segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Cinco razões que explicam por que o CD se tornou obsoleto

Artefato que revolucionou a indústria musical nos anos 80 virou peça de museu. Perdeu espaço para o streaming e deverá ser superado em vendas até pelo vinil.

Sérgio Martins | Veja
O CD: foi bom enquanto durou (Ilustração/Pexels)

Por quase duas décadas, o CD reinou soberano no mercado fonográfico. O disco compacto de leitura digital tomou o lugar do velho vinil graças a uma série de atributos: era inquebrável, tinha som mais apurado que os antigos bolachões de vinil, e ocupava muito menos espaço na estante que os LPs. Essas qualidades, contudo, não foram suficientes para garantir sua sobrevivência: atualmente, o CD tornou-se um primo-pobre total na indústria fonográfica. Foi superado pelas novas possibilidades das plataformas de streaming, que permitem ter tudo à disposição quando o ouvinte quiser e não ocupam espaço nenhuma em casa. Agora, eis que o CD perde espaço também para o vinil – que tornou-se um produto vintage cultuado.

Segundo relatório da RIAA (sigla em inglês para Associação de Produtores de Discos da América), em breve os CDs devem ser superados em vendas pelos vinis. O consumo das “bolachas” teve uma alta de 12,9%, passando de 198,6 milhões em 2018 para 224,1 milhões unidades comercializadas este ano. As vendas de CDs, enquanto isso, tendem a se estagnar: devem ficar em 247,5 milhões, contra 245,9 milhões no ano passado. A tendência é que, mais adiante, o LP supere o CD em vendas. A nova ascensão do vinil, no entanto, não significa que ele voltará a reinar no mercado, como fazia na segunda metade do século XX. Há uma onda de nostalgia em torno do artefato – tanto que os álbuns mais vendidos são os de medalhões. O formato físico representa 9% do mercado atual. A hegemonia hoje é, de longe, do streaming, que já domina 80% do mercado musical.

Confira cinco razões que aceleraram a queda do CD:

1 – A ascensão do streaming

Tratado como “bicho papão” quando surgiu, no final dos anos 90, o compartilhamento de músicas pela internet virou a salvação da indústria musical. Segundo relatório da agência Goldman Sachs, até 2030 as gravadoras irão faturar 41 bilhões de dólares. Dessa quantia, cerca de 34 bilhões de dólares virão do streaming.

 2 – Uma questão de espaço

Antigamente, não havia nada mais charmoso que exibir uma parede repleta de CDs. Hoje, quando tudo que as pessoas ouvem está dentro do computador ou celular, a única função deles se resume a ocupar espaço. Qual a praticidade de abarrotar as prateleiras de casa se discografias inteiras podem ser compiladas numa plataforma de streaming?

 3 – A banalização do produto

Quando lançado, no final dos anos 80, o CD era vendido numa embalagem especial (parecia até uma caixa de joias) e não era barato. Com o “boom” de vendas, na década seguinte, ele passou a ser comercializado até em lojas de departamentos, ao preço de caixas de leite. O que era nobre virou algo banal, sem uma aura de glamour convidativa.

 4 – A pirataria

O surgimento de aparelhos copiadores de CDs fez com que o produto fosse pirateado em larga escala. E não se tratava mais das fitas caseiras, que eram feitas para os amigos. Era uma produção exponencial. Muitas vezes, até coletâneas com o melhor do artista chega a ser pirateado, canibalizando os álbuns oficiais e até suas próprias versões piratas.

 5 – O charme renovado do vinil

A venda dos antigos LPs deve superar a dos CDs ainda este ano. Mas não se trata de uma ascensão tão fulgurante assim: a volta do vinil se deve ao surgimento de um mercado de nicho – tanto que boa parte das vendas no formato sai do catálogo de medalhões como Beatles e Pink Floyd. Mas não há dúvida de que, em matéria de charme para o colecionismo, o vinil oferece muito mais atrativos, do som característico às capas e encartes em tamanho grande.

sábado, 21 de setembro de 2019

Audiobook: O tempo de ouvir histórias está de volta

Novos players estão chegando e profissionais do mercado editorial acreditam que o audiolivro pode conquistar pessoas que buscam entretenimento durante o deslocamento

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

Por alguns anos até 2013, editores do mundo todo chegavam um dia mais cedo na Feira do Livro Frankfurt para tentar entender, na conferência TOC (Tools of Change), como seria o mercado dali para a frente. O futuro, era certo, seria digital – só era preciso aprender como chegar lá.

O tempo foi passando e o e-book virou uma realidade, com mais ou menos sucesso, em países leitores e não leitores, respectivamente, e o livro físico não morreu, como muito se discutiu. Estava tudo caminhando; portanto, não havia mais necessidade de continuar com a conferência. De 2014 até 2017, nenhuma grande novidade tecnológica ou indício de uma nova ‘revolução’ pelos corredores da maior feira de livros do mundo. E, então, os audiobooks ressurgiram das cinzas, e com força.


Para editores, o potencial do mercado de audiobook está nas pessoas em trânsito Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Ainda na feira, em 2017, eles começaram a ser mencionados em apresentações de empresas de tecnologia e institutos de pesquisa, e começaram a chamar a atenção de editoras, que ainda guardavam a lembrança de outras tentativas de fazer vingar o formato, com discos, fitas e depois CDs, e algum ceticismo. Ou seja, um novo futuro do livro estava começando a ser desenhado, discretamente, por empresas de tecnologia, e os resultados começam a aparecer.

Aqui, desde 2014, a Ubook e a Tocalivros investem na formação de catálogo e na criação de um mercado, que vai se tornando mais real com a entrada de players internacionais – que, aliás, contaram com a ajuda dessas empresas para começar a operar no Brasil. O Google Play Livros chegou em julho do ano passado, depois de uma parceria de conteúdo com a Ubook. A primeira vende a la carte e a segunda aposta no modelo de assinatura. O mesmo aconteceu com a canadense Kobo que, desde julho, vende audiolivro com o apoio da Tocalivros, que segue ‘alugando’ seu conteúdo e da distribuidora Bookwire.



Discos e fitas K7 com histórias eram comuns nos anos 1980 Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Na semana passada, a sueca Storytel desembarcou no Brasil e a Auti Books, uma plataforma criada por três grandes editoras brasileiras (Sextante, Record e Intrínseca) para vender seus audiolivros e os de outras editoras, soma 37 mil títulos comercializados em três meses de vida. Sem contar as plataformas de streaming de música, que começam a oferecer audiolivros a seus assinantes, e a expectativa da chegada do Audible, da Amazon, que deve redesenhar o mercado nacional.

O movimento é global, e Frankfurt, que parou de falar de e-books, vai dedicar 600 m² de seu pavilhão para empresas da área de áudio e vai realizar o Frankfurt Audio Summit, em outubro. A aposta geral é no tempo que as pessoas passam no telefone e se deslocando.

A dentista Claudia Sousa, de 63 anos, levava cerca de 10 minutos para ir de casa ao consultório, no Rio, e de repente o trajeto passou a durar 40 minutos. Leitora de livros físicos e digitais, ela nunca foi simpática à ideia de ouvir um audiobook. Achava que não ia funcionar para ela, que tem uma memória mais visual. No meio de um congestionamento, porém, resolveu comprar um título. Escolheu Me Poupe!, autoajuda financeira best-seller de Nathalia Arcuri, narrado pela própria autora – um livro que Claudia não compraria na versão tradicional. “Adorei, parecia que ela estava sentada ao meu lado.”

Em três meses, ela já ouviu cinco – cinco livros a mais do que teria lido, já que não substituiu a leitura tradicional antes de dormir por este novo jeito de ler. “O que salvou, literalmente, minha saúde física, mental e emocional foi ouvir os livros. Se as pessoas estivessem ouvindo livros no trânsito, não buzinariam tanto”, conta ao Estado.

A aposta dos fornecedores de conteúdo é mesmo no trânsito – no tempo em que as pessoas passam no carro, metrô e ônibus. Uma pesquisa feita pelo Estado com leitores em seu portal mostrou que a maioria (32,4%) ouve música no trajeto entre a casa e o trabalho. A leitura é a atividade mais frequente para 30% dos que responderam à pesquisa e 15% deles disseram que não fazem nada. Quando questionados se ouvir um audiobook seria uma boa opção de entretenimento durante os deslocamentos, 54% responderam que sim. E 60% disseram acreditar que audiolivros podem aproximá-los da literatura. 

Profissionais do mercado editorial apostam na conquista de novos leitores. “O audiobook tem um potencial não só com o público leitor, mas também com aquele que não é leitor, mas que está acostumado ao streaming, ao podcast, por exemplo. Um levantamento que fizemos recentemente, com dados do TGI/IBOPE, sobre a propensão e interesse em ouvir conteúdos em áudio no Brasil mostrou que cerca de 11% da população consome ou está propensa a consumir conteúdos em áudio e 60% das pessoas que consomem video-on-demand estão propensas a consumir conteúdo de áudio entretenimento”, explica André Palme, gerente da Storytel.

Camila Cabete, da Kobo, também acredita no audiolivro como um aliado na luta por leitores. “Mas mais do que isso: audiolivro é uma forma de entretenimento, e o consumidor vem em busca de boas produções e boas locuções. Vejo o produto como um concorrente direto dos aplicativos de streaming de vídeo.”

O editor Tomás da Veiga Pereira, da Sextante, que integra a Auti Books, diz acreditar “profundamente” no formato, mas é realista. “Nada vai acontecer do dia para a noite, pois é uma novidade para 99,9 % das pessoas, mas vai crescer e revolucionar o acesso dos livros no Brasil entre 5 e 10 anos.” 

Comparando o primeiro semestre de 2018 com o de 2019, a distribuidora Bookwire registrou 74% de crescimento em vendas. “Os e-books ainda estão em explosivo crescimento no Brasil, mas avaliando os primeiros números do mercado de audiolivro, ele aparentemente vai ser maior do que o de livro digital”, diz Marcelo Gioia, da Bookwire.

O consultor Carlo Carrenho, que prepara a chegada da editora sueca World Audio ao País, acredita que o Brasil tem potencial para ser bom mercado para audiolivro “dentro de suas limitações educacionais e de interesse por literatura” e que ele pode ser uma opção atraente para o não-leitor. Sobre o que deve funcionar melhor no formato aqui, ele diz: “Minha intuição é que, além da ficção comercial, livros religiosos, autoajuda, eróticos, romances femininos e obras comerciais de história vão funcionar bem. Não acredito que a grande literatura, nacional ou estrangeira, vai ter muita repercussão ou interesse.”

Há dois modelos de negócios: a venda tradicional e a assinatura mensal, que custa entre R$ 19,90 e R$ 27,90, dependendo da empresa, e dá acesso ilimitado a um catálogo que vem sendo ampliado, mas ainda é diminuto. A produção é cara (entre R$ 1.500 e R$ 2 mil a hora finalizada, podendo ser mais se o narrador for uma celebridade ou um autor-celebridade). Só para se ter ideia do preço para o consumir, a obra de Nathalia Arcuri que transformou Claudia em ouvinte de livro custa R$ 34,90 (físico), R$ 21,99 (digital) e R$ 27,99 (áudio).

Com um mercado ainda em construção, Carrenho diz que o consumidor já deixou claro que quer o modelo de assinatura, vide o sucesso da Netflix e Spotfy. “Os editores, portanto, devem focar seus esforços não em evitar o modelo de assinatura, mas em criar e negociar um modelo em que a remuneração seja justa e saudável para todas as partes.”

Biblioteca futurista

Mantenha a tradição de grandes bibliotecas, crie um edifício ambicioso e voltado para o futuro e projete uma estrutura orgânica que permita que o mundo natural penetre no interior. Conheça a Geelong Library and Heritage Centre (Austrália).





quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O fotógrafo que removeu os celulares de cenas cotidianas

Com imagens nos EUA e países da Ásia, americano quis retratar a dependência gerada pelos smartphones

Cesar Gaglioni | Nexo

FOTO: ERIC PICKERSGILL/DIVULGAÇÃO
O AMERICANO ERIC PICKERSGILL DECIDIU CRIAR A SÉRIE DE FOTOS ‘REMOVED’ APÓS UM EPISÓDIO ENVOLVENDO A IDA DE UMA FAMÍLIA A UM CAFÉ NOS EUA   

Além de serem parte da vida cotidiana, os smartphones e celulares se tornaram uma espécie de refúgio para muita gente. 

Um estudo feito pela empresa de segurança digital Kaspersky em novembro de 2018 demonstrou que 79% dos brasileiros que usam celular admitem que usam o aparelho como uma forma de evitar conversas com outras pessoas

O Comitê Gestor da Internet no Brasil apontou, em outubro de 2018, que, em média, o brasileiro passa nove horas conectado na internet diariamente. Isso o coloca na terceira posição do ranking mundial de países com maior tempo de tela, atrás apenas da Tailândia e das Filipinas. 

Pensando em retratar a dependência gerada pelos smartphones, o fotógrafo americano Eric Pickersgill decidiu criar uma série de imagens nas quais removeu os celulares de cenas cotidianas. O site Quartz publicou algumas as fotos no dia 28 de agosto. 

“O celular é um membro fantasma do corpo, usado como um sinal de que se está ocupado e indisponível, e existe como uma força viciante que promove a divisão da atenção entre aqueles que estão no mesmo espaço que você e aqueles que não estão”, diz a descrição do projeto. 

Em seu site, Pickersgill conta que a ideia para as fotos surgiu quando ele estava em um café e viu um casal chegar com duas filhas. Ele conta que, na ocasião, as adolescentes passaram o tempo todo no celular, bem como o homem. O fotógrafo diz que se sentiu entristecido ao ver a mulher, que não tinha um aparelho em mãos, olhar entristecida para sua família em um momento que deveria ser de interatividade mútua.

FOTO: ERIC PICKERSGILL/DIVULGAÇÃO 
PICKERSGILL TAMBÉM FEZ FOTOS DA SÉRIE ‘REMOVED’ EM PAÍSES ASIÁTICOS   

Durante uma palestra no evento Ted, Pickersgill afirmou que os smartphones e a tecnologia podem conectar pessoas que estão distantes e aproximá-las, mas que também faz com que as pessoas que estão em um mesmo cômodo fiquem emocionalmente distantes uma das outras. 

A série foi intitulada “Removed” (Removido, em livre tradução) e teve suas fotos feitas nos EUA. Pickersgill fez uma segunda série de fotos, passando pelo Vietnã, Mianmar, Indonésia e Cingapura, e está preparando uma terceira, feita inteiramente na Índia. Todas as imagens foram registradas entre 2014 e 2018 e estão disponíveis no site do fotógrafo

O trabalho de Pickersgill já foi exposto na França, Reino Unido, Itália e por diversas cidades dos Estados Unidos.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Google Search agora te leva direto para ponto exato que você procura em um vídeo


Novidade, porém, depende que criadores de conteúdo insiram marcações de tempo em seus vídeos

por Matheus Fiore | B9

Buscar por um conteúdo em um vídeo pode ser algo cansativo. Muitas vezes, os vídeos trazem longas introduções, propagandas de produtos e serviços patrocinadores, etc. O Google Search, ferramenta de buscas do Google que também é o buscador mais popular da internet, recebeu uma atualização que é bastante útil para essa questão da busca em vídeos.

A partir de agora, quando você buscar por um conteúdo no Google e o resultado apontar para um vídeo, é possível que, ao clicar no link do mesmo, você seja direcionado para o segundo ou minuto exato em que o conteúdo que você busca é abordado.

Por ora, a funcionalidade é exclusiva para vídeos do YouTube e em buscas em inglês, mas o Google afirma que aprimorará a ferramenta e a disponibilizará para outras fontes, como CBS Sports e NDTV. Há um porém no uso do novo recurso: seu funcionamento depende dos próprios produtores de conteúdo, já que o Google só será capaz de encontrar o trecho específico se este estiver sinalizado no próprio vídeo, por marcas de tempo na descrição.

Mesmo que ainda seja uma funcionalidade ainda básica e limitada, o fato de o Google afirmar estar trabalhando para expandir nos permite imaginar que, futuramente, o próprio sistema de inteligência artificial poderia encontrar os assuntos de forma autônoma. Além disso, os próprios produtores de conteúdo deverão, aos poucos, inserir tais marcas de tempo em seus vídeos, para que estes possam ser encontrados na busca.

domingo, 15 de setembro de 2019

Entenda por que as redes sociais estão escondendo as ‘curtidas’ dos usuários

Facebook, Twitter, YouTube e Instagram fazem testes e deixam de exibir outros dados, como total de inscritos em canais e perfis; mudança pode ser sinal de esgotamento de modelo atual e tentativa de deixar internet mais íntima

Por Bruno Romani - O Estado de S. Paulo

Para os especialistas ouvidos pelo ‘Estado’, uma nova internet vai surgir após o fim da contagem de ‘likes’, mais focada em pequenos nichos

Parecia um teste inofensivo, mas virou uma tendência que dominou a web: nos últimos meses, Twitter, Instagram, YouTube e Facebook anunciaram ou já implementaram testes para esconder números cruciais de suas plataformas – como o de curtidas em uma foto ou de inscritos em um canal popular (veja abaixo). Por trás do discurso de melhorar a experiência – e a saúde mental – dos usuários, porém, as redes sociais podem estar prestes a se deparar com o esgotamento de um modelo que moldou a internet na última década: o “like” como sinônimo de expressão online e métrica de negócios. 

Em fevereiro, o botão Curtir fez dez anos. De lá para cá, ajudou a popularizar um tipo de interação que funciona como fast- food: rápida, instantaneamente prazerosa, mas também superficial e que, em demasia, pode fazer mal. Mais do que uma forma de manifestação, a curtida virou base para um sistema de métricas para direcionamento de anúncios e incentivou o surgimento de influenciadores digitais. 

O número de curtidas no Facebook passou a empilhar dados sobre hábitos e gostos, além de indicar quais conteúdos e personalidades são populares nas redes socais. Tudo isso se espraiou para outras redes – como o Instagram, comprado pelo Facebook em 2012 – e também em produtos de rivais, como o Twitter e o YouTube, do Google. Procuradas, as quatro plataformas não quiseram participar da reportagem, mas confirmaram os testes ou a intenção de fazê-los em breve. 

Do lado do usuário, nasceu a cultura de produzir conteúdo em busca de likes, em uma espécie de concurso de popularidade. Para quem não consegue criar conteúdos que “viralizam”, surgiram empresas que vendem likes – com a ajuda de “fazendas de robôs”, milhares de dispositivos prontos para curtir algo ou popularizar uma #hashtag nas redes. 

Hoje, basta abrir a carteira para ser popular – mas esse comércio gerou desequilíbrio. “O like funcionou bem até os robôs surgirem”, diz Luis Peres Neto, professor da ESPM. Para as empresas e marcas, ficou difícil determinar o que de fato fazia sucesso e o que era artificial. Para os usuários, a pressão só cresceu. 

Das plataformas citadas acima, a primeira que promove um teste amplo para remover a contagem de curtidas de suas plataformas foi o Instagram – que diz lutar justamente contra a busca desenfreada por aprovação e o custo mental que isso traz aos usuários. Há motivos para a preocupação: em 2017, a agência de saúde pública do Reino Unido considerou o app como a pior rede social para a saúde mental e o bem estar das pessoas. Hoje, usuários de sete países, incluindo o Brasil, já não veem mais quem aprecia suas fotos de comida, selfies e pôr-do-sol. 

“As curtidas ajudam a determinar quais conteúdos são distribuídos pelos algoritmos – quanto mais likes, mais uma publicação aparece”, explica Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). “Isso gerou um ambiente tóxico, que favorece o extremismo – algo que não é benéfico para as redes sociais e seus clientes, os anunciantes.” 

Como poderá ser a internet 'pós-like'
Para analistas, o sumiço dos números de likes pode ser um teste para o futuro das redes sociais. “Acho que as empresas querem entender se, sem os likes, poderão reverter a tendência de queda nas postagens e no número de usuários”, diz Leandro Bravo, diretor de relacionamento da agência Celebryts, que lida com influenciadores digitais. 

Na visão de Bravo, é possível que o sumiço dos likes seja até uma medida para camuflar uma possível queda na popularidade. A teoria se aplica principalmente ao Facebook, que registra quedas no engajamento dos usuários. Em abril deste ano, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 56% dos brasileiros online tinham uma conta na rede social. Em 2017, eram 61%. 

Esconder o número de curtidas também pode ajudar a mascarar como seu algoritmo – uma receita cheia de temperos secretos – funciona. Sem a referência dos likes, é mais difícil perceber as mudanças da “fórmula mágica”. 

Antes de ter uma resposta definitiva, é possível imaginar que nenhum dos testes seria realizado caso as redes sociais não estivessem de olho em outras métricas de sucesso dos conteúdos.  “O ‘fim dos likes’ é um certificado de que as coisas se tornaram mais complexas do que há uma década”, diz Peres Neto. Entre os dados já usados estão comentários, compartilhamentos, engajamento, número de postagens por usuário e visualizações. “O número de visualizações passa a importar mais que o like”, diz Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo. 

Malini lembra que os Stories, recurso criado pelo Snapchat e copiado pelo Instagram, já dispensa os likes e entrega o número de visualizações para o dono da conta. O Facebook acrescentou Stories em todos os seus serviços, incluindo o WhatsApp. Segundo o professor, essa aura mais intimista impulsiona a quantidade de postagens por parte dos usuários – o que ajuda a garantir a atenção de todos e o funcionamento das redes. 

A internet “pós-like”, dizem especialistas, é mais focada em pequenas comunidades do que numa multidão de conexões. É quase uma antítese da promessa de conectar todo mundo o tempo todo. Agora, será cada um na sua bolha, criada em torno de um interesse específico. “Você não precisa de mil amigos, porque só se importa com 50”, diz Steibel. “A meta das redes é que você interaja cada vez mais com esse pequeno grupo.”

O que cada rede social está fazendo

Facebook

A rede social confirmou testes internos com o fim da contagem de ‘likes’. Ainda não está disponível para os usuários. 


Instagram

Em sete países, não é possível ver os ‘likes’ dos outros nas versões do app para celular. Só é possível ver os números da sua conta. Já na web, os números aparecem. 


Twitter

Desde março, o Twitter testa no app protótipo twttr um recurso que esconder o número de curtidas, retuítes e comentários. Mas a função pode nem ser lançada. 


YouTube

O YouTube deixou de mostrar o números exato de inscritos nos canais. A contagem só mostrará números aproximados: se um canal tem 6.344.700 inscritos, ele exibirá agora 6,34 milhões.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Quanto mais informação, mais dúvidas

Por Carlos Castilho | Observatório da Imprensa


Este é o grande paradoxo que todos nós começamos a vivenciar na era digital quando nos defrontamos com uma avalanche de versões contraditórias sempre que a imprensa aborda um tema complexo – como, por exemplo, a reforma da previdência ou a crise na Amazônia. É um fenômeno que contraria nossa maneira de ver a informação e sinaliza um profundo desajuste em todo o sistema de produção, processamento e disseminação de notícias jornalísticas.

A avalanche de dados, fatos, ideias e eventos publicados na internet multiplicou também as incertezas sobre quase tudo o que conhecemos sobre a sociedade e o mundo em que vivemos. É que a avalanche informativa ampliou exponencialmente o número de percepções e opiniões tanto sobre o que já sabemos como sobre aquilo que começamos a descobrir. Trata-se de uma mega transformação irreversível em nossa cultura informativa e sobre a qual a grande imprensa mantém um intrigante silêncio.

O paradoxo mais informação/menos certezas abala um dos princípios básicos da mídia tradicional, que é a ideia da notícia como instrumento eficaz na definição do que é certo ou errado, verdadeiro ou falso. Trata-se de uma percepção difundida massivamente na opinião pública e que viabiliza o negócio da imprensa, quando ela troca noticias por receitas publicitárias.

Quanto mais abstratos forem os processos, fenômenos e ideias tratados pelos meios de comunicação, maior a quantidade de dúvidas e inseguranças, fenômeno que acaba alimentando o discurso do ódio porque, diante de incertezas, as pessoas tendem a agarrar-se ao que consideram seguro, rejeitando o que contraria suas convicções. Para ter uma ideia deste fenômeno basta ver a radicalização nas discussões sobre o governo Bolsonaro em redes sociais como Facebook, Twitter e WhatsApp.

A avalanche informativa é um fato concreto e irreversível. Até 2010, institutos especializados mediam o volume de material inserido em sites da internet, mas a quantidade cresceu tanto que os números tornaram-se pouco significativos. O IDC (International Data Corporation) afirma que, até o final de 2020, cerca de 1,7 megabytes de novas informações estarão sendo disponibilizados online por segundo e por ser humano. As estimativas sinalizam que até dezembro do ano que vem, o total de dados digitalizados na web deve atingir os 44 zetabytes, ou 44 trilhões de gigabytes. Trata-se de um volume tão grande que supera em muito a nossa capacidade de imaginá-lo.

A era da complexidade
O aumento vertiginoso das incertezas no trato diário com a realidade que nos cerca configura aquilo que os especialistas batizaram de era da complexidade. Não há mais coisas simples, tipo preto ou branco. Tudo agora é potencialmente complicado dependendo da intensidade de dois fenômenos conhecidos como visibilidade seletiva (selective exposure) e percepção seletiva (selective perspective), ambos estudados pelos psicólogos norte-americanos Albert Hastorf e Hadley Cantril (*) a partir da comparação das reações dos torcedores ao resultado de um jogo de futebol americano.

A pesquisa mostrou que as pessoas tendem a se informar, preferencialmente, em jornais, revistas, livros, rádio e televisão com os quais possui algum tipo de simpatia política, ideológica, religiosa ou social. A selective exposure, no jargão acadêmico, é uma forma que o indivíduo usa por dois motivos predominantes: sentir-se confortável porque compartilha as mesmas ideias políticas, religiosas, econômicas ou sociais da publicação; e filtrar os conteúdos a que tem acesso para reduzir o índice de complexidade da leitura, audição ou visualização.

Já a selective perception é um processo pelo qual as pessoas avaliam um novo dado, fato, evento ou notícia em função daquilo que já sabem ou conhecem. Os dois processos acabam por consolidar opiniões e conhecimentos pré-existentes, sendo fundamentais na formação das chamadas “bolhas informativas”, um recurso que a maioria das pessoas usa para evitar a perturbadora sensação de dúvida, incerteza e vulnerabilidade a posições antagônicas.

As bolhas informativas estão em rota de colisão direta com a irreversível avalanche informativa na internet. Não é mais possível frear o aumento de dados digitalizados e disponibilizados pela internet, o que gera o inevitável corolário de que as incertezas também tendem a se tornar mais intensas e permanentes. Tudo indica que já estamos sendo levados a optar entre aderir a alguma das milhares de “bolhas informativas” ou aprender a conviver com a dúvida e a incerteza.

A primeira opção é a mais fácil, porque não implica grandes dilemas ou conflitos, mas nos coloca num ambiente irreal. Já a convivência com a dúvida altera fundamentalmente a nossa maneira de ver o mundo e as pessoas, porque nos obriga a levar sempre em consideração a possibilidade de que nossas opiniões ou percepções estejam equivocadas. Significa admitir que alguém sabe o que eu não sei, e que a solução de qualquer dilema, ou dificuldade, exige um diálogo. É o mundo das novas tecnologias nos forçando a assumir novos comportamentos, regras e valores.

(*) They saw a game; a case study. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 49(1), 129–134. http://dx.doi.org/10.1037/h0057880

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Manuscritos mesoamericanos


O Mapas Project tem como foco a digitalização e o estudo de manuscritos pictóricos mesoamericanos coloniais. O termo "mapa" foi usado livremente na Nova Espanha para se referir a figuras que podem ou não ter uma dimensão cartográfica, mas geralmente mostravam os territórios ou paisagens das comunidades indígenas.

O projeto utiliza um ambiente de pesquisa a distância on-line (DRE) desenvolvido pelo Wired Humanities and Feminist Humanities Projects of the Center for the Study of Women in Society da Universidade de Oregon para incentivar e facilitar a colaboração internacional entre acadêmicos, professores e comunidades interessadas.



Vida moderna: uma autópsia

por João Pereira Coutinho | Gazeta do Povo


1. O turista moderno passa horas e horas nas filas para comprar ingressos. Quando finalmente está na presença daquele quadro, daquele vitral, daquela escultura, o turista demora cinco segundos, talvez dez. Não para contemplar a obra depois de uma longa espera; para tirar uma selfie com ela.

Eis, em resumo, a minha experiência recente em périplo italiano. O turismo de massas não é apenas um inferno físico; é um inferno narcísico, em que o viajante nunca sai verdadeiramente de si próprio para se render a algo que é melhor, mais belo e mais importante do que o seu patético sorriso.

2. Saio para beber com os amigos e percebo o anacronismo da expressão "sair para beber". Nós, rapazes de 40 anos, ainda nos entregamos aos prazeres do álcool. Mas a geração que entrou agora na idade adulta não partilha esse vício. Eles e elas bebem coquetéis sem álcool e olham para os dinossauros com aquele esgar de compaixão que normalmente dedicamos aos animais doentes. Que se passa? Um amigo jornalista, versado em "tendências", leu algures que a epidemia tem nome: "mindful drinking". Até há festivais para isso, onde a ideia é beber até (não) cair.

Por mim, estejam à vontade. Mas desconfio que a febre abstêmia não se explica apenas por razões de saúde. Não beber é também uma forma de sinalizar virtude e pureza perante o mundo corrompido. Infelizmente, é também essa falsa virtude e essa falsa pureza que explicam o tom histérico com que os mais novos reagem a qualquer dissonância.

A política é um bom exemplo. Nos meus contatos com o pessoal, reparo que a maioria está cada vez mais intolerante perante opiniões contrárias. Melhor dizendo: uma opinião contrária não é apenas uma forma alternativa de ver o mundo. É um insulto pessoal que deve ser respondido na mesma moeda.

Como conceito, poder filmar ou fotografar com as lentes de contato pode inaugurar um novo capítulo na devassa da vida privada

Era inevitável. Quando nos amamos demasiado não suportamos a evidência de que os outros não nos amam da mesma forma.

3. E se um dia existirem lentes de contato que permitem ao utilizador filmar e tirar fotos com um mero movimento ocular? A Samsung aposta nessa proeza, dizem os jornais. Depois do fiasco do Google Glass, os sacerdotes da tecnologia garantem que as lentes de contato da Samsung serão um incomparável progresso.

Sobre isso, não tenho dúvidas. Embora a palavra "progresso" seja vazia de conteúdo. Como conceito, poder filmar ou fotografar com as lentes de contato pode inaugurar um novo capítulo na devassa da vida privada. Como saber que o nosso interlocutor não está a filmar-nos contra a nossa vontade? E como ter a certeza de que ele não partilhará qualquer conversa nas suas redes (sociais ou privadas)?

A primeira consequência desse "progresso" seria a transformação da vida social numa encenação permanente, abolindo por completo a confidência e a intimidade. Hoje, com as redes sociais, o nível de dissimulação e performance já excede o tolerável – gente fingindo a vida que não tem, a felicidade que não tem, o afeto que não tem, etc. etc. Mas como será transpor essa mentira virtual para o mundo real, 24 horas sobre 24 horas, sem pausa para enxugarmos as lágrimas?

4. O homem solitário é uma besta ou um deus, dizia Aristóteles. A relação de Michel Houellebecq com a vida moderna se explica com esses dois extremos. O homem moderno se considera um deus na sua solidão radical. Para Houellebecq, é uma besta. É por isso que os seus romances são, literalmente, um bestiário: um desfile de personagens patéticas, grotescas, vazias – e, palavra fundamental, enganadas. E enganadas por quê?

Porque compraram a grande ilusão de que, rejeitando os valores e as instituições "burguesas" – o amor, a amizade, o casamento, a família –, o que existe por baixo da calçada é a praia, como diziam os revolucionários do Maio de 1968, em Paris ("sous les pavés, la plage").

Falso, diz Houellebecq. Sob a calçada, o que existe é o abismo – e é nesse abismo que desaparece Florent-Claude Labrouste, o personagem de Serotonina (Alfaguara), o mais recente romance do escritor francês. Os críticos, comme d'habitude, aplaudiram ou insultaram o niilismo existencial de Houellebecq.

Discordo deles. O que torna Houellebecq um escritor notável é o fato de ele ser, provavelmente, o último grande romântico da literatura europeia contemporânea. E "romântico" no sentido preciso da palavra.

Cada livro seu é uma declaração de amor às ruínas.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Série da HBO, 'Years and Years' antecipa o futuro - ou quase



Ambientada entre 2019 e 2034, 'Years and Years' traz novidades tecnológicas e ficção próxima da realidade - é o que dizem os especialistas.

Ana Carolina Sacoman | Terra 

Nossas crianças usarão hologramas de emojis no rosto, os adolescentes tentarão se transformar em máquinas e adultos vão recorrer a robôs na hora do sexo. Antes de morrer, faremos download dos nossos cérebros e ficaremos na nuvem. Depois de mortos, teremos nossos corpos dissolvidos em água.

O ciclo da vida no futuro próximo mostrado na série Years and Years, exibida pela HBO, é excitante e aterrorizante. Entre 2019 e 2034, a família Lyons - quatro irmãos, avó e agregados -, moradora de Manchester, na Inglaterra, vê robôs roubarem seus empregos, comidas produzidas por bactérias e doenças serem diagnosticadas a distância, com um prosaico escaneamento da íris.

Ao mesmo tempo, mãos viram celulares após o implante de nanochips de conexão nos dedos e corpos se transformam em máquinas de altíssima performance, com direito a conexão à internet e acesso a dados sigilosos quase que pela força do pensamento.

Tudo ficção? Mais ou menos. A reportagem do Estado conversou com especialistas em diversas áreas para entender o que já existe, o que vem por aí e o que é pura invenção saída da mente de Russell T. Davies, o criador da série. Enfim, o que podemos esperar do futuro? A resposta surpreende. "Nada é impossível. Se alguém da raça humana pensou algo, alguém da raça humana pode executar", diz Walter Carnielli, professor do Centro de Lógica da Unicamp.

Junto à alta tecnologia, o mundo de Years and Years enfrenta catástrofes ambientais - faltam bananas e as borboletas estão extintas -, acompanha atônito uma guerra nuclear entre China e EUA e segue uma crise de imigrantes.

Ainda há a ascensão de governos populistas ao redor do planeta, que defendem o fechamento de bairros com altos índices de criminalidade, discriminam minorias e querem que o direito ao voto seja concedido somente aos cidadãos "inteligentes".

A primeira temporada completa está disponível no serviço de streaming HBO Go. Uma continuação não está descartada. Abaixo, confira as principais "apostas" de Years and Years para o futuro e quão perto estamos delas.

Transumanismo propõe fusão entre homem e máquina
A personagem Bethany convoca os pais para uma conversa séria: quer virar trans. Eles ensaiam um discurso de aceitação aos transgêneros, e a menina de 15 anos se impacienta. Não é nada disso, ela quer ser transumana, virar máquina, viver na "eternidade digital". Mais tarde, a mesma garota implanta um celular nos dedos. Basta um estalo e ela pode atender uma ligação. "Isso não é impossível em um futuro próximo", afirma Walter Carnielli, professor do Centro de Lógica da Unicamp. "Temos energia elétrica no corpo. Por que não usar essa energia com nanochips ligados ao batimento cardíaco, ao cérebro ou aos dedos?", diz. Esse caminho já começou a ser desbravado por cientistas das universidades Harvard e Surrey. Eles fabricaram nanossondas para medir a corrente elétrica que corre dentro dos neurônios. Isso, de acordo com artigo dos pesquisadores publicado em julho na revista Nature, pode ser um grande passo para a provável "interseção entre humanos e máquinas".

Nas ruas, carros autônomos são caminho sem volta
Com gigantes da tecnologia como Google, Tesla e Uber de olho neles, os carros autônomos são quase uma realidade. Mas, desde que um deles atropelou e matou um pedestre durante testes nos EUA, ainda há muita discussão sobre a tecnologia pela frente. "Há questões legais que precisam ser resolvidas", afirma Fernando Osório, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Para ele, poderemos ver os primeiros carros autônomos nas ruas em dez anos, mas tudo vai depender das leis - no Brasil não é possível nem fazer testes nas ruas - e da aceitação dos usuários. "Se já foi complicado com os aplicativos de mobilidade, imagina a aceitação dos carros autônomos", diz. O professor faz ainda um alerta: os veículos não devem rodar sozinhos, precisam de um motorista capaz de tomar decisões ao volante. "Como acontece com um avião, que sempre tem um piloto por perto."

À mesa, comida com bactérias
"Essa é a comida do futuro, feita de água eletrificada, que produz hidrogênio, que alimenta bactérias, que produzem a comida." A complicada equação dá vida, na série Years and Years, a um risoto de cara bem pouco amistosa, que comeremos por volta de 2030. Será? Para a professora Priscilla Efraim, da Unicamp, é difícil saber com certeza. Mas não se trata da ideia mais maluca do mundo. "Hoje já temos alimentos produzidos biotecnologicamente, envolvendo micro-organismos", afirma. A especialista, no entanto, acredita que o futuro "pé no chão" está nas pesquisas relativas a novas fontes proteicas produzidas de vegetais, como os hambúrgueres que começam a ganhar as geladeiras dos supermercados. "A carne cultivada em laboratório também vem ganhando espaço", diz ela, que vê ainda a popularização da produção em "fazendas urbanas", altamente tecnológicas e que dispensam o uso de agrotóxicos.

Cremação líquida: corpos dissolvidos em água
Está certo que é uma realidade muito pouco conhecida, mas já há empresas nos Estados Unidos oferecendo a hidrólise alcalina de corpos, o nome oficial da cremação líquida. Caso da Bradshaw Celebration of Life Centers, funerária com várias filiais no Estado de Minnesota. O processo é oferecido no site da empresa como uma alternativa ecológica à cremação tradicional, com preços que começam em US$ 2,4 mil (cerca de R$ 10 mil). A coisa toda usa água e hidróxido de potássio para reduzir o corpo a apenas ossos, que são transformados em pó e entregues aos familiares. Estima-se que pelo menos mais uma dúzia de empresas no mundo oferecem a alternativa. A compostagem dos mortos - autorizada no Estado de Washington, também nos EUA e já praticada por startus como a Recompose - e a criomação, que é o congelamento dos corpos em nitrogênio líquido, são outras propostas que poderão ser usadas para os mortos do futuro. Quem viver, verá.



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

As alternativas à tabela periódica clássica. E a sua história.

Criado há 150 anos, modelo de organização de elementos químicos é usado em escolas do mundo todo. Site reúne mais de 1.000 propostas diferentes, que passam por versões redondas e até musicais

Cesar Gaglioni | Nexo


A TABELA PERIÓDICA CLÁSSICA FOI SISTEMATIZADA HÁ 150 ANOS, PELO RUSSO DMTRI MENDELEEV

A Tabela Periódica dos Elementos é uma das bases fundamentais do estudo da química. Ela organiza, de maneira sistemática, os elementos químicos conhecidos, dispondo-os em grupos. 

Apesar de ser ensinada em escolas do mundo todo, existem alternativas menos convencionais ao modelo clássico da Tabela Periódica dos Elementos, com organizações diferentes da tradicional usada nos colégios. 

O site Internet Database of Periodic Tables (Banco de Dados Online das Tabelas Periódicas, em tradução livre) traz mais de 1.000 versões alternativas ao modelo clássico, propostas por químicos desde o final do século 19. Muitas delas têm intenções específicas e sistemas próprios, incluindo uma que organiza os elementos de acordo com a sua abundância na Terra. 

No site, estão disponíveis desde versões redondas, feitas a partir de círculos concêntricos, a representações piramidais, passando por uma versão musical.

A validade das alternativas 

Martyn Poliakoff, doutor em química pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido, afirmou ao New York Times que a maior parte das alternativas à tabela periódica clássica são válidas. 

“Muitas pessoas parecem acreditar que só existe uma verdadeira tabela periódica, seja a existente ou uma que ainda será descoberta”, disse. “E elas debatem intensamente sobre a validade das outras versões. Meu sentimento é que a maioria das versões são igualmente válidas, dependendo somente do que elas querem mostrar”, acrescentou. 

Poliakoff publicou um artigo em maio de 2019, na revista Nature, propondo um modelo que simplesmente vira de cabeça para baixo a Tabela Periódica dos Elementos. Ele apresentou o conceito para 24 químicos, dos mais diversos níveis educacionais, e afirmou que a recepção foi positiva. 

Segundo o pesquisador, a versão invertida da tabela periódica deu aos químicos uma visão mais clara da organização dos elementos. O próximo passo de Poliakoff é testar seu modelo em maior escala, com estudantes do ensino básico britânico.

Os 150 anos da tabela periódica 

A UNESCO, braço da ONU (Organização das Nações Unidas) que promove a colaboração internacional nos campos da educação, ciência e cultura, declarou que 2019 é o Ano da Tabela Periódica, dado os 150 anos da sistematização da Tabela Periódica dos Elementos. 

Ela também é conhecida como Tabela de Mendeleev, por ter sido postulada pelo químico russo Dmitri Mendeleev, em 1869. 

Naquele ano, os cientistas já conheciam 63 elementos químicos e passaram a sentir a necessidade de se estabelecer um sistema que pudesse organizá-los de maneira lógica. Mendeleev então sistematizou os elementos de acordo com a massa atômica de cada um deles, da menor para a maior, organizando-os em grupos com características químicas similares.

Em 1898, o químico escocês William Moseley descobriu os gases nobres, como o hélio e o argônio, e acrescentou-os à Tabela de Mendeleev. Em 1913, o físico britânico Henry Moseley conseguiu determinar o número de prótons (partículas positivas presentes em todos os núcleos atômicos) dos elementos, e mudou a disposição da Tabela de Mendeleev, dando a ela a organização que é mais popular até os dias de hoje. 

Em 2019, a tabela periódica conta com 118 elementos. O acréscimo mais recente aconteceu em 2009, com a descoberta do Tenesso, que pertence ao grupo dos halogênios, os não-metais que quando unidos aos metais formam os sais.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Buscador reúne todos os bancos de imagem gratuitos em uma pesquisa




Para facilitar a busca pela imagem ideal em seus projetos, o desenvolvedor Gustavo Alves criou essa ferramenta que une diversos bancos de imagem em um só.

Por Victor Alexandro | Geek Publicitário

Com o nome de Farejador de Imagens, esta ferramenta foi criada pelo desenvolvedor Gustavo Alves, que decidiu criar um site que unisse todos os bancos de imagem gratuitos em uma busca simultânea.

É sempre muito complicado encontrar aquela imagem legal para utilizar em nosso projeto e quando a gente finalmente encontra é capaz que seja uma imagem paga. Bom, para aqueles que possuem interesse em imagens gratuitas para elaborar seus projetos de treino ou até mesmo para conseguir umas imagens diferentes este buscador reúne todos os bancos de imagens gratuitos em uma só pesquisa para te auxiliar na busca pela melhor imagem.

Para que a busca funcione é necessário liberar os pop-ups do seu navegador e todo o resto acontece de maneira muito intuitiva: basta digitar o que você procura, escolher os bancos de imagens desejados e pronto, é só pesquisar.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Nós não vendemos Kindles, vendemos livros, diz chefe de e-readers da Amazon Brasil


Por Lucas Carvalho | Yahoo

Quando o primeiro Kindle chegou ao mundo, em 2007, o mercado de leitores digitais engatinhava e era disputado por empresas do Japão, como Sony e Rakuten. Doze anos depois, em 2019, a norte-americana Amazon é praticamente a única competidora do setor em diversos países, incluindo no Brasil.

A Amazon ocupa uma posição tão confortável no mercado que consegue um feito raro entre fabricantes de eletrônicos que vendem produtos importados: vender o Kindle, no Brasil, mais barato do que nos Estados Unidos. Tudo graças a uma estratégia sustentada desde a fundação da empresa como uma livraria online, no final da década de 1990.

"O nosso negócio é vender livros", e não Kindles, diz Alexandre Munhoz, gerente geral do setor de e-readers da Amazon no Brasil. "A gente vende livros digitais e os clientes podem consumir esses livros pelo aplicativo, que é gratuito, ou pelos modelos de e-reader que a gente vende. Mas o business não está no e-reader, está no livro. A gente não ganha dinheiro, não fazemos lucro [com o dispositivo]."

O novo Kindle Oasis, por exemplo, lançado em julho no Brasil, é vendido nos Estados Unidos por US$ 249, o que, em conversão direta na cotação alta do dólar atual (mais de R$ 4,10 no momento em que esta reportagem é produzida), sai por algo em torno de R$ 1.030.

No Brasil, o mesmo Kindle Oasis é vendido por R$ 1.149. Se comprado nos EUA, o aparelho ainda recebe uma carga de impostos (que varia dependendo do estado onde ele for adquirido) e ainda pode ser taxado ao passar pela alfândega do Brasil, levando o total da compra a um valor superior aos R$ 1.200.

Ou seja, para um brasileiro, vale mais a pena comprar um Kindle no Brasil do que nos EUA. E a Amazon não se importa. Segundo Alexandre, entra no cálculo do preço final do aparelho também o retorno esperado com a venda posterior de livros.

O Kindle só permite comprar livros digitais pela própria loja da Amazon, que oferece um catálogo extenso de títulos dos mais diversos gêneros. Além disso, a empresa ressalta que os brasileiros estão entre os principais usuários do mundo no serviço por assinatura Kindle Unlimited, que oferece mais de 1 milhão de ebooks por R$ 20 ao mês.

Embora pareça contraditória, a estratégia de não buscar lucro com a venda de aparelhos tem dado certo para a Amazon, pelo menos no Brasil. O Kindle, que já teve entre seus competidores o Lev, da Saraiva, e o Kobo, da Livraria Cultura, hoje reina sozinho no mercado formal de e-readers.

No site da Livraria Cultura, o único modelo de Kobo à venda está "indisponível" há meses. O mesmo acontece com o Lev, da Saraiva, que possui duas versões no Brasil, mas apenas as respectivas capas protetoras são encontradas à venda no site da empresa.

Quem procurar no mercado de revenda e marketplaces online, pode encontrar o Kobo e o Lev por preços bem mais altos que o do Kindle de entrada vendido no site da Amazon, e ainda deve estar atento à provável falta de suporte das fabricantes.

O fracasso de Saraiva e Livraria Cultura no Brasil não se limitou ao mundo dos e-readers, porém. As duas redes estão em processo de recuperação judicial, com dívidas milionárias, vendendo ativos e fechando lojas físicas por todo o país. Já a Amazon só cresce.

Só em 2018, o investimento da empresa no Brasil superou os R$ 97 milhões com a compra de um novo galpão e o início das vendas de produtos de outras categorias além de livros e e-books. No mesmo período, a empresa se tornou a mais valiosa do mundo e seu CEO global e fundador, Jeff Bezos, ultrapassou Bill Gates para se tornar o homem mais rico do mundo.

Mesmo a crise econômica e política do Brasil nos últimos anos, o aumento do preço do dólar, o temor de uma recessão global, nada tem tirado da Amazon - pelo menos por enquanto - o desejo de continuar investindo no mercado brasileiro.

"A aposta que a gente tem no Brasil é uma aposta de muito longo prazo", afirma Munhoz. "A gente está apostando que o Brasil é um país que tem muito potencial para a Amazon como um todo, não só para livros."

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Better Than Us – 1ª temporada

Série russa combina premissas de clássicos da ficção científica

Gustavo Pereira | Plano Aberto


Diferente da maioria das séries do gênero, “Better Than Us” é uma ficção científica com algo a oferecer. Bebendo de fontes clássicas como Isaac Asimov, Philip K. Dick e Stanley Kubrick, a produção russa consegue projetar um futuro de tecnologia factível e calcada nas relações humanas. Mais importante, sem ceder à pasteurização globalizada: “Better Than Us” é uma série russa com particularidades russas compondo a trama.

À primeira vista, “Better Than Us” soa como uma imitação de “Eu, Robô”, filme de 2004 protagonizado por Will Smith: um robô comete um assassinato e vira alvo de uma investigação da polícia, enquanto a empresa responsável por ele tenta desaparecer com as provas do crime. Mas se o filme de Alex Proyas foca no aspecto detetivesco da história, “Better Than Us” está preocupada com as pessoas deste mundo hi-tech. Em como a tecnologia se insere num país como a Rússia, de religião cristã ortodoxa e politicamente fechada, quase uma autocracia fundamentalista.


Os primeiros episódios da série são muito bons para desenhar este panorama. Em um programa de TV ao estilo “Casos de Família”, é colocado em debate se transar com um robô sexual pode ser considerado traição. Victor Toropov (Aleksandr Ustyugov), presidente da CRONOS, defende que o sexo com robôs inibe a “sordidez” da prostituição. O grupo terrorista “Liquidantes” prega a destruição dos robôs, principalmente porque eles tiram os empregos das pessoas. E o governo russo planeja impor uma Reforma Previdenciária que obrigue as pessoas a se aposentar mais cedo, exatamente para substituir a mão-de-obra humana por robôs que não tiram férias ou se organizam em sindicatos.

O protagonista Gregory Safronov (Kirill Kyaro) está tentando viver à margem de toda essa discussão político-filosófica quando descobre que a ex-esposa Alla (Olga Lomonosova) planejava se mudar para a Austrália com os seus filhos. Tentando manter Sonya (Vita Kornienko) e Egor (Eldar Kalimulin) perto de si, o caminho de Gregory encontra o de Arisa (Paulina Andreeva), o robô-assassino de última geração que a CRONOS deseja produzir em massa para substituir os humanos quando a reforma de previdência for aprovada.


Capaz de identificar e compreender emoções humanas, o propósito de Arisa é cuidar de sua “família”. O grande tema de “Better Than Us” é exatamente esse: todos os personagens têm famílias disfuncionais em alguma medida. Safronov não é exatamente um modelo de pai. Toropov é um péssimo marido. O detetive Borisovich (Kirill Polukhin) sequer tem uma família. Essa sobreposição de conflitos, aliada à devoção inabalada de Arisa para manter sua família segura, desperta a empatia do público pelo robô. Sem ignorar os excelentes trabalhos de Paulina Andreeva e do departamento de maquiagem, capazes de tornar a atriz num robô crível.

Infelizmente, após uma primeira metade empolgante, “Better Than Us” perde fôlego. Além de não explorar a fundo elementos da história, como os Liquidantes e o governo, ou de subtramas ricas como a “kubrickiana” história de luto e depressão da esposa de Toropov Svetlana (Irina Tarannik), algumas reviravoltas no roteiro são tão desnecessárias quanto sem sentido. A série tem conteúdo para os 16 episódios da temporada, mas parece ter sido escrita para apenas 10. Isso faz a história andar em círculos e ficar inchada.


Mesmo se perdendo na conclusão e criando ganchos desnecessários para uma nova temporada, “Better Than Us” oferece um vislumbre de um tema tão conhecido por nós sendo abordado com uma ótica completamente distinta, no estilo e nos valores. Só por isso, a série já merece uma chance. 


Ficha Técnica
Better Than Us – 1ª temporada
Luchshe, chem lyudi, 2018 – Rússia
Direção: Andrey Dzhunkovskiy
Elenco: Paulina Andreeva, Kirill Kyaro, Aleksandr Ustyugov, Eldar Kalimulin & Vita Kornienko
Fotografia: Ilya Ovsenev
Canal: Netflix




domingo, 25 de agosto de 2019

Biblioteca nacional de Israel disponibilizará arquivo reunido de Kafka na internet


A biblioteca nacional de Israel anunciou que recebeu a última parte de uma coleção de escritos de Franz Kafka, que planeja disponibilizar na internet agora que venceu uma batalha legal pela posse de parte do espólio literário do romancista judeu nascido em Praga.

Os papéis estavam na posse das irmãs Eva Hoffe e Ruth Wiesler, que argumentaram que os herdaram legalmente de sua mãe, Esther Hoffe.

Esta foi secretária do amigo, biógrafo e testamenteiro de Kafka, Max Brod, que ignorou o desejo do autor de língua alemã, expresso na véspera de sua morte, de queimar toda sua obra ainda não publicada.

O arquivo inclui três rascunhos do conto "Preparativos de casamento no campo", um livro de exercícios no qual praticava hebreu, centenas de cartas pessoais para Brod e outros amigos e diários de viagem.

Desde 2008, a biblioteca obteve uma série de veredictos que lhe garantiu a posse dos documentos, de acordo com instruções de um testamento escrito por Brod, que morreu em 1968.

A biblioteca disse que, dede que os processos terminaram em 2016, vem coletando os papéis em locais de Israel e da Alemanha e, há 15 dias, finalmente, da caixa forte de um banco suíço.

Stefan Litt, curador de humanidades da biblioteca, disse que a coleção ainda inclui desenhos.

"Partes deles são conhecidos, outras não são –talvez esta seja uma das coisas mais importantes", disse ele à Reuters.

"... Todos os escritos de Kafka que temos agora sob custódia serão digitalizados e abertos ao público de todo o mundo".

Kafka, cujas obras mais conhecidas incluem "O Julgamento", "A Metamorfose" e "O Castelo", morreu de tuberculose aos 40 anos em 1924.

Seus protagonistas muitas vezes enfrentam burocracias esmagadoras, habitando um mundo de pesadelo que rendeu o termo "kafkiano".

Por Rinat Harash
via Extra

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O que os likes dizem do nosso narcisismo (e da nossa inadequação)?


Christian Dunker | Tilt

Quando o Instagram anunciou que o número de curtidas em cada postagem não ficaria mais disponível para os usuários, você pode ter pensado que ainda era possível descobrir quantas pessoas curtiram uma publicação contando manualmente os nomes dos que se envolveram. Parece a mesma coisa, mas não é.

Existe uma relação intrínseca entre o narcisismo digital e a velocidade de interpretação da imagem. A contabilidade estimula a comparação entre pessoas, transferindo uma hierarquia de relevância e confiabilidade para o conteúdo e trazendo potenciais prejuízos psicológicos, aos que se obsessionam com a busca de curtidas.

Lembremos que o narcisismo é uma estrutura fundamental para todas nossas experiências de reconhecimento social e intersubjetivo. Alguém desprovido de narcisismo seria alguém incapaz de reconhecer o outro como semelhante e igualmente capaz de afetos, interesses e sofrimentos. Alguém com uma pane narcísica deste tipo seria incapaz de reconhecer até mesmo seus próprios sentimentos. A imagem popular do narcisista como alguém voltado só para si, incapaz de reconhecer desejos e valores diferentes dos seus, é muito parcial.

O narcisismo tem uma estrutura de palco: um ator contracena com alguém, para uma plateia. Às vezes o ator, coincide com o personagem e o diretor da peça. Dentro disso podemos encontrar muitas combinações: estar na plateia de si mesmo imaginando-se um protagonista. Sentir-se o coadjuvante que quer tomar o lugar do protagonista. Perceber-se como impostor do protagonista. Descer sistematicamente para a posição de plateia ou do sádico crítico de nosso teatro particular. Podemos estar cronicamente diminuídos em nossa estima, sempre no anonimato da plateia, ou, transparentes e invisíveis, nunca convidados para o espetáculo.

Alguns estão realizados apenas por participar da peça, ainda que como coadjuvantes, outros ressentem-se porque seu estrelato ainda não chegou. Certos narcisos decidem que serão grandes vilões. Há até mesmo aqueles que escolhem o personagem mais humilde, considerando que a verdadeiro espetáculo está acontecendo em outro lugar, por exemplo, no teatro celestial, ou em outra época, por exemplo, no vindouro futuro.

Podemos sentir, persistentemente, que nosso corpo, nossa forma de amar ou de consumir está inadequada ao personagem que queremos ou devemos desempenhar.

Todas as montagens narcísicas acima são fonte de sofrimento potencial, mas nem todas elas reduzem-se ao exibicionista latifundiário, empreendendo sua fazenda de likes. A linguagem digital, com sua métrica de curtidas, altera profundamente nossas gramáticas narcísicas porque amplia o acesso ao palco simbólico, estimula a variação de personagens imaginários e precifica o valor real da influência (ainda que a quantidade de likes não seja sempre um bom parâmetro para a efetivação e vendas). Barthes dizia que no interior de uma narrativa existem palavras "nós" e palavras "rede" de tal forma que no espaço digital cada qual se mede pela extensão e qualidade dos nós e das redes que formam seu algoritmo narcísico. Nesta situação não basta agredir-se ou praguejar contra o sistema. Uma vida isenta de narcisismo seria como tentar arrancar todas as máscaras em busca de nossa face real, autêntica e essencial, o que nos levaria apenas ao estado de carne viva ardente, diante do espelho digital.

Dar mais trabalho aos usuários para identificar o número de curtidas nas redes sociais é como fazer a gente assistir a partida sem saber se o estádio está lotado ou se estamos sozinhos apreciando o espetáculo. Talvez isso nos faça oferecer um tempo a mais para o que estamos realmente vendo e ouvindo; para a qualidade da peça e menos peso para a fama dos atores, para o sucesso de crítica ou bilheteria. Talvez isso permita estarmos um pouco mais advertidos diante das novas ilusões narcísicas trazidas pela linguagem digital.