quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Quanto mais informação, mais dúvidas

Por Carlos Castilho | Observatório da Imprensa


Este é o grande paradoxo que todos nós começamos a vivenciar na era digital quando nos defrontamos com uma avalanche de versões contraditórias sempre que a imprensa aborda um tema complexo – como, por exemplo, a reforma da previdência ou a crise na Amazônia. É um fenômeno que contraria nossa maneira de ver a informação e sinaliza um profundo desajuste em todo o sistema de produção, processamento e disseminação de notícias jornalísticas.

A avalanche de dados, fatos, ideias e eventos publicados na internet multiplicou também as incertezas sobre quase tudo o que conhecemos sobre a sociedade e o mundo em que vivemos. É que a avalanche informativa ampliou exponencialmente o número de percepções e opiniões tanto sobre o que já sabemos como sobre aquilo que começamos a descobrir. Trata-se de uma mega transformação irreversível em nossa cultura informativa e sobre a qual a grande imprensa mantém um intrigante silêncio.

O paradoxo mais informação/menos certezas abala um dos princípios básicos da mídia tradicional, que é a ideia da notícia como instrumento eficaz na definição do que é certo ou errado, verdadeiro ou falso. Trata-se de uma percepção difundida massivamente na opinião pública e que viabiliza o negócio da imprensa, quando ela troca noticias por receitas publicitárias.

Quanto mais abstratos forem os processos, fenômenos e ideias tratados pelos meios de comunicação, maior a quantidade de dúvidas e inseguranças, fenômeno que acaba alimentando o discurso do ódio porque, diante de incertezas, as pessoas tendem a agarrar-se ao que consideram seguro, rejeitando o que contraria suas convicções. Para ter uma ideia deste fenômeno basta ver a radicalização nas discussões sobre o governo Bolsonaro em redes sociais como Facebook, Twitter e WhatsApp.

A avalanche informativa é um fato concreto e irreversível. Até 2010, institutos especializados mediam o volume de material inserido em sites da internet, mas a quantidade cresceu tanto que os números tornaram-se pouco significativos. O IDC (International Data Corporation) afirma que, até o final de 2020, cerca de 1,7 megabytes de novas informações estarão sendo disponibilizados online por segundo e por ser humano. As estimativas sinalizam que até dezembro do ano que vem, o total de dados digitalizados na web deve atingir os 44 zetabytes, ou 44 trilhões de gigabytes. Trata-se de um volume tão grande que supera em muito a nossa capacidade de imaginá-lo.

A era da complexidade
O aumento vertiginoso das incertezas no trato diário com a realidade que nos cerca configura aquilo que os especialistas batizaram de era da complexidade. Não há mais coisas simples, tipo preto ou branco. Tudo agora é potencialmente complicado dependendo da intensidade de dois fenômenos conhecidos como visibilidade seletiva (selective exposure) e percepção seletiva (selective perspective), ambos estudados pelos psicólogos norte-americanos Albert Hastorf e Hadley Cantril (*) a partir da comparação das reações dos torcedores ao resultado de um jogo de futebol americano.

A pesquisa mostrou que as pessoas tendem a se informar, preferencialmente, em jornais, revistas, livros, rádio e televisão com os quais possui algum tipo de simpatia política, ideológica, religiosa ou social. A selective exposure, no jargão acadêmico, é uma forma que o indivíduo usa por dois motivos predominantes: sentir-se confortável porque compartilha as mesmas ideias políticas, religiosas, econômicas ou sociais da publicação; e filtrar os conteúdos a que tem acesso para reduzir o índice de complexidade da leitura, audição ou visualização.

Já a selective perception é um processo pelo qual as pessoas avaliam um novo dado, fato, evento ou notícia em função daquilo que já sabem ou conhecem. Os dois processos acabam por consolidar opiniões e conhecimentos pré-existentes, sendo fundamentais na formação das chamadas “bolhas informativas”, um recurso que a maioria das pessoas usa para evitar a perturbadora sensação de dúvida, incerteza e vulnerabilidade a posições antagônicas.

As bolhas informativas estão em rota de colisão direta com a irreversível avalanche informativa na internet. Não é mais possível frear o aumento de dados digitalizados e disponibilizados pela internet, o que gera o inevitável corolário de que as incertezas também tendem a se tornar mais intensas e permanentes. Tudo indica que já estamos sendo levados a optar entre aderir a alguma das milhares de “bolhas informativas” ou aprender a conviver com a dúvida e a incerteza.

A primeira opção é a mais fácil, porque não implica grandes dilemas ou conflitos, mas nos coloca num ambiente irreal. Já a convivência com a dúvida altera fundamentalmente a nossa maneira de ver o mundo e as pessoas, porque nos obriga a levar sempre em consideração a possibilidade de que nossas opiniões ou percepções estejam equivocadas. Significa admitir que alguém sabe o que eu não sei, e que a solução de qualquer dilema, ou dificuldade, exige um diálogo. É o mundo das novas tecnologias nos forçando a assumir novos comportamentos, regras e valores.

(*) They saw a game; a case study. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 49(1), 129–134. http://dx.doi.org/10.1037/h0057880

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Manuscritos mesoamericanos


O Mapas Project tem como foco a digitalização e o estudo de manuscritos pictóricos mesoamericanos coloniais. O termo "mapa" foi usado livremente na Nova Espanha para se referir a figuras que podem ou não ter uma dimensão cartográfica, mas geralmente mostravam os territórios ou paisagens das comunidades indígenas.

O projeto utiliza um ambiente de pesquisa a distância on-line (DRE) desenvolvido pelo Wired Humanities and Feminist Humanities Projects of the Center for the Study of Women in Society da Universidade de Oregon para incentivar e facilitar a colaboração internacional entre acadêmicos, professores e comunidades interessadas.



Vida moderna: uma autópsia

por João Pereira Coutinho | Gazeta do Povo


1. O turista moderno passa horas e horas nas filas para comprar ingressos. Quando finalmente está na presença daquele quadro, daquele vitral, daquela escultura, o turista demora cinco segundos, talvez dez. Não para contemplar a obra depois de uma longa espera; para tirar uma selfie com ela.

Eis, em resumo, a minha experiência recente em périplo italiano. O turismo de massas não é apenas um inferno físico; é um inferno narcísico, em que o viajante nunca sai verdadeiramente de si próprio para se render a algo que é melhor, mais belo e mais importante do que o seu patético sorriso.

2. Saio para beber com os amigos e percebo o anacronismo da expressão "sair para beber". Nós, rapazes de 40 anos, ainda nos entregamos aos prazeres do álcool. Mas a geração que entrou agora na idade adulta não partilha esse vício. Eles e elas bebem coquetéis sem álcool e olham para os dinossauros com aquele esgar de compaixão que normalmente dedicamos aos animais doentes. Que se passa? Um amigo jornalista, versado em "tendências", leu algures que a epidemia tem nome: "mindful drinking". Até há festivais para isso, onde a ideia é beber até (não) cair.

Por mim, estejam à vontade. Mas desconfio que a febre abstêmia não se explica apenas por razões de saúde. Não beber é também uma forma de sinalizar virtude e pureza perante o mundo corrompido. Infelizmente, é também essa falsa virtude e essa falsa pureza que explicam o tom histérico com que os mais novos reagem a qualquer dissonância.

A política é um bom exemplo. Nos meus contatos com o pessoal, reparo que a maioria está cada vez mais intolerante perante opiniões contrárias. Melhor dizendo: uma opinião contrária não é apenas uma forma alternativa de ver o mundo. É um insulto pessoal que deve ser respondido na mesma moeda.

Como conceito, poder filmar ou fotografar com as lentes de contato pode inaugurar um novo capítulo na devassa da vida privada

Era inevitável. Quando nos amamos demasiado não suportamos a evidência de que os outros não nos amam da mesma forma.

3. E se um dia existirem lentes de contato que permitem ao utilizador filmar e tirar fotos com um mero movimento ocular? A Samsung aposta nessa proeza, dizem os jornais. Depois do fiasco do Google Glass, os sacerdotes da tecnologia garantem que as lentes de contato da Samsung serão um incomparável progresso.

Sobre isso, não tenho dúvidas. Embora a palavra "progresso" seja vazia de conteúdo. Como conceito, poder filmar ou fotografar com as lentes de contato pode inaugurar um novo capítulo na devassa da vida privada. Como saber que o nosso interlocutor não está a filmar-nos contra a nossa vontade? E como ter a certeza de que ele não partilhará qualquer conversa nas suas redes (sociais ou privadas)?

A primeira consequência desse "progresso" seria a transformação da vida social numa encenação permanente, abolindo por completo a confidência e a intimidade. Hoje, com as redes sociais, o nível de dissimulação e performance já excede o tolerável – gente fingindo a vida que não tem, a felicidade que não tem, o afeto que não tem, etc. etc. Mas como será transpor essa mentira virtual para o mundo real, 24 horas sobre 24 horas, sem pausa para enxugarmos as lágrimas?

4. O homem solitário é uma besta ou um deus, dizia Aristóteles. A relação de Michel Houellebecq com a vida moderna se explica com esses dois extremos. O homem moderno se considera um deus na sua solidão radical. Para Houellebecq, é uma besta. É por isso que os seus romances são, literalmente, um bestiário: um desfile de personagens patéticas, grotescas, vazias – e, palavra fundamental, enganadas. E enganadas por quê?

Porque compraram a grande ilusão de que, rejeitando os valores e as instituições "burguesas" – o amor, a amizade, o casamento, a família –, o que existe por baixo da calçada é a praia, como diziam os revolucionários do Maio de 1968, em Paris ("sous les pavés, la plage").

Falso, diz Houellebecq. Sob a calçada, o que existe é o abismo – e é nesse abismo que desaparece Florent-Claude Labrouste, o personagem de Serotonina (Alfaguara), o mais recente romance do escritor francês. Os críticos, comme d'habitude, aplaudiram ou insultaram o niilismo existencial de Houellebecq.

Discordo deles. O que torna Houellebecq um escritor notável é o fato de ele ser, provavelmente, o último grande romântico da literatura europeia contemporânea. E "romântico" no sentido preciso da palavra.

Cada livro seu é uma declaração de amor às ruínas.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Série da HBO, 'Years and Years' antecipa o futuro - ou quase



Ambientada entre 2019 e 2034, 'Years and Years' traz novidades tecnológicas e ficção próxima da realidade - é o que dizem os especialistas.

Ana Carolina Sacoman | Terra 

Nossas crianças usarão hologramas de emojis no rosto, os adolescentes tentarão se transformar em máquinas e adultos vão recorrer a robôs na hora do sexo. Antes de morrer, faremos download dos nossos cérebros e ficaremos na nuvem. Depois de mortos, teremos nossos corpos dissolvidos em água.

O ciclo da vida no futuro próximo mostrado na série Years and Years, exibida pela HBO, é excitante e aterrorizante. Entre 2019 e 2034, a família Lyons - quatro irmãos, avó e agregados -, moradora de Manchester, na Inglaterra, vê robôs roubarem seus empregos, comidas produzidas por bactérias e doenças serem diagnosticadas a distância, com um prosaico escaneamento da íris.

Ao mesmo tempo, mãos viram celulares após o implante de nanochips de conexão nos dedos e corpos se transformam em máquinas de altíssima performance, com direito a conexão à internet e acesso a dados sigilosos quase que pela força do pensamento.

Tudo ficção? Mais ou menos. A reportagem do Estado conversou com especialistas em diversas áreas para entender o que já existe, o que vem por aí e o que é pura invenção saída da mente de Russell T. Davies, o criador da série. Enfim, o que podemos esperar do futuro? A resposta surpreende. "Nada é impossível. Se alguém da raça humana pensou algo, alguém da raça humana pode executar", diz Walter Carnielli, professor do Centro de Lógica da Unicamp.

Junto à alta tecnologia, o mundo de Years and Years enfrenta catástrofes ambientais - faltam bananas e as borboletas estão extintas -, acompanha atônito uma guerra nuclear entre China e EUA e segue uma crise de imigrantes.

Ainda há a ascensão de governos populistas ao redor do planeta, que defendem o fechamento de bairros com altos índices de criminalidade, discriminam minorias e querem que o direito ao voto seja concedido somente aos cidadãos "inteligentes".

A primeira temporada completa está disponível no serviço de streaming HBO Go. Uma continuação não está descartada. Abaixo, confira as principais "apostas" de Years and Years para o futuro e quão perto estamos delas.

Transumanismo propõe fusão entre homem e máquina
A personagem Bethany convoca os pais para uma conversa séria: quer virar trans. Eles ensaiam um discurso de aceitação aos transgêneros, e a menina de 15 anos se impacienta. Não é nada disso, ela quer ser transumana, virar máquina, viver na "eternidade digital". Mais tarde, a mesma garota implanta um celular nos dedos. Basta um estalo e ela pode atender uma ligação. "Isso não é impossível em um futuro próximo", afirma Walter Carnielli, professor do Centro de Lógica da Unicamp. "Temos energia elétrica no corpo. Por que não usar essa energia com nanochips ligados ao batimento cardíaco, ao cérebro ou aos dedos?", diz. Esse caminho já começou a ser desbravado por cientistas das universidades Harvard e Surrey. Eles fabricaram nanossondas para medir a corrente elétrica que corre dentro dos neurônios. Isso, de acordo com artigo dos pesquisadores publicado em julho na revista Nature, pode ser um grande passo para a provável "interseção entre humanos e máquinas".

Nas ruas, carros autônomos são caminho sem volta
Com gigantes da tecnologia como Google, Tesla e Uber de olho neles, os carros autônomos são quase uma realidade. Mas, desde que um deles atropelou e matou um pedestre durante testes nos EUA, ainda há muita discussão sobre a tecnologia pela frente. "Há questões legais que precisam ser resolvidas", afirma Fernando Osório, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Para ele, poderemos ver os primeiros carros autônomos nas ruas em dez anos, mas tudo vai depender das leis - no Brasil não é possível nem fazer testes nas ruas - e da aceitação dos usuários. "Se já foi complicado com os aplicativos de mobilidade, imagina a aceitação dos carros autônomos", diz. O professor faz ainda um alerta: os veículos não devem rodar sozinhos, precisam de um motorista capaz de tomar decisões ao volante. "Como acontece com um avião, que sempre tem um piloto por perto."

À mesa, comida com bactérias
"Essa é a comida do futuro, feita de água eletrificada, que produz hidrogênio, que alimenta bactérias, que produzem a comida." A complicada equação dá vida, na série Years and Years, a um risoto de cara bem pouco amistosa, que comeremos por volta de 2030. Será? Para a professora Priscilla Efraim, da Unicamp, é difícil saber com certeza. Mas não se trata da ideia mais maluca do mundo. "Hoje já temos alimentos produzidos biotecnologicamente, envolvendo micro-organismos", afirma. A especialista, no entanto, acredita que o futuro "pé no chão" está nas pesquisas relativas a novas fontes proteicas produzidas de vegetais, como os hambúrgueres que começam a ganhar as geladeiras dos supermercados. "A carne cultivada em laboratório também vem ganhando espaço", diz ela, que vê ainda a popularização da produção em "fazendas urbanas", altamente tecnológicas e que dispensam o uso de agrotóxicos.

Cremação líquida: corpos dissolvidos em água
Está certo que é uma realidade muito pouco conhecida, mas já há empresas nos Estados Unidos oferecendo a hidrólise alcalina de corpos, o nome oficial da cremação líquida. Caso da Bradshaw Celebration of Life Centers, funerária com várias filiais no Estado de Minnesota. O processo é oferecido no site da empresa como uma alternativa ecológica à cremação tradicional, com preços que começam em US$ 2,4 mil (cerca de R$ 10 mil). A coisa toda usa água e hidróxido de potássio para reduzir o corpo a apenas ossos, que são transformados em pó e entregues aos familiares. Estima-se que pelo menos mais uma dúzia de empresas no mundo oferecem a alternativa. A compostagem dos mortos - autorizada no Estado de Washington, também nos EUA e já praticada por startus como a Recompose - e a criomação, que é o congelamento dos corpos em nitrogênio líquido, são outras propostas que poderão ser usadas para os mortos do futuro. Quem viver, verá.



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

As alternativas à tabela periódica clássica. E a sua história.

Criado há 150 anos, modelo de organização de elementos químicos é usado em escolas do mundo todo. Site reúne mais de 1.000 propostas diferentes, que passam por versões redondas e até musicais

Cesar Gaglioni | Nexo


A TABELA PERIÓDICA CLÁSSICA FOI SISTEMATIZADA HÁ 150 ANOS, PELO RUSSO DMTRI MENDELEEV

A Tabela Periódica dos Elementos é uma das bases fundamentais do estudo da química. Ela organiza, de maneira sistemática, os elementos químicos conhecidos, dispondo-os em grupos. 

Apesar de ser ensinada em escolas do mundo todo, existem alternativas menos convencionais ao modelo clássico da Tabela Periódica dos Elementos, com organizações diferentes da tradicional usada nos colégios. 

O site Internet Database of Periodic Tables (Banco de Dados Online das Tabelas Periódicas, em tradução livre) traz mais de 1.000 versões alternativas ao modelo clássico, propostas por químicos desde o final do século 19. Muitas delas têm intenções específicas e sistemas próprios, incluindo uma que organiza os elementos de acordo com a sua abundância na Terra. 

No site, estão disponíveis desde versões redondas, feitas a partir de círculos concêntricos, a representações piramidais, passando por uma versão musical.

A validade das alternativas 

Martyn Poliakoff, doutor em química pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido, afirmou ao New York Times que a maior parte das alternativas à tabela periódica clássica são válidas. 

“Muitas pessoas parecem acreditar que só existe uma verdadeira tabela periódica, seja a existente ou uma que ainda será descoberta”, disse. “E elas debatem intensamente sobre a validade das outras versões. Meu sentimento é que a maioria das versões são igualmente válidas, dependendo somente do que elas querem mostrar”, acrescentou. 

Poliakoff publicou um artigo em maio de 2019, na revista Nature, propondo um modelo que simplesmente vira de cabeça para baixo a Tabela Periódica dos Elementos. Ele apresentou o conceito para 24 químicos, dos mais diversos níveis educacionais, e afirmou que a recepção foi positiva. 

Segundo o pesquisador, a versão invertida da tabela periódica deu aos químicos uma visão mais clara da organização dos elementos. O próximo passo de Poliakoff é testar seu modelo em maior escala, com estudantes do ensino básico britânico.

Os 150 anos da tabela periódica 

A UNESCO, braço da ONU (Organização das Nações Unidas) que promove a colaboração internacional nos campos da educação, ciência e cultura, declarou que 2019 é o Ano da Tabela Periódica, dado os 150 anos da sistematização da Tabela Periódica dos Elementos. 

Ela também é conhecida como Tabela de Mendeleev, por ter sido postulada pelo químico russo Dmitri Mendeleev, em 1869. 

Naquele ano, os cientistas já conheciam 63 elementos químicos e passaram a sentir a necessidade de se estabelecer um sistema que pudesse organizá-los de maneira lógica. Mendeleev então sistematizou os elementos de acordo com a massa atômica de cada um deles, da menor para a maior, organizando-os em grupos com características químicas similares.

Em 1898, o químico escocês William Moseley descobriu os gases nobres, como o hélio e o argônio, e acrescentou-os à Tabela de Mendeleev. Em 1913, o físico britânico Henry Moseley conseguiu determinar o número de prótons (partículas positivas presentes em todos os núcleos atômicos) dos elementos, e mudou a disposição da Tabela de Mendeleev, dando a ela a organização que é mais popular até os dias de hoje. 

Em 2019, a tabela periódica conta com 118 elementos. O acréscimo mais recente aconteceu em 2009, com a descoberta do Tenesso, que pertence ao grupo dos halogênios, os não-metais que quando unidos aos metais formam os sais.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Buscador reúne todos os bancos de imagem gratuitos em uma pesquisa




Para facilitar a busca pela imagem ideal em seus projetos, o desenvolvedor Gustavo Alves criou essa ferramenta que une diversos bancos de imagem em um só.

Por Victor Alexandro | Geek Publicitário

Com o nome de Farejador de Imagens, esta ferramenta foi criada pelo desenvolvedor Gustavo Alves, que decidiu criar um site que unisse todos os bancos de imagem gratuitos em uma busca simultânea.

É sempre muito complicado encontrar aquela imagem legal para utilizar em nosso projeto e quando a gente finalmente encontra é capaz que seja uma imagem paga. Bom, para aqueles que possuem interesse em imagens gratuitas para elaborar seus projetos de treino ou até mesmo para conseguir umas imagens diferentes este buscador reúne todos os bancos de imagens gratuitos em uma só pesquisa para te auxiliar na busca pela melhor imagem.

Para que a busca funcione é necessário liberar os pop-ups do seu navegador e todo o resto acontece de maneira muito intuitiva: basta digitar o que você procura, escolher os bancos de imagens desejados e pronto, é só pesquisar.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Nós não vendemos Kindles, vendemos livros, diz chefe de e-readers da Amazon Brasil


Por Lucas Carvalho | Yahoo

Quando o primeiro Kindle chegou ao mundo, em 2007, o mercado de leitores digitais engatinhava e era disputado por empresas do Japão, como Sony e Rakuten. Doze anos depois, em 2019, a norte-americana Amazon é praticamente a única competidora do setor em diversos países, incluindo no Brasil.

A Amazon ocupa uma posição tão confortável no mercado que consegue um feito raro entre fabricantes de eletrônicos que vendem produtos importados: vender o Kindle, no Brasil, mais barato do que nos Estados Unidos. Tudo graças a uma estratégia sustentada desde a fundação da empresa como uma livraria online, no final da década de 1990.

"O nosso negócio é vender livros", e não Kindles, diz Alexandre Munhoz, gerente geral do setor de e-readers da Amazon no Brasil. "A gente vende livros digitais e os clientes podem consumir esses livros pelo aplicativo, que é gratuito, ou pelos modelos de e-reader que a gente vende. Mas o business não está no e-reader, está no livro. A gente não ganha dinheiro, não fazemos lucro [com o dispositivo]."

O novo Kindle Oasis, por exemplo, lançado em julho no Brasil, é vendido nos Estados Unidos por US$ 249, o que, em conversão direta na cotação alta do dólar atual (mais de R$ 4,10 no momento em que esta reportagem é produzida), sai por algo em torno de R$ 1.030.

No Brasil, o mesmo Kindle Oasis é vendido por R$ 1.149. Se comprado nos EUA, o aparelho ainda recebe uma carga de impostos (que varia dependendo do estado onde ele for adquirido) e ainda pode ser taxado ao passar pela alfândega do Brasil, levando o total da compra a um valor superior aos R$ 1.200.

Ou seja, para um brasileiro, vale mais a pena comprar um Kindle no Brasil do que nos EUA. E a Amazon não se importa. Segundo Alexandre, entra no cálculo do preço final do aparelho também o retorno esperado com a venda posterior de livros.

O Kindle só permite comprar livros digitais pela própria loja da Amazon, que oferece um catálogo extenso de títulos dos mais diversos gêneros. Além disso, a empresa ressalta que os brasileiros estão entre os principais usuários do mundo no serviço por assinatura Kindle Unlimited, que oferece mais de 1 milhão de ebooks por R$ 20 ao mês.

Embora pareça contraditória, a estratégia de não buscar lucro com a venda de aparelhos tem dado certo para a Amazon, pelo menos no Brasil. O Kindle, que já teve entre seus competidores o Lev, da Saraiva, e o Kobo, da Livraria Cultura, hoje reina sozinho no mercado formal de e-readers.

No site da Livraria Cultura, o único modelo de Kobo à venda está "indisponível" há meses. O mesmo acontece com o Lev, da Saraiva, que possui duas versões no Brasil, mas apenas as respectivas capas protetoras são encontradas à venda no site da empresa.

Quem procurar no mercado de revenda e marketplaces online, pode encontrar o Kobo e o Lev por preços bem mais altos que o do Kindle de entrada vendido no site da Amazon, e ainda deve estar atento à provável falta de suporte das fabricantes.

O fracasso de Saraiva e Livraria Cultura no Brasil não se limitou ao mundo dos e-readers, porém. As duas redes estão em processo de recuperação judicial, com dívidas milionárias, vendendo ativos e fechando lojas físicas por todo o país. Já a Amazon só cresce.

Só em 2018, o investimento da empresa no Brasil superou os R$ 97 milhões com a compra de um novo galpão e o início das vendas de produtos de outras categorias além de livros e e-books. No mesmo período, a empresa se tornou a mais valiosa do mundo e seu CEO global e fundador, Jeff Bezos, ultrapassou Bill Gates para se tornar o homem mais rico do mundo.

Mesmo a crise econômica e política do Brasil nos últimos anos, o aumento do preço do dólar, o temor de uma recessão global, nada tem tirado da Amazon - pelo menos por enquanto - o desejo de continuar investindo no mercado brasileiro.

"A aposta que a gente tem no Brasil é uma aposta de muito longo prazo", afirma Munhoz. "A gente está apostando que o Brasil é um país que tem muito potencial para a Amazon como um todo, não só para livros."

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Better Than Us – 1ª temporada

Série russa combina premissas de clássicos da ficção científica

Gustavo Pereira | Plano Aberto


Diferente da maioria das séries do gênero, “Better Than Us” é uma ficção científica com algo a oferecer. Bebendo de fontes clássicas como Isaac Asimov, Philip K. Dick e Stanley Kubrick, a produção russa consegue projetar um futuro de tecnologia factível e calcada nas relações humanas. Mais importante, sem ceder à pasteurização globalizada: “Better Than Us” é uma série russa com particularidades russas compondo a trama.

À primeira vista, “Better Than Us” soa como uma imitação de “Eu, Robô”, filme de 2004 protagonizado por Will Smith: um robô comete um assassinato e vira alvo de uma investigação da polícia, enquanto a empresa responsável por ele tenta desaparecer com as provas do crime. Mas se o filme de Alex Proyas foca no aspecto detetivesco da história, “Better Than Us” está preocupada com as pessoas deste mundo hi-tech. Em como a tecnologia se insere num país como a Rússia, de religião cristã ortodoxa e politicamente fechada, quase uma autocracia fundamentalista.


Os primeiros episódios da série são muito bons para desenhar este panorama. Em um programa de TV ao estilo “Casos de Família”, é colocado em debate se transar com um robô sexual pode ser considerado traição. Victor Toropov (Aleksandr Ustyugov), presidente da CRONOS, defende que o sexo com robôs inibe a “sordidez” da prostituição. O grupo terrorista “Liquidantes” prega a destruição dos robôs, principalmente porque eles tiram os empregos das pessoas. E o governo russo planeja impor uma Reforma Previdenciária que obrigue as pessoas a se aposentar mais cedo, exatamente para substituir a mão-de-obra humana por robôs que não tiram férias ou se organizam em sindicatos.

O protagonista Gregory Safronov (Kirill Kyaro) está tentando viver à margem de toda essa discussão político-filosófica quando descobre que a ex-esposa Alla (Olga Lomonosova) planejava se mudar para a Austrália com os seus filhos. Tentando manter Sonya (Vita Kornienko) e Egor (Eldar Kalimulin) perto de si, o caminho de Gregory encontra o de Arisa (Paulina Andreeva), o robô-assassino de última geração que a CRONOS deseja produzir em massa para substituir os humanos quando a reforma de previdência for aprovada.


Capaz de identificar e compreender emoções humanas, o propósito de Arisa é cuidar de sua “família”. O grande tema de “Better Than Us” é exatamente esse: todos os personagens têm famílias disfuncionais em alguma medida. Safronov não é exatamente um modelo de pai. Toropov é um péssimo marido. O detetive Borisovich (Kirill Polukhin) sequer tem uma família. Essa sobreposição de conflitos, aliada à devoção inabalada de Arisa para manter sua família segura, desperta a empatia do público pelo robô. Sem ignorar os excelentes trabalhos de Paulina Andreeva e do departamento de maquiagem, capazes de tornar a atriz num robô crível.

Infelizmente, após uma primeira metade empolgante, “Better Than Us” perde fôlego. Além de não explorar a fundo elementos da história, como os Liquidantes e o governo, ou de subtramas ricas como a “kubrickiana” história de luto e depressão da esposa de Toropov Svetlana (Irina Tarannik), algumas reviravoltas no roteiro são tão desnecessárias quanto sem sentido. A série tem conteúdo para os 16 episódios da temporada, mas parece ter sido escrita para apenas 10. Isso faz a história andar em círculos e ficar inchada.


Mesmo se perdendo na conclusão e criando ganchos desnecessários para uma nova temporada, “Better Than Us” oferece um vislumbre de um tema tão conhecido por nós sendo abordado com uma ótica completamente distinta, no estilo e nos valores. Só por isso, a série já merece uma chance. 


Ficha Técnica
Better Than Us – 1ª temporada
Luchshe, chem lyudi, 2018 – Rússia
Direção: Andrey Dzhunkovskiy
Elenco: Paulina Andreeva, Kirill Kyaro, Aleksandr Ustyugov, Eldar Kalimulin & Vita Kornienko
Fotografia: Ilya Ovsenev
Canal: Netflix




domingo, 25 de agosto de 2019

Biblioteca nacional de Israel disponibilizará arquivo reunido de Kafka na internet


A biblioteca nacional de Israel anunciou que recebeu a última parte de uma coleção de escritos de Franz Kafka, que planeja disponibilizar na internet agora que venceu uma batalha legal pela posse de parte do espólio literário do romancista judeu nascido em Praga.

Os papéis estavam na posse das irmãs Eva Hoffe e Ruth Wiesler, que argumentaram que os herdaram legalmente de sua mãe, Esther Hoffe.

Esta foi secretária do amigo, biógrafo e testamenteiro de Kafka, Max Brod, que ignorou o desejo do autor de língua alemã, expresso na véspera de sua morte, de queimar toda sua obra ainda não publicada.

O arquivo inclui três rascunhos do conto "Preparativos de casamento no campo", um livro de exercícios no qual praticava hebreu, centenas de cartas pessoais para Brod e outros amigos e diários de viagem.

Desde 2008, a biblioteca obteve uma série de veredictos que lhe garantiu a posse dos documentos, de acordo com instruções de um testamento escrito por Brod, que morreu em 1968.

A biblioteca disse que, dede que os processos terminaram em 2016, vem coletando os papéis em locais de Israel e da Alemanha e, há 15 dias, finalmente, da caixa forte de um banco suíço.

Stefan Litt, curador de humanidades da biblioteca, disse que a coleção ainda inclui desenhos.

"Partes deles são conhecidos, outras não são –talvez esta seja uma das coisas mais importantes", disse ele à Reuters.

"... Todos os escritos de Kafka que temos agora sob custódia serão digitalizados e abertos ao público de todo o mundo".

Kafka, cujas obras mais conhecidas incluem "O Julgamento", "A Metamorfose" e "O Castelo", morreu de tuberculose aos 40 anos em 1924.

Seus protagonistas muitas vezes enfrentam burocracias esmagadoras, habitando um mundo de pesadelo que rendeu o termo "kafkiano".

Por Rinat Harash
via Extra

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O que os likes dizem do nosso narcisismo (e da nossa inadequação)?


Christian Dunker | Tilt

Quando o Instagram anunciou que o número de curtidas em cada postagem não ficaria mais disponível para os usuários, você pode ter pensado que ainda era possível descobrir quantas pessoas curtiram uma publicação contando manualmente os nomes dos que se envolveram. Parece a mesma coisa, mas não é.

Existe uma relação intrínseca entre o narcisismo digital e a velocidade de interpretação da imagem. A contabilidade estimula a comparação entre pessoas, transferindo uma hierarquia de relevância e confiabilidade para o conteúdo e trazendo potenciais prejuízos psicológicos, aos que se obsessionam com a busca de curtidas.

Lembremos que o narcisismo é uma estrutura fundamental para todas nossas experiências de reconhecimento social e intersubjetivo. Alguém desprovido de narcisismo seria alguém incapaz de reconhecer o outro como semelhante e igualmente capaz de afetos, interesses e sofrimentos. Alguém com uma pane narcísica deste tipo seria incapaz de reconhecer até mesmo seus próprios sentimentos. A imagem popular do narcisista como alguém voltado só para si, incapaz de reconhecer desejos e valores diferentes dos seus, é muito parcial.

O narcisismo tem uma estrutura de palco: um ator contracena com alguém, para uma plateia. Às vezes o ator, coincide com o personagem e o diretor da peça. Dentro disso podemos encontrar muitas combinações: estar na plateia de si mesmo imaginando-se um protagonista. Sentir-se o coadjuvante que quer tomar o lugar do protagonista. Perceber-se como impostor do protagonista. Descer sistematicamente para a posição de plateia ou do sádico crítico de nosso teatro particular. Podemos estar cronicamente diminuídos em nossa estima, sempre no anonimato da plateia, ou, transparentes e invisíveis, nunca convidados para o espetáculo.

Alguns estão realizados apenas por participar da peça, ainda que como coadjuvantes, outros ressentem-se porque seu estrelato ainda não chegou. Certos narcisos decidem que serão grandes vilões. Há até mesmo aqueles que escolhem o personagem mais humilde, considerando que a verdadeiro espetáculo está acontecendo em outro lugar, por exemplo, no teatro celestial, ou em outra época, por exemplo, no vindouro futuro.

Podemos sentir, persistentemente, que nosso corpo, nossa forma de amar ou de consumir está inadequada ao personagem que queremos ou devemos desempenhar.

Todas as montagens narcísicas acima são fonte de sofrimento potencial, mas nem todas elas reduzem-se ao exibicionista latifundiário, empreendendo sua fazenda de likes. A linguagem digital, com sua métrica de curtidas, altera profundamente nossas gramáticas narcísicas porque amplia o acesso ao palco simbólico, estimula a variação de personagens imaginários e precifica o valor real da influência (ainda que a quantidade de likes não seja sempre um bom parâmetro para a efetivação e vendas). Barthes dizia que no interior de uma narrativa existem palavras "nós" e palavras "rede" de tal forma que no espaço digital cada qual se mede pela extensão e qualidade dos nós e das redes que formam seu algoritmo narcísico. Nesta situação não basta agredir-se ou praguejar contra o sistema. Uma vida isenta de narcisismo seria como tentar arrancar todas as máscaras em busca de nossa face real, autêntica e essencial, o que nos levaria apenas ao estado de carne viva ardente, diante do espelho digital.

Dar mais trabalho aos usuários para identificar o número de curtidas nas redes sociais é como fazer a gente assistir a partida sem saber se o estádio está lotado ou se estamos sozinhos apreciando o espetáculo. Talvez isso nos faça oferecer um tempo a mais para o que estamos realmente vendo e ouvindo; para a qualidade da peça e menos peso para a fama dos atores, para o sucesso de crítica ou bilheteria. Talvez isso permita estarmos um pouco mais advertidos diante das novas ilusões narcísicas trazidas pela linguagem digital.

domingo, 18 de agosto de 2019

A história das bibliotecas pelo mundo, segundo dois pesquisadores

A forma física dos livros, que mudou significativamente desde a Antiguidade, determinou os formatos e a organização das bibliotecas em diferentes séculos

Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

“Que a deusa Ishtar olhe com benevolência o letrado que não mudar a tabuinha de lugar, mas que a coloque novamente na biblioteca; que ela denuncie com indignação aquele que a levar para fora.” Datada de 600 a.C., tal inscrição pouco sutil encontrada em uma tabuinha de Uruk, antiga cidade da Suméria, chega até nós quase como uma anedota de como a organização dos escritos da humanidade jamais foi empreendimento simples.

Biblioteca da Abadia de Admont, construída em 1776, na Áustria Foto: Will Pryce

O desenvolvimento da escrita, dos suportes, dos métodos de conservação e catalogação percorre período nada modesto da história da civilização, estendendo-se, pelo menos, de 4 mil a.C. aos dias de hoje. Em outras palavras, vem desde a época em que se estabeleceram suportes como as tabuinhas de argila e os rolos de papiro, na qual nasceram os signos cuneiformes e hieróglifos, para alcançar nossas mais recentes experiências de armazenamento digital.

As bibliotecas, espaços que respondem precisamente a essa necessidade do homem de abrigar seus registros, são tema de duas obras lançadas este ano no Brasil – História das Bibliotecas: de Alexandria às Bibliotecas Virtuais, de Frédéric Barbier, e A Biblioteca: uma História Mundial, de James W.P. Campbell e Will Pryce. Embora os títulos guardem semelhanças e seus autores empenhem-se igualmente na tarefa de estabelecer uma linha do tempo da formação desses espaços, o leitor encontrará abordagens bastante distintas.

A Biblioteca Marciana de Veneza, construída em 1564, uma das maiores da Itália Foto: Will Pryce

Pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique e herdeiro de Henri-Jean Martin na direção da cátedra História e Civilização do Livro, da École Pratique des Hautes Études, Frédéric Barbier expõe uma visão muito mais teórica em relação à constituição das bibliotecas como instituições dotadas de estruturas, identidades e funções variadas. Como ele nos lembra, o sintagma de “biblioteca” é de origem grega e significa “o armário dos livros”. Passando, com o tempo, a designar os ambientes onde esses móveis estão dispostos, é transposto diretamente para o latim, mas permanece em desuso por boa parte da Idade Média, época em que “livraria”, ainda sem o caráter comercial, é o termo mais empregado. A acepção comum nos dias de hoje só se firmaria no século 18, quando a Encyclopédie incorporou “biblioteca” como um de seus verbetes.

Biblioteca do Palácio de Mafra, em Portugal, construída em 1771 Foto: Will Pryce

Posto isso, o autor propõe uma análise que privilegia a antropologia, a partir da qual ele forja uma sofisticada teoria: a das bibliotecas como instituições de transferência cultural. Em sua visão, mais do que simples espaços de armazenamento, elas adquirem relevância “na medida em que oferecem uma parte mais ou menos importante da informação disponível sob uma forma escrita num dado momento”. Isso fica evidente, por exemplo, quando pensamos na importação de livros da cultura grega clássica para as bibliotecas abertas da Roma pré-imperial, muitas delas fruto de pilhagens de guerras no Oriente.

Vale lembrar que foi na Grécia, sobretudo, que ocorreu a passagem da literatura oral para a referência escrita, no momento em que Licurgo, legislador espartano, teria decidido copiar os poemas homéricos. Bem mais tarde, Alexandre, o Grande, que havia estudado com ninguém menos que Aristóteles, é quem daria as bases, na nova capital que instaura no Egito, para o grande modelo de biblioteca que inspira até hoje a nossa civilização: a da Alexandria. Pautada, segundo Barbier, pela curiosidade intelectual que marca o pensamento grego e comandada, então, pelos sucessores da Dinastia Ptolemaica, a instituição reuniria esforços para adquirir as obras aristotélicas, assim como os originais de nomes como Ésquilo, Sófocles e Eurípides.

Biblioteque Sainte Genevieve, construída em Paris em 1850 Foto: Will Pryce

Conforme o autor, não apenas os conteúdos dos livros são objetos de tais transferências, mas a própria instituição das bibliotecas, com seus modos de funcionamento e representações, também o são. E o termo “representação” aparece mesmo ligado a “encenações” que governantes propõem-se a fazer com esses espaços, ao verem a apropriação do que Barbier chama de “imagem refratada do saber universal” como formas de legitimação.

Biblioteca Malatestiana de Cesena, na Itália, construída em 1452 Foto: Will Pryce

É nesse mesmo sentido que elas passam a ser pensadas, em momentos históricos determinantes, sob perspectiva, ao mesmo tempo, humanista e política, o que ajuda a disseminar a prática da criação de grandes bibliotecas de vocação enciclopédica. Na Renascença, por exemplo, soberanos e príncipes, além do próprio papado, chegavam a concorrer uns com os outros para criar as mais relevantes coleções.

A partir desses e outros casos, Barbier nos convida a viajar pelos distintos processos que marcaram nossa busca por sabedoria. Relata-nos detalhes de escavações que levaram à descoberta de histórias como as das tabuinhas; passa pela criação e queda das bibliotecas da Antiguidade; mostra-nos a retomada dessa tradição pelo Cristianismo; a multiplicação de instituições de ensino e a revolução de Gutenberg que têm início no período medieval, assim como a ideia renascentista das bibliotecas como conservatório do pensamento humano; salienta as bases da biblioteconomia moderna estabelecidas na era barroca; o ideal iluminista de esclarecimento público, as revoluções industriais, até a atual e complexa desmaterialização dos livros. 

O grau de detalhamento do qual o autor lança mão se repete, pois, em uma obra de quase 400 páginas de texto, poucas ilustrações, mas vasto e enriquecedor material que o pesquisador disseca ao modo acadêmico comum aos franceses. Por isso, antes de contrastar, complementa tão bem o de Campbell e Will Pryce.

Verdadeira obra-prima do objeto livro e muito mais concisa e direta na apresentação histórica, a segunda obra foca, essencialmente, as edificações. Enxergando a história das bibliotecas como um campo da arquitetura, o professor James Campbell convidou o fotógrafo Will Pryce para uma viagem por 80 bibliotecas ao redor do mundo. Seguramente, o leitor ficará deslumbrado com as belíssimas imagens em alta definição que são apresentadas – embora os próprios autores reconheçam a experiência singular que é visitá-las. Afinal, os bibliófilos gostam, entre outros aspectos, de sentir o cheiro dos livros.

Sem deixar de lembrar que as bibliotecas, antes de meros depósitos, sempre foram “símbolos ativos de cultura e civilização”, Campbell ressalta que uma característica que as diferencia de outros espaços é a importância primária de seus móveis e acessórios, sem os quais é muito difícil discutir sua arquitetura. Assim, a forma física dos livros, que, como já vimos, mudou significativamente ao longo do tempo, sempre determinou seus formatos e formas de organização, como, por exemplo, a disposição das prateleiras.

Segundo o autor, preocupações envolvendo aspectos como a calefação, a iluminação e métodos de conservação também favoreceram certos modos de construção – e essa variedade, por isso mesmo, nunca seguiu uma evolução direta. Não por isso, o livro deixa de apresentar um panorama histórico mais ou menos linear, em um percurso semelhante ao apresentado por Barbier. Devido ao esforço da dupla em selecionar as 80 belíssimas bibliotecas que encontramos no livro, é válido nos determos em alguns desses projetos específicos. 

Tida como a mais conservada entre as da Antiguidade, a Biblioteca de Celso foi construída a mando do filho do cônsul Tibério Júlio Celso Polemeno, por volta de 135 d.C, na cidade grega de Éfeso, atual Turquia. A ideia era celebrar o pai em um espaço que também funcionasse como mausoléu. Decorada com relevos e estátuas como a de Sofia, simbolizando a sabedoria, a fachada conta hoje com cópias reconstruídas, no século 20, a partir de suas ruínas. Se a deterioração do local embaça as noções de como a biblioteca era, o autor mostra-nos, com uma planta baixa, como era pensada para que fosse iluminada completamente pela frente. Assim como as paredes, separadas, possivelmente foram pensadas assim para evitar que a umidade chegasse aos livros.

Em um salto para a Idade Média, podemos observar, a partir de construções como a Biblioteca Malatestiana, em Cesena, na Itália – praticamente inalterada há 560 anos –, características comuns ao período, como as fileiras de banchi (termo para designar bancos parecidos com os de igreja) e também a posição fixa dos livros, acorrentados a uma mesa cujo suporte se dá pelo assento do banco da frente. Com mobília original intacta ainda hoje, a biblioteca holandesa da paróquia da igreja de St. Peter e St. Walburga, em Zutphen, é um resquício do mesmo período, sendo um exemplar das denominadas bibliotecas de atril, com os livros acorrentados por um bastão no topo, diante dos quais, sentados em bancos estreitos, os leitores ficam um de frente para o outro.

De importantes exemplares renascentistas, como a luxuosa Biblioteca Marciana, em Veneza, projetada por Sansovino e decorada por pintores como Paolo Veronese, assim como a Laurenziana, em Florença, projetada por Michelangelo como um espaço perfeitamente simétrico destinado a guardar a coleção dos Médici, o livro chega ao estilo barroco e ao rococó que caracterizam uma série de bibliotecas reais. Nesse grupo, encontramos emblemáticas construções portuguesas, como a Biblioteca Joanina, localizada na Universidade de Coimbra, e a do Palácio de Mafra, situada no distrito próximo a Lisboa. 

Ambas do século 18, foram construídas a mando de João V, a partir das enormes reservas de ouro provenientes do Brasil, que, por si só, garantem opulência a esses espaços – hoje também lembrados pelo uso que fazem de morcegos para exterminar os insetos que deterioram suas coleções. Do mesmo período, é impossível passar incólume pela Biblioteca da Abadia de Admont, na Áustria, cujos abades, em sua criação, envolviam-se diretamente nas escolhas decorativas, como as impressionantes pinturas de seu teto, inspiradas pela Iconologia de Cesare Ripa.

Não apenas pela riqueza de detalhamento das imagens, mas pelas límpidas descrições apresentadas, o livro é capaz de fazer o leitor se sentir transportado a esses espaços, que incluem ainda aqueles do neoclassicismo, como a Bibliothèque Sainte-Geneviève, em Paris; construções do século 20, como a New York Public Library; e tantas outras que marcam o domínio do modernismo (“funcionais e esteticamente poderosas”), como a Biblioteca Beinecke, da Universidade de Yale. 

Diante das incertezas a respeito do futuro dos livros, os autores de ambas as publicações parecem mostrar relativa esperança. Para Campbell, é difícil conciliar a ideia de morte iminente dos livros ao observarmos a “explosão contínua” de construção de bibliotecas. Para Barbier, trata-se de uma questão de sobrevivência da democracia e de nossas identidades coletivas. Certo é que, ao desbravar as obras, o leitor terminará, no mínimo, orgulhoso do enorme patrimônio que a humanidade, em seu incessante projeto de espelhar o mundo, já foi capaz de construir.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Em novo momento, obra de J. D. Salinger finalmente chega ao digital


O espólio do autor de 'O Apanhador no Campo de Centeio' era o mais resistente à digitalização e a chegada dos quatro primeiros e-books de Salinger vai preencher um vazio que havia na biblioteca digital

Alexandra Alter, The New York Times | O Estado de S. Paulo

Nas cinco décadas desde que J. D. Salinger publicou seu último conto, Hapworth 16,1924, sua pequena obra reverenciada ficou praticamente oculta. Mesmo quando editores e consumidores vêm adotando os e-books e o áudio digital, os livros de Salinger se mantêm desafiadoramente offline, uma consequência da aversão do escritor por computadores e tecnologia. E, embora ele tenha continuado a escrever até sua morte, há quase 10 anos, nenhuma palavra escrita por ele foi publicada desde 1965.

Isso em parte porque seu filho, Matt Salinger, que administra o J. D. Salinger Literary Trust (espólio do escritor) é um guardião vigilante do legado e da privacidade do seu pai. Mas agora, num esforço para manter os livros do pai ao alcance de uma nova geração de leitores, Matt começa a gradativamente desvendar o segredo que obscureceu a vida e a obra de um dos mais influentes e enigmáticos escritores dos EUA.

No primeiro passo de um grande revival que poderá mudar a compreensão do mundo de J. D. Salinger e suas obras, a editora Little, Brown publica edições digitais de quatro livros dele, o que o torna talvez o último ícone literário do século 20 a se render à revolução digital

No último trimestre do ano, com ajuda de Matt Salinger, a New York Public Library terá a primeira exposição dos arquivos pessoais de Salinger, incluindo cartas, fotos de família e o manuscrito datilografado do livro O Apanhador no Campo de Centeio, com as correções feitas à mão pelo autor.

E em breve, escritos de décadas de J.D. Salinger serão liberados, um projeto de Matt Salinger. Revisar os manuscritos e cartas do seu pai foi não só esclarecedor, mas emocionalmente desgastante, disse Matt em entrevista para promover as novas edições digitais.

“Meu pai detestava publicidade e certa vez afirmou: ‘Publicar é uma invasão terrível da minha privacidade’.” O que J. D. Salinger deixou quando morreu em 2010, aos 91 anos, é um dos mais fascinantes mistérios na literatura americana. Matt Salinger, de 59 anos, até certo ponto se tornou o representante improvável de um ícone literário recluso. Hoje, os fãs do autor correm atrás dele em busca de autorização para adaptar histórias do pai para filme, peça de teatro, pôr sua foto em sacolas (Matt se opõe terminantemente a tudo isso). 

Há sinais de que a profunda influência de J. D. Salinger sobre gerações de escritores e leitores americanos está desaparecendo. No Guardian, a autora Dana Czapnik escreveu sobre estudantes e professores que não se mostram enamorados de Holden Caulfield, o protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio, como as gerações anteriores.

Só recentemente Matt Salinger se abriu mais sobre seu pai e contestou afirmações feitas em documentário de 2013 e em livro de David Shields e Shane Salerno, que causaram alvoroço com a revelação de que Salinger havia deixado cinco livros inéditos com instruções para publicá-los apenas entre 2015 e 2020. “Muita coisa no livro e no filme são pura ficção e ficção ruim.”

Segundo Salerno, livro e documentário se basearam em quase uma década de pesquisa e foram legalmente aprovados. “Matt Salinger finalmente confirmou que o que escrevi em 2013 era verdade e que obras escritas por seu pai por mais de 40 anos serão publicadas”, garantiu ao New York Times.

No momento o material dos arquivos de J.D. Salinger continua secreto. Sua obra inédita está guardada em local seguro entre a casa do seu filho em Connecticut e a casa da outra administradora do espólio, em New Hampshire, a viúva do escritor Colleen Salinger. 

Matt Salinger se prepara para liberar a obra para publicação desde 2012. Às vezes se sentiu perdido em meio aos arquivos. “Tudo era um labirinto.”

Criar arquivos digitais é algo terrível, disse, porque ele não consegue encontrar software de reconhecimento ótico confiável para converter as páginas escritas à mão em texto eletrônico, de modo que ele manualmente digita o material. O espólio do escritor era o mais resistente à digitalização e a chegada dos seus e-books vai preencher um vazio que havia na biblioteca digital.

“É o último chip em termos de obras clássicas”, disse Terry Adams, vice-presidente e editor digital e da parte impressa da editora Little, Brown. “Todos os outros espólios de grandes escritores do século 20 se inclinaram para os e-books, mas Matt estava muito cauteloso.” Matt resistiu a pedidos para publicar e-books durante anos, sabendo da aversão do pai pela internet.

“Ouço sua voz em minha cabeça e não há dúvida sobre as decisões que devo tomar, porque sei o que ele queria”, acrescentou Matt. “Coisas como e-books e audiolivros são difíceis, porque ele não os desejava.”

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O tempo dos jornais

Os jornais dependiam de um modo de vida que se foi extinguindo no novo milênio

João Pereira Coutinho | Folha

A crise dos jornais bateu à minha porta. Literalmente. Durante anos, a rotina era simples: acordava, saía, passava pela banca, abastecia-me com a mesma dieta (quatro jornais nacionais, três estrangeiros). O vendedor já nem fazia perguntas: quando me via, entregava a dose como se fosse um dealer profissional.

Depois, regressava a casa, preparava o café da manhã (muito café para uma manhã) e abria os jornais sobre a mesa da sala. Com uma lapiseira na mão, partia em busca da minha presa.

O ritual durava duas horas, às vezes três, dependendo das matérias. No fim, eu podia ostentar alguns recortes como se fosse um caçador orgulhoso. Várias vezes escrevi crônicas diretamente sobre a notícia impressa.

E quando, por acaso, eu me ausentava da cidade, nem aí o fornecimento parava: no meu regresso, tinha 10 quilos de papel à espera. Com uma tesoura, desbastava tudo para uns aceitáveis 4 ou 5 quilos.

A banca fechou no ano passado. O dealer, pesaroso, alegou a idade e a quebra do negócio. Já ninguém comprava jornais. Um dos diários que eu consumia era mesmo a única cópia que ele encomendava. 


Banca de jornal no centro de São Paulo, em foto de 2013 - Gabo Morales/Folhapress

Despedi-me do homem, ainda tentei mudar de dealer mas rendi-me ao ar do tempo: hoje, tomo o café da manhã (menos café para uma manhã) com um iPad à frente. Às vezes, ainda sinto a tentação de usar a lapiseira na tela luminosa, como se fosse um amputado que sente dores no seu membro inexistente. É triste. É patético. 

Não sou caso único. Lizzie Widdicombe, na New Yorker (versão digital, claro), oferece alguns números para dinossauros como eu: na década de 1950, havia mais de 1500 bancas de jornais em Nova York. Em 2019, restam trezentas. Um bom dia de negócio, para esses resistentes, é vender 50 jornais. 

Fato: o que não se vende em papel é consumido online. Aliás, a “crise dos jornais” pode ser explicada pela ascensão triunfal da internet. Eu próprio sou um traidor da minha classe.

Mas não só. Os jornais também dependiam de um modo de vida que se foi extinguindo com o novo milênio.

Para começar, um modo de vida lento, ou pelo menos mais lento do que a patética aceleração em que vivemos. Bem sei: os nossos antepassados sentiram o mesmo, sobretudo nos começos das três revoluções industriais. 

Mas nós estamos na quarta, afogados em hiper-conexão, o que não deixa de ser uma forma regressiva de comunicabilidade: a forma como a maioria consome notícias remete-nos para os tempos do telégrafo, em que a brevidade instantânea era a alma do negócio. 

Quem, de entre os leigos, tem uma hora para dedicar a um jornal? Quem tem meia hora, ou até 15 minutos?

O meu avô tinha. O meu pai também: o dia não poderia começar sem essa hora de leitura matinal. O que para eles era uma rotina para os nossos contemporâneos é um luxo bizantino. 

Por outro lado, não havia apenas disponibilidade de tempo. Havia disponibilidade intelectual: uma curiosidade permanente para conhecer algo mais do que os horizontes estreitos do próprio umbigo.

Hoje, na era narcísica das redes sociais, não temos propriamente leitores; temos “voyeurs” uns dos outros, sempre em canibalismo mútuo. Quando não estamos obcecados com as nossas neuroses, estamos obcecados com as neuroses dos outros. Não há negócio que resista a esse circuito fechado.

Pessimista? Não estou. É preciso não confundir o jornal (como objeto) e o jornalismo (a segunda mais antiga profissão do mundo, nas palavras de Paulo Francis). O segundo continuará por outros meios, ainda que o rumo permaneça nebuloso.

Mas terei saudades do jornal. Aliás, já tenho, sobretudo quando passo pelo lugar onde existia a velha banca.

É agora uma estação de patinetes.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Bem-vindos à era da transcendência digital


Marcelo Gleiser, trecho do livro "O Caldeirão Azul", (Record, 2019)
Imagem: Internet

Tenho idade suficiente para me lembrar dos antigos telefones rotatórios, aqueles que a gente tinha que colocar o dedo no número para "discar".

Imagino que a maioria das crianças de hoje não saberia o que fazer com um deles. Já meus avós, se pudesse trazê-los de volta à vida, não teriam a menor ideia do que fazer com um telefone celular.

Ao mudar como vivemos nossas vidas, a tecnologia também nos muda, irreversivelmente.

Continuando com o telefone como ilustração, uma transformação profunda ocorreu na sociedade nos últimos 40 anos, mais ou menos o período da transição entre os telefones rotatórios e os celulares. No caso dos rotatórios, a família dividia um único número, o número da sua casa. Raramente, famílias tinham mais de um número na mesma casa. Se alguém estivesse usando o telefone, você tinha que esperar a vez. A linha estava ocupada.

Já os celulares são aparelhos pessoais. O telefone é seu. E ao contrário de uma caneta ou até um carro, a verdade é que ninguém gosta muito de dividir o celular com outro. As pessoas não gostam nem que outros olhem o seu, imagine usá-lo.

Por que isso?

A resposta mais imediata é que o celular não é meramente um aparelho que você usa para se comunicar com outros ou para se conectar com a internet. O celular é uma extensão digital de quem você é. Ele faz parte da sua pessoa. Você e a máquina são um.

Não acredita? Imagine que, em uma reunião no trabalho ou com amigos, você compare os celulares de todo mundo. (Se deixarem, claro.)

Esqueça os modelos que cada um escolhe; isso depende de muitos fatores, como quando decidimos que carro comprar, qual a cor etc. Foque sua atenção nos aplicativos de cada um. Certamente, muitos serão iguais: correio, alarme, câmera, Twitter, WhatsApp... Mas cada celular terá uma coleção de aplicativos única, que é só sua.

Essa coleção individual de aplicativos é uma espécie de impressão digital do dono do celular. Mesmo se considerarmos que, estatisticamente, é possível imaginar dois celulares com o mesmo grupo de aplicativos, imagino que a probabilidade de isso ocorrer seja bem baixa, mesmo dentre pessoas próximas ou da mesma família.

É por isso que, como escrevi acima, o celular é uma extensão digital da sua pessoa. Através dos aplicativos, o instrumento permite que você seja mais você, amplificando o seu senso de quem você é, o seu alcance no mundo. Ele estende sua presença muito além do seu corpo, permitindo que você esteja, virtualmente, em qualquer lugar do mundo, participando de conversas com pessoas em outras cidades, países, ou pertencendo a culturas muito diferentes da sua.

O celular dissolve a essência de quem você é num código digital transportável através do mundo. Juntando a isso o acesso à informação, a verdade é que nunca estivemos mais próximos da onipresença e da onisciência. O celular faz isso, ao menos metaforicamente, nos aproximando de uma existência divina: sem um corpo e cientes de tudo o que ocorre no mundo.

O que explica por que os celulares são tão sedutores. Se não temos um, ou porque esquecemos o nosso em casa ou porque quebrou, nos sentimos confinados a uma espécie de solitária digital, separados de parte de quem somos e do resto do mundo. São poucas as pessoas que, hoje, optam por não ter um. O homo não-digitalis é uma espécie em extinção acelerada!

Bem-vindos à era da transcendência digital.

Esse processo é irreversível. Não temos como voltar atrás. Podemos tentar monitorar o uso, e até desligar o aparelho de vez em quando. Mas difícil acreditar que a maioria das pessoas seja capaz de colocar o seu na gaveta, ou se recusar a usá-lo por períodos longos (dias, por exemplo). A menos que seja uma espécie de desafio pessoal, ou uma viagem de auto(rre)descoberta, como as pessoas que passam uma semana num retiro budista em meditação intensiva.

Com os celulares, expandimos nossa presença no mundo, ampliando nossos horizontes sociais e culturais. Nas mídias sociais, podemos expandir nossas tribos, estabelecendo contato com pessoas que dividem nossos valores, mesmo se vivendo em algum outro canto do mundo.

Mais dramaticamente, os celulares permitem que nossas vidas sejam transferidas para o éter digital, baixáveis em qualquer lugar do mundo, por quem quer que seja. Eles permitem que sejamos admirados, até mesmo endeusados, por outras pessoas. Ou, claro, odiados e invejados. A transcendência digital e o narcisismo estão intimamente ligados.

Acho que poucos estavam preparados para isso. O lado bom dessa tecnologia, que nos permite estar mais próximos dos amigos e da família, ou dividir momentos importantes ou informações relevantes, é indiscutível. Mas existem problemas sérios também.

Por exemplo, como evitar o narcisismo digital? Todas essas fotos, milhares delas, divididas em Instagram e Facebook; todos esses detalhes das nossas vidas, a maioria irrelevantes, agora disponíveis na nuvem, acessíveis a todos. O tempo investido –nas fotos, na sua edição, na sua disseminação, na contagem dos "likes"– parece um ritual do Eu, milhões de pessoas disputando o tempo de milhões, clamando pela atenção dos outros. E o que parece estar acontecendo é o efeito inverso, as pessoas se sentindo cada vez mais sozinhas, apesar de toda essa comunicação.

O tempo passa tão rápido que queremos nossas vidas registradas na memória, mesmo se em um eu virtual. Afinal, se só morremos quando as pessoas se esquecem de nós, na nuvem digital podemos viver para sempre. Você já visitou o portal ou página de Facebook de alguém que morreu?

Os que não querem participar da nova era se sentem pressionados, náufragos de um mundo do passado, que afundou. Quem não participar, perde. É esquecido.

Como toda outra tecnologia com profundo poder transformador, não há como escapar. E não temos por que. Os celulares e a mídia social são uma extensão digital de quem somos, amplificando o que temos de bom e de ruim, redirecionando nossa existência a uma dimensão virtual.

Espero apenas que essa festa do Eu não acabe por criar uma apatia social, as pessoas, com cada vez menos tempo, ficando cansadas dos detalhes dos outros, perdendo o interesse em se comunicar e trocar experiências e informação. Mas acho pouco provável.

A aliança entre as forças de mercado que promovem sem trégua essa revolução da transcendência digital com nosso apetite pelo que é belo, estranho ou violento, vão nos manter flutuando na nuvem virtual para sempre, tentando, como sempre fizemos, entender quem somos e qual o sentido de nossas vidas.