sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Não tem como dar certo


por Pedro Doria | O Estado de S. Paulo

Nas últimas semanas, assisti a alguns episódios de linchamento virtual no Twitter. Destes, uns particularmente violentos. Assisti ao linchamento de gente de esquerda, gente de direita, gente que nem tem qualquer coisa a ver com política. Não era assim, lá no início do Twitter. Foi ficando. E piorando. É, cada vez mais, a rede social onde se concentram os governantes, então faz parte de nossa conversa pública. Como sociedade, estes episódios indicam que estamos doentes.

Em inglês, uma série de expressões estão se consolidando para tratar deste processo. Cada uma tem significado ligeiramente distinta da outra, mas todas pertencem ao mesmo universo. A mais popular é cancel culture, que já entrou para o vernáculo brasileiro — cultura do cancelamento. Outra, a mais antiga do conjunto, é online shaming. Humilhação pública online. A terceira é call-out culture — numa tentativa de tradução, cultura do denuncismo.

Cancelar alguém na internet é promover um boicote. Em geral se volta contra artistas — trata-se de mobilizar um grupo grande o suficiente de pessoas para que deixem de seguir alguém por algo que tenha feito. No limite, o sucesso de um cancelamento ocorre quando se consegue destruir a carreira do alvo escolhido.

Humilhação pública é intuitivo — junte uma massa de gente para falar mal de alguém ao mesmo tempo. Denuncismo é parecido, só que mais específico. Ocorre quando a pessoa alvo de alguma forma cometeu algum delito de opinião. É a boa e velha patrulha ideológica, só que no ritmo da internet.

Estas ondas não ocorrem só no Twitter. Mas, da forma como o Twitter funciona, ele termina por ser um ambiente particularmente propício a ataques.

Tuítes são curtos, portanto há um limite para a quantidade de explicação que podem carregar. Com o celular na mão, a plataforma convida à impulsividade. Leu algo, quer responder na hora. Para uma mensagem sair torta, mal explicada, com duplo sentido, tudo é fácil de acontecer. A velha gafe da mesa de bar, que era esquecida e ficava restrita a uns poucos, no Twitter vira para sempre. Para não falar que é um ambiente generoso com os ressentidos.

Em parte, o problema é da plataforma. O Twitter não é uma rede para conversas — mas virou uma rede de conversas. Assim, um tuíte torto não pode ser editado para correção. E não adianta responder, explicar o que se quis dizer. Todo mundo vê o tuíte torto, mas quase ninguém vê a explicação embaixo. Além disto, exatamente como ocorre no Facebook, o algoritmo distribui mais aquilo que gera indignação. Ou seja: são os posts problemáticos aqueles que ganham mais visibilidade.

Só que não é só a plataforma. Vivemos um tempo muito moralista. A gente que conheço nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho, todos príncipes na vida — como escreveu, de certa feita, Fernando Pessoa. O moralismo de direita é aquele velho, que espera uma gente que se comporte nos limites do adequado dos anos 1950. O moralismo de esquerda é politicamente correto — há palavras interditadas, roupas, e uma penca de ideias.

Junte-se ao moralismo o tribalismo do tempo. Formamos tribos que têm interesses ou opiniões em comum. E a maneira de construir laços tribais, em geral, está noutra expressão que se tornou cotidiana em inglês. Virtue signaling. A sinalização de virtude. Quando alguém atenta contra os valores morais da tribo, todos precisam se manifestar acusando. Estão, em verdade, dizendo “faço parte deste grupo”, e para seus padrões sou limpinho assim. Para virar dezenas, centenas de milhares batendo numa só pessoa demora um segundo.

Neste mundo de limpinhos, príncipes na vida, o que criamos é uma sociedade de linchadores movidos a ódio. Não tem como dar certo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Universidade de Aveiro disponibiliza acervo online com 2500 livros sobre África e Oriente


A biblioteca digital da Universidade de Aveiro já permite ler através da internet obras digitalizadas de Angola, Cabo Verde, Goa, Guiné, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor.

O Portal das Memórias de África e do Oriente é um projeto da Fundação Portugal-África desenvolvido e mantido pela Universidade de Aveiro e pelo Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento desde 1997. É um instrumento fundamental e pioneiro na tentativa de potenciar a memória histórica dos laços que unem Portugal e a Lusofonia, sendo deste modo uma ponte com o nosso passado comum na construção de uma identidade coletiva aos povos de todos esses países.

O projeto “Memória de África e do Oriente“ já tem online mais de 2500 obras, referentes à história dos países de Língua Portuguesa, durante a administração colonial. O projeto é executado pela Universidade de Aveiro e pelo Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento (CESA) de Lisboa e tem contado com a participação de instituições de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Goa.

Além de registos bibliográficos para orientação de investigadores e curiosos, estão agora disponíveis e com livre acesso obras digitalizadas que vão desde livros da escola primária do tempo colonial, a relatórios de antigos governadores das então colônias e outros documentos oficiais. Entre outras “preciosidades” já digitalizadas contam-se os três volumes da “História Geral de Cabo Verde”, várias obras do cientista e poeta cabo-verdiano João Vário, toda a coleção do Boletim Geral das Colônias, a revista do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa de Bissau Soronda (1986-2009), o Boletim Cultural do Huambo em Angola, e “O Oriente Português”, da responsabilidade da Comissão de Arqueologia da Índia Portuguesa, publicado entre 1905 e 1920 e retomado entre 1931 e 1940.

De acordo com Carlos Sangreman, da Universidade de Aveiro, o projeto “Memória de África e do Oriente” em dezembro atingiu 353.991 registos bibliográficos e 343.819 páginas digitalizadas e a base de dados já vai ser acrescentada. “Temos trabalhado com muitas instituições portuguesas, sendo a última a Biblioteca Nacional que nos disponibilizou 67 mil registos que irão ser colocados na base à medida que formos conseguindo compatibilizar o formato”, esclarece aquele responsável.

Acesse aqui http://memoria-africa.ua.pt/

via José Cristian Goés | A Pátria

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Radiohead lança biblioteca digital com acervo completo de músicas e mais


Nesta segunda-feira (20), uma novidade promete alegrar os fãs do Radiohead. O grupo disponibilizou uma biblioteca digital que contém o acervo completo de músicas e outros conteúdos da banda.

Sem precisar pagar para consumi-los, a Radiohead Public Library (RPL) possui faixas raras, fotos, clipes, singles, shows raros, textos e discografias na íntegra. É possível conferir até propagandas dos rockeiros.

O internauta pode fazer um registro de conta da biblioteca, para fazer pedidos de outros produtos. A loja conta com designs antigos de camisetas do Radiohead, as quais começarão a ser enviadas a partir do dia 3 de fevereiro.

Para completar, a iniciativa irá oferecer boletins digitalizados, capas de álbuns e um cartão do acervo, o qual se trata de um arquivo de imagem para download. A intenção é que o fã o imprima e cole uma foto, para criar um quadro.

Vale recordar: no passado, o líder da banda, Thom York, já chegou a esculachar os serviços de streaming da atualidade, como Spotify, YouTube e Apple Music. Para ele, essas plataformas roubam dinheiro dos artistas.

A Radiohead Public Library pode ser acessada por meio do site oficial da banda neste link.

Projeto de leitura tem 2,6 milhões de downloads




O “robô” do WhatsApp criado para distribuir livros infantis digitais, dentro do projeto Leia para uma criança, do Itaú Unibanco, alcançou mais de 2,6 milhões de downloads do PDF de três obras. Mais de 8 milhões de mensagens foram trocadas com o robô virtual durante a campanha. O projeto foi desenvolvido pelo Itaú, pela agência de publicidade DPZ&T, pelo Facebook e pela Take, que criou o “bot” que se comunicou com os pais interessados.

via O Estado de S. Paulo

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

150 mil obras de arte de museus de Paris disponíveis online

André Cabette Fábio | Nexo

Iniciativa de 14 instituições agrega imagens de seus acervos, com licença Creative Commons para copiar, modificar e distribuir a obra 

DETALHE DO QUADRO “A APRESENTAÇÃO NO TEMPLO”, DE JACQUES DARET

No início de janeiro de 2020, a Paris Musées, uma instituição pública da cidade de Paris responsável por gerir 14 museus da cidade, liberou ao público o acesso e controle a milhares de obras que ficam em seu acervo.

As obras digitalizadas estão disponíveis na área dedicada a coleções do site da instituição, que existe desde 2016 e reúne mais de 300 mil imagens. Com a iniciativa, mais de 150 mil delas estão disponibilizadas com uma licença Creative Commons CC0, relativa a obras em domínio público. Isso significa que qualquer pessoa pode copiar, modificar e distribuir a obra, mesmo que para fins comerciais.

A iniciativa está alinhada à rede Open Glam, que reúne museus, bibliotecas e arquivos e os incentiva a divulgarem suas coleções online. Segundo o diretor para área digital, comunicação e desenvolvimento da Paris, Philippe Riviere, há uma equipe dedicada a avaliar quais imagens podem ser disponibilizadas com a licença CC0.

A ideia é disponibilizar as imagens também em outros bancos de dados abertos, como o buscador CC Search e a Wikimedia Commons.

Com a medida, imagens de artistas famosos, como Rembrandt, Gustave Courbet, Paul Cézanne e muitos outros passam a ser disponibilizadas. A imagem de cada obra é acompanhada de ficha técnica, com informações como data, autoria, dimensões e uma breve sinopse.

O site usa a imagens do quadro “A apresentação no templo”, de Jacques Daret, como exemplo da iniciativa. Pintada entre 1434 e 1435 para uma exposição na Catedral de Notre-Dame e atualmente no acervo do museu de Beaux-arts de la Ville de Paris, a obra retrata a Virgem Maria e o menino Jesus, em um templo decorado com cenas do Antigo Testamento.


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Impressos estão definhando e morrendo, mas o digital não tá com essa saúde toda



Por Luiz Fernando Aquino, para Coletiva.net
Imagem: Internet

Morreu no último dia de 2019, aos 36 anos, o jornal impresso Correio de Gravataí, fundado em 1983 e, desde 2012, propriedade do Grupo Editorial Sinos. Foi a sua última edição. Saiu da história do papel para buscar um lugar ao sol no sedutor mundo do digital. O on-line é o caminho, acredita a maioria. Trata-se de uma meia verdade. 

Dados do site Poder360 mostram que a circulação dos dez principais jornais do país, nos últimos cinco anos, caiu 51,7%, escorregando do 1,2 milhão de exemplares impressos por dia para 588,6 mil. Opa! Mas então o on-line é sim a salvação da lavoura?!? Não exatamente. Os mesmos números do Poder360 revelam que as assinaturas dos digitais não decolam na mesma proporção em que os boeings de papel despencam. 

Peguemos dois gigantes: Folha de São Paulo e O Globo. A Folha: em dezembro de 2014, eram 211.933 jornais diários; em outubro de 2019, 86.196. Redução de 59%. No digital (assinaturas), em dezembro de 2014, eram 159.117; em dezembro de 2018, 207.176. Ou seja, o digital da Folha cresceu 30%. O Globo, nesse mesmo período, registrou o seguinte comportamento: caiu 49% no impresso e subiu 31% no digital. Atenção! Estou considerando dados do digital até 2018, porque em 2019 o Instituto Verificador de Circulação (IVC) aplicou uma espécie de "pedalada contábil", alterando o critério sobre o que é "circulação paga" no on-line, catapultando generosamente esses números. Atentem para o seguinte: tanto os preços de anúncio quanto de assinaturas do digital são bem menores em relação aos impressos. 

A questão é: se o jornal impresso está com o pé na cova, por que esse gap de desempenho inverso dos digitais? É aí que a porca começa a torcer o rabo, como dizia o meu avô Damião. O digital surgiu como uma espécie de calçado 36 para um pé 42 dos jornalecões. Faça um teste agora: abra qualquer site desses grandes jornais. A capa é um tijolo. Vamos para os textos: as matérias têm o mesmo tamanho e linguagem dos impressos. Está tudo lá: título, linha de apoio, fotos quadradinhas, legendinhas bonitinhas e links, muitos links, muitos "saiba mais e leia mais", em uma infindável espiral de leitura - o novo Labirinto de Creta, só que sem o Minotauro. Percebem? A postura é rigorosamente igual ao padrão antigo das publicações, uma verticalização editorial afetada, soberana e pretensiosa, a mesma que está ajudando a arrastar para a agonia o impresso, entre outras razões de ordem econômica, claro. A clássica organização editorial está ali, travestida de moderna.

Ora, se o impresso despenca, e o digital não emplaca às ganhas, cadê o leitor/consumidor? Nas redes sociais. E qual a grande característica dessa danadinha? Horizontalidade, a sociedade se mexendo feito coisa viva, mas agora em rede (a rigor, sempre esteve, mas agora as pessoas também se falam). Leem o que lhes interessa (sem julgamentos nem preconceitos). Vida real, o dia a dia. Ah, mas ali só tem bobagens! É a vida de cada um, e daí? Mas isso colide com o jornalismo clássico/tradicional?!?! Não! Esse jornalismo clássico/tradicional é que está colidindo com a vida real, perdendo conexão, caindo no vazio, caretão, quadradão, dizendo, à sua maneira, o que interessa ao leitor, quase sempre ancorado em uma pauta oficialesca.

Na data de falecimento do agora saudoso Correio de Gravataí, pendura-se essa reflexão: como se livrar do mofo do terno da imprensa clássica/tradicional diante de uma nova mídia e de uma sociedade antenada, em movimento e em rede? Há um pulo do gato aí! Sempre há!

Luiz Fernando Aquino é jornalista e secretário de Governança e Comunicação e Social Substituto de Gravataí.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Troca de cartas volta a ganhar adeptos e transforma-se em hobby na era digital

A jovem compartilha parte dessas experiências no canal Carolinaismo no YouTube, com vídeos de até 2 mil visualizações

Redação Folha Vitória


Foto: Divulgação

O primeiro passo é uma saudação, seguida de apresentação: quantos anos tem, onde mora, o que faz da vida, o que gosta de ler, de assistir, fazer. Depois, é o momento das perguntas para descobrir interesses em comum e, também, de acrescentar alguns mimos, como adesivos, recortes e afins. Esse passo a passo faz parte de um tutorial que, embora publicado no YouTube, tem objetivo mais analógico: ensinar a escrever cartas.

A troca de correspondência até deixou de ser um meio prático de comunicação, mas continua a ter milhares de adeptos no Brasil, tanto entre saudosos quanto entre aqueles que o adotaram já em plena era digital. Mais que isso: a tecnologia tem ajudado a atrair interessados por meio de blogs, sites, hashtags, grupos em redes sociais e até aplicativos.

"É uma forma de se desligar do ambiente veloz, de parar, sentar e escrever para produzir uma coisa à mão. Precisa sair de casa, ir nos Correios, postar a carta, esperar uma resposta. Sai do contexto de hoje em dia, em que tudo é uma correria", descreve Carolina Santiago, de 23 anos, mestranda em Literatura e moradora de Salvador.

Carolina começou a trocar cartas em 2017 e, hoje, mantém contato com cerca de sete "penpals" (amigos por correspondência, em inglês). "Não sabia que era uma comunidade tão forte nos dias atuais. Quando comecei, queria conhecer pessoas diferentes das que estava acostumada, de gerações diferentes, conhecer novas formas de pensar."

A jovem compartilha parte dessas experiências no canal Carolinaismo no YouTube, com vídeos de até 2 mil visualizações. Fora do País, publicações semelhantes chegam a passar as 900 mil visualizações. Elas são focadas especialmente em técnicas para escrever letras mais caprichadas e decorar cartas e envelopes com recortes de jornais e revistas, adesivos e itens afins.

Tudo isso ganha força com o crescimento do interesse por lettering, uma espécie de caligrafia que não precisa seguir regras ortográficas (como misturar letras cursiva e de forma, por exemplo), em que a escrita vira quase um desenho feito à mão. Outras tendências do mesmo nicho são o bullet journal e o scrapbooking, espécies de agendas e álbuns feitos à mão.

Grupos

Além de dicas, os interessados têm na internet a principal plataforma para encontrar pessoas para se corresponder, principalmente por meio de hashtags no Instagram, grupos no Facebook e sites especializados. Esse é o caso, por exemplo, do Envelope de Papel, que mantém site, perfil em redes sociais e um grupo de WhatsApp. O objetivo principal é apresentar breves descrições sobre pessoas que querem se corresponder, com interesses, hobbies, cidade natal e idade, dentre outras informações básicas.

"Em 2016, comecei a pesquisar na internet sobre cartas e aí encontrei um site internacional, que estava meio desatualizado. Não sabia se os endereços eram os mesmos. Comecei um grupo de cartas, passei a receber algumas e a me identificar com esse mundo", conta a idealizadora do Envelope de Papel, a publicitária mineira Mariana Loureiro, de 23 anos.

Hoje, a iniciativa reúne perfis de 585 pessoas de todos os Estados do País e alguns brasileiros que moram no exterior, com uma média de dez novas inscrições por semana, "sem divulgação", como ressalta Mariana. "A faixa etária é bem variada, tem jovens de 15, 20 anos, tem pessoas com mais de 50 anos muito ativas e um grupo infantil, de 7 a 14 anos", comenta.

A publicitária conta que se interessou por cartas e foi procurar mais informações online após uma conversa com o pai, que se correspondia com estrangeiros nos anos 1980. "A internet é essencial (para a popularização das cartas). A maioria das pessoas vai, em primeiro lugar, na internet para procurar."

A assistente técnica Ana Lúcia Abreu, de 51 anos, é uma das usuárias cadastradas do Envelope de Papel. "Antes, mandava cartas para pessoas que conhecia, que trabalhavam comigo. No Natal, mandava cartão para irmãos, tios, amigos mais chegados. Gosto da sensação de que alguém lembrou de você. A sensação é muito boa, de receber uma carta."

Ana Lúcia costuma escrever no fim de semana, especialmente nos fins de tarde e início de noite de domingo. "Deixo a coisa fluir. O melhor presente que a gente pode dar a alguém é o tempo, porque ele nunca mais volta."

Já a professora de Língua Portuguesa Lygea de Souza Ramos, de 36 anos, costumava se corresponder quando era adolescente e retomou o hábito há três anos. "Sempre foi uma coisa que me agradou muito, é uma forma de demonstrar carinho pela pessoa. Telefone, e-mail, é tudo muito imediatista, com mensagens curtas, não tem aquele tempo de elaboração como a carta."

"Pensar como fazer até a decoração da carta abre um universo muito diferente. Hoje tem um universo de papelarias enorme, uma infinidade de coisas que posso usar para decorar, trocar", conta ela, que se corresponde com cerca de dez pessoas. "Gosto de conhecer outras culturas, as pessoas se mostram mais por meio das cartas, o que gostam, o que fazem."

Versão digital

O hábito também ganhou impulso por intermédio do aplicativo Slowly, que simula a troca de cartas de forma virtual e tem cerca de 2 milhões de usuários mundialmente. O app propõe matches (combinações) com pessoas de interesses semelhantes (fotos de perfil não são permitidas), com as quais é possível trocar cartas virtuais - que podem levar até dias para chegar ao destinatário, a depender da distância geográfica.

"Em um app normal, geralmente a pessoa fala 'Oi, tudo bem', é difícil a coisa pegar. Fiz bons amigos assim, mas é uma coisa rara, precisa de muitas conservas para ter uma interessante. O Slowly Sé mais fácil, tem isso de não estar tentando conversar com um monte de gente ao mesmo tempo, de escrever como se fosse carta, com um monte de informação", comenta o mineiro Marcelo Fonseca, de 32 anos, professor de idiomas.

De férias fora do País, Marcelo pretende voltar a se corresponder em 2020. Uma das principais motivações é praticar idiomas com nativos. "Tinha de colocar no meu planejamento. Chego em casa às 20, 21 horas. Às 23 horas, sentava para escrever. O app passou a ser parte da minha vida, é uma coisa que você não para qualquer instante e responde. Tem mensagens que levei 1h30 ou mais escrevendo, tem de ser pensado." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

A revolução de bolso


por Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo
Imagem: Internet

Escolher um fato marcante para um recorte de dez anos é perigoso e complexo. Algo que parece fundamental hoje, na perspectiva do fluir dos anos, fica deslocado do brilho original. Além do deslocamento de importância (podemos chamar de “paralaxe histórica”), existe um outro risco: o que é essencial para mim ou meu grupo é irrelevante para o conjunto maior. Exemplo: um fato que mudou a perspectiva da vida na Venezuela na década que se encerra foram os governos de Nicolás Maduro. Determinante para a Venezuela em qualquer sentido, o chavismo em crise afeta pouco outras áreas vitais do planeta. Tragédias impactantes, como os desastres das barragens de Mariana e Brumadinho, são absolutas para os envolvidos, enormes para o Brasil e quase irrelevantes para populações do Sudão do Sul, tirando a solidariedade humana básica.

Fui convidado para pensar qual seria o grande fato da década que termina. Rigor de historiador: o novo século não começa no ano “zero”, porém no ano um. Assim, a nova década, se formos muito rigorosos, começará em 2021. Porém, podemos começar a pensar no intervalo que nosso sistema decimal estimula. Qual acontecimento dos anos 2010-2020? Qual fato parece ter sido mais mundial do que local, mais permanente do que episódico, mais influente do que uma agitação na tensão superficial da água do tempo?

Faço uma escolha subjetiva ao extremo. Vou escolher uma tecnologia. Para esgarçar mais o rigor, uma tecnologia um pouco anterior ao recorte, todavia disseminada nele. O que seria? A coisa mais fundamental da década foi o uso coletivo do smartphone. Trata-se do celular conjugado a recursos de computador e com acesso à internet. O computador já tinha sido eleito “o homem do ano” em 1982, pela mesma revista Time que agora indica “pirralhas” para o posto. O uso generalizado de smartphones começa nos anos anteriores a 2010 e, na década escolhida, torna-se uma epidemia avassaladora. O smartphone ao alcance de todos é o grande fato.

Vamos pensar no exemplo da televisão. Experimental nos anos 1930, ela passa a crescer sistematicamente e se torna um dado dominante a cada novo ano pós-1950. O smartphone mudou a comunicação. Ele derruba aparelhos telefônicos fixos. Eliminou ou diminuiu o uso de lanternas, rádios-relógio, agendas, máquinas fotográficas, filmadoras, relógios de pulso, gravadores, calendários e muitas outras coisas. Sistemas de busca ao alcance da mão tornaram o smartphone uma memória universal portátil: a revolução de bolso. Hábitos de consumo foram mudados. Ir a banco pessoalmente virou sinal de idade. Cartas e telegramas foram tragados em mares de aplicativos. Tudo isso já tornaria o celular inteligente considerável, mas insuficiente para ser “o fato da década”. Há mais, muito mais.

O aparelhinho inovador tornou cada cidadão conectado e apto a ter determinada voz. Para o bem? Posso filmar uma violência, um problema, um abuso de uma autoridade e divulgar na rede. Não preciso conhecer o dono do jornal, um amigo na televisão: eu me torno editor, repórter, dono do jornal e cameraman. Quantos escândalos políticos nasceram de denúncias feitas com simples celulares? Para o mal? A intimidade devassada, pessoas filmadas em cenas sexuais, o “olho que tudo vê” atravessando toda porta. A aceleração do fim da ideia de público e privado. Uma revolução individual. É uma arma. Muitos manifestantes já avançam com o smartphone na mão, prevenindo-se contra algum ataque. O homem do Paleolítico erguia uma tocha bruxuleante diante do desconhecido lúgubre da caverna. O ser contemporâneo ergue seu smartphone no escuro do cinema.

Há mais: as consultas fáceis reinventaram o turismo. Há curadorias individuais, guias eletrônicos, indicações a todo instante. As consultas imediatas colocaram em questionamento a biblioteca como ponto de referência do saber. A conexão retirou as pessoas do contato olho no olho. A bateria em perpétua agonia estimula a dependência de tomadas e carregadores. Os acidentes, ao caminhar /dirigir, indicam, tragicamente, que conexão é considerada superior à vida e à segurança. A solidão foi ressignificada: todos estão acompanhados pelos smartphones. Difícil saber se o olhar total dos jovens sobre as telas seja causa de crise familiar ou a preservação de atritos. Sem serem obrigados à interação, os adolescentes conversam pouco.

O mercado musical foi revolucionado. A televisão aberta sofreu bastante. Jornais e revistas tiveram de se adaptar. Os aplicativos de busca de endereços mudaram a maneira de existir nas grandes cidades. Há quem assista a cursos, palestras e aulas na palma da mão. A política abandonou o palanque formal e esposou a telinha. Partidos pequenos cresceram com maior domínio do novo modus operandi. Dizem que eles foram as novas barricadas da primavera árabe. A Liberdade Guiando o Povo de Delacroix é, agora, uma antena de transmissão.

A dúvida é legítima. Por um lado, o smartphone tornou o humano mais livre, no sentido de encontrar respostas que antes demandavam mais consultas ou um especialista. Ao mesmo tempo, a maquininha transforma-se em uma muleta indispensável e há estudos mostrando que pessoas não conseguem dormir, comer, esperar ou até mesmo ter momento de descanso e intimidade sem elas. Ficamos mais autônomos ou mais autômatos? Übermensch ou zumbi? A humanidade teria se tornado um grupo frágil que pode ser reduzido a pó pela simples queda de uma rede?

Nada mudou tanta gente como a difusão do smartphone. Chegamos ao admirável mundo novo. Entramos no Éden ou fomos expulsos dele? Varia a resposta, mas o símbolo do processo continua sendo a maçã mordida. Que todos vivam bem em 2020, o que implica, hoje, boa conexão... e alguma esperança.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Oscar Niemeyer tem acervo digital com mais de 500 trabalhos no site da Fundação Oscar Niemeyer


O último domingo, 15, foi dia de festa para a arquitetura brasileira. A data marcou os 112 anos de Oscar Niemeyer, nascido em 1907, e que morreu aos 104 anos, em 2012. Por conta de seu aniversário, a data virou também o Dia Nacional do Arquiteto e Urbanista.

Oscar Niemeyer foi uma das mentes mais brilhantes da arquitetura mundial e grande nome do modernismo. Ele esteve à frente de obras como o planejamento da cidade de Brasília, museus, centros culturais e igrejas espalhadas por todo o Brasil e outros países. Ele também foi responsável por projetar a sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Para quem quiser conhecer um acervo completo da obra de Niemeyer, a Fundação Oscar Niemeyer disponibiliza um acervo digital em seu site. São mais de 500 trabalhos.

Conheça mais sobre a Fundação Oscar Niemeyer:
http://www.instagram.com/f_oscarniemeyer
http://www.niemeyer.org.br/

Sopa Cultural

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O papel do jornal e a ausência das bancas

Cineasta argentino radicado no Brasil reflete sobre a rápida substituição do papel impresso e da leitura concentrada

Carlos Pronzato | Brasil de Fato

Prevalecem outros objetos pendurados, como brinquedos, artefatos tecnológicos baratos, lembranças turísticas e faixas de times de futebol / Pedro Carrano

Fico pasmo ao ver as antigas bancas de jornais do centro da cidade do Rio de Janeiro, especificamente na Cinelândia, Carioca e Lapa, no coração da antiga capital federal, substituírem aqueles objetos de papel impresso, que atravessaram séculos desde Gutemberg e acompanharam todos os passos da humanidade através do tempo, por prateleiras abarrotadas de biscoitos, chocolates e outras guloseimas e iguarias as mais variadas, normalmente mercadorias de supermercados, hoje comercializados até em farmácias!

Fenômeno atualíssimo e pernicioso que vem destruindo dia a dia aquele habito saudável - hoje obsoleto para muitos -, de concentração na leitura, em oposição à velocidade da informação instantânea, volátil e dispersiva de computadores e celulares.

Nem aquele útil costume - nas laterais e até pendurados na frente das bancas -, de colocar em exposição os tabloides convidativos para uma leitura informativa matinal, está conseguindo sobreviver. Prevalecem outros objetos pendurados, como brinquedos, artefatos tecnológicos baratos, lembranças turísticas e faixas de times de futebol. Processo similar sofrem as grandes livrarias, como a espetacular Livraria Cultura, por exemplo, que bem no estilo do El Ateneo, de Buenos Aires, restaurou e ocupou o antigo Cinema Vitória e teve que fechar suas portas. Embora outras como Da Vinci, Livraria da Travessa, etc., consigam permanecer no mundo real com a era digital no pescoço, incluindo cafés e atrativos lançamentos.

Não sei qual o diagnóstico neste preciso momento em cidades deste porte noutros países do mundo, mas o fenômeno parece estender seus tentáculos sobre a leitura dos jornais de papel, sem piedade. Por aqui se optou por trocar toda a mercadoria, embora mantendo a estrutura de uma tradicional banca de jornais, todavia perdendo a sua vocação original.

Depois destas quase minhas condolências, instalado já há algum tempo no apartamento de uma amiga no Rio de Janeiro, todos os dias me surpreendo pegando dois jornais de grande circulação por baixo da porta, dos quais ela tem assinatura. Confesso que até acordo mais cedo apenas para usufruir desta desintoxicante experiência de ler em papel durante o café da manhã.

Com todo o respeito a quem lê muito mais em computadores e celulares, da voracidade inútil de milhões de postagens e fake news em grupos de Whatsapp, incontáveis notícias sobre as quais apenas se pousam os olhos e outras milhares de curiosidades que morrem como borboletas, nada, até hoje, pode substituir a leitura no papel e a sua perene atenção - e conservação -, independente da qualidade do texto, como este que, caro leitor, está agora diante dos seus olhos, analógico como ainda é o ato de ler, tocar e respirar.


domingo, 15 de dezembro de 2019

Biblioteca disponibiliza para consulta online os cadernos secretos de Leonardo da Vinci



A British Library, no Reino Unido, digitalizou e disponibilizou para o público uma coleção secreta com 570 páginas dos manuscritos de Leonardo Da Vinci. Consideradas “um registro vivo de uma mente universal” pelo jornal britânico “The Guardian”, as anotações reúnem invenções do artista, diagramas científicos e desenhos. A coleção esteve sob posse de um dos alunos de Da Vinci, Francesco Melzi, e foi herdada pelos seus descendentes. Sem saber da importância dos documentos, os familiares de Francesco acabaram descartando uma parte dos manuscritos, que ficaram escondidos por anos.

Além das qualidades artísticas, Da Vinci também se destacou como cientista, exercendo as funções de matemático, engenheiro, anatomista e botânico. Os manuscritos reverenciam a sua engenhosidade tecnológica ao se aventurar por essas áreas. Enquanto criava obras espetaculares como “Monalisa” e “A Santa Ceia”, ele também concebeu ideias inimagináveis para a época, como um protótipo de helicóptero, um tanque de guerra, energia solar, calculadora, casco duplo para embarcações, e até uma teoria rudimentar das placas tectônicas.

Os documentos podem ser acessados na íntegra no site da livraria. Não há um botão específico para o download. No entanto, é possível baixar os manuscritos em formato png clicando sobre eles com o botão direito do mouse e, em seguida, escolhendo a opção “salvar imagem como”.

Clique no link para acessar:  Cadernos secretos de Leonardo da Vinci

por Helena Oliveira | Revista Bula

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Vida ao redor: um site para explorar a fauna e flora brasileiras

André Cabetete Fábio | Nexo 

Instituído por meio de uma portaria de novembro de 2018, o SiBBr (Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira) é uma plataforma governamental que reúne informações sobre biodiversidade advindas de diversas instituições brasileiras, em especial instituições de pesquisa, como universidades.

O objetivo é organizar, armazenar e disponibilizar os dados sobre os ecossistemas brasileiros, e dar subsídios para a elaboração de políticas públicas. Além desse papel institucional, o SiBBr conta com um dispositivo de buscas em que é possível acessar informações sobre a fauna e a flora brasileiras.

Há opções por buscas de “espécies icônicas”, por exemplo. São aquelas espécies com relevância cultural. Clicando em cada nome, o site traz um mapa com a abrangência geográfica da espécie, sua classificação e os registros sobre as espécies em coleções. Entram nessa lista o gavião-real, encontrado principalmente na Amazônia, no Pantanal e em parte da mata atlântica, e a arara-canindé, encontrada na Amazônia, no cerrado e em parte da mata atlântica.

Também é possível realizar buscas por 202 coleções de acervos de instituições de pesquisa, como Embrapa, Fiocruz, universidades e museus. O buscador é dividido entre fauna, insetos, microorganismos e plantas.

Há ainda um buscador a partir do qual é possível explorar a biodiversidade por área. O usuário é convidado a digitar o próprio endereço e buscar informações sobre a fauna ao redor. Após realizar a busca, o site apresenta um mapa com um círculo sobre a região que exibe informações sobre a biodiversidade local.

A criação da plataforma foi coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, tem suporte técnico da Unep (sigla em inglês para ONU Meio Ambiente) e apoio financeiro do GEF (sigla em inglês para Fundo Global para o Meio Ambiente), criado em 1991 pelo Banco Mundial.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Relaxar e aprender


Leia em papel, pergaminho; ler é indispensável. Fundamental é sentir a vida pulsante das letras
        
Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo
Imagem: Internet

Gosto de indicar obras no final do ano. Muitos terão um momento de descanso e é uma boa ocasião para atualizar a lista de leituras.

Dos bons livros que li este ano, alguns sobem imediatamente à memória. Começo por Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias (Cia das Letras), em que Fernanda Montenegro pensa décadas de televisão e teatro. Entretece lembranças pessoais com reflexões amplas. É uma mulher sábia e a narrativa é despojada e bela. A melhor propaganda para ler o texto é observar quem tem raiva da nossa maior atriz. Nenhum elogio poderia ser maior. Ver quem odeia um livro é bom para recomendá-lo. 

Ser brasileiro é conviver com o legado de séculos de tráfico humano e trabalho forçado. É obrigatório pensar na Escravidão (Globo Livros) de Laurentino Gomes. O tema da escravidão e seu legado são discutidos pelo autor em uma narrativa muito bem feita e respaldada em pesquisa sólida. Aguardo a continuação da trilogia. 

Também a vida do escritor de Gabriela, Cravo e Canela foi uma leitura cativante em 2019. Joselia Aguiar fez o texto que saiu pela Editora Todavia. É uma reconstrução da trajetória pessoal e profissional do nosso mais conhecido autor no exterior. 

Poesias são a língua viva em estado de experimentação. Ler, lentamente, a invenção poética faz um bem enorme à sensibilidade e ao intelecto. O latinista Guilherme Gontijo Flores foi indicado para o Jabuti por Carvão :: Capim (ed. 34). A mineira Mônica de Aquino já foi premiada pelo livro Fundo Falso (Relicário Edições) e também figura na lista do Jabuti. Se preferir uma pessoa forte do passado recente, leia a poesia de Florbela Espanca. Há bastante dela na internet e os dois volumes da L&PM dão acesso organizado a essa portuguesa genial. Poesia é essencial para sobreviver no mundo e pensar em lugares e não lugares que nos permitam suportar o desfile angustiante da realidade. 

O prêmio Camões trouxe um debate sobre Chico Buarque de Holanda como autor. As letras das músicas são brilhantes, com passagens líricas de força imensa. Se você gosta de Chico letrista, vai ampliar sua admiração com Budapeste, Estorvo, Leite Derramado e Benjamin, todos pela Companhia das Letras. O recente Essa Gente dialoga com nosso presente e garante momentos de alegria longe de opiniões da internet. 

Djamila Ribeiro lançou o Pequeno Manual Antirracista (Cia das Letras). Obra rápida, bem escrita e que toca em cada uma das nossas históricas e permanentes questões sobre preconceitos e população negra. Há livros importantes, há obras belas e há textos necessários: Djamila sintetiza os três tipos na obra. 

Até aqui, recomendei livros interessantes, estimulantes, que fazem pensar ou que, pelo menos, ocupam o tempo com muito prazer. Você pode lançar ao seu cérebro um desafio para 2020. Uma vez por bimestre ou semestre, ler uma obra clássica e definidora do pensamento ocidental. Exemplo: o que fazer diante da violência e da maldade das pessoas em sociedade? Como organizar o mundo, dado que temos tendências destrutivas fortes. Pode existir lei e Estado para uma espécie tão agressiva como a humana? Essas questões foram pensadas em um momento de grande violência, o século 17, por Thomas Hobbes: o Leviatã (com o subtítulo Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico ou Civil). Recomendo a tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva (supervisão de Eunice Ostrensky) pela editora Martins Fontes. Ler um clássico é empreender uma jornada. Ele não é um livro de imediata assimilação; exige atenção e esforço. Ao final, creia-me, você emerge melhor e mais inteligente. Se o seu inglês permite, há versões variadas. 

Se você não se decidir por um livro com a complexidade de Hobbes ou de outros clássicos, seu paladar intelectual vai ficando afeito a manchetes, a sites rápidos e ideias superficiais. Ler uma obra que define parte da nossa política é algo que o alça a um degrau distinto, confere um olhar inovador e permite ser muito mais no campo do pensamento. Por isso, que tal um ano que você determine que três clássicos entrarão no reino do seu cérebro? Pode ser o texto já citado e mais O Contrato Social de Rousseau, terminando com a Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset. Acredite-me: essa decisão mudará para sempre sua percepção das coisas, como se você tivesse acesso a uma sala diferente do mundo ou recebido uma luz distinta. A diferença entre pensar e não pensar começa (não termina) com o enfrentamento de textos fundamentais. Sem eles, impera o mundo das redes sociais e seus truísmos raivosos. Já sabemos aonde leva o rio de ódio que flui na internet. Quer descobrir um continente distinto e fascinante? Navegue em águas clássicas no ano que se abre a sua frente. Ler é um passo para ser mais, deixar entrar na mente uma companhia agradável e desafiadora: o livro. Leia em papel, leia em telas, leia em papiro ou em pergaminho: o suporte é irrelevante; ler é indispensável.

Concorde, discorde, ame ou negue as ideias; fundamental é sentir a vida pulsante das letras. É preciso ter esperança e alguma leitura.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

App MASP Áudios


O MASP Áudios é um aplicativo gratuito que funcionará como um audioguia, mas sem estabelecer ao visitante a necessidade de um roteiro pré-definido. O app tem patrocínio da Ericsson e está disponível para download na App Store e Google Play.

Por meio da realidade aumentada, o aplicativo expande a experiência dos visitantes proporcionando uma imersão no acervo. O funcionamento é simples: basta apontar o celular para a obra, a câmera fará o reconhecimento de imagem e o áudio começará automaticamente. Também é possível pesquisar pelo título da obra ou pelo nome do artista para ter acesso aos áudios em qualquer lugar. Ao final da navegação, o usuário terá registrado um roteiro com as obras pelas quais passou. E ele também poderá criar uma coleção própria com base no acervo do MASP, escolhendo seus trabalhos favoritos. 

Os áudios não são apenas explicações técnicas, conceituais, formais ou audiodescrições, e sim leituras abrangentes que contextualizam a obra, o artista e o período artístico ao qual pertencem. O aplicativo estreia com 170 áudios de historiadores, curadores (de dentro e fora do MASP), artistas, professores, pesquisadores e até algumas crianças. Neles, são exploradas principalmente as obras da coleção permanente do museu ---aquelas expostas nos cavaletes de cristal projetados por Lina Bo Bardi no segundo andar do prédio, no Acervo em Transformação. 

Os participantes e as obras prezam pela diversidade, inclusão e pluralidade, missão da instituição. A seleção de vozes inclui nomes da curadoria do MASP, como Amanda Carneiro e Lilia Schwarcz, profissionais que passaram pelos ciclos temáticos de “histórias”, como Hélio Menezes, artistas como Anna Maria Maiolino, Erika Verzutti, Leda Catunda e Thiago Honório, além de Aracy Amaral, historiadora da arte, Regina Teixeira de Barros, curadora e professora, Valeria Piccoli, curadora da Pinacoteca, Ivo Mesquita, curador independente, alunos entre 8 e 10 anos da Escola Municipal Desembargador Amorim Lima e Colégio São Domingos, entre outros. 

O MASP disponibiliza Wi-Fi para os visitantes.

Disponível em:
App Store
Google Play

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

‘The Feed’ (Amazon Prime) | Crítica


The Feed é mais uma nova série da Amazon Prime Video. Ficção científica, meio thriller, meio drama psicológico-tecnológico. Estamos em um futuro próximo, talvez muito mais próximo do que imaginamos, ou quem sabe já está acontecendo de alguma forma. O negócio é que, em um piscar de olhos, você agora está conectado com todo mundo. Não, não é pelo smartphone, é direto na sua cabeça, na sua face, no seu cérebro. O smartphone está dentro da sua cabeça, você cria mundos, vê o que quiser – inclusive o que outros estão vendo – vive nas redes sociais… piscando.

A narração da abertura da série é um grande texto publicitário com todas as maravilhas da tecnologia Feed. Realmente, dá vontade ter um. O British Museum pode virar o Japão, por exemplo, é só todo mundo olhar e se conectar pelo QR Code. O primeiro episódio começa deveras curioso: uma mistura de Reino Unido com Japão, com toda direção de arte puxando para o vermelho, denotando perigo. Algo está para acontecer. E, de repente, lá está Michelle Fairley, a Catelyn Stark de Game of Thrones, vivendo uma mulher forte, Meredith, CEO da companhia global que controla a tecnologia que nomeia a série. Impossível não sentir a referência ao casamento vermelho (3×09 de GoT). Aliás, ela vive uma personagem fria e calculista de forma convincente, se destacando sempre que aparece.


The Feed passa por temas atuais – e futuros (Foto: Amazon Prime Video / Divulgação)

REMO LUPIN DOMINADOR
Lawrence Hatfield é vivido por David Thewlis, o Remo Lupin de Harry Potter, o qual, sem dúvidas, traz um peso como ótimo ator que é, fazendo o homem que inventou a viciante tecnologia. Até que precisa da ajuda do filho vivido por Guy Burnet, um psicólogo de Feed. Em alguns momentos do início da temporada acaba lembrando a série Em Terapia, mas com um toque de tecnologia e investigação. Porque o Feed está começando a dar um probleminhas. O elenco é bom e cria certa curiosidade para assistir, mas alguns são muito irregulares.

The Feed é baseada em um livro escrito por Nick Clark Windo, todavia, a série é criação de Channing Powell e segue uma linha Black Mirror. Ainda tem como trama Nina Toussaint White como Kate e sua gravidez. O episódio de abertura presenteia com um final daqueles que fazem dar play no próximo sem pestanejar. Clare-Hope Ashitey apresenta elegância ao dar vida a Evelyn, uma personagem inteligente e de personalidade.

O ritmo parece que vai cair no segundo episódio, mas a trama paralela de Marcus começa a ficar interessante. O ator Shaquille Ali-Yebuah é carismático. Além disso, a segunda metade traz cenas fortes e o suspense segue num crescente a partir das novas descobertas dos protagonistas que vão investigando os estranhos acontecimentos. A família Hatfield é complicada e ficamos curiosos para saber mais sobre o que está por trás das falhas na tecnologia, a política e quais seus reais interesses. Sobretudo, em quem é possível confiar? Na família, talvez?


Foto: Amazon Prime Video / Divulgação

MINORITY REPORT + V DE VINGANÇA + BLACK MIRROR
O terceiro começa mostrando dois casais em caminhos paralelos, fica com cara de filme de fuga. Dirigido por Tinge Krishnan, pode-se perceber mais cenas utilizando a profundidade de campo, focando e desfocando o fundo, além de tomadas aéreas. Os cortes são bem utilizados como na saída do elevador seguido por abrir de cortinas de um novo e atemorizante cenário. Aliás, a cena final do segundo episódio faz com que o espectador fique ansioso pelo terceiro.

O seriado me fez lembrar Minority Report (2002), que se passa no ano de 2054, onde há um sistema que permite que crimes sejam previstos, também senti um ar de V de Vingança (2005), pois temos um grupo de rebeldes, hackers. Vemos uma luta por liberdade e desconexão tecnológica em um mundo extremamente interconectado, talvez seja esse o subtexto mais relevante. A partir do quarto episódio a questão LGBT começa a ser levantada, inclusive com alguns momentos singelos.

A direção de Jill Robertson no quinto episódio eleva a qualidade com closes bem utilizados, e começamos a encarar novas descobertas e outros mistérios. Aliás, o corte de uma lágrima para o cair de cinzas de um cigarro é poesia audiovisual. Aplicativos espiões que trazem problemas já são algo bem comum hoje em dia e tal tema também acaba sendo abordado. Ademais, as reviravoltas que acontecem nesse momento da temporada dão um novo ânimo. Seguindo para um sexto episódio com bastante suspense, e um final – quase – inesperado.

Em suma, The Feed é uma série que aborda vários temas relevantes, atuais – e futuros. Está no começo e vai plantando diversas sementes, conspirações, e, quando parece que vem um resposta, pula uma pergunta. Afinal, você quer estar conectado o tempo todo?

::: TRAILER



::: FICHA TÉCNICA

Título original: The Feed
Temporada: 1
Número de episódios: 10
Direção: Carl Tibbetts, Tinge Krishnan, Misha Manson-Smith, Jill Robertson, Colin Teague
Roteiro: Michael Clarkson, Rachel De-Lahay, Tom Moran, Channing Powell, Nick Clark Windo
Produtores:  Julie Clark, Rachelle Constant, Susan Hogg, Simon Lewis, Sara Murray, Stephen Lambert
Elenco: Guy Burnet, David Thewlis, Shaquille Ali-Yebuah, Michelle Fairley, Osy Ikhile, Simran Kaur, Jing Lusi, Jeremy Neumark, Chris Reilly, Nina Toussaint-White
Distribuição: Amazon Prime Video
Data de estreia: dom, 20/10/19
Gênero:  ação, drama
Ano de produção: 2019
Classificação: 18 anos

via Blah! Zinga

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Projeto digitaliza mais de 100 mil discos de vinil para disponibilizá-los online

O Internet Archive está trabalhando para oferecer acesso online a mais de 100 mil discos de vinil que, de outra forma, cairiam no esquecimento. A organização atua desde 1996 na busca de criar um acervo digital de conteúdos.

Bilhões de sites, livros, gravações de áudio, vídeos, imagens e softwares já fazem parte do acervo do Internet Archive e qualquer pessoa pode adicionar arquivos ao catálogo.

Foto: Reprodução Internet Archive

Os vinis são a mais recente adição da coleção. A iniciativa é levada a cabo através de uma parceria com a Biblioteca Pública de Boston, com o objetivo de digitalizar mais de 100 mil LPs.

Para o projeto, foram escolhidas obras do acervo da biblioteca que não estavam disponíveis comercialmente. Um total de 750 álbuns completos já estão liberados gratuitamente através da coleção “Unlocked Recordings“.

O processo começa com o catálogo de dados obtidos após imagens do disco e de sua capa serem escaneadas, conforme explica o blog do Internet Archive. Essas informações são então cruzadas com outras fontes externas para que, após catalogados, os álbuns sejam de fato digitalizados.

Foto: Reprodução Blog Internet Archives

Este procedimento é levado a cabo através de uma parceria com a Innodata Knowledge Services, em Cebu, nas Filipinas. Com uma tecnologia avançada, o serviço é capaz de catalogar cerca de 10 LPs por hora e, com isso, salvá-los do esquecimento.

via Hypeness

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Se cuida, Kindle: Xiaomi anuncia leitor de ebooks MiReader


A Amazon domina o mercado de livros digitais com o Kindle, mas a Xiaomi está de olho no segmento e anunciou recentemente seu próprio leitor de ebooks. Chamado de MiReader, o dispositivo segue os padrões da fabricante chinesa e ataca no custo-benefício: o aparelho foi anunciado por 599 Yuan, cerca de US$ 85 ou R$ 355 em conversão direta para a nossa moeda.

Por esse valor, o produto conta com uma tela e-Ink de resolução HD com densidade de 212 ppi (pixel por polegada) com LEDs embutidos para oferecer 24 tipos diferentes de iluminação. Em seu interior, o dispositivo também possui processador Allwinner B300 de quatro núcleos com frequência de 1,8 GHz, 1 GB de memória RAM e 16 GB de armazenamento interno. A bateria é de 1.800 mAh e pode ser carregada via porta USB Tipo-C.

O produto é baseado em Android 8.1 Oreo e traz suporte para leitura de livros digitais, conteúdos web e quadrinhos em alta definição, além de arquivos em formatos como EPUB, PDF, txt e também Word. Apesar de o MiReader rodar o sistema operacional da Google, ainda não está claro se o dispositivo contará com suporte para aplicativos da Play Store. Por outro lado, a Xiaomi confirmou que será possível exportar arquivos de smartphones ou baixá-los da nuvem para ler no novo aparelho.

De acordo com o NDTV, o Xiaomi MiReader pesará apenas 178 gramas e está sendo produzido pela Mijia, uma das principais submarcas da fabricante chinesa. O dispositivo ganhou vida após uma campanha de financiamento coletivo e mais detalhes serão revelados na quarta-feira (20), quando o leitor de livros digitais chega oficialmente ao mercado na China.

Como de costume, a Xiaomi ainda não confirmou se o produto será lançado no Brasil. Ainda assim, como os dispositivos Kindle mais baratos chegam a ser vendidos por valores na casa dos R$ 300 em promoções e com frete grátis, vai ser complicado para a empresa chinesa disputar com a Amazon nesse segmento.

via Techmundo

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Roda Viva com Yuval Harari

PHD pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, ele é autor de 'Sapiens, uma breve história da humanidade' e '21 lições para o século 21', que venderam mais de 20 milhões de exemplares em todo o mundo.

Em suas obras, nas palestras e entrevistas, Harari trata de questões atuais, como: a humanidade, como a conhecemos, vai desaparecer? O homem está tentando assumir o papel de Deus? Estamos ameaçados pelo surgimento de ditaduras digitais, que seguem as pessoas o tempo todo?



sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Lançamento do site Atlas dos viajantes no Brasil

Biblioteca Brasiliana lança no dia 13 de novembro a plataforma interativa Atlas dos viajantes no Brasil

No dia 13 de novembro de 2019, às 14h30 horas, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - USP (BBM) realizará o evento de lançamento da plataforma interativa Atlas dos viajantes no Brasil. No lançamento, a nova plataforma será apresentada pelo curador da biblioteca, João Cardoso, e pelo geógrafo que produziu os mapas do Atlas, Ian Rebelo Chaves. A partir da projeção do Atlas em grande escala no saguão da biblioteca, será apresentado o processo de pesquisa e produção da plataforma, suas funcionalidades e as próximas etapas do projeto. Em seguida, haverá uma roda de conversa sobre as possibilidades de uso da ferramenta em pesquisa e em sala de aula. Durante a conversa, o público será convidado a fazer as primeiras interações com a nova ferramenta de divulgação do acervo.

O Atlas dos viajantes no Brasil foi concebido para ser um instrumento inovador de divulgação de uma das coleções mais importantes da BBM - os relatos e imagens produzidos por viajantes, brasileiros e estrangeiros, que percorreram o país entre o século XVI e início do século XX. No site que abriga o Atlas, o usuário poderá acessar esses conteúdos de diversas maneiras - acompanhando a rota percorrida por um viajante específico, comparando informações sobre um local determinado produzidas por dois ou mais viajantes, filtrando as informações por assuntos e temas do seu interesse etc.

Os relatos e imagens que os viajantes produziram formam uma vasta enciclopédia sobre o Brasil, pois tratam de temas relacionados à natureza, sociedade, economia, cultura, vida cotidiana etc. O objetivo do Atlas dos viajantes no Brasil foi justamente recolher e organizar esses materiais para em seguida criar uma forma enriquecedora e estimulante de divulgá-los para estudantes, professores, pesquisadores e interessados em geral. Para o lançamento, foram criadas as rotas de sete viajantes de diversos perfis, nacionalidades e períodos. Depois de lançado, o Atlas continuará sendo alimentado com novos conteúdos e outras etapas do projeto serão implementadas.

Serviço

Lançamento do site: "Atlas dos viajantes no Brasil"
Quando: 13 de novembro de 2019, às 14h30
Onde: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) – Saguão – Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, Butantã, São Paulo – SP
Quanto: Gratuito
Mais Informações: (11) 2648 0316 ou viajantes@bbm.usp.br


via Biblioteca Brasiliana Mindlin

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A biblioteca digital que aumenta a credibilidade da Wikipédia

Acervo do site The Internet Archive recupera fontes com páginas indisponíveis na internet e possibilita o acesso a livros digitalizados para a verificação de informações

Cesar Gaglioni  | Nexo

PLATAFORMA É CRITICADA POR PERMITIR QUE QUALQUER UM EDITE OS CONTEÚDOS DISPONIBILIZADOS 

Com uma média de 21 bilhões de acessos mensais, a Wikipédia é uma das páginas mais acessadas no mundo. 

A plataforma é uma enciclopédia digital com páginas que explicam os mais diversos temas, da Revolução Francesa à biografia do grupo de axé É o Tchan. Apesar de reunir essa amplitude de assuntos, a Wikipédia costuma ser criticada pelo fato de que qualquer um pode simplesmente editar a página da forma que quiser. 

A enciclopédia adotou mecanismos para que a desinformação se espalhe em suas páginas: as afirmações presentes na Wikipédia precisam citar uma fonte, listada no rodapé de cada verbete. 

Muitas vezes, as fontes de citação são livros antigos e raros, ou páginas da internet que saíram do ar, o que dificulta a verificação das informações apresentadas. Porém, um projeto online tem eliminado essas barreiras, e ajudando a aumentar a credibilidade da Wikipédia. 

O que é o Arquivo da Internet 

O The Internet Archive é uma iniciativa que surgiu em 1996, nos primeiros anos da própria internet, como uma forma de criar um acervo digital da web. 

Em treze anos, até novembro de 2019, o Internet Archive já arquivou 330 bilhões de páginas arquivadas, além de contar com uma biblioteca com 20 milhões de livros e textos digitalizados. Áudios, vídeos, imagens e programas de computador também estão presentes no acervo do projeto. 

A funcionalidade mais importante do projeto é a The Wayback Machine, seção que traz sites e páginas que já saíram do ar. 

No que diz respeito aos livros digitalizados, uma nova iniciativa do projeto facilitou ainda mais o acesso às fontes das citações na Wikipédia. Por meio dela, as notas bibliográficas de cada verbete oferecem links para o acervo do Internet Archive, nas páginas onde constam o trecho citado e parte dos capítulos onde se encontram, de modo a facilitar a contextualização. 

“A possibilidade de ler uma página ou duas do contexto de uma frase é crucial para editores [da Wikipédia] que querem proteger a integridade dos artigos, e para os leitores que precisam de um passo a mais na checagem das informações”, afirmou à revista Wired Mike Caufield, professor na área de educação da Universidade de Washington, nos EUA. 

Os idealizadores do Internet Archive também desenvolveram um mecanismo de inteligência artificial que acrescenta links para o acervo em citações que trazem páginas indisponíveis. O próximo passo é automatizar o processo de inserção de livros digitalizados, algo que, atualmente, foi feito de forma manual mais de 50 mil vezes.

“Se um livro tem um número ISBN [uma identificação numérica das publicações], e a citação está formatada corretamente, esse processo é bem fácil”, afirmou Mark Graham, diretor do setor responsável pela The Wayback Machine. O desafio está na formatação das citações na Wikipédia, muitas vezes imprecisa, e no fato de nem todos os livros terem um número ISBN. 

Segundo Graham, o The Internet Archive está digitalizando cerca de mil livros diariamente, e pretende aumentar o acervo exponencialmente. 

A Wikipédia em sala de aula 

Há um debate sobre o uso da Wikipédia na sala de aula, e não é raro ver professores, do ensino básico ao superior, que proíbam o uso da plataforma no desenvolvimento de trabalhos acadêmicos. 

A justificativa está na credibilidade da citação, já que a enciclopédia digital pode ser editada por qualquer pessoa. É por isso que a própria Wikipédia se posiciona como uma fonte não confiável, mesmo com os esforços para deixar o processo de verificação de fontes mais transparente e com mais credibilidade. 

Ao dar orientações sobre o uso do seu conteúdo em trabalhos acadêmicos, a Wikipédia diz que a plataforma deve ser encarada como um ponto de partida para a pesquisa, e não como uma base sólida dela. 

Porém, há quem defenda a presença da enciclopédia digital dentro do ambiente acadêmico. As sugestões são de usar as possibilidades da Wikipédia como forma de aprimorar os conhecimentos dos alunos em metodologia científica. 

O sociólogo russo Piotr Konieczny, professor de sociologia na Universidade de Hanyang, na Coreia do Sul, argumentou em um artigo publicado em 2014 que a Wikipédia pode ser uma ferramenta para democratizar a produção de conhecimento. No texto, Konieczny que professores deleguem aos seus alunos a tarefa de redigir artigos para a plataforma digital ou de complementar aqueles que já foram publicados anteriormente. 

Um outro artigo, publicado em 2011 por Mark T. Kissling, professor de educação na Universidade Penn State, e argumenta que a Wikipédia pode ser uma forma de educar os alunos na leitura crítica de fontes e no processo de familiarização com a metodologia científica. 

Na mesma linha, Cate Calhoun, professora de alfabetização midiática na Universidade de Auburn, também nos EUA, publicou um artigo em 2014, argumentando que a Wikipédia pode ser uma ferramenta para desenvolver nos alunos a capacidade de pesquisa, de análise crítica de fontes e da capacidade de identificação de referências bibliográficas confiáveis.