quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Agregadores de pesquisa buscam contribuir com o debate eleitoral


Em meio a uma das mais conturbadas eleições presidenciais desde a redemocratização, dois jovens veículos trouxeram uma inovação para o cenário brasileiro. Com inspiração americana, ferramentas do JOTA e do Poder360 — no ar desde abril e julho, respectivamente — reúnem pesquisas eleitorais de diferentes institutos e traçam a linha de evolução de cada candidato ao longo da campanha.

O agregador do JOTA é focado na eleição presidencial e, em sua primeira versão, leva em consideração apenas as pesquisas espontâneas — quando o entrevistado não é informado previamente quais os postulantes. “Quando lançamos o agregador em abril, ainda não sabíamos quem seriam os candidatos e optamos por não tentar fazer nenhum tipo de ajuste para agregar cenários em que os candidatos considerados são diferentes”, explica Guilherme Jardim, um dos responsáveis pelo projeto. Com o cenário definido, um agregador de pesquisas estimuladas será lançado pelo veículo em breve.

Segundo ele, a iniciativa do JOTA nasce em um contexto em que há novos institutos com novas metodologias e, paralelamente, alguns dos institutos mais tradicionais realizam menos pesquisas. “Toda essa quantidade de dados pode compor um grande ruído. A única forma de extrair sentido desse ruído é através de modelagem estatística”, aponta.

A ferramenta do Poder360, feita em parceria com a Google News Initiative e o Volt Data Lab, é mais ampla. Ela agrupa pesquisas para presidente, governos dos estados, prefeituras e Senado desde 2000, e leva em consideração todos os cenários de pesquisas estimuladas.

O agregador é um projeto antigo do diretor do veículo, Fernando Rodrigues, que desde 2000 compila e organiza pesquisas eleitorais em seu blog. “[Na ferramenta] tudo é visualizável, de acordo com o que o leitor queira comparar. É um serviço completamente aberto e gratuito, para acadêmicos, jornalistas e qualquer pessoa curiosa sobre as eleições recentes no Brasil”, aponta Mateus Netzel, editor-assistente do Poder que supervisionou a iniciativa.

Apesar de inovadores, os projetos não são inéditos. Desde 2014, o estatístico Neale Ahmed El-Dash agrega pesquisas do Brasil e de outros países no PollingData. El-Dash é doutor em estatística pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP, e defendeu tese sobre a metodologia das pesquisas eleitorais brasileiras.

É a primeira vez, no entanto, que veículos de mídia investem em iniciativas do tipo. A inspiração vem sobretudo dos já tradicionais agregadores utilizados nas eleições americanas. Em um paper, o pesquisador da Princeton Election Consortium Sam Wang afirma que em 2008 havia pelo menos 45 pesquisadores agregando resultados nos EUA. 

Dois exemplos são os americanos RealClearPolitics e FiveThirtyEight, inspirações do Poder360 para realizar o seu agregador. “O Poder e o Volt optaram por utilizar uma média móvel no período considerado para conseguir atenuar as diferenças entre metodologias e deixar a linha mais suave para uma visualização melhor”, explica Sérgio Spagnuolo, fundador do Volt Data Lab.

A ferramenta não tem o objetivo de acertar quem vencerá os pleitos: “Nós não temos a intenção de prever resultados ou indicar tendências futuras, e sim de mostrar o comportamento do desempenho do candidato nas pesquisas eleitorais, considerando diferentes cenários ao mesmo tempo”, ressalta Spagnuolo.

No caso do JOTA, o modelo se aproxima do criado pelos pesquisadores Simon Jackman e o Jeff Lewis no HuffPost Pollster. Para Jardim, esse é o mais adequado para o cenário brasileiro, já que o Brasil tem menos pesquisas do que os outros países. 

O agregador do JOTA inclui alguns procedimentos estatísticos para traçar a linha dos candidatos. A quantidade de dias que faltam para as eleições, bem como o tamanho da amostra e o tempo em que a pesquisa foi realizada são alguns dos pontos que são levados em consideração. “Também vamos adicionar house effects, isto é, a tendência de cada instituto favorecer um candidato ou outro — não de maneira intencional, que fique claro. De acordo com a metodologia de cada instituto, algum estrato da população pode ser sobrerrepresentado, dando uma vantagem para algum candidato. Isso pode ser controlado de maneira estatística”, explica Jardim.

Para ele, apesar de o agregador do JOTA incluir esses procedimentos, ainda há um longo caminho a percorrer. “Nós ainda estamos muito aquém dos resultados obtidos pelos americanos, que incorporam muito mais conhecimento subjetivo em seus modelos”, aponta o cientista de dados.

Paralelamente à ferramenta, Jardim e o sócio do JOTA, Fernando Mello, têm publicado análises escritas com base no agregador. “Óbvio que o agregador não funciona por si só, nós estamos sempre fazendo análises escritas para o público. Acreditamos que analisar resultados eleitorais significa analisar suposições e entender por quais razões algo funciona ou não”, afirma.

Download dos dados

Os dados utilizados pelo agregador do JOTA estão disponíveis para download por qualquer interessado. “Trazer informações decorrentes de análise estatística vai ao encontro de uma das missões do JOTA, que é garantir maior transparência ao debate público”, diz o editor de dados do veículo.

A ferramenta do Poder360 também disponibiliza a íntegra do banco de dados para os leitores. “O Poder360 é defensor da política de dados abertos. Com a ajuda dos parceiros, as informações estão acessíveis de forma amigável para visualização e download. É um serviço que reforça a intenção do Poder360 de fornecer informações relevantes e de qualidade sobre a política e o poder no Brasil, para elevar o debate público”, afirma Mateus Netzel.

via ABRAJI

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O futuro já chegou. Você está preparado?


Christiane Berlinck | O Estado de S. Paulo

“O futuro já chegou, só não foi distribuído ainda”. Essa frase do William Gibson me ajuda a enxergar que a transformação digital, em poucos anos, provocará mudanças gigantescas no mundo como conhecemos hoje. Tudo vai mudar, e me desculpe se você ficar com medo ou ansioso por não estar preparado, mas isso será inevitável. Sistemas financeiros e de saúde, as comunicações e o varejo, em pouco tempo, serão bem diferentes do que conhecemos hoje. Meu conselho é simples, não perca tempo e se prepare.

Não serão somente os avanços em tecnologias que provocarão mudanças nas mais diferentes indústrias, mas sobretudo as mudanças nos comportamentos da sociedade e no mercado de trabalho. E é sobre isso que quero falar. A sobrevivência dos negócios será determinada pela capacidade das companhias de serem orientadas às pessoas. Ou seja, quanto mais tecnologia, mais foco em gente. Curioso, não?

Desta forma, naturalmente, surge o questionamento: quais serão as profissões do futuro? Isso não sei dizer, mas no último Fórum Econômico Mundial de Davos foram discutidas pesquisas que estimam que 65% das crianças que estão na escola atualmente trabalharão em empregos que não existem ainda. Também foi discutido o impacto da automação e da inteligência artificial, principalmente mudando as rotinas que conhecemos hoje em todas as profissões.

Novas tecnologias devem chegar e dominar o mercado, transformar posições de trabalho e criar outras que jamais sonharíamos em ver. Tudo isso num piscar de olhos. Obviamente, o medo toma conta de muita gente quando vislumbramos este cenário. Mas acredito que não haverá uma simples substituição da tecnologia pelo homem. Acredito que nós trabalharemos e entregaremos resultados infinitamente melhores se nos aliarmos a elas.

Qual é a dica? É não parar, é ter uma mentalidade de aprendizado constante e é se manter curioso o tempo todo, porque estamos em uma era do conhecimento exponencial. A única certeza que temos é que o profissional de sucesso, tanto do presente quanto o do futuro, é aquele que está em constante aprendizado e que usa o seu conhecimento para se diferenciar. Além dessa habilidade, que outras eu vejo como sendo importante?

Criatividade
“Nada se cria, tudo se transforma.” Há mais de 200 anos Lavoisier já havia observado a capacidade de transformação dos elementos da natureza. O que o mercado demandará no futuro são pessoas criativas, e aqui não estou me referindo apenas a artistas, pintores e escritores, mas a visionários capazes de transformar o caminho por onde passam. (Re)criando novas formas de organizar o trabalho trazendo conceitos muitas vezes de outras áreas do conhecimento ao seu campo de trabalho. Portanto, possuir um repertório de conhecimento plural será fundamental.

Capacidade analítica
“Possuir pensamentos analíticos que durem uma vida inteira …” Em tempos de fake news, o pensamento de Edward Tufte ganha imensa relevância. As plataformas de inteligência artificial, sobretudo com a chegada da computação quântica, serão capazes de agregar e processar quantidades gigantescas de informações quase que imediatamente. Algo que os humanos não conseguirão desempenhar com a mesma igualdade. Porém, somente os humanos são capazes de realizar julgamentos usando seu conhecimento como base.

Colaboração
“A tecnologia mudou a forma como os humanos interagem.”  Dan Brown vislumbrou a mudança no comportamento da sociedade e é exatamente por isso que empatia e colaboração serão habilidades chaves.

Capacidade de se colocar no lugar dos outros para entender novas realidades e personas já é uma necessidade não apenas para desenharmos a jornada do consumidor e criar soluções inovadoras para nossos clientes, mas também para sermos melhores pessoas. Ou podemos simplificar tudo isso e falar em colaboração. Mesmo que detentores de um conhecimento mais plural, os profissionais do futuro serão aqueles capazes de encontrar outro humano com o conhecimento complementar e que vislumbrem formas de integrar diferentes pessoas e ideias em projetos únicos, que de fato acrescentem valor na sociedade.

Por essas e outras, concordo com os que dizem que o futuro já chegou, mas sou otimista em relação aos impactos das tecnologias inteligentes no mercado de trabalho. O que nos tornará mais preparados para lidar com os desafios que esta transformação trará será, ironicamente, nossa capacidade de ser mais humanos.

*Diretora de RH da IBM Brasil.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Projeto publicará 130 mil de fotos inéditas de Andy Warhol na internet

“É o Warhol como você nunca o viu antes”, afirma pesquisador envolvido no Contact Warhol Project e na construção da biblioteca virtual sobre o artista

Revista Galileu


FOLHAS DE CONTATO DAS FOTOGRAFIAS DE JEAN-MICHEL BASQUIAT, TIRADAS POR WARHOL EM 1982 (FOTO: THE ANDY WARHOL FOUNDATION FOR THE VISUAL ARTS, INC.)

A Fundação Andy Warhol para Artes Visuais publicará mais de 130 mil fotos do artista das ‘Latas de Sopa Campbell’. Produzidas entre 1976 e 1987, ano em que Andy Warhol faleceu, as imagens mostram como era a vida do pintor e a sua relação com amigos e outras celebridades da época, como Debbie Harry, Truman Capote, Jean-Michel Basquiat, Liza Minelli, e Jon Gould, seu namorado.

A iniciativa faz parte do Contact Warhol Project, projeto criado pela Universidade de Stanford que contará também com uma exposição em setembro e o lançamento de um livro em novembro. Todas as fotos devem estar disponíveis em uma biblioteca virtual até o final do ano.

“É o Warhol como você nunca o viu antes. Você está vendo sua vida cotidiana de uma foram que apenas não era possível antes, porque essas folhas de contato nunca estiveram disponíveis ao público”, explica Richard Mayer, professor de arte de Stanford.

“As folhas de contato não oferecem apenas insights importantes e novos sobre a vida e o trabalho de Warhol, mas também ajudam a esclarecer problemas que cercam o que o motivava e o preocupava durante a última década da sua vida”, disse Mayer ao jornal britânico The Guardian.

De acordo com os pesquisadores, Warhol havia imprimido apenas 17% das fotografias que foram descobertas. Geralmente, o artista marcava as imagens rejeitadas com um X e as aprovadas eram circuladas. “Uma fotografia significa que eu sei onde eu estive a cada minuto”, disse Andy Warhol. “Por isso eu tiro fotos.”

Andy Warhol (Foto: The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc.)ANDY WARHOL (FOTO: THE ANDY WARHOL FOUNDATION FOR THE VISUAL ARTS, INC.)

Gabinetes portugueses de leitura no Brasil preparam digitalização de obras


Em setembro chegará ao Brasil uma equipa de técnicos portugueses para identificar obras de maior valor para digitalizar nos gabinetes de Belém, Recife e Salvador.

Portugal Digital

Os gabinetes portugueses de leitura em Belém, Recife e Salvador vão avançar com uma digitalização de parte do seu acervo literário, cujo custo será financiado por empresários e investidores da diáspora, segundo indicou ao jornal “Público” o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro.

De acordo com o governante, “já em Setembro seguirá para o Brasil uma equipa de técnicos para identificar obras de maior valor que não estejam digitalizadas nos três gabinetes de leitura portugueses”.

O jornal não refere, contudo, quem serão os empresários que irão financiar este trabalho nem qual o montante de investimento necessário para o projeto.

Os gabinetes de leitura de Belém e de Salvador têm cerca de 40 mil livros cada um, enquanto o de Recife conta com 80 mil títulos. Entre as obras incluem-se “manuscritos e primeiras edições de grande parte dos mais importantes escritores portugueses, como Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, além de documentos manuscritos e cartas de marear desde o tempo das descobertas”, destaca José Luís Carneiro.

A iniciativa da digitalização surgiu depois do incêndio que destruiu o espólio do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Um primeiro projeto avançou com a realização em abril último, na Embaixada de Portugal em Brasília, de uma reedição de “A arte da cozinha”, de João da Matta, de 1876.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Parceria disponibiliza toda a coleção da revista Ciência e Cultura em formato digital


A revista teve seu primeiro número publicado em 1949, ano seguinte ao da criação da SBPC. Com a digitalização, as 456 edições e suplementos da revista podem ser consultados no site da Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional

Uma parceria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) com a Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional, viabilizou a digitalização de toda a coleção da revista Ciência e Cultura. A revista teve seu primeiro número publicado em 1949, ano seguinte ao da criação da SBPC. Desde 2002, quando a revista passou a ser produzida no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, Labjor Unicamp, além da versão impressa, a Ciência e Cultura conta com uma versão digital no portal Scielo. Os números anteriores a 2002, no entanto, eram de difícil acesso. Com a digitalização, as 456 edições e suplementos da revista podem ser consultados no site: http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/.

A revista é um marco para a institucionalização da ciência no País. De acordo com Carlos Vogt, editor chefe da revista, trata-se de “uma das publicações mais antigas e importantes para a grande virada que a ciência brasileira conhece a partir dos anos 1950”. Hoje a revista busca contribuir para o debate dos grandes temas científicos da atualidade e atrair a atenção, principalmente das novas gerações de pesquisadores, para uma reflexão continuada e sistemática sobre tais temas. De periodicidade trimestral, seu espaço editorial é dividido em quatro áreas: Núcleo temático, no qual são publicados artigos com diferentes enfoques sobre um tema específico; Artigos&ensaios, focados em temas da atualidade científica; Notícias, que fornece uma visão abrangente do que vai pelo mundo no universo da ciência e da cultura; e Expressões culturais, com artigos, críticas, reportagens sobre tendências em literatura, teatro, cinema, artes plásticas, música, televisão, novas mídias, etc.

De acordo com Vinícius Martins, coordenador da Hemeroteca Digital Brasileira, o processo de digitalização levou cerca de cinco meses, entre o levantamento dos números, digitalização e processamento das imagens para o reconhecimento do texto. “Digitalizamos a totalidade da coleção, todos os números e suplementos – são 456 edições, com cerca de 68 mil páginas”, disse. Boa parte dos números impressos já estava na Biblioteca Nacional. “Complementamos os que faltavam em nossa coleção com as edições pertencentes ao acervo do Centro de Memória da SBPC”, explicou Martins, sobre o trabalho do Centro de Memória Amélia Império Hamburger (CMAIH), inaugurado em 2017, na sede da SBPC, em São Paulo.

A Hemeroteca Digital Brasileira é um portal de periódicos nacionais. O acesso pela internet permite aos usuários consultar jornais, revistas e diversas publicações seriadas de qualquer lugar. “Uma das motivações para a criação da hemeroteca foi criar um repositório para periódicos científicos”, contou o físico Ildeu de Castro Moreira, atual presidente da SBPC e que foi um dos idealizadores desse projeto quando estava à frente do Departamento de Popularização e Difusão da C&T, do então Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, entre 2004-2013. A viabilização do projeto contou com o financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), por meio da Financiadora de Estudos e Projetos, (Finep) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que investiram recursos para aquisição das máquinas e desenvolvimento das ferramentas de busca. “Ainda há muitas coleções de periódicos de associações científicas disponíveis apenas na versão impressa. A Hemeroteca pode ajudar a disseminar esse conhecimento para um número maior de pessoas, além de contribuir para construir uma memória da ciência brasileira”, complementou.

A digitalização da Ciência e Cultura confirma esse papel, já que boa parte da história da instituição está documentada justamente nas páginas da revista. “É uma forma de recuperar e preservar a história da instituição”, disse Áurea Gil, historiadora da SBPC, que coordena o Centro de Memória Amélia Império Hamburger, da SBPC.

A consulta da revista Ciência e Cultura na Hemeroteca Digital pode ser feita por título, período, edição, local de publicação e palavra, acessando este link. “A busca por palavras é possível devido à utilização da tecnologia de Reconhecimento Ótico de Caracteres (Optical Character Recognition – OCR), que proporciona aos pesquisadores maior alcance na pesquisa textual em periódicos. Todo o texto reconhecível é indexado e pode ser recuperado”, explicou Martins. Outra vantagem do portal é que o usuário pode também imprimir em casa as páginas desejadas.

Acesse e consulte todo o acervo: http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

via SBPC

terça-feira, 26 de junho de 2018

Revista Arquitectura: baixe gratuitamente todas as edições da principal publicação de arquitetura da Espanha



Javier García Librero | ArchDaily

O Colégio de Arquitetos de Madri (COAM) acaba de publicar a primeira parte do processo de digitalização da revista Arquitectura, disponibilizando à todos uma das publicações mais importantes e influentes do panorama arquitetônico do século XX na Espanha, a qual se converteu em uma referência para o debate, o pensamento e a atividade profissional de arquitetos, urbanistas e profissionais de outros setores relacionados.

Fundada em 1918 como publicação oficial da Sociedad Central de Arquitectos, a revista ARQUITECTURA, converteu-se na primera publicação livre da imprensa arquitetônica espanhola. Entretanto, durante a guerra civil espanhola a sua publicação foi suspensa e posteriormente adaptada, sendo editada pela Direção Geral da Arquitetura, órgão do Ministério do Governo, como Revista Nacional de Arquitectura, a qual foi publicada periodicamente até 1946.

O título persistiu até 1958, mas após a nomeação de Francisco Prieto Moreno como Diretor Geral de Arquitetura, o COAM recuperou sua função de editor oficial da revista, ainda que sob tutela do Conselho Superior do Colégios de Arquitetos Espanhol. O Colégio de Arquitetos, definitivamente e sem qualquer apoio, retomou a propriedade da revista, novamente publicada como Arquitectura, voltou a circular em janeiro de 1959 e continua seguindo seu propósito até os dias de hoje.

O arquivo digital está sendo editado cronológicamente, através das diferentes etapas e dos distintos diretores que estavam por trás da publicação ao longo de seus 100 anos de história. Além disso, o catálogo inclui um sistema de organização alfabética tanto pelos autores dos artigos quanto pelo título dos mesmos. Somando-se a isso, uma ferramenta de busca on-linbe permitirá a todos os interessados acessar facilmente todo o conteúdo de seus milhares de volumes.

Já estão disponíveis as publicações dos dois períodos nos quais o COAM era o único responsável pela publicação da revista, entre 1932-1936 e de 1959-até os dias de hoje, e em breve serão publicados os demais períodos, de 1918 a 1931 e de 1941 a 1958 (RNA).

A digitalização do acervo da revista Arquitectura faz parte do processo natural de adaptação das mídias físicas à era digital, ao mesmo tempo que, se faz extremamente necessária ampliar a disponibilidade de tão importante informação, até hoje muito restrita e de difícil acesso daquela que foi, e ainda é, uma das publicações periódicas mais elementares na construção e transformação do pensamento sobre a arquitetura espanhola do século XX.

Acesse o arquivo digital da revista aqui.

sábado, 16 de junho de 2018

Argentina: uma biblioteca digital para todos


Por meio de financiamento da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), e em colaboração com editoras argentinas, a Tiflolibros, uma biblioteca digital para cegos, produziu 800 livros didáticos em espanhol.

As obras são para pessoas com deficiência visual ou com incapacidade de leitura de material impresso. O acesso a estes livros foi facilitado pelo Tratado de Marrakech – cujo nome oficial é Tratado de Marrakech para facilitar o acesso a obras publicadas às pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades para acessar texto impresso, adotado em junho de 2013. A Argentina foi um dos Estados que adotou a convenção internacional.

Saiba mais: www.tiflolibros.com.ar

via ONU

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Plataforma dá acesso à produção intelectual da USP desde 1985

Além do acesso à íntegra de textos, ferramenta indica caminho para material ainda não digitalizado; é possível encontrar até teses de 1914 da Poli

Por Luiza Caires -| Jornal da USP


O público tem agora disponível uma plataforma que simplifica o acesso à produção intelectual dos pesquisadores da USP. No momento em que este texto era escrito, a Biblioteca Digital da Produção Intelectual (BDPI) da USP reunia quase 925 mil registros, incluindo a produção científica, acadêmica, artística e técnica de pesquisadores, mais as teses e dissertações defendidas desde 1985 na maior universidade da América Latina. E, diariamente, esses números são atualizados, à medida que os bibliotecários cadastram novos documentos.

Idealizada para funcionar como um buscador sofisticado, mas ao mesmo tempo fácil de personalizar para o usuário de acordo com seus interesses, a ferramenta proporciona, a partir de uma única interface, a descoberta, recuperação e rastreabilidade da produção de pesquisadores, departamentos e unidades da Universidade.

Além do acesso à íntegra de documentos que estão disponíveis para acesso aberto na internet, a BDPI indica o caminho para o material mais antigo, que ainda não foi digitalizado. Os registros remontam ao ano em que se tornou obrigatório aos pesquisadores da USP o depósito de sua produção nas bibliotecas da Universidade. Mas é possível resgatar até mesmo alguns itens mais antigos que 1985, de períodos anteriores à criação da própria USP – por exemplo, teses e dissertações defendidas na então Faculdade de Direito e na Escola Politécnica em 1912 e 1914, que estão nas respectivas bibliotecas (essas unidades já existiam antes da fundação da USP, sendo depois a ela incorporadas).

Assim, mais que um mapa de todo esse conteúdo, “a BDPI é uma ação que valoriza a memória institucional da Universidade”, diz Tiago Murakami, chefe da Divisão de Gestão de Tratamento da Informação do Sistema Integrado de Bibliotecas (SIBi) da USP.

Está tudo lá?
Em relação ao conteúdo, todos os registros apresentam link para o texto completo, desde que o mesmo esteja disponível e acessível na Universidade. “No cerne da iniciativa está a ideia de promover o acesso aberto aos documentos na íntegra, democratizando esse acesso e estimulando o compartilhamento do conhecimento gerado”, afirmam Murakami e Elisabeth Dudziak, chefe da Divisão de Gestão de Desenvolvimento e Inovação do SIBi. Por isso, explicam eles, a associação de documentos aos registros existentes está sendo feita gradualmente, sempre em colaboração com os autores USP e as bibliotecas do sistema, resgatando e integrando dados e conteúdos que hoje estão disponíveis em uma plataforma mais antiga. “A unificação dos dois sistemas será realizada pouco a pouco”, ressaltam.

Algo que não será encontrado nesta Biblioteca Digital é a produção de alunos que não se trate de teses de doutorado e dissertações de mestrado. Essa limitação está relacionada, entre outras coisas, a direitos autorais, já que o vínculo do aluno com a Universidade é transitório. De qualquer forma, como uma grande parte da produção científica e acadêmica de alunos – a exemplo de artigos em periódicos – é feita em coautoria com docentes, também podemos esperar encontrar uma boa parte desse material na base. Da mesma maneira, não entram para o registro as produções de docentes que tiverem data anterior ao seu ingresso formal ou posterior à sua saída da USP.


Diferentes usos
A BDPI pode ser utilizada para descoberta de artigos, trabalhos de evento, livros e capítulos de livro, teses e dissertações por assunto, autor e por unidade, expressando competências e especialidades dos pesquisadores da USP.

Mas também é fonte de indicadores e métricas associadas às produções registradas, apresentando os totais por tipo de material, autor, ano de publicação, idioma, título da fonte, editora, idioma, agência de fomento, indexação em bases de dados, entre outras opções de recuperação de dados, apresentados em gráficos.

Permite ainda a geração de relatórios que podem ser visualizados na própria interface ou podem ser exportados. Tudo isso a torna uma ferramenta estratégica para o planejamento de unidades, departamentos e da USP como um todo, naquilo que é um dos pilares da sua existência: a pesquisa científica.

Além disso, os registros são enriquecidos com aplicativos que integram dados de outras bases para periódicos, incluindo informações sobre citações, tudo atualizado em tempo real. Isso quer dizer que se o paper de um pesquisador da USP for citado em algum periódico um pouco antes que alguém faça uma pesquisa por esse paper na Biblioteca Digital, os aplicativos que buscam essas citações as encontrarão e já as exibirão junto ao registro.

Painel de indicadores: Dashboard
O Dashboard permite visualizar de maneira simples informações pré-configuradas, podendo ser personalizado pelo usuário, com aplicação de filtros. O pesquisador poderá ter informações agregadas sobre sua unidade, departamento ou sobre um pesquisador, permitindo ter uma visão global do conjunto. Acesso pelo endereço http://bdpi.usp.br/dashboard.php.

Aspectos técnicos
A BDPI foi desenvolvida dentro da Universidade, por sua equipe, e customizada de acordo com as características da USP, com forte inspiração na Vufind, ferramenta aberta de busca para bibliotecas. Feita a partir de um software livre, a BDPI é totalmente compatível com o Google: para os nomes dos campos, foi utilizado um formato de metadados estruturados que este buscador utiliza, facilitando a indexação e recuperação por quem procura o conteúdo no google.com.

A plataforma reúne informações a partir dos registros cadastrados no Dedalus (Banco de Dados Bibliográficos da USP) e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, e enriquece esses registros coletando informações de outras fontes, desde o Currículo Lattes até bases internacionais como Web of Science, Scopus e Dimensions. A coleta é feita via aplicativos do tipo Application Programming Interface (APIs).

“Esforço conjunto de autores USP, das equipes das bibliotecas e do Departamento Técnico do SIBi”, como ressaltam Murakami e Elisabeth Dudziak, “a iniciativa revigora o objetivo de preservar a produção intelectual da Universidade e promover o efetivo acesso aberto”.

Conheça mais detalhes da plataforma no texto Plataforma BDPI revela indicadores e a produção de pesquisadores da USP, publicado no site do Sibi.

Luiza Caires, com informações de Tiago Murakami e Elisabeth Dudziak / Sibi

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Há tanta vida na tela

É fato que a leitura digital está sujeita à fragmentação e dispersão da atenção, mas também é verdade que recursos online enriquecem a experiência

Abel Reis | Época Negócios

"UM CASAL LENDO LIVROS IMPRESSOS EM UM RESTAURANTE INCOMODARIA TANTO QUANTO SE ESTIVESSE LENDO PELO CELULAR?" (FOTO: PEXELS)

O Google anda preocupado com o tempo que passamos online, especialmente no smartphone. Por isso lançou, em maio de 2018, um programa batizado de “Bem-estar Digital”. Considerado prioridade pela empresa, a sua promessa é frear o excesso de atividades em dispositivos eletrônicos. Ele permite monitorar a rapidez para atender uma ligação, quantos e-mails respondemos por dia e até programar o aparelho para ficar menos interativo durante conversas presenciais ou à noite. Claro que tudo isso deve ser ativado e acompanhado por ele, ele mesmo: o celular.

O pressuposto da plataforma é que estamos perdendo um mar de oportunidades lá fora. É sintomático que essa grande “campanha do bem” aconteça em um dos períodos mais críticos da empresa, pressionada duramente por temas como privacidade e segurança (ou melhor, a falta delas). A Organização Mundial da Saúde (OMS) pensa parecido. Incluiu o vício em games na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). A indústria da saúde curtiu e compartilhou a novidade. Nos Estados Unidos, surgiram clínicas de rehab para dependentes em tecnologia e prescrições médicas a rodo.

Os pesquisadores Christopher J. Ferguson e Andrew Przybylski, em estudos separados, concluíram o contrário do que dizem Google, medicina e senso comum. Os efeitos da dependência tecnológica não chegam aos pés da química. Gamers adoecidos são raríssimos, apenas 3% do total. Para a maioria dos adolescentes, celular e redes sociais aprofundam laços e interesses reais. Apenas uma minoria, já predisposta à depressão e ansiedade, comete abusos. E, de certa forma, se tornou conveniente culpar gadgets por problemas em casa ou na escola.

Ainda estamos nos habituando à onipresença da tecnologia em nossas vidas. Estivéssemos fissurados por escrever em um caderno - no trânsito, trabalho, na cama etc - seríamos criticados, vistos com pena ou encaminhados ao médico? Se andássemos para cima e para baixo com as 700 páginas do Ulisses de James Joyce - e não um dispositivo eletrônico -alguém acharia um exagero? E um casal lendo livros impressos em um restaurante? Incomodaria tanto quanto se estivesse lendo pelo celular?

Tudo que é novo - e a tecnologia sempre será - gera estranhamento e até medo. A leitura digital (ainda) não tem o charme da leitura em papel. Enquanto o e-reader “paga” de objeto técnico, a obra impressa tem status de objeto cultural. Por isso é socialmente mais aceita e até admirada, mesmo se consumida em doses cavalares. Como fica essa comparação se cotejarmos uma obra impressa medíocre com um poema digital de Jason Nelson? Por aí se vê a complexidade de definir o que é saudável ou não.

Se recuarmos à Idade Média, veremos que a consolidação da imprensa de tipos móveis - e o livro impresso - redefiniu o ato de leitura: a leitura silenciosa e introspectiva sobrepôs-se à leitura em voz alta, e as técnicas de memorização caíram em desuso. Vale dizer que um novo suporte físico para a palavra escrita trouxe consigo uma revolução semiótica que por sua vez trouxe impactos dramáticos nas sociedades europeias à época - que o diga a disruptiva reforma protestante!

É fato que a leitura digital está sujeita à fragmentação e dispersão da atenção típicas do novo meio. Mas também é verdade que recursos online como pesquisa, dicionários, tradução e comentários de outros usuários enriquecem a experiência, tornando a leitura introspectiva e social ao mesmo tempo. A história seria outra se o papel (por algum milagre da ciência e tecnologia) oferecesse essas mesmas facilidades? Provavelmente, sim. Provavelmente, haveria muitos fãs e poucos detratores da hiperconectividade, por mais viciante que ela fosse. Resumindo: estamos na infância de uma nova revolução semiótica.

*CEO da Dentsu Aegis Network Brasil e Isobar Latam

terça-feira, 12 de junho de 2018

Facebook: hora de compartilhar ou desgrudar?


A onipresente rede social de Mark Zuckerberg tornou-se um problema político, econômico e existencial – e já há quem defenda um êxodo em massa

Por Alexandre Matias | ] cultura [
Ilustrações Lucas Levitan

O SENADOR NORTE-AMERICANO Dick Durbin olhava para o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, por cima dos óculos, durante o interrogatório que o dono da maior rede social do planeta atravessou no início de abril. “Você ficaria à vontade em compartilhar conosco o nome do hotel em que ficou na noite passada?”, perguntou. “Ahn…”, balbuciou o cacique de uma tribo digital com mais de dois bilhões de pessoas, para responder em seguida, com um sorriso constrangido, “não”. A resposta foi recebida com uma explosão de gargalhadas dos presentes na sessão do senado americano, em Washington. 

O inquérito respondido por Zuckerberg dizia respeito ao escândalo envolvendo a maior rede social do mundo, que fora usada pela consultoria política inglesa Cambridge Analytica como plataforma digital para sugar dados de quase 90 milhões de pessoas e depois manipular suas escolhas online para que elas fossem refletidas em votos. A Cambridge gaba-se de ter sido decisiva em recentes terremotos políticos modernos, como a eleição de Donald Trump nos EUA e o Brexit, referendo que desconectou o Reino Unido do Mercado Comum Europeu. 

A bomba explodiu quando um ex-funcionário da empresa, o programador Christopher Wylie, veio a público para revelar que a Cambridge Analytica havia usado um inocente teste de personalidade postado na rede para drenar informações dos usuários do Facebook e influenciar suas escolhas a partir de anúncios e posts patrocinados direcionados para diferentes tipos de eleitores. A crise foi tamanha que a Cambridge anunciou em maio que fechará suas portas.

O teste vinha dentro de um aplicativo que pedia para que o público entregasse todo o tipo de informação sobre si mesmo armazenada pelo Facebook: agenda de contatos, quantidade de likes, links clicados, histórico de buscas. A minúcia chegava ao extremo de colher dados sobre pessoas que nem sequer estão na rede social, através de contatos digitais diferentes, como a agenda de telefones no celular ou o histórico de e-mails daqueles que aceitaram usar o app clicando inocentemente na caixinha de permissões do teste de personalidade.

Embora o próprio Zuckerberg lave as mãos e diga que foram as pessoas que aceitaram os termos de uso tanto do aplicativo quanto do Facebook, o fato é que a empresa controla uma quantidade de informações pessoais cada vez maior e tem se tornado central na maioria das conexões entre pessoas atualmente. Mesmo fora de seu domínio azul, Zuckerberg ainda rastreia as pessoas pelo Instagram e pelo WhatsApp, duas ferramentas independentes que tiveram saltos de popularidade e foram compradas pelo Facebook.

A era digital fez nascer um novo tipo de oligopólio: o dos dados pessoais. Aproveitando-se da ingenuidade do público e de uma nova legislação norte-americana que permitia a vigilância online após os atentados de 11 de setembro de 2001, novas empresas passaram a oferecer produtos online aparentemente gratuitos – sejam redes sociais, e-mails online, aplicativos de comunicação e de relacionamento, serviços na nuvem e mapas digitalizados – que coletam informações sobre cada passo dado por seus usuários. Ao aceitar os termos de uso destes novos serviços, as pessoas aos poucos foram abrindo mão de sua privacidade e até de sua liberdade, carregando dispositivos de monitoramento online em seus bolsos.

Corporações como Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft começaram a desdobrar suas atividades para além de suas funções originais, aumentando o nível de consentida invasão de privacidade de seus usuários. Conhecendo melhor seus clientes como nenhum outro tipo de empresa na história, eles começaram a vender estas informações em forma de publicidade, personalizando os anúncios de acordo com os hábitos digitais de seus “consumidores” – que são, na realidade, o verdadeiro produto oferecido aos anunciantes pela rede social.


Empresas menores como Twitter, Spotify, Uber e Netflix, entre inúmeras outras, também coletam seus dados para “melhorar seus serviços”, embora todos almejem ter a influência e o tamanho dos dois maiores gigantes digitais: Google e Facebook. Se o primeiro não tem uma grande rede social para conectar as pessoas, é simplesmente dono do maior site de buscas do mundo, do principal serviço de streaming do planeta (o YouTube), do principal sistema operacional para celulares (o Android) e do principal serviço de mapas online do mundo (o Google Maps).

Já o Facebook parece ter uma influência maior do que a simples inteligência artificial bradada pela empresa. Ele bane a nudez (incluindo mães que amamentam), mas não tira do ar cenas violentas, por alegada “liberdade de expressão”. No mesmo inquérito realizado nos EUA, Zuckerberg assegurou que grupos de ódio são proibidos no Facebook, quando qualquer usuário percebe a tendência belicosa por trás de comentários, likes e compartilhamentos. 

A crescente polarização ideológica da sociedade no mundo todo parece ter sido reforçada pela distribuição eletrônica de publicações da rede, com a criação de bolhas de interesse que não conversam entre si. Problema que o indiano Chamath Palihapitiya, que chegou a ser vice-presidente de crescimento de usuários da rede entre 2007 e 2011, apontou no fim do ano, em uma palestra na Escola de Negócios de Stanford sobre o vício em redes sociais. Para o ex-diretor da empresa, o Facebook está destruindo o funcionamento da sociedade e rasgando o tecido social ao fazer as pessoas se tornarem compulsivas no uso e na recompensa mental que seu uso traz. Na mesma época, o primeiro presidente do Facebook, Sean Parker, admitiu em um evento na Filadélfia que a rede foi desenhada para ser viciante: “Só Deus sabe o que estamos fazendo com o cérebro de nossas crianças.”

Todas essas revelações não alteraram significativamente o engajamento de seus usuários, embora um movimento de êxodo digital tenha se intensificado desde então, e o Facebook venha encontrando dificuldades em atrair usuários mais jovens. Obviamente, a opção de abandonar o Facebook é complicada, pois a rede se tornou central em uma série de relações sociais e comerciais – e ainda não encontrou um rival à altura (quadro acima).

O que nos deixa a um clique da tirania, como alertou a professora Melissa K. Scanlan, da Escola de Direito de Vermont, em um artigo no jornal britânico The Guardian: “O uso nefasto de nossos dados pessoais está em toda parte. Se a Cambridge Analytica pode obtê-los, o que impede que um governo também os tenha?” E prosseguiu: “A maior tirania seria a fusão do monopólio corporativo e do poder governamental, criando o estado de vigilância mais invasivo da história.”

Jamais poderíamos imaginar que a distopia do futuro digital que habitamos hoje fosse mais assustadora que a ficção de George Orwell e Aldous Huxley, que cogitaram, respectivamente, o estado de vigilância máxima personificado na figura do Grande Irmão no livro 1984 e o estado de êxtase alienante em Admirável Mundo Novo. O início do século 21 parece ser uma mistura destes dois cenários, em que alimentamos um Grande Irmão digital com nossos êxtases pessoais. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Como é a experiência de ter livros físicos ou e-books, segundo este estudo

Posse de bens digitais é diversa por fatores como impessoalidade e impossibilidade de presentear ou doar uma obra literária


Juliana Domingos de Lima | Nexo

CONSUMIDORES DE LIVROS DIGITAIS TÊM PERCEPÇÃO REDUZIDA DA POSSE DESSE ITENS EM RELAÇÃO À SENSAÇÃO DE TER LIVROS FÍSICOS

Um estudo publicado em maio de 2018 na revista Electronic Markets indica que a experiência psicológica de possuir livros digitais difere da sensação de ter livros físicos. 

Feito por pesquisadores da Universidade do Arizona e Universidade Towson, ambas nos Estados Unidos, o estudo “Consumer interpretations of digital ownership in the book market” (Interpretações da propriedade digital pelo consumidor no mercado livreiro, em tradução livre) confirma a percepção já relatada, informalmente, por leitores e profissionais do mercado editorial. 

A digitalização de livros e outros produtos de informação transformou a interação de pessoas com esses bens, segundo o estudo. 

Com o objetivo de explorar “como consumidores conceituam a posse de bens digitais” (se e-books, no caso, são percebidos como sendo “deles” mesmo sendo imateriais, armazenados em uma “nuvem”), a pesquisa entrevistou grupos focais de consumidores americanos.

Metodologia 

Os participantes dos grupos focais foram recrutados com base na utilização de tecnologias digitais e e-books. Foram formados quatro grupos, divididos segundo categorias geracionais. 

Um total de 31 pessoas – 26 mulheres e 5 homens – participaram de quatro sessões de uma hora de duração cada. O desequilíbrio no gênero entre os membros foi puramente incidental. 

Os dados qualitativos da pesquisa foram extraídos de transcrições das conversas com os grupos.

Os seis temas 

A partir dos dados extraídos dos grupos focais, os pesquisadores identificaram seis temas principais que esclarecem o “significado” da posse de bens digitais para as pessoas.

1 Limitações na posse do livro digital restringem sua experiência de uso 

A posse de um livro digital possui algumas limitações. Restrições de compartilhamento, por exemplo, são parte da gestão dos direitos digitais do produto, imposta pelas editoras como meio de impedir a perda de receita que seria causada pelo compartilhamento ilimitado do arquivo. 

Os participantes relataram frustração e sensação de injustiça relacionados a esse controle. Cientes das limitações jurídicas mas acostumados aos direitos de propriedade normalmente associados à aquisição de bens físicos, não aceitam o fato de não ter plenos direitos sobre um bem após a compra. 

Para eles, o custo dos e-books não corresponde ao valor experimentado no uso e na posse desses bens. Deveriam ser mais baratos.

2 Esse controle limitado sobre a posse do e-book prejudica as trocas sociais e o estabelecimento de conexões 

Donos de livros digitais não têm a possibilidade de vender, emprestar, doar ou dar esses livros de presente. Pelo menos não com a mesma facilidade com que fariam com um livro físico. 

Por inibir as interações sociais mediadas pelo livro, o livro digital acaba levando a uma percepção reduzida da posse, tanto no aspecto psicológico quanto legal. 

Embora a Amazon permita o empréstimo de e-books adquiridos na plataforma, participantes argumentaram ser um procedimento mais complicado em relação ao livro físico.

3 Senso de identidade, pertencimento e vínculo são maiores a partir de livros físicos 

A imaterialidade dos livros digitais prejudica a habilidade de quem os têm de se relacionar com eles como únicos ou pessoais, impedindo que se crie um senso de identidade a partir deles, de desenvolver apego e sentimento de posse. 

Nesse aspecto, o ato de fazer anotações ou grifos em um livro físico foi citado como um meio de torná-lo “seu”. Embora leitores digitais apresentem essas mesmas opções, notas ou destaques digitais não pareceram facilitar o sentimento de personalização relativo ao e-book. 

O cheiro, o tato e as informações trazidas pela capa e contracapa dos livros físicos também foram mencionados por participantes. Segundo o estudo, o emprego de diferentes sentidos na interação com o bem em questão realça a percepção de posse. 

A exibição de uma coleção de livros foi levantada, ainda, como um fator importante na expressão da identidade do indivíduo, o que só teria sentido com livros físicos. 

O caráter temporário e facilmente substituível do livro digital indicam falta de conexão de quem o possui com relação a ele.


4 Estilo de vida minimalista estimula preferência por livros digitais 

Apesar de reconhecerem a sensação de posse do e-book como reduzida, alguns participantes veem a posse como um fardo e usam produtos digitais para se livrar do trabalho de manutenção (como tirar pó) e requisitos para o armazenamento (como espaço) associados a livros físicos.

5 Preferência pelo valor de uso estimula uso de livros digitais 

E-books oferecem vários benefícios específicos, derivados do uso do produto, e não de sua posse. O acesso facilitado a um grande número de títulos vem ganhando aceitação de consumidores. 

Os hábitos de consumo de diversos participantes eram mais próximos do aluguel do que da compra. Outros acessam conteúdo digital de bibliotecas, alternativas que tornam as restrições de propriedade mais aceitáveis no ponto de vista dos consumidores de livros digitais.

6 Jovens não necessariamente preferem o digital A suposição típica de que consumidores mais jovens preferem produtos digitais não foi confirmada pelo estudo. 

Os grupos focais do estudo foram divididos de acordo com um critério geracional, com o objetivo de examinar se hipóteses relacionadas à adoção da tecnologia por gerações distintas impactariam a maneira como participantes interagem com seus bens digitais.

Os “millennials” (nascidos entre 1982 e 2000, segundo considerou o estudo), frequentemente descritos como “letrados” em tecnologia, mostraram, no geral, uma atitude mais negativa com relação aos e-books do que o esperado.  O grupo etário mais jovem manifestou forte preferência por livros físicos, o que difere significativamente dos grupos mais velhos, nos quais a adoção do e-book pareceu mais difundida, que valorizam funções como a possibilidade de aumentar o tamanho a fonte do texto. 

Independentemente da idade, quase todos os participantes se mostraram fortemente apegados aos livros físicos em determinadas circunstâncias e contextos e nenhum se declarou confortável com a ideia de uma experiência de leitura integralmente digital. 
Os resultados sugerem que o produto digital poderia se beneficiar da emancipação de seu correlato físico. “Descobrimos que os consumidores que associam o consumo digital aos significados de propriedade tradicionalmente ligados a bens materiais mostraram maiores níveis de frustração [com relação à posse de itens digitais]”, diz o estudo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Celular: como dar um tempo


Um plano para se livrar da ansiedade e retomar a sua vida

Dicas práticas testadas para realmente mudar a vida de todo mundo que já sofreu com a ansiedade de ter um smartphone.

Seu telefone é a primeira coisa que você procura ao acordar e a última coisa na qual toca antes de dormir? Você já sentiu ansiedade de passar muito tempo longe do celular — ou muito tempo nos aplicativos dentro dele? Já se viu pegando o seu smartphone apenas para responder uma mensagem e quarenta e cinco minutos depois se assustou ao descobrir quanto tempo se passou? Já disse que gostaria de passar menos tempo com o aparelho, mas não sabe como fazer isso sem perder os benefícios que ele trouxe para a sua vida? Se respondeu sim a qualquer dessas perguntas, este livro é a solução para você. 
A premiada jornalista Catherine Price apresenta um plano prático e detalhado de como dar um tempo na relação com o celular – e depois fazer as pazes. O objetivo? Um relacionamento duradouro e livre de anseios no qual você se sinta bem.


Título: Celular: como dar um tempo: o plano de 30 dias para acabar com a ansiedade e retomar a sua vida
Autora: Catherine Price
Páginas: 176
ISBN: 9788584391141
Editora: Fontanar

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O Brasil paralelo no WhatsApp


Durante a crise dessa semana um outro mundo acontecia nos grupos de WhatsApp

Pedro Doria | O Estado de S. Paulo
Imagem: Internet

Há, nas entranhas do WhatsApp, um outro Brasil. Nele, uma quantidade imensa de pessoas vive uma realidade paralela. Passei a última semana me dividindo entre seis grupos distintos. Estes ‘grupos de notícias’ informam aquilo que a imprensa ‘não tem coragem’ de contar. Para o observador atento, os grupos revelam dois processos paralelos: Um deles é uma estrutura de marketing político de guerrilha em formação, fazendo um jogo sujíssimo. O outro é um novo tipo de brasileiro, despolitizado e no entanto engajado, tentando compreender a confusa realidade à volta, com as poucas ferramentas de que dispõe.

Grupos no WhatsApp têm um limite de tamanho: 256 usuários. E os convites podem ser distribuídos por links. Essas são informações chaves para compreender a dinâmica de como funcionam. Os links para entrar nos grupos de notícias vão circulando, do grupo de família para o do serviço.

Quem entra é abastecido com centenas de mensagens por dia. São vídeos, áudios e imagens, quase nunca texto. Muitos memes com críticas ao governo. Os vídeos e os áudios carregam um sentido de urgência, de que é preciso encaminhar, que a notícia tem de alcançar a maior quantidade de pessoas possível. Rápido. Sempre falsas.

Durante o estirão final da greve, as mensagens principais eram três: não confie na imprensa, a intervenção militar está para acontecer – basta um dia a mais de caminhões parados. Os generais estão decididos. É segurar um pouco mais, e quem fica na fila de posto de gasolina é burro. Em memes e vídeos, burros foram imagens constantes. É a gente que não aguenta o tranco. Os caminhoneiros parados conseguiram baixar o preço do seu combustível, as cidades precisam ir às ruas, também parar, mostrar sua fibra. Derrubar o governo é fundamental.

Nada é acidental ou espontâneo nestes grupos. Muitos leem, dois ou três os alimentam com a torrente de posts. E alguém, por trás, passou dias produzindo material. A cada dez minutos tem alguma coisa nova para que todos sejam mantidos em alerta. O conjunto oferece uma mensagem organizada e calculada com um efeito em mente. E, sempre que um grupo começa a encher, um novo grupo é publicado.

Há uma operação por trás deste processo, gente especializada construindo a mensagem. O governo, já frágil por deméritos próprios, sofreu uma tentativa de sabotagem por equipes que sabiam muito bem o que estavam fazendo. Tentaram aproveitar-se da greve dos para provocar um novo 2013 nas cidades. Não conseguiram.

Mas conseguiram outras coisas. Porque todo mundo que se inscreve nos grupos deixa duas informações essenciais: é alguém que procurou, que está querendo notícias novas e o número do celular com DDD, ou seja, origem geográfica. A turma do marketing de guerrilha construiu um banco de dados bem fornido de pessoas crédulas, engajadas, que formarão o marco zero da distribuição de fake news na campanha eleitoral.

Não é o fato de os grupos serem de extrema-direita que mais impressiona. É sua credulidade, ingenuidade política. “Os militares já estão chegando em Brasília”, dizia um áudio. Como se eles precisassem ir para a capital. “O general Beltrano vai subir a rampa do Senado às 15h”, informava outro. A rampa é do Planalto. “O deputado Cicrano deu ordens.” Deputados não dão ordens. As incongruências, as notícias falsas tão vagas, não ligam o alerta de ninguém, mas alimentam uma raiva já existente. Terreno fértil para um demagogo populista. 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Philip Roth (1933-2018)

"Roth começou irritando os conservadores dos anos 60 (com “O Complexo de Portnoy”) e terminou irritando os neomoralistas de internet. Deixou, além da grande obra, a expressão “êxtase da santimônia”: impossível definição melhor da mediocridade deste nosso tempo ávido por “likes” nas redes sociais."


Roth: "Todos trabalham para mudá-los, persuadi-los, tentá-los e controlá-los. Os melhores leitores vêm à ficção para livrar-se desse barulho" (Eric Thayer/Reuters)

Rui Goiaba, na Revista Crusoé