sexta-feira, 25 de maio de 2018

Philip Roth (1933-2018)

"Roth começou irritando os conservadores dos anos 60 (com “O Complexo de Portnoy”) e terminou irritando os neomoralistas de internet. Deixou, além da grande obra, a expressão “êxtase da santimônia”: impossível definição melhor da mediocridade deste nosso tempo ávido por “likes” nas redes sociais."


Roth: "Todos trabalham para mudá-los, persuadi-los, tentá-los e controlá-los. Os melhores leitores vêm à ficção para livrar-se desse barulho" (Eric Thayer/Reuters)

Rui Goiaba, na Revista Crusoé

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Queimando livros na era digital

Possuir livro físico que não pode ser rastreado ou hackeado pode ser visto como ato de rebelião
         
Matt Wasielewski, The New York Times
via Estadão

Num tribunal de Nova York, advogados debatiam as ideias racistas de Atticus Finch. Enquanto isso, livros, incluindo “O Sol é para todos", no qual Finch é o virtuoso herói, eram queimados na televisão numa refilmagem de “Fahrenheit 451.” É algo que lembra meados do século 20, mas esses clássicos americanos ainda ecoam em 2018.

Produzida com 7 milhões de dólares, a adaptação de Aaron Sorkin trazendo para os palcos o romance de 1960, “O Sol é para todos”, que lida com o racismo, deve estrear na Broadway em dezembro após acordos que puseram fim a uma série de processos judiciais este mês.

O patrimônio da autora, Harper Lee, processou a produção, alegando que o rascunho do roteiro era demasiadamente diferente do romance. Mas o principal produtor do espetáculo, Scott Rudin, disse ao Times que não estava disposto a manter alguns dos antiquados pontos de vista do livro a respeito do racismo.

“Não quero e não vou apresentar um espetáculo que, em se tratando de políticas raciais, dê a impressão de ter sido escrito no mesmo ano que o livro", disse Rudin. “O mundo mudou de lá para cá.”

A questão foi complicada pela publicação de “Vá, coloque um vigia", no qual Lee retrata Finch como um velho racista e segregacionista.

“O gênio saiu da garrafa", disse ao Times Joseph Crespino, autor de um livro a respeito de Atticus Finch. “Não podemos ter a figura idealista e descomplicada de Atticus, principalmente quando sabemos que ela estava lutando para compreender o personagem.”

Enquanto Rudin debatia no tribunal o contexto contemporâneo do romance, Ramin Bahrani o estava queimando, juntamente com as obras de Platão, Kafka, Marx e J.K. Rowling.

A versão cinematográfica de Bahrani para “Fahrenheit 451” está em cartaz na HBO. Inicialmente, Bahrani temeu que o alerta de Bradbury mostrando um mundo distópico e sem livros, sem o conhecimento que eles contêm, não ecoaria na cultura contemporânea e sua preferência pelo digital. Mas, nas páginas do Times, ele escreveu dizendo ter percebido que a mensagem do romance continua tão relevante hoje quanto na época de sua publicação, em 1953.


Possuir um livro físico que não pode ser rastreado ou hackeado pode ser visto como ato de rebelião Foto: Pixabay

“Bradbury estava preocupado com o advento da Reader’s Digest. Hoje, temos a Wikipedia e o Twitter", escreveu ele. “O autor temia que as pessoas se limitassem a ler as manchetes. Hoje, parece que os emojis substituíram metade das palavras na internet.”

Bahrani disse que Bradbury previu a ascensão dos “fatos alternativos” numa era da “pós-verdade”. Num mundo digital, possuir um livro físico que não pode ser rastreado, hackeado ou alterado pode ser visto como um ato de rebelião.

A indústria da moda também está reinventando uma relíquia da era pré-digital para fazer uma afirmação contemporânea. Das passarelas às butiques de Paris boutiques, os padrões estampados das colchas são o último grito.

Na loja da Calvin Klein em Manhattan, os fregueses podem escolher a partir de um acervo de colchas estampadas artesanais dos séculos 19 e 20. Em abril, a fabricante de acessórios Loewe apresentou uma coleção de estampas na Feira de Móveis de Milão. E as marcas começaram a oferecer jaquetas masculinas decoradas com tecidos estampados do mesmo tipo.

“Para mim, essa é a relação com a vida doméstica e com as emoções de um consumidor", disse Emily Bode, estilista da Bode, marca de moda masculina que oferece paletós exclusivos com estampas tradicionais a 1,5 mil dólares.

Ela disse que as estampas como as das colchas oferecem uma sensação física e emocional de conforto. 

“Tivemos dois fregueses que compraram seus casacos estampados e, no mesmo dia, dormiram usando as peças”, disse ela ao Times.

Com o mundo da moda ligado nos perfis do Instagram, a sensação caseira dessas colchas é um atrativo.

Amelia Peck, curadora de arte decorativa americana no Metropolitan Museum of Art, disse, “O engraçado é que as colchas já foram redescobertas outras vezes”.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A França contra os Robôs


"O perigo não está nas máquinas, senão teríamos de sonhar o absurdo: destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, ao quebrar as imagens, se vangloriavam de aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número crescente de homens habituados desde a infância a desejar apenas o que as máquinas podem dar." Georges Bernanos


Além de ser contado entre os maiores escritores franceses, Georges Bernanos foi, durante a Segunda Guerra Mundial, desde o seu autoexílio no Brasil, uma voz incisiva na denúncia do colaboracionismo de parte da França com o regime nazista. Perante a derrota de Hitler, sua batalha deveria terminar? De maneira nenhuma: sem concessões em seu antitotalitarismo, ele antevê e se opõe a uma nova ameaça à liberdade, ascendente tanto no mundo capitalista como no mundo comunista – o império da técnica, do dinheiro, do controle mecânico. A França contra os Robôs é uma eloquente defesa da liberdade humana diante do crescente predomínio da tecnologia. Esta edição conta com uma seção de textos inéditos, incluindo correspondências, entrevistas, discursos e anotações de Bernanos concomitantes à escrita do livro.


A França contra os Robôs
Georges Bernanos
É Realizações, 2018
256 páginas

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Como a inteligência artificial está ajudando a decifrar os códigos do Arquivo Secreto do Vaticano


Um novo software pode fazer com que séculos de documentos escritos em latim sejam disponibilizados na internet

Zelda Caldwell | Ateteia

O Archivum Secretum Vaticanum ou Arquivo Secreto do Vaticano (ASV) parece algo tirado das teorias conspiratórias de ficção, bem ao estilo do escritor Dan Brown.

Mas, na realidade, os ASV são simplesmente um conjunto de arquivos privados (melhor tradução para a palavra “secretum”) do Papa. Porém, desde que o Papa Leão XIII abriu o arquivo a alguns estudiosos, em 1881, ele deixou de ser particular.

Teoricamente, desde o século VIII, todos os textos, documentos históricos, atas promulgadas pelo Vaticano, livros de contas e correspondências dos papas estão disponíveis aos pesquisadores qualificados para isso.

O único problema é que o enorme volume de arquivos os torna virtualmente inacessíveis.

De acordo com um artigo de Sam Kean publicado no The Atlantic, dos 85 quilômetros de fila de estantes do Arquivo Secreto do Vaticano, somente poucos milímetros de páginas foram escaneados, transcritos e preparados para ficarem acessíveis aos serviços de busca na internet.

Agora, o In Codice Ratio, um programa que utiliza inteligência artificial e reconhecimento ótico de caracteres (OCR) para transcrever automaticamente conteúdos, está sendo utilizado para digitalizar os arquivos do Vaticano.

Porém, segundo Kean, o OCR faz maravilhas com documentos escritos à máquina, mas não pode processar o texto manuscrito. As letras tendem a se misturar e nem sempre o que se encontram são “exemplos claros e nítidos” das letras que supostamente representam.

É aí que entra em jogo a inteligência artificial. Os pesquisadores recrutaram estudantes de um instituto italiano sem nenhum conhecimento em latim medieval. Com base em exemplos de letras que o software de OCR já havia identificado, os estudantes deveriam comprovar se elas correspondiam ou não aos símbolos corretos. Tudo o que eles tinham que fazer era comprovar os padrões visuais. O software anotou os apontamentos que os estudantes fizeram e corrigiu os erros.

Quando o projeto teve início, “a ideia de envolver os estudantes era desacreditada”, contou Paolo Merialdo, cientista da Codice Ratio. “Mas, agora, a máquina está aprendendo com os esforços dos estudantes. É incrível como uma pequena e simples contribuição de muitas pessoas pode ajudar a solucionar um problema tão complexo”, comemora Paolo.

Transcrever ao computador os antigos escritos também não está sendo tarefa simples. Um terço das palavras continha erros, o que atrapalhava a leitura. Mas o trabalho já foi considerado um grande avanço.

“As transcrições imperfeitas podem oferecer informações suficientes sobre o contexto do manuscrito em questão”, contou Merialdo a Kean.

Além disso, os cientistas que estão por trás do projeto esperam que o software melhore com o tempo, já que, quanto mais se aprende com a inteligência artificial, melhores são os resultados obtidos.

Para ler o artigo completo do The Atlantic (em inglês), clique aqui.

domingo, 13 de maio de 2018

Como sobrevivem as editoras de DVD nos tempos de streaming?

Versátil Home Video e Obras-Primas do Cinema resistem ao cenário desfavorável e apostam nos colecionadores
        
André Cáceres, O Estado de S.Paulo

Em 1997, Reed Hastings alugou o filme Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo na Blockbuster e teve de pagar uma multa por atrasar a devolução da fita cassete. Esse pequeno infortúnio o motivou a livrar os cinéfilos das taxas por atraso e criar a própria empresa: a Netflix. Duas décadas mais tarde, a Blockbuster foi à falência e as assinaturas de serviços de streaming superaram as vendas de filmes em mídia física nos Estados Unidos. 

Fernando Brito, curador da Versatil Home Video, uma das últimas editoras de DVDs do Brasil Foto: Gabriela Biló/Estadão

Desde 2016, o valor arrecadado por plataformas como Netflix, Hulu e Amazon Prime cresceu 53% enquanto o que se gastou em discos diminuiu 24%. O abismo entre os modelos de negócio parece cada vez maior, tanto que a Criterion Collection, uma das mais respeitadas editoras de DVDs do planeta, se rendeu ao charme do streaming: em parceria com a TCM, lançou o FilmStruck, uma plataforma dedicada aos clássicos do cinema. No Brasil, porém, duas editoras ainda resistem em um cenário nada auspicioso para os DVDs: a Versátil Home Video e a Obras-Primas do Cinema. 

Fernando Brito, curador da Versátil, lembra que o mercado já passou por outras crises quando a TV a cabo chegou ao País, na década de 1990, com uma oferta maior de filmes clássicos, e, nos anos 2000, com a proliferação da pirataria pela internet. “O que muda agora é a questão geracional”, afirma Brito ao Aliás. “O jovem de hoje não faz questão da mídia física. A relação que se dá com a arte e a cultura é muito mais líquida, ágil e superficial”, lamenta ele.

Valmir Fernandes, cofundador da Obras-Primas, explica que existem dois nichos principais que ainda consomem DVDs e mantém o mercado funcionando: os colecionadores e os estudantes. Para os primeiros, “a escolha vem de pesquisa de filmes que foram lançados dos anos 1940 aos 1970 e não são encontrados hoje ou não tiveram o complemento de outros títulos”. Já para os que cursam faculdades de cinema, jornalismo e publicidade, Valmir centra os esforços em filmes mudos ou coleções sobre a história do cinema. 

“No mercado de nicho para filmes clássicos, europeus, independentes, fora do circuito comercial mais óbvio, você tem um circuito de arte que é ativo”, informa Fernando, e por isso a Versátil e a Obras-Primas lançam recorrentemente caixas temáticas de cinema de gênero, cult e obras antigas em geral. “Na internet, é difícil o acesso a esse conteúdo. A legenda é ruim, há links quebrados… Isso cria uma demanda, porque os colecionadores não deixaram de existir”, diz Fernando. 

Colecionismo. Nesse cenário em que o público geral deixou de consumir mídia física, mas ainda existe uma audiência carente por filmes de arte, é inviável competir com as plataformas de streaming em termos de preço, pior ainda publicar um produto descuidado. “Não adianta lançar apenas um DVD simples”, adverte Valmir. “É importante fazer um box que a pessoa ache legal ter na sala, no quarto, uma coisa bonita, para apreciar em mãos.” O cuidado com a edição dos filmes soa semelhante ao que ocorre hoje na indústria fonográfica, em que o LP, após ter quase morrido (no Brasil, não havia mais nenhuma fábrica de vinis até poucos anos atrás), retornou a todo vapor. “O vinil estava morto, renasceu, hoje você tem fábricas sendo abertas”, comemora Fernando. “Tem toda a mística de pegar um álbum, do som, de ter uma relação ritual de abrir os encartes; a geração nova não conhecia o vinil e redescobriu”, completa ele.

Fernando admite que os chamados millennials ainda não demonstraram pelo DVD o apreço que parecem ter adquirido recentemente pelo vinil, portanto também aposta nos colecionadores mais velhos. “A geração anterior ainda valoriza o colecionismo e tem um poder de compra mais elevado. É um nicho, mas que está ávido por conteúdo, portanto é preciso investir justamente na qualidade, pensando no produto não só como o filme em si, mas a cópia restaurada, com qualidade de imagem, conteúdo extra, comentários, depoimentos, uma edição crítica”, explica o curador.

Apesar do crescimento do setor de streaming e da recente investida da Criterion Collection, nem a Versátil e nem a Obras-Primas pensam em migrar para essa área. “Acredito que o colecionador ainda vai existir por um bom tempo. Se eu levasse meu conteúdo para o streaming, estaria dando um tiro no meu pé. O cinéfilo não gosta de ver o filme no computador ou baixar. Ele gosta de ter na mão”, insiste Valmir. Fernando concorda, e ainda tece críticas ao formato atual: “O problema do streaming é que os filmes não ficam em catálogo constantemente. Não é um conteúdo fixo, de referência. É mutável, está no ar por um curto período de tempo e depois sai da disponibilidade.”

Se por um lado a vantagem econômica das mídias digitais parece cada vez maior, por outro a relação mais profunda e duradoura que surge do contato com o material físico ainda pode seduzir os mais jovens. Em 2017, as vendas de CDs e vinis superaram pela primeira vez em anos as receitas do download de música. Se o mercado cinematográfico ainda não seguiu os passos da indústria fonográfica, pelo menos a esperança permanece viva. “Esse renascimento me faz pensar que essa geração millennial e a anterior pode redescobrir a mídia física”, acredita Fernando. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

E o Google sacudiu o mundo digital

Muito raramente há algo realmente novo na temporada de conferências para desenvolvedores. Foi o caso do Google, este ano. Deu um salto – e, nesta, deixou todo mundo para trás. A sério.

Pedro Doria - O Estado de S. Paulo




O presidente executivo do Google, Sundar Pichai, fala na abertura do evento Google I/O, em Mountain View: foco em inteligência artificial

Entre maio e início de junho ocorre a temporada das conferências para desenvolvedores no Vale do Silício. Abre com a F8, do Facebook, passa pela Build, da Microsoft, daí Google I/O, e se encerra com a WWDC, da Apple. É uma oportunidade para as grandes empresas apresentarem a quem escreve programas os caminhos de suas plataformas. Em geral, com muita fanfarra, o que mostram mesmo são pequenos incrementos do que já existia. Muito raramente há algo realmente novo. Foi o caso do Google, este ano. Deu um salto – e, nesta, deixou todo mundo para trás. A sério.

O anúncio mais espetacular foi Duplex, um adicional à Assistente digital da plataforma. Quem tem celular Android conhece. O Assistant é aquela moça para quem damos comandos de voz. A Apple tem a Siri, a Amazon, a Alexa, Samsung programa a Bixby e, a Microsoft, a Cortana. Todo mundo tem a sua. Mas, com o Duplex, a assistente do Google liga para o salão de cabeleireiro, conversa com a atendente, marca um corte para segunda às 10h porque meio-dia já estava ocupado. E a moça do salão sequer desconfia que está conversando com um computador.

Muitas décadas atrás, o pai do computador, Alan Turing, propôs um teste para uma inteligência artificial. Ela passa o teste quando um ser humano travar uma conversa sem desconfiar que o papo se deu com uma máquina. O Google passou no Teste de Turing. E, por si, este é um feito extraordinário.

Deixou também muita gente tensa. Será ético? Não custa deixar claro o que a tecnologia faz. Não dá para sacar o telefone e conversar com o Google Duplex no bar sobre a vida, o universo e tudo mais. O sistema cumpre missões bem delimitadas: marca hora num salão, explica o serviço e põe na agenda. Pode fazê-lo também num restaurante. Possivelmente será capaz de resolver problemas no banco ou cancelar serviços daqueles que nos penduram três horas e meia ao telefone.

E daí o dilema ético: no primeiro momento, acentua um apartheid social. Enquanto pessoas mal pagas estão penduradas no telemarketing, quem tem acesso à tecnologia não precisa mais se dar ao trabalho de conversar com essa turma. Dificilmente dura muito tempo – na hora que robôs assumirem a burocracia, o processo todo vai se digitalizar e aqueles empregos acabam. De qualquer forma, Siri e Alexa sequer viram o caminhão passar. Terão dificuldades de se recuperar desta. O Duplex, porém, não está pronto e vai demorar.

O que está pronto e chega em breve é o novo Android, versão P. E ele faz algo também radical: incentiva o usuário a não consultar seu telefone. Até agora, smartphones haviam sido criados para viciar. Uma engenharia cuidadosamente influenciada pela antropologia e psicologia para nos fazer consultar o aparelho de cinco em cinco minutos.

Com o novo Android, o usuário pela primeira vez terá ferramentas que lhe informam quanto tempo gastou no Twitter, no Facebook ou no e-mail. Quem achar que uma hora por dia nas redes já é demais pode colocar um timer: bateu naquele limite, o ícone do app fica cinza e não liga ou abre de jeito nenhum. Só se dando ao trabalho de voltar e reconfigurar.

Há macetes mais simples. Vire a tela de cabeça para baixo e luzes, bipes e tremores se calam. O aparelho para de ficar chamando sua atenção toda hora. Sim: é possível escolher um grupo de pessoas cujas ligações passam. Mas só aquelas. Desta forma, o jantar com os filhos ou o chope com os amigos é poupado das tentações.

O vício em tecnologia é, cada vez mais, reconhecido como um problema. Ao invés de conectar, nos desconecta de quem está em volta. Pela primeira vez, um sistema de celular encara este monstro de frente. É só o início. Mas é uma baita transformação cultural no Vale.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Internet será inundada com trabalhos protegidos há décadas por direitos autorais em 2019


Chaplin em “Pastor de Almas”, e o cartaz do filme || Créditos: Getty Images

Pela primeira vez em mais de duas décadas, uma quantidade sem precedentes de filmes, músicas e outros trabalhos artísticos publicados há quase 100 anos se tornará domínio público nos Estados Unidos e no resto do mundo. A liberação está marcada para o dia 1º de janeiro de 2019, e inclui clássicos da telona como “Pastor de Almas”, o filme mudo lançado em 1923 por Charles Chaplin, e “Os Dez Mandamentos”, o longa de 1956 dirigido por Cecil B. DeMille e estrelado por Charlton Heston.

Há ainda composições da dupla Bela Bartok e Aldous Huxley e todos os seis volumes da coletânea “The World Crisis”, um relato em primeira pessoa sobre a primeira Guerra Mundial escrito por Winston Churchill, além do texto completo do musical “London Calling!”, de Noël Coward, e vários contos de P.G. Wodehouse. Tudo faz parte de um movimento que começou a tomar forma nos EUA em 1886.

Pioneiro em questões de direito autoral no cenário global, o país trata o tema com a devida importância desde aqueles tempos, e a partir de 1922 várias instituições públicas de lá passaram a incluir em seus acervos trabalhos relevantes de autores que os cederam depois da morte. Isso geralmente ocorre em intervalos de dez a 50 anos, mas desde 1998 não acontecia algo parecido e e uma escala tão grande.

A maior parte do conteúdo será disponibilizada na biblioteca virtual Google Books, e engenheiros do site de busca trabalham desde já na digitalização de tudo. Novas leis aprovadas mundialmente nos últimos anos deverão tornar esse tipo de “democratização artística” cada vez mais comum. A propósito, o curta de 1928 “Steamboat Willie”, estrelado por Mickey Mouse e há anos alvo de disputas da Disney para protegê-lo, tem tudo pra ser finalmente liberado no começo de 2024. 

Anderson Antunes | /Glamurama

Depósitos do conhecimento



Cena do episódio "Safe And Sound" da série distópica "Philip K. Dick's Electric Dreams" (Amazon Prime, 2018)

Jovem dominada por fobia social muda-se com a mãe para uma cidade futurística. Diante da ênfase em segurança e prevenção contra o terrorismo do local, não demora e sua vida escolar é consumida por medo e paranoia. Logo, ela encontra orientação e companhia nos lugares mais inesperados.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Inovações punem quem não se prepara; é hora de o Brasil romper o imobilismo diante delas


Governos e empresas precisam reinventar seus modelos de gestão para se adaptar à economia dos algoritmos

Tanto o país como as empresas precisam reinventar seus programas e temer o imobilismo, não as mudanças, que podem demorar, mas, quando chegam, punem sem dó os despreparados. O cemitério de negócios e de nações outrora bem-sucedidos nos alerta sobre os riscos do que está por vir se nada for feito.

Será promissor ou não dependendo de nossas decisões. Os masters do mundo estão na corrida acenada pelo presidente Vladimir Putin, da Rússia: “Quem liderar a IA governará o mundo”. Para nós, já basta estarmos no jogo, garantindo progresso e mobilidade social.

Trecho do artigo "Poder digital" de Pedro Luiz Passos, na Folha

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Site brasileiro JOTA cria bot para incentivar cobertura jornalística de processos parados no STF

Por Carolina de Assis | Knight Center

Em 1920, o jurista brasileiro Rui Barbosa (1849-1923) afirmou que “justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”. Quase 100 anos depois, suas palavras inspiram a nova empreitada do site brasileiro JOTA, que tem o Judiciário como foco de sua cobertura jornalística. O bot Rui (@ruibarbot), lançado no fim de abril, monitora e divulga no Twitter a lentidão no andamento dos processos no Supremo Tribunal Federal (STF).


Diariamente, Rui tuíta sobre aniversários de processos parados na mais alta corte do país. No dia 25 de abril, por exemplo, ele avisou que uma ação sobre punição a motorista que foge depois de acidente de trânsito está parada há um ano no STF. O tuíte deu origem a uma reportagem do próprio JOTA sobre o processo e a lentidão em seu andamento.

O objetivo do bot é justamente direcionar o olhar de jornalistas e da cidadania para os gargalos do Judiciário brasileiro, disse Felipe Recondo, cofundador e diretor de conteúdo do JOTA e idealizador do bot, ao Centro Knight.

“A ideia surgiu entre 2014 e 2015, quando começamos o JOTA”, contou Recondo. “A percepção é que a gente cobria os processos judiciais quando eles andavam, mas a natureza do Judiciário, por várias razões - excesso de processos, travas na legislação, excesso de recursos - é que os processos não caminham.” A sensação, segundo o jornalista, era de cobrir apenas uma parte da história.

A cobertura dos processos parados permite desvelar “as disfuncionalidades do Judiciário”, disse Recondo, e explorar as várias razões possíveis para a lentidão. “Pode ser um ministro que não está dando a prioridade que talvez devesse dar a esse processo; pode ser o Ministério Público, que não devolveu o processo e ainda está analisando; as partes podem estar usando recursos legítimos, mas que podem protelar a decisão... A gente queria saber onde estão os gargalos em cada um desses casos. A ideia então foi fazer uma cobertura com sinal negativo, cobrindo também o que não anda.”

Guilherme Jardim Duarte, editor de dados do JOTA, programou Rui em Python, linguagem de programação muito usada por jornalistas em projetos como este. Ele explicou ao Centro Knight que o bot parte de uma lista de 289 ações compiladas pela equipe do JOTA em meio às 43 mil que tramitam no STF. O robô entra todos os dias no site do tribunal, confere quando cada processo que consta na lista foi atualizado e, caso algum esteja completando anos ou 180 ou 270 dias sem movimentação, ele tuíta a respeito.

“A única coisa que o bot faz é ver se o processo está fazendo aniversário [sem movimentação]”, disse Duarte. “O resto é o trabalho do repórter, de apurar e contar o que aconteceu.”

A lista de ações monitoradas pelo bot é resultado de uma curadoria da equipe do JOTA com base em critério jornalístico, disse Recondo. “Vimos o que na nossa cobertura pode ter maior repercussão para a legislação, a economia, a sociedade, a política, etc.” Mas a lista está aberta a atualizações e sugestões de leitores e leitoras sobre outras ações a serem monitoradas. “Foi imediato: assim que o robô entrou no ar as pessoas começaram a nos escrever dizendo ‘vocês deviam acompanhar o processo tal’. E estamos abertos a isso.”

Um aspecto valioso do projeto é ele ser um gerador de pautas não só para o JOTA, mas para qualquer jornalista ou veículo que acompanhe Rui no Twitter e que se interesse por alguma ação parada que ele destaca.

“A gente poderia ter feito um robô exclusivamente para nós”, disse Recondo. “Seria também extremamente relevante, mas não cumpriria com a tarefa que é também fazer com que as redes sociais e pessoas que talvez não leiam o JOTA, mas leem outros meios, tenham acesso a isso.” Estando no Twitter, “qualquer pessoa pode acessar, e quem quiser pode fazer matéria em jornais de qualquer lugar do país em cima daquela informação”, afirmou.

Além de reportagens no JOTA, Rui já gerou repercussão entre os próprios ministros do STF. Alguns deles comentaram com Recondo sobre o bot. Um ministro disse que o JOTA deveria expandir o projeto para todo o Judiciário. Já outros dois expressaram receio; um não entrou em detalhes, mas outro fez uma ressalva sobre os magistrados serem responsabilizados pela lentidão nos processos. “Eu disse que o robô vai tuitar apenas que o processo está parado. Nós vamos fazer matéria e explicar por que e onde está parado”, disse Recondo.

Houve também provocações de outras pessoas do STF, contou ele. “Disseram que ‘do jeito que isso aqui é, vocês vão ficar apitando que nem sirene’. Respondi ‘bom, se for assim, temos que discutir o modelo dos tribunais, não o modelo do Rui’”, riu o jornalista.

Novos Ruis estão no horizonte do JOTA. “A gente quer ampliar os tribunais”, disse Duarte. “O Superior Tribunal de Justiça (STJ) é o tribunal que todo mundo pensa em seguida. Em termos de questões legais, é nossa corte superior. O STJ é bastante importante e é esquecido, às vezes, e tem vários casos interessantes e importantes ali.”

Segundo Duarte, outro projeto previsto pela equipe do site é uma análise de dados a respeito de todos os processos que constam no site do STF - cerca de dois milhões, entre ações finalizadas e ainda em andamento.

Para Recondo, o jornalismo baseado em dados é praticamente uma exigência da cobertura do Judiciário. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, em 2016 quase 110 milhões de processos passaram pelo Judiciário brasileiro. “Para fazer uma cobertura dessas, ou você tem dados ou você mergulha em 100 milhões de processos, e você não vai conseguir sair”, afirmou.

“A gente quer fazer um jornalismo baseado em evidências, e essas evidências às vezes podem ser metrificadas”, disse o diretor do JOTA, para quem os leitores têm demandado a apresentação de evidências no jornalismo. “Quando mais nós estivermos baseados em dados, menor vai ser o achismo, melhor o leitor estará informado e melhor vai poder formar seu juízo.”

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Algoritmos não mentem


A Netflix aprendeu uma dura lição. Quando buscou fazer os menus de seus consumidores a partir da lista que estes informavam, jogou dinheiro no lixo. Quando questionadas por suas preferências, as pessoas elencavam filmes inteligentes, europeus, iranianos, alternativos, documentários. Mas, na verdade, ninguém usava o menu.

Enquanto projetavam um perfil de amantes de filmes inteligentes, na verdade, viam filmes de terror, crimes, romances, comédias idiotas e super-heróis bobos. A Netflix resolveu então perguntar ao algoritmo, nosso oráculo. O algoritmo sabe de mim mais do que eu sei de mim mesmo. Outra vez, santo Agostinho. Só que, para este, era Deus quem sabia mais de mim do que eu sabia de mim mesmo.

E aí chegou ao que precisava. Nós mentimos, o algoritmo não. Rastreando os tipos de filmes realmente vistos, a Netflix chegou à solução: não pergunte para as pessoas do que elas gostam, porque elas mentem (provavelmente, para si mesmas), olhe para o que elas fazem de fato. De novo, nada que a filosofia moral já não soubesse.

Trecho do artigo "Todo mundo mente", de Luiz Felipe Pondé, na Folha.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Adam Alter examina vícios tecnológicos e o que fazer para não se tornar dependente

'Irresistível, Por que você é viciado em tecnologia e como lidar com ela', que sai pela Companhia das Letras, explora a dependência comportamental ao longo da história

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

A presidência de Donald Trump inspira comentários frequentes de internautas, especialmente os que trabalham em mídia ou dependem de se manter atualizados online, sobre exaustão noticiosa. Não é possível largar o celular alguns minutos e as crises se multiplicam, reclamam, exaustos. Não é possível ou não é desejável?

Um livro lançado esta semana no Brasil e já publicado em 24 outros países examina nossa dependência digital e sugere algumas saídas. Em 'Irresistível, Por que você é viciado em tecnologia e como lidar com ela' (Companhia das Letras), Adam Alter, professor de marketing e psicologia da Stern Business School da Universidade de Nova York, explora um novo campo de estudo, o vício comportamental e examina o comportamento dependente ao longo da história.

Adam Alter Foto: Karsten Moran/The New York Times

Ao me receber em sua sala, Alter aparenta ser mais jovem do que seus 37 anos, sugere um geek que poderia passar horas grudado em alguma tela. Este australiano de Sidney está, há alguns anos, preocupado com a tecnologia e seu efeito evolucionário. Afinal, o iPhone só foi lançado há onze anos, o iPad há sete e não temos uma geração de adultos e profissionais para saber o significa crescer, como ele argumenta, com um apêndice do corpo na forma de um gadget.

A indústria cultural sempre dependeu de atrair nossa atenção. Mas, na era pré-digital, havia ponto final na leitura de um livro, de um jornal de papel. Telenovelas ocupavam uma hora do nosso tempo e voltavam no dia seguinte. Todo nosso consumo de mídia hoje é oferecido num loop contínuo. Os algoritmos do Facebook, Instagram, Google são destinados a manter o internauta grudado na plataforma. A Netflix oferece binge watching, com episódios recarregados automaticamente. Há uma clínica de reabilitação em Seatle, reStart, especializada em gamers que não conseguem parar de jogar.

Alter admite a tarefa inglória que é conversar com o público sobre os excessos da era digital. “Podemos recomendar que um alcoólatra fique longe de bares,” lembra, “mas não podemos prescrever abstinência tecnológica a ninguém no século 21.”

O livro abre com um segredo mal guardado do Vale do Silício. Seus grandes inventores e empresários mantêm os próprios filhos longe de gadgets. Matriculam as crianças em escolas caras que aplicam o método Waldorf, conhecido por banir tecnologia até os doze anos.

Steve Jobs admitiu que seus filhos não tinham acesso a iPads. Pergunto a Alter se vamos ver uma nova fronteira de desigualdade e ele concorda: à medida que crianças com menos acesso à educação privilegiada ficam mais vulneráveis aos excessos de uso de celulares e horas improdutivas online, elas estarão em desvantagem.

Alter cita um estudo que revela alguma forma de comportamento dependente em metade da população dos países desenvolvidos. Cada vez mais, a dependência não é de drogas e sim expressada em comportamento compulsivo. Ele usa o exemplo dos veteranos do Vietnã – cem mil voltaram da guerra tendo experimentado heroína pura. E 95% – um índice altíssimo, no caso de opioides – abandonaram a droga quando foram positivamente reinseridos na sociedade. “Nem toda dependência química é herdada ou fruto de uma personalidade propensa,” afirma Alter, sobre o vício comportamental.

Uma recomendação feita por Alter se refere à arquitetura do comportamento. “Como um arquiteto projeta uma casa, nós podemos projetar a distribuição da tecnologia no nosso ambiente,” sugere. “Podemos deixar os celulares mudos numa gaveta durante as refeições.”

Enquanto médicos não começarem a perguntar numa consulta, além de “Você fuma?” , “Quanto tempo você passa diante da tela?” Alter acha que o vício tecnológico, “um problema de saúde pública,” deve ser encarado na trincheira doméstica. “Os pais é que têm o poder,” diz. “A criança acompanha o olhar dos pais. Quer saber porque a atenção se afastou dela e não sai da tela do celular. E vai desejar a tela.”

A tecnologia pode ser uma janela maravilhosa, diz o autor. Mas ela deve servir para aumentar o mundo real, não se tornar o substituto.


IRRESISTÍVEL. POR QUE VOCÊ É VICIADO EM TECNOLOGIA E COMO LIDAR COM ELA

Tradução: Cássio de Arantes Leite

Editora: Companhia das Letras (296 págs.; R$ 49,90) 

Eficiência e Experiência

"O livro digital é o auge da eficiência, mas livro de papel é o auge da experiência." 
Rodney Eloy 📚


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Smartphone é o melhor amigo de 49% dos adolescentes


Pesquisa aponta que, deste total, 36% priorizam o aparelho em vez de passar mais tempo com os amigos de carne e osso, a família ou pessoas importantes

Mirella Araújo |Folha de Pernambuco

Qual a primeira coisa que você faz ao acordar? A maioria dos jovens pertencentes à chamada Geração Z (de 16 a 20 anos) responderá: olhar o smartphone antes de qualquer outra ação. Para ser mais preciso, 49% dos brasileiros nessa faixa etária consideram o smartphone o seu melhor amigo. Desse universo, 36% priorizam o aparelho em vez de passar mais tempo com os amigos de carne e osso, a família ou pessoas importantes.

Esse cenário traz um alerta à sociedade sobre o limite do uso das tecnologias e no que isso pode ser prejudicial às relações interpessoais, por se tratar de uma geração que já nasceu imersa a um mundo conectado 24h por dia.

O nível de apego destes jovens com o aparelho móvel foi objeto de um estudo feito pela especialista renomada em comportamento mente-cérebro e na ciência da felicidade pela Universidade de Harvard e psicóloga do departamento de psiquiatria do Hospital Geral de Massachusetts, Nancy Etcoff, em parceria com a Motorola, por meio do estudo Phone Life Balance.

A pesquisa ouviu 4.418 usuários de smartphones de quatro países: Brasil, Estados Unidos, França e Índia. Foram investigados os comportamentos e hábitos de utilização do celular de diferentes gerações para entender o impacto do equipamento nas relações com o usuário, com outras pessoas e com o ambiente físico e social. 

“Essas tecnologias precisam ser vistas como uma ferramenta para alcançar algo, e não o fim. Ele não pode ser visto como um amigo, mas como uma das formas de alcançar esses amigos”, avaliou a gerente de projetos do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), Danielle Andrade.

“Esses jovens nasceram na evolução dos smartphones e não podemos ir contra esse fato. O que precisamos trabalhar na educação dentro desse cenário digital, é trabalho em equipe, a importância de saber e escutar e ter paciência, e o principal, a lidar da melhor forma com as frustrações. Isso é exigido estando na era digital ou não”, alertou Danielle.

Para a coordenadora de tecnologia da Universidade Estácio, Erika Medeiros, um dos motivos que levam esses jovens a se apegarem cada vez mais aos smartphones é o “sentimento de pertencimento”. “Se dentro do grupo eles não compartilham o que está acontecendo, eles já se sentem excluídos. E os jovens têm uma facilidade maior de desenvolverem um comportamento compulsivo. Existem várias características técnicas que levam a esse vício, uma delas é a entrega do aparelho muito cedo às crianças”, criticou a coordenadora.

Os pais de Stéfany Vasconcelos Ataíde, de 12 anos, não veem como maléfico o uso desde cedo dos smartphones. Desde os nove anos, ela possui o aparelho. O controle se baseia na confiança que os pais depositam na menina. “Não consideramos que ela use o aparelho em excesso, ela sabe dosar bem. É a tecnologia do futuro, e isso não a impede de socializar bem com as pessoas dentro e fora da escola. Ela tem a turma de amigos, que também compartilha novidades das redes sociais quando estão juntos”, afirmou o vendedor André Gustavo Bezerra Ataíde.

Ele também enfatiza que, nos momentos em família, o uso do celular também é dosado. “Nós adoramos sair para andar de skate, assistir filme juntos. Há tempo para tudo”, concluiu. Stéfany revela que passa em torno de cinco horas por dia conectada, mas garante que isso não atrapalha seus estudos. “Gosto muito de ver vídeos na internet, falar com meus amigos nas redes sociais. Mas sei que tudo tem um limite e que o uso excessivo pode ser prejudicial até para a minha saúde”, afirmou.

A pesquisadora Nancy Etcoff também identificou nessa pesquisa os três principais comportamentos ligados ao smartphones que impactam as relações interpessoais: metade dos jovens entrevistados (49%) afirmou verificar o celular com mais frequência do que gostaria. No Brasil, esse percentual é de 48%; Cerca de um terço (35%) disse passar tempo demais utilizando o smartphone (44% da geração Z). Contraditoriamente 34% dos jovens acreditam que estariam mais felizes se passassem menos tempo no celular. Entre os adolescentes brasileiros, os números caem um pouco: 33% e 38% respectivamente.

Dois terços (65%) dos entrevistados admitem que entram em pânico quando acham que perderam o celular, e três em cada dez (29%) concordam que, quando não estão usando o celular, “estão pensando em usá-lo ou planejando o próximo uso do dispositivo”. No Brasil, boa parte dos usuários também se preocupa com a possível perda do dispositivo (56%, dos quais 69% da geração Z e 68% da geração do milênio). Em relação ao pensamento do próximo uso, o percentual sobe para 31% dos participantes.

A estudante de direito Laís Ferreira, 20 anos, assume que o smartphone é seu melhor amigo. Ela, inclusive, só vai dormir após responder o último amigo no WhatspApp e conferir as redes sociais. “A primeira coisa que faço ao acordar é olhar meu celular. Quando ele quebrou fiquei desesperada, mas estava no seguro, que só fiz para não ficar sem nenhum aparelho”, disse.

Questionada sobre o momento em que percebeu que esse uso excessivo poderia trazer malefícios, Laís disse que foi quando saiu para uma festa com os amigos e viu que estava mais preocupada em postar fotos em tempo real do que aproveitar o momento. “Não queria conversar com as pessoas, só com o celular. Então, vi que deveria buscar o equilíbrio”, disse. A busca por esse equilíbrio deve partir justamente de quem se considera refém dessa telinha de bolso, ao menos é o que a pesquisa feita em Harvard mostra. O mesmo estudo também constatou que 48% dos entrevistados no Brasil reconhecem a importância de aproveitar melhor a vida quando não estão com o celular.

Gerações
A psicóloga educacional da Universidade Estácio, Julianne Gomes Correia, considera o percentual de 49% de adolescentes que consideram o smartphone como melhor amigo, um dado alarmante. Mas lembra que hoje, esses jovens vivem um processo interacionista muito mais livre que a geração anterior. “Às vezes esses jovens nem sempre encontram seu grupo social na escola, então ele se afasta desse convívio pessoalmente para buscar por esse grupo na internet. Essas pessoas se identificam virtualmente e aí não há um gasto de energia que o contato social do corpo a corpo tem”, disse Julianne.

A grande questão dessa conexão excessiva é o aumento no número de casos de “autismo vir­tual” - quando muitas crianças pequenas que passam muito tempo em frente a uma tela de TV, videogames, tablets e smarphones têm sintomas similares aos de um autista - e do ciberbulling. “Precisamos rever a maneira como nos expomos à internet e suas ferramentas de acesso, e como pais, a maneira que expomos isso aos nossos filhos”, alertou a piscóloga.

E quando o vício do smartphone se torna um meio de trabalho? É o caso da social media da agência colaborativa Alfinim, Lorena Ataíde. Formada em letras, ela deixou de ser professora e passou a trabalhar com redes sociais, uma paixão que foi despertada pelo vício de acessar o celular. “Quem me iniciou nesse universo da tecnologia foi meu pai, quando me deu o meu primeiro computador. A partir disso o smartphone virou uma extensão dele e hoje é uma das primeiras coisas que vejo quando acordo”, comentou. 

A social media afirma que não consegue desgrudar do aparelho e que o tempo do trabalho termina se confundindo com o tempo do lazer. “A família às vezes me pede para desligar um pouco e dar um tempo, sinto que existe uma dependência muito grande, mas é difícil me desprender. Profissionalmente o smartphone é um aliado, pois as empresas e as pessoas estão o tempo todo na internet e ninguém quer perder tempo.”

Apesar de a Organização Mundial da Saúde não caracterizar o uso excessívo do smartphone como um vício, esse uso excessivo é preocupante para muitos especialistas. “É impactante termos acessos a essas novas tecnologias. Mas diante de tudo isso, se você não estiver controle, passa a não ter agenda e esse imediatismo vai gerando ansiedade e pode fugir do controle”, alertou a coordenadora de Tecnologia da Universidade Estácio, Erika Medeiros.

Nada substitui o olho no olho, diz a gerente de projetos do Cesar, Danielle Andrade. Ela coordena uma equipe com 40 engenheiros pela internet e afirma que não se poder fugir dessa interação, em que o ouvir e o olhar são fundamentais para que os projetos se desenvolvam bem. “Não se pode ir contra as tecnologias, mas precisamos saber trabalhar com elas em prol da coletividade. Em qualquer trabalho é necessário escutar o que o outro tem a dizer, diminuindo as distâncias”, explicou. 

Calma, Jorge

Em sua coluna, Marcio Coelho relembra o primeiro Congresso do Livro Digital para concluir: tem espaço para todo mundo. Leitores não faltam, basta publicar para eles.

Publishnews

Foto histórica do I Congresso Internacional do Livro Digital

Há pouco mais de oito anos, em março de 2010, aconteceu o I Congresso Internacional do Livro Digital. Uau, o que será que vão falar nesse congresso? Era a pergunta que o marcado editorial e livreiro se fazia com um medo danado de ouvir que o livro físico acabaria. Preocupação desimportante diante dos problemas reais enfrentados pela cultura do livro.

O lugar escolhido foi o hotel Maksoud Plaza, com seu cheiro de couro velho, seus capitonês e seu pomposo bar, em que um expresso custava, na época, R$ 6. Mas era o primeiro congresso, gente do mundo inteiro. Precisava ser num lugar com a cara da classe média paulistana: decadente e ostentador.

Como em todos os eventos do mercado editorial, lá estavam os amigos. O homem do chapéu Panamá, distribuidores, editores, livreiros, autores e babadores de ovos. Mas não era felicidade que eu via nos rostos. Era ansiedade, era medo, era apreensão. Tudo porque estávamos ali para ouvir sobre livros digitais.

Bom, muitos players internacionais depois – falando coisas que não sabiam sobre o Brasil e dando prognósticos apocalípticos sobre o nosso mercado – foi a vez de Jorge Carneiro falar. O dono da Ediouro, com quem trabalhei na minha fase na Nova Fronteira, dirigiu-se à espécie de palco com um ar de derrotado. Quando ele olhou para o público, seu olhar ficou longe, no horizonte, ele demorou longos segundos para começar.

No final do seu discurso, porém, ele fez um pedido que, a mim, pareceu desesperado: “precisamos tomar cuidado com o que vai acontecer com as nossas editoras. O que vai acontecer agora, gente? É o futuro do nosso ganha-pão que está em jogo aqui” (Jorge, não me lembro bem das palavras, mas me marcou).

Isso tudo pode soar como estranho, mas não era. A novidade chegava com ares de devastação. Era a bomba D jogada no mercado. D de digital. Lembro de sair daquele evento cheio de dúvidas. Mas depois houve mais alguns congressos como aquele, participei, aí dúvidas aumentaram.

O tempo passou e no último dia 10 de abril, em Londres, a TAG conquistou o The Quantum Innovation Award. Um clube de assinatura de livros físicos vence um prêmio internacional de inovação, por mais paradoxal que possa parecer.

O livro físico acabou? Não. E o livro digital? Calma, Jorge, tem espaço para todo mundo. Como diz meu amigo Bruno Mendes, leitores não faltam, basta publicar para eles.