impaciência eu não conseguia ficar tão facilmente imersa em minha leitura. Então temos de tomar cuidado.

O que mais impacta a qualidade da leitura: a mídia ou o ambiente ao redor?

O principal impacto é o que você está conscientemente optando por fazer. Seja em um café lotado ou no conforto da sua casa, se seu propósito é realmente ir o mais profundo que puder, essa será sua prioridade. Mas nossa atenção pode ser facilmente distraída. Quando você está em um ônibus ou no metrô, pode mergulhar numa leitura profunda, mas é menos fácil de fazê-lo. 

Quando a senhora afirma que a leitura profunda é mais difícil de ser alcançada por meio de telas, também se refere a dispositivos específicos para leitura, como o Kindle?

Qualquer mídia tem suas vantagens e desvantagens, mas mesmo dentro do mesmo tipo há diferenças. Por exemplo, é diferente ler em uma página da internet, em um Kindle ou em seu celular. A realidade é que mesmo em um Kindle ainda há uma desvantagem em relação ao livro físico, para além dos aspectos sinestésico e tátil do papel. Dito isso, o Kindle é preferível a uma tela comum, no sentido de não oferecer a mesma competição pela atenção, o que aumenta a qualidade da concentração. As pesquisas ainda são incipientes, mas mostram que ele chega muito mais próximo do tipo de leitura profunda que queremos para os leitores. Porém há menos compreensão sobre a sequência das informações. Mas independentemente da mídia em que se lê, nós temos a habilidade de ler profundamente se esse for nosso propósito. 

Como podemos usar a tecnologia para melhorar nossa leitura, já que não é possível regredir?

Muitas pessoas estão compreendendo que não podemos voltar atrás no progresso tecnológico. Então eu acredito que precisamos educar nossas crianças para que elas aprendam a ler profundamente em papel, mas que sejam ensinadas a ler conscientemente em telas com o máximo de propósito. Eu creio que possamos fazer isso. E acredito que há aspectos da tela que sejam muito benéficos. Trabalho com dislexia, e é maravilhoso que algumas de nossas crianças disléxicas possam usar as características das telas para ajudá-as a ler, aumentando as fontes ou o espaçamento entre as palavras. Há também empresas de tecnologia que estão tentando usar o conhecimento de pessoas como eu para aprimorar suas telas. Todos nós estamos em um momento de transição. Se eu puder aconselhar as pessoas, diria para ler o máximo possível em papel até que que surjam telas que permitam mais facilmente a leitura profunda. Independente do quão dominantes as telas sejam em nossas vidas, não deixe que elas sejam tudo. 

sábado, 29 de junho de 2019

Google anuncia função que mostra se o ônibus ou o metrô estão lotados

Empresa também passa a divulgar dados sobre lotação e tráfego no transporte público de diversas cidades. Saiba quais são as 10 linhas de metrô e trem mais cheias do mundo.

Por Thiago Lavado, G1

Entre as 10 linhas de metrô mais cheias de gente em todo o mundo, 3 delas estão em São Paulo. O dado é do Google que agora disponibiliza informações sobre a lotação dos metrôs, trens e ônibus.

A empresa divulgou os dados nesta quinta-feira (27) e anunciou novas funções do Google Maps que preveem o quão cheias estão as conduções em algumas cidades brasileiras. Os recursos serão lançados em 200 cidades ao redor do mundo.

As novas funcionalidades são três:

Tempo real do tráfego de ônibus: o recurso será disponibilizado em Salvador, Recife e Brasília e vai mostrar, cruzando informações das agências de transporte locais permitindo saber se o ônibus está atrasado ou quanto tempo vai levar para chegar ao destino com base nas informações de tráfego que o Google já tem. Essa ferramenta já está disponível em São Paulo.

Previsão de lotação: no Rio de Janeiro e em São Paulo, o Google vai começar a informar como estão as condições em um terminal, estação ou rota de transporte público. O recurso usa dados que o próprio Google arrecadou para traçar padrões e cruzar informações.

O Google Maps tem enviado algumas notificações para usuários do app, perguntando sobre a lotação de algumas linhas de metrô e de estações. Os resultados dessas pesquisas foram usados para compor essa base de dados que permite estimar os horários em que as estações estão mais cheias. Dessa maneira, o aplicativo consegue te dizer se você vai ter um lugar para sentar ou se vai fazer a viagem de pé.

Google Maps mostra situação de uma linha do metrô de Tóquio às 9h40, somente com espaço para ficar de pé. — Foto: Divulgação/Google

Tendências de lotação ao redor do mundo: utilizando essas informações coletadas, o Google agora tem dados globais de locomoção, sobre linhas mais cheias e estações com maior aglomeração de pessoas.

Aqui no Brasil as informações iniciais são da cidade de São Paulo. De acordo com a empresa, as três rotas mais lotadas de trens e ônibus na cidade são:

Linha 11 - Coral, da CPTM: as estações com maior aglomeração de pessoas são Guainazes, Corinthians - Itaquera, Estação Tatuapé e Estação Brás;
Linha de ônibus 106A-10 Metrô Santana - Itaim Bibi: as paradas com maior aglomeração de pessoas são INSS C/B e R. Brig Tobias, 557;
Linha 8 - Diamante, da CPTM: as estações com maior aglomeração de pessoas são Estação Comandante Sampaio, Estação Presidente Altino, Jardim Beval;

Veja a lista das 10 linhas de metrô mais cheias do mundo:

Buenos Aires: Linha Urquiza
São Paulo: Linha 11 - Coral
Buenos Aires: Linha A
São Paulo: Linha 8 - Diamante
Paris: Linha 13
Buenos Aires: Linha C
Tóquio: Linha Chuo
São Paulo: Linha 9 - Esmeralda
Tóquio: Linha Nippori-Toneri
Nova York: Trem L

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A vida hoje brilha nas telas


Marcelo Gleiser
Trecho do livro "Caldeirão Azul" (Record, 2019)
Imagem: Internet

Numa visita recente ao magnífico Grand Canyon, nos EUA, me surpreendi com o número de pessoas tirando selfies e olhando para os seus celulares em vez de aproveitar o lugar real onde estavam, integrando corpo e mente ao cenário mágico bem a sua frente.

Este é apenas um dos sintomas que vejo como um novo fenômeno global: parece que todo mundo quer ser estrela —a estrela da sua própria vida.

Viver a vida através de experiências concretas tornou-se secundário; o importante é registrar tudo, tirando selfies e vídeos e compartilhando-os rapidamente nas plataformas de mídia social. Canais de YouTube se multiplicam exponencialmente. Superestrelas têm milhões de seguidores. Meus filhos, por exemplo, veneram alguns deles, sujeitos com uns vinte ou trinta anos que fazem vídeos deles jogando videogames com comentários cômicos e muito palavrão.

Os celulares e seus primos mais próximos, os tablets, estão nos transformando. A vida brilha nas telas o tempo todo. No furor de gravar tudo o que acontece com a gente para dividir com os outros, estamos nos esquecendo de nos engajar com o momento real e com as pessoas à nossa volta.

Com certeza, alguns vão criticar o que estou dizendo, afirmando que isso é típico de uma geração mais velha, que sempre reclama das novas tecnologias. No meu caso, eu vivo cercado de novas tecnologias, que uso direto no meu trabalho de pesquisa. Minha preocupação é outra, que vai mais fundo. É o resgate da condição humana.

Na era das telas individualizadas, a vida se torna um evento a ser apreciado pelos outros e não para contribuir com a experiência de cada um. O foco é no outro, sempre, na performance, e não no conteúdo do que está acontecendo.

Os celulares e a mídia social tornaram o ato de compartilhar informação fácil e eficiente, seja ela foto, vídeo ou documento importante. O alcance é muito maior, e a gratificação (quantos “likes” você ganha) é quantitativo. A vida vira um evento social, dividido com um monte de gente, que pode, então, julgar o seu “valor” como pessoa. É como se estivéssemos presos num episodio da série "Black Mirror".

Claro que parte disso é ótimo. Não há nada de errado em celebrar os momentos significativos de nossas vidas e dividi-los com as pessoas queridas. O problema começa quando a urgência de dividir o momento com os outros fica maior do que o desejo de vivenciar a experiência. O cômico americano Conan O’Brian, entre muitos outros, reclamou que nem consegue mais ver o seu público e percebe apenas um mar de celulares e tabletes registrando (ilicitamente) o seu show. Algumas celebridades estão proibindo os convidados em seus casamentos de usar celulares. Nick Denton, fundador da Gawker, disse a eles: “Você pode cuidar da sua presença virtual —e de seus seguidores no Twitter e —Instagram no dia seguinte.

Nossas mensagens, fotos e vídeos na mídia social podem ser gratificantes quando amigos, família e fãs respondem. Sentimos que nossa vida é importante. Mas esse tipo de gratificação é efêmera. Vem e vai rapidamente. Para muita gente, serve para tampar um problema mais profundo, talvez uma insegurança, ou solidão. Basear sua vida no que os outros pensam é uma receita segura para gerar muita ansiedade e frustração. Esvazia o seu âmago, enchendo-o com a esperança de que outros irão satisfazer a sua necessidade de viver uma vida plena, com significado. Isso nunca dá certo, algo que as celebridades sabem muito bem.

Criar um senso de si baseado no que os outros pensam não é nada de novo. A diferença é que na era das telas ficou muito fácil se conectar com muita gente, potencialmente em qualquer canto do mundo. Cada selfie ou vídeo promete a fama: “sou lindo/a, especial, e as pessoas vão ver isso e me admirar”.

Isso é muito novo. Até recentemente, poucos tinham esse tipo de acesso a um número grande de pessoas. Os círculos sociais começavam e terminavam com sua família e um grupo relativamente pequeno de amigos locais. Agora, podemos nos conectar com pessoas em outros países, dividindo nossa vida com quem nem conhecemos. Temos que lidar com os abusos e insultos, também, daqueles dentro dos nossos círculos sociais e de estranhos. Um usuário pode se esconder por trás de um nome falso, atacando pessoas perversamente, causando sérios danos emocionais. Essa é a nova cara do covarde digital.

Então é tudo apenas uma explosão de narcisismo coletivo? Felizmente, não. Muita gente usa as mídias sociais para promover causas sociais justas e dividir momentos de fato relevantes em suas vidas. O acesso à informação de qualidade é absolutamente incrível, e cobre praticamente qualquer assunto. Muitos amigos e famílias também fortalecem seus laços através dessa troca digital.

Por outro lado, existem aqueles que manipulam pessoas e grupos para seu ganho próprio. E existe muita besteira online, algumas inofensivas e outras perigosas.

Não podemos ou devemos escapar da era em que vivemos. As telas não são nossas inimigas. No entanto, precisamos estar atentos para o que estamos fazendo, e não agir sem consciência de nossos atos e escolhas. Precisamos nos dar conta do que há de bom e mau nas mídias sócias e não pular no trem sem saber aonde está indo.

Mais importante, precisamos aprender a nos desengajar das telas e a nos reengajar com a vida real, sem o meio digital como ponte entre você e seus amigos, família e natureza.

O que me traz de volta à cena no Grand Canyon. As telas levam você embora de onde você está, pondo o seu foco nos “outros”, os que estão do outro lado da mídia social, recebendo sua informação. Elas transformam o Grand Canyon, a praia, a festa no palco da sua performance, sua vida virando um grande show.

Existe uma diferença fundamental entre usar uma tecnologia e ser usado por ela.

Na minha casa, usamos “dias de desintoxicação”, sem telas para as crianças ou para nós. Tentamos criar um senso de equilíbrio entre a vida real e a virtual. Às vezes, vetamos todas as telas e focamos nossa energia e atenção na grande tela da realidade à nossa volta e nas relações concretas entre pessoas, aquelas que criam laços emocionais profundos, desde um abraço bem forte a uma conversa franca, olho no olho.

Ao menos para mim, não tem espetáculo maior do que esse.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Os desmemoriados


Somos a geração com mais suportes de memória e que não lembra de nada, afogados em nossos celulares que demandam tudo e nos oferecem uma vida com amnésia digital
        
Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo
Imagem: Pexels

Dia desses meu celular me avisou: memória cheia. Tive que carregar na nuvem parte das fotos e vídeos, descarregar muitos textos e aulas no HD físico de meu computador portátil. O mesmo smartphone que sofre com excesso de informações consumindo sua memória me alerta, todos os dias, para o uso da bateria, que se esvazia. Pus-me a pensar sobre como o aparelho é uma metáfora ou, talvez mais propriamente, um sintoma do que vivemos. Vivemos cheios de memória e nos arrastamos, sem muita energia, procurando uma fonte que nos recarregue.

O problema da memória sempre me fascinou. Em nossa história primitiva, não havia suporte para a memória. Existia, apenas, a tradição oral, os saberes passados de geração em geração. Quando morria um ancião, morria uma fonte de memória. Conhecimentos não transmitidos poderiam se perder. A carga do que podíamos aprender era limitada a nossa capacidade de memorizar e reinventar dados e narrativas.

Os antigos, ao inventarem os diversos alfabetos, criaram poderosos mecanismos de suporte para aquilo que antes encontrava o limite de nossas sinapses. A escrita abriu a memória, pois em papel, papiro, pedra ou couro, podíamos anotar nossos conhecimentos, impressões do mundo, histórias, ciências e deuses. 


Um universo de expansão da memória estava potencialmente em nossas mãos. Mas estava restrito a uma minúscula camada das sociedades que dominavam essa técnica preciosa. No Egito, escriba era profissão que se passava de pai para filho. Saber ler era segredo de Estado, de religiões. Ler era fonte de poder. Alheio à mágica da palavra registrada, o mundo continuou profundamente dependendo da memória possível de nossos cérebros.

Criamos palácios da memória, formas e técnicas de adestrar nossa capacidade de guardar informações e mobilizá-las quando necessário. Tutores gregos e romanos exigiam que seus pupilos decorassem longos trechos de poesias. O máximo que se tinha era o auxílio de um antepassado do caderno, feito de tábuas de madeira com cera, sobre a qual, por meio de um estilete, tomavam-se algumas notas. Memorizadas, a cera era raspada, apagando-se a informação anterior. Tábula rasa é expressão usada até hoje.

Acreditavam os antigos que a memória dependia do músculo cardíaco e saber algo de cor (em inglês, by heart; em francês, par cœur) manteve algo dessa crença.

A popularização da escrita foi lenta e sua massificação é muito recente. Continuávamos dependendo da nossa própria memória. A imprensa foi um enorme impulso e, com essa máquina, revoluções ocorreram. A ciência se expandiu sobre moldes matemáticos, conhecimentos de todo o mundo passaram a circular com maior rapidez. Iniciavam-se os tempos modernos. Por outro lado, manteve-se certo caráter sagrado da palavra escrita. Pessoas carregavam pedaços de oração ou bendizeres como amuletos de proteção. A pílula de Frei Galvão tem lastro nessa transição do medieval para o moderno.

Quando as revoluções midiáticas explodiram no século 19 e, com potência inaudita, no 20, a memória começou a se divorciar de nossos cérebros. Telégrafo, telefone, cinema, TV, rádio. A quantidade de informação circulando, que já não caberia numa única cabeça humana, nem na mais treinada delas, superava a soma de todas as nossas cabeças juntas.

Os cientistas que estudam fluxo de informações pensam que os intervalos geracionais quase intransponíveis entre avós e netos se devem ao fato de que, em duas gerações, a quantidade de informação entre eles cresceu de forma vertiginosa. Se alguém, jovem ou mais velho, deixa de acompanhar o mundo, por opção ou por falta dela, é atropelado por ele. A escola transmite todo o conhecimento acumulado em milênios de humanidade em 25 anos, da alfabetização ao fim de uma graduação. Enquanto realiza esse processo, mais e mais informação foi criada. O processo não tem fim. Nossa pobre memória vive cheia, inundada, açodada. E não temos nuvem, backup ou HD externo.

Dependemos de nós mesmos, de uma única e maravilhosa ferramenta evolutiva: o cérebro. Não à toa temos a sensação de cansaço, de que nossas baterias estão no fim. Antes da hora do almoço, já não há energia para o resto do dia. Enquanto isso, lá vem o celular avisar que mais informações foram carregadas e que você precisa ver todas elas.

No Egito, o deus da escrita é Toth, com cabeça de babuíno ou do pássaro íbis. Quando ele deu aos homens o código para registrar tudo em papiros, lançou uma advertência: “Tudo o que vocês escreverem esquecerão”. Sim, no momento em que a memória encontra um suporte e o cérebro ganha um auxílio, parece que a praga divina do Nilo acontece. Ninguém mais sabe números de celulares, pois estão escritos. Advertência sábia da entidade divina.

Somos a geração com mais suportes de memória e que não lembra de nada, afogados em nossos celulares que demandam tudo e nos oferecem uma vida com amnésia digital. Milhões de terabytes flutuando ao nosso redor, milhares de tomadas e cabos, centenas de recursos, muitos aparelhos e... não conseguimos mais lembrar de um simples aniversário importante se nossa rede social não advertir com ênfase. A praga de Toth é total. Somos precoces desmemoriados. É preciso ter esperança, e alguma memória.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Os novos Kindles


Versões mais recentes do leitor de e-books da Amazon garantem experiências satisfatórias e muito próximas

Cora Rónai | O Globo
Imagem: Internet

Há alguns dias comprei o novo livro de Tim Mackintosh-Smith , que vive há mais de 30 anos no Iêmen e é um dos autores de quem mais gosto. É uma história dos povos árabes, que ainda não saiu em português e é um lançamento recentíssimo; por causa disso, tive que gastar R$ 126,83, preço que nunca, jamais, imaginei gastar num e-book. A versão em papel, com capa dura, custava R$ 129,81, a bem dizer o mesmo preço - mas esse valor não incluía o frete.

É comum para mim comprar o livro em papel e o e-book, simultaneamente, mas não quando custam essa fortuna. Levei muito tempo olhando para a página da Amazon , tentando decidir qual comprar. Prefiro um livro "de verdade", mas quase 700 páginas com capa dura ficam difíceis de ler na cama. E assim, pela primeira vez, preferi comprar um e-book a comprar o livro em papel.

Fiquei bastante abalada com a decisão: amo livros em papel, e parte do prazer que eles me dão é sensorial, da visão ao cheiro, passando pelo peso na mão. Gosto muito de ler no Kindle, que tem outras vantagens, mas não é a mesma coisa. Nunca imaginei que, um dia, diante de uma escolha assim, eu fosse optar pelo formato eletrônico.

Por outro lado, o Kindle - que continua sendo o leitor digital por excelência - fez um longo caminho desde o seu lançamento, em 2007. Naquela época, custava caro, tinha teclado e tela sem iluminação. Era uma boa promessa, mas não era irresistível.

Hoje há muito pouca diferença entre os dois principais modelos, o novo Paperwhite e o novo Kindle. Lançado no mês passado a R$ 349, o novo Kindle é o primeiro básico com iluminação, e está tão bom que chega a ser difícil decidir entre ele e o Paperwhite, que custa R$ 499. A principal diferença é que o Paperwhite é à prova d'água, o que é essencial para quem quer ler na banheira, na piscina ou na praia. A armazenagem, de 4GB no básico e 8GB no Paperwhite (há um modelo com 32GB), só faz diferença para quem salva audiolivros no aparelho, porque mesmo em 4GB é possível guardar mais de mil livros.

Novo Kindle e novo Paperwhite (que chegou ao Brasil no começo do ano) têm resoluções diferentes de tela, 167 ppi e 300 ppi, respectivamente, mas mesmo olhando lado a lado isso não se nota tanto, sobretudo em letras maiores.

Antes eu tinha facilidade em dizer a alguém qual Kindle comprar, porque considero a tela iluminada fundamental; hoje acho os dois tão parecidos que fico em dúvida. Se você gosta de graphic novels e lê perto da água, fique com o Paperwhite; se quadrinhos não são a sua praia e se praia não é o seu forte, o novo Kindle lhe permitirá economizar e ficar bem servido ao mesmo tempo.

A minha história com "Arabs: A 3,000-Year History of Peoples, Tribes and Empires" teve um final inesperado. Já tinha começado a leitura em e-book quando uma amiga querida me mandou de presente o livro-livro de verdade, em papel. De dia leio aquele belo volume, na cama continuo no Kindle: o melhor dos dois mundos. 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

5 aplicativos para ler livros no celular


Marcella Blass | Diário do Grande ABC
Imagem: Internet

Nem sempre dá para carregar livros na mochila ou na bolsa. Seja por hábito ou necessidade, quando isso acontece, a solução que muita gente encontrou é ler por meio de smartphones e tablets, com ajuda de aplicativos específicos. O 33Giga separou cinco boas opções de softwares dedicados à leitura e te conta os detalhes abaixo:

Amazon Kindle
Versão para Android e iOS de um dos eReaders mais populares do mundo, o aplicativo oferece os recursos do Kindle aos usuários de tablet e smartphone. Com o software, na hora da leitura, você pode personalizar a cor do plano de fundo da página, intensidade do brilho da tela e o contraste. Também é possível criar coleções de leitura, fazer pesquisas no dicionário e em outros sites, e ainda levar para seu aparelho os eBooks comprados na Amazon.

Aldiko
Este aplicativo roda arquivos em vários formatos, incluindo os com proteção DRM da Adobe. A ferramenta de leitura tem recursos como marcação de texto, compartilhamento, anotações e pesquisas no dicionário. Também é possível configurar brilho e contraste da tela para melhorar a experiência para os olhos e conforme a luminosidade do ambiente. Além de servir como leitor de textos, ele também ajuda o usuário a gerenciar sua biblioteca e organizar leituras de forma automática. Está disponível para Android e iOS.

Google Play Livros
Disponível para Android e iOS, esta é a loja de eBooks do Google. Com uma infinidade de livros digitais pagos e gratuitos, o aplicativo também permite que o usuário utilize as funcionalidades disponíveis para ler documentos carregados no smartphone ou tablet, como arquivos em PDF e ePUB. Com uma interface bastante intuitiva, o aplicativo já vem instalado nos dispositivos Android, mas precisa ser baixado nos aparelhos da Apple.

Kobo Reader
Desenvolvido pela empresa que produz o eReader Kobo, também é a versão para Android e iOS de um gadget muito popular no mundo.  No Brasil, você pode usar o app para ler os eBooks que comprou na Livraria Cultura (parceira da Kobo Inc. no País) ou adicionar documentos em PDF, por exemplo. É importante destacar que o software também é indicado para quem gosta de ler revistas e HQs pelo celular.

Ebook Reader
O aplicativo lê arquivos em vários formatos, comprados ou não na loja virtual ebook.com. Isso significa que o usuário pode transformar o app em um gerenciador de biblioteca, com a possibilidade de editar manualmente as tags referentes a cada título. Entre outros recursos, o leitor também pode fazer backup de toda a sua leitura, marcar partes do texto, personalizar o tamanho da fonte e usar o sistema de buscas para encontrar trechos específicos com mais rapidez. Disponível para Android e iOS.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Itália lança portal com diário de emigrados


O Ministério das Relações Exteriores da Itália lançou nesta segunda-feira (10) uma plataforma na internet com os diários de cidadãos que emigraram para o exterior desde o século 19.   

IstoÉ | ANSA

A página, chamada “Italianos no exterior: os diários contam”, é abastecida com relatos armazenados no Arquivo Nacional de Pieve Santo Stefano e digitalizados.   

Cartas, fotos, diários e lembranças contam as vidas de alguns dos mais de 30 milhões de italianos que emigraram desde a unificação do país, em 1861. O objetivo é alcançar os milhões de ítalo-descendentes que vivem no exterior para mostrar “que seu país não os esqueceu”, segundo a secretária-geral do Ministério das Relações Exteriores da Itália, Elisabetta Belloni.   

“Nosso objetivo é que a plataforma continue sendo alimentada por histórias antigas, porém também mais recentes, dos tantos jovens que vivem no exterior e seguem mantendo um vínculo com sua pátria”, acrescentou.   

Entre os mais de 200 relatos presentes no portal, há mais de 30 provenientes do Brasil, como o de Antonio Ghinato, agricultor de Fratta Polesine que partiu para São Paulo em 1908, deixando sua esposa grávida, Argia.   

Em 15 de agosto de 1916, após oito anos sem comunicações, ele escreveu para Argia: “Gostaria de saber se você quer vir pra cá, onde o sol tropical faz renascer uma nova vida. Onde se vive sem remorsos, que como você é minha mulher perante Deus, também o será perante os homens. Argia, agora os anos que deveriam ser os mais belos já passaram, se quiser dar esse passo, o faça por amor àquele filho que saiu de suas vísceras”.   

Dois meses depois, Ghinato respondeu a uma carta de Argia que trazia uma foto do filho do casal, Gilberto. “Com quanto prazer recebi tua carta, e que alegria senti ao ver-me em posse da foto do filho Gilberto, mas da felicidade passei à dor lendo suas palavras. Eu não sei o que te dizer, apenas que aqui tem paz”, disse.

E aí, trocaria o papel pela tela? Alguns motivos que justificam ter um e-reader

Mobilidade e economia estão entre as razões que levam as pessoas a comprar um leitor digital

Por Juliana Guzzo | Multiplix


Mobilidade e economia estão entre as razões que levam as pessoas a comprar um leitor digital | Foto: Banco de Imagem

Os e-readers, ou leitores digitais, são a escolha de muitos leitores assíduos e estudantes. Compactos, fáceis de usar e muito práticos, eles atendem as necessidades dos amantes da literatura e tecnologia. Esses aparelhinhos permitem que você consiga ter vários livros em um único dispositivo, evitando que você carregue peso e também eliminam a necessidade de um espaço físico para guardá-los em sua casa, como no caso dos livros físicos.

Diferente dos tablets, que atendem a usos mais diversos, permitindo a instalação de aplicativos e uma série de funcionalidades, o e-reader serve apenas para a leitura. Com menos funções, por que escolher um leitor digital? Entre os principais motivos elencados pelos leitores estão os displays em preto e branco, que não emitem luz, buscando um resultado que é bem próximo ao que você teria se estivesse folheando um livro de verdade. Além disso, por não emitirem luz, não cansam os olhos, mesmo depois de longos períodos dedicados à leitura.

A autonomia e consumo de energia são outros pontos de diferença. As telas dos leitores digitais não consomem muita energia para funcionar, permitindo que o aparelho tenha semanas de uso com apenas uma recarga.

Para o contador Tarcísio Ferreira, de Cantagalo, Região Serrana do Rio, a mobilidade e a capacidade de armazenamento são as melhores características desse tipo de aparelho.

Gosto muito do aparelho, é muito útil pois posso utilizar em qualquer momento, em viagens em minha residência e no intervalo do trabalho. A maior utilidade é pelo fato de poder guardar vários arquivos. Só vejo um ponto negativo: o tamanho da tela, pois deveria haver maiores.

Essa é outra diferença entre os aparelhos, enquanto os tablets têm telas de até 12 polegadas, nos e-reader elas têm entre 6 e 7.

Acesso a livros estrangeiros e economia estão entre os motivos que levaram o servidor público do município de Cantagalo, Thiago Valente, a optar pelo leitor digital.

“Os preços dos ebooks são bem mais em conta do que os dos livros físicos. A questão de acesso a livros em outras línguas também foi fundamental. Há livros que demoram ou nem chegam a serem vendidos no Brasil. Com o leitor eu consigo comprar, assim que são lançados, na versão digital. A duração da bateria e as opções de marcação e anotação nos textos foram importantes para minha escolha pelo leitor”, enumera Thiago.

Com preços que variam entre 299 até pouco mais de mil reais, os e-reader ainda são opções mais baratas e econômicas ao longo do tempo, já que gastam menos bateria do que os tablets. Algumas marcas também oferecem como atrativos aos consumidores acesso a vários livros de forma gratuita ou com descontos, além de antecipar lançamentos para os leitores mais ansiosos.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Obras de HP Lovecraft e Edgar Allan Poe estão disponíveis gratuitamente

Universidade de Adelaide, na Austrália, tem em seu acervo virtual milhares de títulos para leitura e download 

Rolling Stone


Cthulhu, criatura mais famosa de H. P. Lovecraft (Foto: Sofyan Syarief / Wikimedia Commons)

A Universidade de Adelaide, uma das mais célebres instituições de ensino da Austrália, disponibilizou em seu acervo virtual todos os títulos de H. P. Lovecraft, o autor rei do horror. São, ao todo, 59 obras, todas em inglês, idioma original, disponíveis em Zip, ePub e Kindle.

H. P. Lovecraft nasceu em 1890, nos Estados Unidos, e começou a publicar terror em 1917, com o conto Dagon, sobre uma entidade mitológica que habita os oceanos. O Chamado de Cthulhu, sua obra mais famosa, veio em 1936, dois anos antes de sua morte precoce e decorrida de câncer no intestino.

Embora em vida Lovecraft não tenha feito sucesso, ainda no século XIX começou a ter renome no gênero horror. É visto, hoje, com um dos maiores percussores e influências do estilo, e compete pelo trono apenas com Edgar Allan Poe (1809 - 1949), o autor de outros clássicos como O Corvo (1845) e Os Assassinatos da Rua Morgue (1841). Seus livros também estão disponíveis para download.

O acervo digital da Adelaide disponibiliza, além do trabalho de Lovecraft, e Poe, obras de centenas de autores históricos, como Franz Kafka (Metamorfose, 1915), J. M. Barrie (Peter Pan e Wendy, 1911), William Shakespeare (Romeu e Julieta, 1597), e diversos acadêmicos e filósofos clássicos, todos em inglês. 

Veja a lista de autores aqui.  Para baixar, basta clicar no nome do autor, escolher a obra, e clicar em "download" no fim da página.