segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Nos EUA, livros impressos continuam subindo enquanto que os digitais caem


País é o sexto mapeado pela série #PubMagNet em 2018. Por lá, as vendas de livros impressos cresceram 1,9% na comparação com 2016. Já os digitais tiveram queda de 4,4% só no primeiro semestre de 2017

Publishnews

No fim de janeiro, um grupo de jornalistas e analistas da indústria global de livros se reuniu em Oslo para a primeira reunião da PubMagNet de 2018. Como resultado desse encontro, o PublishNews vem publicando desde o início deste mês uma série com os principais destaques de cada um dos países representados na reunião da Noruega. O sexto mercado mapeado pela série PubMagNet 2018 é o dos EUA. Andrew Albanese, editor da Publishers Weekly, foi quem esteve na reunião e analisou a performance do País do Tio Sam no que diz respeito a livros em 2017.

Ele ressaltou que, como já virou mantra por lá, nenhum novo título chegou a vender mais de um milhão de cópias impressas durante 2017. Apesar disso, houve um crescimento de 1,9% na venda desse formato na comparação com o ano anterior. O Bookscan (ferramenta da Nielsen que monitora cerca de 85% do mercado norte-americano) reportou a venda de 678,3 milhões de unidades no ano passado versus 674,1 milhões vendidas em 2016. Andrew lembra que isso já se tornou uma tendência consolidada, já que desde 2013, as vendas de livros impressos têm crescido por lá. No entanto, ressalta que, apesar do aumento no volume, o faturamento não acompanhou e fechou 2017 estável.

O único segmento que apresentou uma discreta queda (-1%) foi o de Ficção Adulta. Os dois livros mais vendidos em 2017 foram Extraordinário, de R.J. Palacio e Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur que foram publicados original e respectivamente em 2012 e 2015. Entre os livros mais vendidos publicados em 2017, destaca-se Diário de um bananaapertem os cintos, cujas vendas somaram mais de 990 mil cópias.

Albanese observa que os audiolivros apresentaram crescimento impressionante de 24,6% na comparação com 2016, mostrando que esse formato tem sido a bola da vez por lá (também). Na contramão disso, os e-books continuam em baixa. “Depois de alguns sugerirem que o declínio nas vendas de e-books estava prestes a atingir o fundo, esse fundo mostrou-se mais fundo e a queda continuou em 2017”, comentou. De acordo com estatísticas da Associação Americana de Editores (APA), as vendas de e-books caíram 4,4% só no primeiro semestre. Em julho, nova queda de 16% e em agosto, de 9,6%. Os números do fim do segundo semestre ainda não foram apurados. Andrew lembra que isso não é motivo de alarme. Não pelo menos nas grandes casas editoriais e lembrou que Markus Dohle, CEO global da Penguin Random House, declarou na última edição da Feira de Frankfurt que vê uma “coexistência saudável” dos mercados de livros impressos e digitais e que estima que esse equilíbrio chegará a 80% de impressos e 20% de digitais.

Além disso, alguns movimentos já no início de 2018 mostram que há muito o que percorrer com os e-books. Entre eles, Albanese destaca a parceria entre Kobo e Walmart através da qual a grande varejista passou a comercializar e-books da nipo-canadense e a notícia de que a Apple está investindo para voltar à luta contra a Amazon pelos livros digitais.

Albanese ressaltou que continua sendo muito difícil mapear e medir o mercado de autopublicação, mas há estimativas que consumidores gastaram US$ 1,25 bilhão com livros autopublicados. Isso representa cerca de 300 milhões de cópias; 43% de todos os dólares gastos com livros digitais nos EUA ou 24% daqueles gastos com livros (não importando aqui os formatos). “Apesar disso, as principais editoras não mostram nenhum interesse (ou habilidade) para entrar nesse mercado de forma significativa. E isso deixa esse mercado para a Amazon operar praticamente sozinha”, analisa.

Um exemplo disso veio da Macmillan. A gigante comprou a Pronoun, uma plataforma de autopublicação fundada originalmente como Vook. À época, a direção da Macmillan dizia que estava interessada nos dados da plataforma e em como ela poderia impactar a sua linha editorial. No entanto, em novembro passado, a Macmillan jogou a toalha alegando que “não havia um caminho para um modelo de negócios rentável”.

Livrarias
Albanese avaliou que a direção da Barnes&Noble continua trocando os pés pelas mãos. “Foi outro ano caótico e preocupante”, disse o editor sobre a rede de livrarias dos EUA. Em abril, a varejista chegou a trocar o seu CEO, mas ainda assim fechou o ano fiscal no vermelho e teve suas vendas de fim de ano decepcionantes.

Na contramão disso, as livrarias independentes tiveram outro ano de crescimento. De acordo com relatório da Associação Americana de Livrarias (ABA), há cinco anos, esse canal tem crescido de forma sustentável. “Mas os desafios persistem – não só políticos, mas também com relação ao poderio da Amazon”, ressalta Albanese.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Conheça 4 bibliotecas com acesso ao acervo digital


Várias instituições, como a USP, estimulam hábito de leitura e oferecem oportunidades para internautas acessarem conteúdos

Do Portal do Governo

Ler é uma das atividades mais prazerosas de que já se teve notícia. O hábito nos transporta para lugares inimagináveis, aguça a nossa criatividade e nos faz aumentar a capacidade de comunicação. Aos que amam conhecer novas histórias, a tecnologia é a melhor ferramenta para conhecer lugares ao redor do mundo sem sair de casa.

Diversas instituições oferecem a oportunidade de acesso aos acervos digitais das bibliotecas. Conheça cinco instituições com plataformas para os internautas:

Brasiliana USP: conta com livros, mapas e imagens em domínio público, frutos da doação do acervo pessoal do bibliófilo José Mindlin e esposa, Guita, para a Universidade de São Paulo.

Biblioteca Digital de Obras Raras e Especiais: é possível encontrar obras levando em conta o valor histórico, a antiguidade e a não existência de outras impressões ou edições e que estão localizados nas unidades da Universidade de São Paulo.

Biblioteca do IBGE: no acervo, há monografias, mapas, publicações, fotografias, cartazes e conteúdos relacionados à documentação territorial nacional pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Biblioteca Digital do Museu Nacional: com versões disponíveis em altíssima resolução, o conteúdo está voltado para as áreas de ciências naturais e antropológicas.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Consultas online provocam mudanças nas bibliotecas, que agora são usadas como salas de estudo

Estudantes abandonam as estantes em favor do material de referência virtual
         
Michael Rubinkan, AP | O Estado de S. Paulo


Uma biblioteca sem livros? Não é bem assim, mas, como os estudantes abandonaram as estantes em favor do material de referência online, as bibliotecas universitárias estão querendo se livrar de milhões de volumes não lidos em uma limpeza de nível nacional, o que deixa profundamente perturbados alguns estudiosos amantes da palavra impressa.


Sala vazia. Falta espaço no campus universitário americano; a solução foi a de remover parte do rico acervo Foto: Michael Rubinkam/AP

As bibliotecas estão armazenando os livros, contratando revendedores ou simplesmente reciclando-os. Há um número cada vez maior de livros na nuvem, e as bibliotecas estão se unindo para garantir que cópias impressas sejam mantidas por alguém, em algum lugar. Ainda assim, isso nem sempre cai bem junto aos acadêmicos que praticamente vivem na biblioteca e argumentam que as grandes coleções, sempre disponíveis, são vitais para a pesquisa.

“Ninguém está realmente à vontade com isso”, disse Rick Lugg, diretor executivo da OCLC Sustainable Collection Services, que ajuda as bibliotecas a analisar suas coleções. “Mas, sem acesso a recursos infinitos para lidar com isso, trata-se de uma situação que precisa ser enfrentada”.

Na Universidade Indiana da Pensilvânia (IUP), as prateleiras da biblioteca transbordam com livros que recebem pouca atenção. Como uma empoeirada monografia sobre desenvolvimento econômico na Escócia vitoriana. Ou almanaques internacionais de televisão de 1978, 1985 e 1986. Um livro cujo título, Finanças Pessoais, parece relevante até que se veja a data de publicação: 1961.

Como quase metade da coleção da IUP ficou sem ser consultada durante 20 anos ou mais, então os administradores da universidade decidiram que deveria ser realizada uma grande limpeza. Usando o software do grupo de Lugg, eles apresentaram uma lista inicial de 170 mil livros que devem ser analisados para possível remoção.

Os professores que ganham a vida graças ao conteúdo das estantes manifestaram sua indignação diante do fato.

“Uma ideia incrivelmente mal concebida” e “uma facada no coração”, escreveu Charles Cashdollar, professor emérito de história, em carta ao reitor e ao pró-reitor. “Para os humanistas, jogar fora tais livros é tão devastador quanto seria para outras pessoas o bloqueio do laboratório ou do estúdio ou fechar as portas da clínica”.

Embora tal depuração sempre tenha ocorrido nas bibliotecas, os especialistas dizem que a situação está complicada. As finanças são um fator. Entre funcionários, despesas gerais e outros gastos, custa cerca de US$ 4 manter cada um dos livros na prateleira por um ano, de acordo com um estudo de 2009. Espaço é outro fator a se acrescentar. As bibliotecas simplesmente estão ficando sem espaço.

E, claro, a digitalização de livros e outros materiais impressos afetou dramaticamente a forma como os alunos pesquisam. A circulação vem diminuindo há anos.

As bibliotecas dizem que precisavam evoluir e fazer melhor uso de valiosos imóveis no campus. Estudantes ainda se reúnem na biblioteca. Mas eles a usam de maneiras diferentes. As estantes de livros estão dando lugar a salas de estudo em grupo e centros tutoriais, locais para trabalhos artesanais e cafeterias, já que as bibliotecas tentam se reinventar para a era digital.

“Somos uma espécie de sala de estar do campus”, disse a bibliotecária da Universidade Estadual do Oregon, Cheryl Middleton, presidente da Associação de Bibliotecas Universitárias e de Pesquisa. “Não somos apenas um depósito.”

É uma mudança radical. Até recentemente, o valor de uma biblioteca era medido pelo tamanho e alcance de seu acervo. Alguns acadêmicos ainda veem isso dessa maneira.

Na Universidade de Syracuse, centenas de professores e estudantes se opuseram a um plano para depositar livros num local a quatro horas de distância do campus universitário. A escola terminou construindo sua própria instalação de armazenamento para 1,2 milhões de livros, perto do campus.

Na IUP, uma universidade estadual a 96 quilômetros de Pittsburgh, a faculdade reagiu com inquietação depois que as autoridades escolares anunciaram um plano para descartar mais de um terço dos livros.

Cashdollar argumentou que a circulação é um indicador pobre do valor de um livro, uma vez que os livros são frequentemente consultados, mas isso não foi conferido. Reduzir substancialmente a coleção de livros impressos de uma biblioteca também ignora o papel do acaso na pesquisa, quando se procura um livro nas prateleiras, mas se tropeça em outro, que leva a uma nova visão ou abordagem, dizem Cashdollar e outros críticos.

“Nós vamos jogar fora quantos deles for possível para que a biblioteca continue funcionando, o que não é uma boa estratégia”, disse Alan Baumler, professor de história da IUP. “Eles dizem que querem mais áreas de estudo, mas acho difícil acreditar que não exista outro lugar para os alunos estudarem”.

O projeto da biblioteca refere-se mais à responsabilidade na administração dos recursos do estado do que a um esforço para liberar espaço, disse o diretor Timothy Moerland. Mas ele compreende a paixão de seus colegas.

“Existem alguns que jamais se sentirão à vontade com a ideia de que qualquer livro seja abandonado à sua própria sorte”, disse ele.

As bibliotecas dizem que o objetivo é tornar as suas coleções mais relevantes para os estudantes, ao mesmo tempo em que certifica que os materiais menos importantes não fiquem perdidos na história. Um grande repositório digital chamado HathiTrust tem encomendas de 50 bibliotecas para manter mais de 16 milhões de volumes impressos. Outros 6 milhões foram preservados pelo Eastern Academic Scholars 'Trust, consórcio de 60 bibliotecas do Maine à Flórida.

Um comitê de faculdades da IUP está revisando o que Moerland chama secamente de a “lista na mira” para garantir que obras importantes permaneçam nas prateleiras. O número final de livros a serem removidos ainda não foi determinado, mas a escala potencial está facilmente à disposição. Os bibliotecários afixaram grandes adesivos vermelhos na lombada dos volumes listados.

Alguns estudantes dizem que se preocupam com a falta de prazo se tiverem que esperar por um livro que a biblioteca já não possui. Outros, como a novata de 19 anos, Dierra Rowland, dizem que estão a favor.

“Se ninguém os está lendo”, ela disse, “qual é o sentido de mantê-los?” / Tradução de Claudia Bozzo

NÚMEROS

170 mil livros devem ser analisados para uma possível remoção da Universidade da Pensilvânia, dividindo a opinião dos professores e alunos, sendo que os últimos dizem que não se importam, pois não são lidos

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Big Brother da vida real : a privacidade individual acabou. Mas, afinal, isso é bom ou ruim?


Câmeras de vigilância, drones, satélites, smartphones: estamos sendo vigiados, o tempo todo. A privacidade individual acabou. Mas, afinal, isso é bom ou ruim?

Enquanto lê esta página, alguém pode estar de olho em você - na rua, num restaurante, até mesmo na sua casa. A oferta crescente de tecnologias digitais anuncia o fim da privacidade do indivíduo, um pesadelo futurista que povoou livros clássicos, como 1984, de George Orwelll, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

National Geographic. Edição Fevereiro 2018.

#NasBancas

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Itália lança portal com 200 mil músicas gratuitas


O ministro italiano de Bens Culturais, Dario Franceschini, anunciou nesta segunda-feira (5) a inauguração de um portal de música gratuito chamado “Canzone Italia”.

Ansa / IstoÉ

“Nasceu o portal da música italiana: Mais de 200 mil obras – de 1900 a 2000 – para escutar e se ‘aprofundar’ ao longo das páginas”, declarou o ministro. O portal, que tem funcionamento similar ao da plataforma Spotify, é dividido em quatro grandes áreas: de 1900 a 1950; de 1950 a 2000; “Tradições Populares”; e “Contribuições Especiais”.   

Além disso, o site será atualizado mensalmente com aproximadamente 5 mil canções. Já há algumas playlists disponíveis, como “Napoli Ride”, “Dialetti in Città” e “Ritmo Sincopato”.   

A criação do “Canzone Italia” é fruto de uma colaboração do Instituto para os Bens Sonoros e Audiovisuais com os ministérios da Educação e das Relações Exteriores e a Associação de Produtores Independentes, Autores, Intérpretes, Músicos, Especialistas e Colecionadores Privados (Siae).   

Para Franceschini, “o portal se tornará um arquivo central do Estado”. “É um trabalho enorme, muito importante até para a imagem da Itália no mundo”, disse. A inauguração do site acontece um dia antes do início do Festival de Sanremo, principal competição musical da Itália e que reunirá alguns dos artistas mais celebrados do país.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Livro discute o uso do Whatsapp no ensino


Lançado recentemente, o livro da Editus - Editora da UESC, com co-edição da EDUFBA, põe em foco a discussão do uso de aplicativos enquanto recursos pedagógicos. "Whatsapp e educação: entre mensagens, imagens e sons" foi organizado por Cristiane Porto, Kaio Eduardo Oliveira e Alexandre Chagas, contando com 13 artigos de diferentes pesquisadores do Brasil e de outros países.

A obra discute a utilização do aplicativo Whatsapp enquanto aliado no processo de ensino e aprendizagem no contexto atual da cibercultura. Os capítulos que o compõem apresentam experiências de pesquisadores, propostas de ensino e aprendizagem, e outras formas de ensinar e aprender que têm o Whatsapp como mediador do processo.

Sumário

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Uma distopia digital


Não é à toa que muitos consideram dados equivalentes ao petróleo; para Morozov, no entanto, o novo petróleo não são os dados, mas a inteligência artificial.

Pedro Doria | O Estado de S. Paulo
Imagem: Internet (Evgeny Morozov)

Há uma nova teoria circulando a respeito de para onde a internet nos leva. Segundo esta leitura, algumas poucas empresas estão construindo sistemas de inteligência artificial que se tornarão rapidamente fundamentais para a vida. Todos os governos, organizações da sociedade civil e indústrias dependerão desta tecnologia. Que será controlada por um oligopólio. Estamos assistindo ao nascimento de monstros.

Sempre que alguém apresenta um cenário distópico assim, não custa dar uns passos atrás.

Para muitos no Vale do Silício, Evgeny Morozov é um neoludita. Alguém com medo irracional de tecnologia. Esta semana, a revista americana Politico o anunciou em sua lista de 28 pessoas que farão diferença em 2018. 

Nascido na Bielorrússia, criado na Bulgária, morador de Barcelona – 33 anos. É escritor. Foi professor visitante em Stanford, a universidade no coração do Vale. Teve uma bolsa do Yahoo para estudar em Georgetown. TED Fellow. E está terminando o doutorado em Harvard. Não se trata do currículo típico de um ludita. Mas ele desconfia do Vale.

Na sua visão, por exemplo, o Grande Firewall da China não é apenas um instrumento de censura do governo. Tem também este papel.

Mas é, antes de tudo, um recurso protecionista. Impede a entrada de tecnologia americana no País do Centro, enquanto sua própria indústria se desenvolve. Esta semana, aliás, o governo americano intercedeu perante uma operadora de celular para que os aparelhos topo de linha da Huawei não sejam vendidos, pois são equivalentes a Motorola e Apple. A guerra pelo futuro da tecnologia entre os dois países está oficialmente aberta.

Morozov questiona a ideia, amplamente difundida, de que dados são, para o século 21, o que o petróleo foi para o século 20.

Dados alimentam os produtos tecnológicos e sustentam a indústria. A Amazon armazena e analisa todo nosso comportamento na loja virtual. A partir do conjunto de todos seus clientes, faz cálculo de preços, decide o que apresentar a cada indivíduo, define logística. O Google usa dados de motoristas para oferecer o melhor caminho pelo Waze, compreende nossas inúmeras escolhas em buscas para produzir resultados melhores. O Facebook, e seu já famoso algoritmo, é também este imenso banco de dados no qual cada reação ao que vemos é armazenada para tornar o serviço mais eficiente.

E dados, evidentemente, são usados para veicular publicidade.

Não é à toa, portanto, que muitos consideram dados equivalentes ao petróleo. Se guerras foram travadas para garantir o combustível que ergueu economias, hoje são dados que alimentam a nova economia. Para Morozov, no entanto, esta é uma ilusão.

O novo petróleo não são os dados, mas a inteligência artificial.

Na fase pela qual passamos, as grandes massas de dados estão ensinando complexos algoritmos de inteligência artificial. Sim, dados são cruciais. Porque é o big data, este grande volume, que permite aos sistemas avaliarem as muitas possibilidades de comportamento. É enxergando padrões se repetirem que sistemas de IA aprendem a prever.

E aí está o pulo do gato: a inteligência artificial está sendo treinada e sofisticada por empresas, como Amazon, Google, Facebook, Microsoft, IBM. Aos poucos, aplicações surgem. Para todas as indústrias: do varejo à saúde, da educação ao transporte, energia, mineração. Governo. Democracia. Publicidade. Tudo será muito mais eficiente com inteligência artificial. A um ponto tal que, quem não tiver, estará muito atrás. Serão poucos vencedores.

Daí: desigualdade. Na leitura de Evgeny Morozov está nascendo um novo oligopólio. 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Tiragem impressa dos maiores jornais perde 520 mil exemplares em 3 anos

Assinantes digitais crescem só 32 mil. Queda do impresso em 2017: 147 mil

Poder360

 o hábito de ler jornais impressos diminuiu. A plataforma agora é outra imagem da internet

Os principais jornais diários do Brasil continuaram a registrar perdas em suas tiragens impressas em 2017. A queda no ano passado foi de 146.901 exemplares na circulação média diária para 11 dos principais veículos nacionais.

A tendência vem se repetindo há 3 anos.

De 2015 a 2017, a redução na circulação média diária impressa foi de 520 mil exemplares.

Em dezembro de 2014, a tiragem impressa total desses 11 diários era de 1.256.322 exemplares em média por dia. Em dezembro de 2017, o número havia caído para 736.346 –o equivalente a uma redução de 41,4%.

Este levantamento considera, em ordem de tiragem impressa, Super Notícia (MG), Globo (RJ), Folha (SP), Estado (SP), Zero Hora (RS), Valor Econômico (SP), Correio Braziliense (DF), Estado de Minas (MG), A Tarde (BA) e O Povo (CE). A Gazeta do Povo (PR) parou de circular em versão impressa diária em 2017 –no início do ano passado sua circulação média era de apenas 26,6 mil exemplares por dia.

Os dados utilizados neste post são do Instituto Verificador de Circulação (IVC), que faz a auditoria das tiragens dos jornais citados. Clique nas imagens a seguir para ampliá-las:



Quando se levam em conta as perdas na tiragem impressa e o pequeno ganho nas assinaturas digitais, chega-se a uma perda de 488 mil leitores pagantes nos últimos 3 anos. No cômputo geral, todos os veículos perderam circulação. Eis os dados:


A circulação digital desses jornais poderia compensar em parte a perda de venda das edições impressas. Exemplos do exterior, como o New York Times, inspiram as publicações brasileiras. O Times passou de 2 milhões de assinantes digitais em 2017.

No Brasil, entretanto, o boom das assinaturas pagas de edições on-line dos jornais ainda não chegou com o vigor que se observa no mercado norte-americano.

Nos últimos 3 anos, de 2015 a 2017, os 11 jornais brasileiros registraram 1 aumento modesto na venda de assinaturas digitais. O saldo é positivo, mas de apenas 31.768 cópias.

Como se observa os dados de 2015 e de 2016, nota-se que houve pouco avanço de leitores digitais que pagam para ter acesso aos principais veículos jornalísticos. Clique nas imagens para ampliá-las:




AUDIÊNCIA DIGITAL É GRANDE
Apesar de estar encolhendo quando se trata leitores pagantes nas suas versões impressas e digitais, os principais veículos jornalísticos brasileiros são potências na internet.

O conteúdo aberto –todos têm uma parte cujo acesso é gratuito– atrai milhões de visitantes aos sites de Folha, Globo, Estadão e outros.

Essa predominância dos veículos que praticam jornalismo profissional também pode ser vista no número de seguidores que cada 1 tem nas principais redes sociais.

Levantamento realizado na semana passada mostra o seguinte acervo de seguidores dos principais jornais diários no Facebook:

Folha: 5.954.066
Globo: 5.574.463
Super Notícia: 48.972
Estado: 3.711.606
Zero Hora: 2.572.606
Estado de Minas: 187.910
Correio Braziliense: 712.925
Valor Econômico: 982.096
Gazeta do Povo: 1.380.478
A Tarde: 203.976
O Povo: 1.311.636

Esse exército de seguidores não tem ajudado a turbinar os assinantes digitais. Todos os principais jornais têm planos especiais e promoções para atrair novos leitores.

Eis os valores mensais que cada veículo cobra (clique no nome dos veículos para ter acesso ao site de assinaturas):

Folha
assinatura da versão digital: R$ 29,90
assinatura combinada impressa e digital: R$ 104,90

O Globo
assinatura da versão digital: R$ 29,90
assinatura combinada impressa e digital: R$ 99,90

Valor
assinatura da versão digital: R$ 42,90
assinatura combinada impressa e digital: R$ 79,90

Estadão
assinatura da versão digital: R$ 10,90
assinatura combinada impressa e digital: RS$ 130,00

Correio Braziliense
assinatura da versão digital: R$ 19,90
assinatura combinada impressa e digital: R$ 58,31

Zero Hora
assinatura da versão digital: 19,90
assinatura combinada impressa e digital: R$ 67,90

Quem visita os sites de todos esses jornais listados acima notará uma idiossincrasia: o valor da assinatura apenas da versão impressa nunca é informado. Quem desejar descobrir precisa fazer uma ligação telefônica.

Trata-se de uma decisão deliberada dos veículos de matar aos poucos a plataforma impressa.

Outro fato que merece menção: quem deseja assinar qualquer jornal precisa realmente estar com muita vontade. Os sistemas são lentos e cheios de exigências que irritam o consumidor que gostaria de apenas clicar e dar o número do seu cartão de crédito.

No caso do jornal gaúcho Zero Hora o sistema é curioso. Para saber o valor do pacote de assinatura impressa e digital o consumidor é obrigado a deixar seu número de telefone para que o jornal ligue de volta. Foi assim que o Poder360 pôde obter os valores descritos acima.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A pedra no sapato de Zuckerberg

Aqueles que sonhavam com o paraíso da emancipação midiática se voltaram contra quem permitiu a balbúrdia das “fake news”: notadamente, o Facebook


Rodrigo Caetano | IstoÉ Dinheiro

Vivemos na era da informação. Os dados nunca foram tão abundantes, ou viajaram em velocidades tão rápidas. O paradoxo está no fato de que a desinformação também nunca foi tão evidente. O problema é que há uma relação inversamente proporcional entre a quantidade de informações a que uma pessoa é submetida e sua capacidade de discernir entre o real e o imaginário, de acordo com os estudiosos das teorias da comunicação. Esse entendimento não é, exatamente, novo. Um estudante de jornalismo do final dos anos 1990, provavelmente, terá lido sobre os efeitos dos extintos “jornalões” de domingo. Dizia-se, na época, que uma só edição dominical do “Folhão” ou do “Estadão” trazia mais informações do que um homem medieval estaria exposto durante toda sua vida. Essa superinformação acabava gerando, na verdade, uma desinformação generalizada. E ainda falávamos do papel.

Os tempos, no entanto, eram outros. A chamada “grande mídia” controlava a distribuição do conteúdo e fazia a sua “curadoria”. Os anúncios impressos ou televisionados garantiam o financiamento do jornalismo e da produção de conteúdo, ainda que a internet já indicasse que passaria como um trator por esse modelo. Então veio o Google, o Facebook, e tudo mudou. Com um misto de dinamismo americano e agressividade chinesa, as duas empresas sequestraram 20% dos gastos globais com publicidade. No ano passado, elas atraíram US$ 106 bilhões em anúncios, segundo a empresa de análises Zenith. Na mídia tradicional, quem chega mais perto é a americana Comcast, dona da NBC, com US$ 13 bilhões, oito vezes menos.

Se o impacto no mercado é absolutamente claro, os efeitos da mudança na sociedade ainda estão sendo sentidos. Numa primeira análise, o fim do “monopólio da grande mídia” aparecia como um sonho de liberdade. As barreiras que impediam a informação de ser disseminada democraticamente colapsavam e o mundo entraria em uma espécie de catarse informativa, na qual todos seriam, ao mesmo tempo, jornalistas e leitores, colaborando incessantemente para apurar e revelar a verdade. Isso não aconteceu. Com ajuda da Rússia, Donald Trump venceu as eleições nos Estados Unidos e aqueles que sonhavam com o paraíso da emancipação midiática se voltaram contra quem permitiu a balbúrdia das “fake news”: notadamente, o Facebook, de Mark Zuckerberg.

À medida que nos aproximamos de mais uma rodada de eleições importantes, nos EUA, no México e no Brasil, para citar alguns exemplos, a preocupação com os efeitos das redes sociais ganha os holofotes. Zuckerberg, por sua vez, sinaliza que, ainda que tenha tomado de assalto o mercado publicitário, não quer saber de lidar com o problema das “fake news”. Nas últimas semanas, ele anunciou medidas para, na prática, barrar o jornalismo, bom ou mau, dos feeds facebuquianos. Seu problema está no fato de que, apesar de ser altamente lucrativo para quem detém o “monopólio” da distribuição, o jornalismo tem um efeito colateral que se chama poder político. Não é possível ganhar dinheiro com ele sem lidar com as forças contraditórias que regem a geopolítica mundial. Nem se abster da responsabilidade de se ater aos fatos para criar narrativas, mesmo as enviesadas.

Antes um aliado na obtenção de audiência, o jornalismo se tornou uma pedra no sapato de Zuckerberg. Algo que atrapalha sua missão de conectar e aproximar as pessoas. Pior, transforma o Facebook em vidraça, em ator político, o que gera algumas demandas por regulação do setor de redes sociais, um antigo temor do empresário. A solução é devolvê-lo aos seus antigos donos, a grande mídia, acostumada com a tarefa de informar a opinião pública. O estrago, no entanto, está feito.

Ao afastar as notícias da rede social, Zuckerberg está criando uma brecha para as notícias falsas. A esperança é que esse espaço seja ocupado por aqueles que, nas palavras de Bertolt Brecht, tenham a coragem de dizer a verdade. “A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira”, escreveu o poeta e dramaturgo alemão, em um texto de 1934, com o qual conclamava os escritores a lutar contra o fascismo. O futuro da democracia depende disso.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Biblioteca Nacional de Cuba digitaliza sua herança cultural-musical

A Biblioteca Nacional de Cuba José Martí , trabalha pela primeira vez na digitalização do seu patrimônio cultural-musical.


O principal objetivo do resgate de fundos audiovisuais é garantir a conservação, restauração e preservação dos materiais de som da sala de música Alberto Muguercia e Algerier León, de acordo com Juan Carlos Val Pino, especialista em serviços públicos dessa instituição:

"Começamos o trabalho com a mais significativa discografia cubana existente antes do triunfo da Revolução e com autores como Ernesto Lecuona, Eduardo Sánchez de Fuentes e Alejandro García Caturla", explicou.

Para a realização do projeto, Val Pino, seu principal representante, visitou em outubro de 2016 as bibliotecas Richelieu-Louvois e François-Mitterrand, ambas na França, onde um processo semelhante foi realizado há alguns anos. De acordo com o especialista, para a digitalização em curso na instituição cubana, 17 equipes foram doadas pela Biblioteca Nacional da França, que chegou a este país em junho do ano passado.

O tempo dedicado a digitalizar um disco depende da sua condição física e das suas condições de som, e geralmente, eu trabalho com cinco discos em um dia, disse Val Pino. Tania Barceló Suárez, bibliotecária especialista da Media Library, disse que esse processo é de vital importância porque permite aos usuários acessar música de formatos modernos, sem expor os discos antigos e danificados pela passagem do tempo.

A sala de música da biblioteca atualmente oferece o serviço de audição e oferece partituras e livros, os últimos em formato impresso.

via El Mercurio salmantino



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Isso é muito Black Mirror


Cuidado: o futuro que a série mostra está mais próximo do que você imagina

Espelho Negro
Desligue o celular e olhe para a tela preta. Esse é o "black mirror", o "espelho negro" que batiza a série criada pelo britânico charle Brooke, e que acaba de ganhar sua quarta temporada. Além da escuridão, você também vê seu reflexo ali. Por isso é pouco exato dizer que Black Mirror trata só de tecnologia -  mais do que isso, é uma série sobre você. Sobre nós. Sobre como a tecnologia está afetando a forma como a gente convive. 

Repare que o temo verbal está no presente. Sim, os episódios são centrados em futuros distópicos. Mas eles só servem para ilustrar aonde podemos chegar sendo o que somos neste momento. É o que as reportagens desta edição apresentam: a atualidade não apenas presente, mas gritante em cada capítulo de Black Mirror.

Enquanto você lê estas linhas, criminosos transmitem suas ações em tempo real nas redes sociais, como acontece nos episódios do porco; cientistas realizam estudos sérios sobre imortalidade, como em San Junipero; empresas criam gadgets para transformar soldados em supercombatentes, como em Engenharia Reversa; hackers invadem redes para monitorar pessoas (tema de Manda Quem Pode), gente lincha gente na internet (Odiados pela Nação). Tudo isso faz parte desta edição, que contou com o trabalho de mais de uma dezena de repórteres e uma série de especialistas. 
Aproveite.

Dossiê Super Interessante. Edição Janeiro/2018.
Nas bancas.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Universidade dos EUA abre arquivos de Garcia Márquez

Instituição disponibiliza gratuitamente mais da metade do arquivo de 27 mil páginas do Nobel em Literatura. Medida chama a atenção, já que obra do colombiano continua protegida por direitos autorais.

Deutsche Welle

 Schriftsteller Gabriel Garcia Marquez (picture-alliance/AP Photo/E. Verdugo)
'Gabo' em foto de 2011

Mais da metade de um arquivo de 27 mil páginas referentes ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez foi liberada para uso público gratuito, informou o jornal The New York Times nesta segunda-feira (11/12).

O material em questão envolve diversos manuscritos, fotografias, roteiros e cartas, além de 22 cadernos de anotações pessoais e de memórias do prêmio Nobel de Literatura, tudo issoagora disponível na internet tanto em inglês como em espanhol.

A iniciativa partiu do Centro Harry Ransom, da Universidade do Texas, que adquiriu o arquivo literário do autor em 2014 por 2 milhões de dólares. A medida chama a atenção pelo fato de a obra ainda estar sob proteção dos direitos autorais.

"Muitas vezes, tem-se uma visão limitada da propriedade intelectual, com a ideia de que o uso acadêmico ameaça ou diminui seu interesse comercial", disse ao jornal Steve Enniss, diretor do Harry Ransom Center.

"Agradecemos a família de Gabo por liberar o arquivo e reconhecer esse trabalho como uma prestação de serviço a seus leitores em todo o mundo", acrescentou, usando o popular apelido pelo qual Garcia Márquez é conhecido.

Desde 2015, quando foi aberto para pesquisas, o arquivo do escritor colombiano se tornou uma das coleções mais circuladas da instituição, um fenômeno que agora deverá se expandir ainda mais.

"Qualquer pessoa com acesso à internet pode ter uma visão aprofundada do arquivo de García Márquez", disse Jullianne Ballou, bibliotecária do projeto Ransom Center. "Abrangendo mais de meio século, o conteúdo reflete a energia e a disciplina de García Márquez e revela uma visão íntima de seu trabalho, família, amizades e política."

O escritor alcançou renome internacional graças ao uso do chamado "realismo mágico”, especialmente em romances aclamados como 100 anos de solidão e O amor nos tempos de cólera. Após sua morte em 2014, ele chegou a ser descrito pelo presidente Juan Manuel Santos como o "maior colombiano que já viveu".

Garcia Márquez começou a carreira de escritor como jornalista e não teve medo de tecer críticas tanto contra políticos colombianos como contra estrangeiros. Um crítico ardente do capitalismo desenfreado, também se opôs ao que ele apontou ao longo de sua vida como um imperialismo arrebatador por parte do governo dos Estados Unidos.

Seus laços com o partido comunista da Colômbia foram inclusive motivo para que ele fosse proibido de entrar nos EUA por três décadas. Ironicamente, Garcia Márquez é o romancista favorito do ex-presidente americano Bill Clinton, que uma vez o chamou de "o mais importante escritor de ficção em qualquer idioma desde a morte de William Faulkner".

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A máquina que trava a ciência


Como exigências burocráticas e uma cultura que privilegia a quantidade em vez da qualidade levam cientistas à exaustão - e à malandragem.

Superinteressante (Dezembro/2017)

O tcheco Ján Hoch tinha 16 anos em 1940, quando perdeu a família nas câmaras de gás de Auschwitz. Sem lenço e sem documento, alistou-se em um contingente de exilados do exército inglês, mudou de nome para Robert Maxwell e combateu na 2a Guerra Mundial. Ao final do conflito, ganhou condecorações e cidadania britânica. Acabou destacado para uma base na Berlim ocupada.

O militar não sabia, mas sua temporada na capital alemã o tornaria um milionário – e mudaria a história da ciência. Lá ele conheceu a Springer, uma editora alemã fundada em 1842. Eles eram especialistas em publicar artigos científicos: os textos que todo pesquisador precisa escrever para divulgar seus experimentos, descobertas e resultados de pesquisa.

Investir nesse ramo em um continente destruído não é um jeito óbvio de ganhar dinheiro. Maxwell, porém, enxergou longe: percebeu que a ciência iria bombar no pós-guerra. Os governos, afinal, já tinham percebido que, quanto maior o avanço nos laboratórios, maior a vantagem no front (a bomba atômica, filhote da Teoria da Relatividade, que o diga). Então não faltaria dinheiro público para as pesquisas. Além disso, era óbvio que os cientistas britânicos precisariam cada vez mais de notícias sobre a ciência que estava sendo feita em outros países – a começar pela própria Alemanha, onde ele estava.

Bingo. Maxwell acionou sua rede de contatos e em dois tempos se tornou distribuidor oficial de artigos científicos da Springer no Reino Unido e nos EUA. A sacada foi tão lucrativa que em 1951 ele já tinha capital e contatos para fundar sua própria editora, agora em território britânico – a Pergamon Press. Maxwell prosperou, criou um império midiático e passou décadas nas listas de homens mais ricos da Inglaterra.

Mas o grande legado do magnata não foi exatamente a Pergamon. Foi ter criado um modelo de negócios extremamente lucrativo. E que ainda dá um belo dinheiro: a editora Elsevier – que comprou a Pergamon em 1991 e hoje é a maior editora de literatura científica do planeta – lucrou US$ 1 bilhão sobre um faturamento de US$ 2,7 bilhões, margem de lucro de 36,7%, maior que o do Google (26,5%).

Lindo. Só tem um detalhe: essa indústria pode ser péssima para a ciência. É o que vamos ver a seguir.

De Newton à Nature

Na ciência, não basta descobrir, é preciso contar aos outros o que você descobriu. Copérnico, Galileu e Newton, por exemplo, escreviam livros técnicos, relatando suas experiências e resultados. Com o tempo, a divulgação passou a acontecer menos por livros e mais por artigos científicos – peças curtas, publicadas em revistas e periódicos especializados.

As primeiras revistas científicas, lá no século 18, não tinham fins lucrativos. Mas com o aumento dos investimentos públicos nos laboratórios, a partir da década de 1950, as universidades passaram a ter muito mais pesquisadores. São todos funcionários com carteira assinada, que precisam mostrar serviço – e que recebem avaliações de desempenho.

Pois bem. Para fazer essas avaliações, a comunidade acadêmica adotou basicamente dois critérios: a quantidade de artigos científicos publicados em revistas – um suposto sinal de produtividade e dedicação – e o número de vezes em que esses artigos são citados em outros artigos – o que, em teoria, é uma evidência de que o trabalho foi relevante e influente.

Bom, os cientistas não querem lucro, só divulgação. Então entregam o material de graça. Na outra ponta da equação, há as universidades, que não têm outra opção a não ser pagar o que as editoras pedem para ter acesso às pesquisas mais importantes (afinal, um pesquisador só consegue trabalhar se puder ler o trabalho de outros pesquisadores). Isso deu origem a um modelo de negócio sem igual: você, dono da editora de periódicos científicos, recebe conteúdo de graça e vende a um público disposto a pagar muito.

“Quando os cientistas passaram a ser avaliados por produtividade, eles tiveram de publicar mais”, diz Fernando Reinach, ex-biólogo da USP. Empresários como Maxwell farejaram o bom negócio – pegar de graça do governo [que financia as pesquisas] para vender de volta para o governo [que financia as universidades] – e mais do que isso: perceberam que era fácil incentivá-lo com um empurrãozinho.

O empurrãozinho, no caso, foi criar grifes da ciência: periódicos muito seletivos, que só publicam a nata das pesquisas. Sair em títulos como Cell, Nature ou Science dá visibilidade e é bom para a carreira dos cientistas. Outro estímulo para o lucro foi criar uma maré de revistas extremamente especializadas, que abarcavam todos os nichos da ciência – até os que ainda nem existiam.

“Quando um periódico fica famoso, ele cria um monopólio em sua área. Se há um periódico de um determinado campo [de pesquisa], todas as bibliotecas universitárias precisam ter uma assinatura”, explica Neal S. Young, chefe do setor de Hematologia do Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos EUA. “Com isso, as editoras podem cobrar preços muito altos.” A própria Elsevier tem 2,7 mil títulos – entre eles Revascularização Cardiovascular e o Periódico Internacional de Adesão e Adesivos.

As bibliotecas, com orçamentos na casa dos milhões de dólares, se entupiram de revistas especializadas. Em 1988, Maxwell afirmou que, com a internet e o fim dos custos de impressão, as editoras científicas lucrariam mais ainda. Acertou.

“Na era digital, a figura da editora científica é ainda mais importante”, afirma Dante Cid, vice-presidente de relações acadêmicas da Elsevier no Brasil. “Ela inibe a disseminação de informações equivocadas e colabora com a distribuição da pesquisa de qualidade.”

De fato, os padrões de excelência da Elsevier e de outras editoras de peso continuam altos. Mas o sistema causa distorções. “Um Newton da vida, que passava a vida toda trabalhando e publicava pouco, não teria chance no século 21”, diz Fernando Reinach.


2,7 mil: É o número de revistas científicas de uma única editora, a Elsevier. São títulos ultraespecializados, como “Periódico Internacional de Adesão e Adesivos” e “Revista da Sociedade da Fertilidade do Oriente Médio”. 

Masturbação acadêmica

Hoje, para um cientista brasileiro da área de Farmácia receber a classificação máxima (1A) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, ele precisa ter publicado 70 artigos científicos nos últimos dez anos. Ou seja: ele é obrigado a criar um avanço científico a cada dois meses.

Como a classificação de um cientista no CNPq define quanto dinheiro ele pode receber para suas pesquisas, surge a mentalidade do “quanto mais, melhor”. A quantidade bruta de artigos passa a valer mais do que a criatividade e a originalidade de cada um. Os pesquisadores, sob pressão, se preocupam mais em bater metas do que em produzir boa ciência. “É aflitivo”, resume Kenneth Camargo, professor de saúde coletiva da UERJ e editor de revistas científicas. “Para conseguir promoções na carreira e recursos de pesquisa, você é induzido a publicar o tempo todo. E isso gera expedientes eticamente discutíveis.”

Um desses expedientes é o “pedágio”: você, cientista, exige ser creditado como autor em alguma pesquisa que tenha usado equipamento do seu laboratório – mesmo que você nem tenha participado do estudo. Outro é a “ciência salame”: fatiar uma pesquisa longa, que deveria ser apresentada de uma vez só, em vários pequenos artigos com conclusões parciais – o que aumenta o volume de produção e a classificação acadêmica do autor.

Uma consequência do salame é que o impacto científico de cada artigo diminui. E aí surge um problema: não basta publicar muito. Suas publicações também precisam servir de referência para pesquisas futuras no mesmo assunto. Se seu trabalho é fragmentado e inconclusivo, outros cientistas não terão motivo para consultá-lo.

É fácil verificar essa infestação de artigos pouco relevantes nos números. Um estudo feito por Sidney Redner, da Universidade de Boston, revelou que, dos 353  mil estudos publicados entre 1893 e 2003 na Physical Review, apenas 2 mil (0,56%) tiveram mais de cem citações. Oitenta e quatro mil (24%) foram citados só uma vez.

O número de citações, porém, também adiciona pontos de desempenho. Então não vale a pena fazer um monte de salames, certo? Não: os pesquisadores criaram artifícios para obter citações do nada. É o caso d0s “clubes de citações”. Você força a barra no seu artigo para citar trabalhos dos colegas. Os colegas sabem que você faz isso por eles, e também dão um jeito de citar seus artigos pouco relevantes. Pronto, está formado o clube. Também há as autocitações: você chega e cita a si próprio. Masturbação acadêmica.

Pagou, passou

Se nada da lista acima der certo, ainda há as revistas científicas do tipo “pagou, passou.” Esse nicho de mercado surgiu na última década, com intenções boas: as gigantes, como Nature e Science, ofereceram aos pesquisadores a opção de pagar pelos custos de publicação de seus artigos. Assim, o conteúdo fica disponível gratuitamente na internet, sem paywall ou assinatura – colaborando com a democratização da ciência.

Era só uma transferência do custo de publicação: parar de cobrar do leitor e passar a cobrar do autor, sem diminuir as exigências de qualidade. Mas é claro que a fronteira entre pagar para liberar o acesso à pesquisa e pagar para conseguir publicar um artigo péssimo é tênue, para dizer o mínimo. Tanto que surgiu um mercado paralelo de revistas picaretas, que topam qualquer negócio.

Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado, estima que entre 5% e 10% dos artigos open access tenham sido publicados por periódicos que nem leem o material enviado por pesquisadores desesperados – e cobram centenas de dólares por essa conveniente vista grossa.

70 artigos científicos em 10 anos: É o que um cientista brasileiro da área de Farmácia precisa publicar para chegar ao topo da carreira. Nem um Isaac Newton teria chance nesse modelo. A solução? “Fatiar” uma única descoberta em vários artigos. Diluindo, rende mais. 

Em 2014, para fazer um teste bem-humorado, o cientista da informação australiano Peter Vamplew enviou a uma dessas publicações caça-níqueis um artigo falso intitulado Get Me Off Your Fucking Mailing List (em bom português, “me tire da sua p**** de lista de e-mails”). A coisa consistia, dos gráficos à conclusão, no pedido do título repetido 870 vezes.

Algumas semanas depois, recebeu a resposta da revista – que, apesar do site de aparência amadora, leva o pomposo nome de Periódico Internacional de Tecnologia Computacional Avançada: os editores pediram algumas “referências a mais”. De resto, tudo ótimo: Me tire da sua p**** de lista de e-mails foi aprovado para publicação.

Esse arsenal de truques deixa claro: publicar com qualidade e em quantidade ao mesmo tempo é impossível. “A boa ciência, que é de fato inovadora, sempre foi rara”, afirma Kenneth Camargo. “Muita gente trabalha, mas as grandes contribuições são agulhas no palheiro. Com essa maré de artigos científicos, você multiplica os palheiros, mas não as agulhas.”

Por outro lado, avaliar ciência sem usar números não é tarefa fácil. Mesmo o CNPq tem consciência de que quantidade não é sinônimo de qualidade. Acontece que não há uma maneira objetiva de medir criatividade e inovação. No final do dia, as bolsas ainda precisam ser distribuídas e os professores ainda precisam ser contratados de acordo com seus méritos. As universidades concordaram que citações e artigos são o melhor jeito de fazer isso – e as editoras pularam dentro. Mesmo assim, não falta quem nade contra essa corrente.

Robin Hood na pós

Em junho deste ano, aos 28 anos de idade, a pesquisadora Alexandra Elbakyan, nascida no Cazaquistão, foi condenada pela Justiça americana a pagar US$ 15 milhões à Elsevier. A ativista começou uma carreira promissora na neurociência, mas não tinha verba para consultar as dezenas de artigos científicos que precisava para sua pós-graduação. Se uma universidade não assina um determinado periódico, o pesquisador precisa desembolsar em média US$ 30 para acessar um único artigo por apenas 48 horas. Salgado.

Dante Cid, da Elsevier, justificou à SUPER que os preços altos são reflexo da enorme operação da editora – que emprega 7,5 mil pessoas em 12 países e publica 16% de todas as descobertas do mundo.

Seja como for, Alexandra Elbakyan estava em busca de uma solução para o bolso dos cientistas. Descobriu, então, que vários deles usavam fóruns na internet para compartilhar senhas e assinaturas de periódicos. Inspirada pelo método, em 2011 criou o Sci-Hub: um banco de artigos pirateados que contém 64,5 milhões de arquivos – tudo alimentado por senhas fornecidas anonimamente.

“O Sci-Hub é para a ciência hoje o que o Napster foi nos anos 1990”, avalia Marco Mello, professor de ecologia da UFMG. “Se ele não tivesse aparecido, a indústria da música não teria se reinventado. Essas iniciativas estão forçando o sistema a se repensar.”

Elbakyan se exilou e está fora do alcance da Justiça americana, mas o Sci-Hub continua no ar, hospedado em domínios exóticos como o das Ilhas Cocos (.cc). De que a iniciativa é ilegal, não há dúvida. Mas sua popularidade silenciosa entre acadêmicos é um sintoma da frustração com o status quo da publicação científica. Dá para entender por quê.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Coleção "500 Perguntas 500 Respostas" Embrapa



As publicações dessa coleção foram elaboradas a partir de perguntas formuladas por produtores, associações de produtores, cooperativas, etc. e respondidas pela Embrapa. Além de ter acesso aos conteúdos de cada edição, você pode fazer o download dos títulos em versão digital ou comprar a versão impressa.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

‘Eis o Admirável Mundo em Rede’: internet, anonimato, desumanização

A Internet é aquilo que ninguém conseguia prever

Sandro Cantante | Comunidade Cultura e Arte (Portugal)


Na Internet, ninguém sabe se tu és um cão. A frase vem associada a um cartoon da New Yorker (1993), referindo-se ao anonimato que marca as comunicações na Internet e é recuperado por Werner Herzog no seu documentário Eis o Admirável Mundo em Rede ou, no original, Lo and Behold, Reveries of the Connected World (2016). [Eis os Delírios do Mundo Conectado  no Brasil] Contrastando com esta ideia, o informático americano Danny Hillis, um dos muitos entrevistados pelo realizador alemão, relembra os tempos em que havia apenas outros dois Dannys a utilizar a Internet e que ele os conhecia aos dois. A evolução até aos tempos correntes é tão impressionante como inesperada, mas a tarefa de catalogar todos os utilizadores da Internet tornou-se impossível. Esta evolução alterou irremediavelmente o modo como comunicamos, mas considerando factores como a desumanização das interações sociais associada, serão estas mutações sinônimo de progresso?

O físico americano Lawrence Krauss, entrevistado em Lo and Behold, afirma que a Internet é aquilo que ninguém conseguia prever. Os filmes de ficção científica retratavam carros voadores e naves espaciais a explorar o Universo, mas poucos conseguiram imaginar algo que se assemelhasse ao que hoje é a Internet e ao modo como as pessoas comunicam. A busca pelo progresso está hoje no seu pico e muitas são as situações ilustradas por Herzog no seu documentário que demonstram que o ser humano não pretende desistir do aperfeiçoamento do sintético. Torna-se muitas vezes mais fácil dar valor ao veículo da comunicação, seja um computador ou um smartphone, do que ao aspecto humano que se materializa no receptor da nossa mensagem. No momento em que escrevo este texto, num de muitos cafés em Lisboa, das onze pessoas presentes apenas duas estão a ter uma conversa sem ser por meio de qualquer dispositivo. As restantes nove estão fixadas em telemóveis, tablets ou computadores, grupo onde eu próprio me incluo.


Hoje contamos com Facebook, WhatsApp, Skype, Tinder, entre inúmeras outras aplicações e plataformas que permitem conectar instantaneamente com outras pessoas localmente ou em qualquer ponto do globo. No entanto, a desumanização é uma realidade e torna-se mais comum ver um perfil, um avatar ou um simples nome a representar aquilo que é uma pessoa, sendo muitas vezes essa toda a informação que temos acerca dela. Longe está o tempo em que apenas três Dannys navegavam na Internet e se conheciam entre si, quando existia um pequeno livro com poucos centímetros de volume com todos os utilizadores da Internet. Herzog aponta que a desumanização e o anonimato da comunicação validam o ódio e o abuso, indicando o exemplo de uma família americana que recebeu de anônimos fotos da filha decapitada, depois de esta ter morrido num despiste de carro. Se somarmos os vários custos – especialmente morais – e a utilidade das várias possibilidades que nascem da Internet não é tão óbvio que o resultado seja positivo.

Um dos principais conselhos que damos aos mais novos relativamente à Internet é para não acreditarem que toda a gente é quem diz ser. Não é um perigo exclusivo da era digital, mas este é um veículo que facilita a tarefa de quem pretende tirar proveito de um anonimato quase total. Os acessos à Internet são localizáveis, os utilizadores do computador a que acederam também, mas talvez pedir às crianças que localizem o IP das pessoas com quem falam online antes de confiarem seja um conselho demasiado complexo. Dificilmente do outro lado está um cão, como brinca em 1993 a New Yorker, mas facilmente está alguém que não é quem diz ser e esta não é uma situação que afete apenas crianças. A instituição que nos pede dados bancários, que nos partilha a informação acerca do local de uma entrevista de emprego ou que nos indica onde determinado evento vai acontecer pode, com relativa facilidade, ter intenções diferentes das que parecem ser óbvias.


A web está bem viva e nunca como hoje a celebramos tanto, seja através de grandes eventos como a Web Summit ou das vantagens que nos fazem acreditar que tem a mais recente app ou mais um produto inovador. Estamos a explorar a realidade virtual na expectativa de encontrar o que não é possível ver no mundo que nos rodeia e perdemo-nos no que nos surge do outro lado de um ecrã, seja qual for o seu tamanho. Esta é a opinião também de Herzog, que nos mostra o caso de jogadores de videojogos que procuram reabilitação, apresentando casos como o de um casal coreano que deixou morrer o filho bebé por esquecimento, enquanto evoluíam a sua personagem num jogo online. Todos os ganhos que temos deste avanço tecnológico contrastam com as perdas a nível de comunicação e de humanização. Até podia mesmo estar um cão do outro lado do avatar que nos surge num jogo online, na foto de uma rapariga sorridente numa rede social ou no detentor do canal de YouTube que adoramos seguir, mas a verdade é que isso deixou de interessar.

Nos capítulos Life Without the Net e The End of the Net, Hergoz procura perceber como será a vida na eventualidade da Internet deixar de existir. O maior problema é o caráter viciante que está associado ao mesmo, podendo o ser humano não saber como voltar atrás, especialmente no caso de gerações que nasceram já num mundo em que a Internet é uma realidade. O que nos é pedido agora e cada vez mais é que nos adaptemos às novas formas de comunicar ao mesmo tempo que se procuram mecanismos para combater aspectos negativos como os que foram aqui listados. A Internet evoluiu, ultrapassando os limites controláveis que são apresentados por Danny Hillis na forma de uma pequena comunidade digital, sendo esta hoje a realidade de uma percentagem bastante significativa da população global. Podemos estar longe de um mundo onde duas pessoas nunca precisem de se cruzar, mas esse parece ser um dos objetivos últimos que a Internet pretende atingir. Não é um cenário tão difícil de imaginar no futuro que o mesmo café onde me encontro possa ser habitado exclusivamente por pessoas ligadas em rede, recebidas por sistemas computorizados inteligentes. Evolução? Sem dúvida, é fascinante o que conseguimos atingir nas ultimas décadas. Progresso? Dificilmente.