segunda-feira, 20 de abril de 2015

Agora sim, é o fim do livro impresso!


A embocadura do rio



"Inventamos toda sorte de distrações, ou nos escondemos amedrontados embaixo das cobertas. Nossa vida mais real é o tablet. Nossa única morte é a do game. Nossas alegrias correm o risco de serem apenas virtuais, o amor virtual, milhares de amigos virtuais, a maioria ilusões como bonecos nas prateleiras. Quem quer pensar em destino, decisões, compromissos, até mesmo poder e glórias reais que exigem trabalho, e perdas, e dores?"

Trecho do livro, "O tempo é um rio que corrre", de Lya Luft (2014)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Biblioteca Nacional disponibilizará acervo dos Diários Associados na internet



por Paulo Virgílio - Agência Brasil

Todo o acervo dos Diários Associados, organização jornalística fundada por Assis Chateaubriand (1892-1968), vai ser disponibilizado gratuitamente na internet, tornando possível a consulta a exemplares históricos do Jornal do Commércio (RJ), Correio Braziliense, O Jornal, Diário da Noite e da revista O Cruzeiro, entre outros títulos. O acordo entre os Diários Associados e a Fundação Biblioteca Nacional (FBN), que cede os direitos de divulgação, foi celebrado nessa quinta-feira, 16, na sede da biblioteca.

A data em que o arquivo será colocado na Hemeroteca Digital da FBN, plataforma que reúne milhões de páginas digitalizadas de periódicos brasileiros, ainda não está definida. A FBN também vai receber dos Diários Associados 576 volumes da coleção física do periódico O Jornal, que circulou de 1919 a 1974, e 383 volumes do Diário Da Noite (1929-1962).

Para a coordenadora da Biblioteca Nacional Digital, Ângela Bittencourt, a doação do material tem valor inestimável. “São coleções que contam a história do nosso país. Disponibilizar todo este acervo gratuitamente, com acesso livre 24 horas por dia, é um projeto capaz até de mudar um pouco a nossa historiografia”, segundo ela.

O presidente da Biblioteca Nacional, Renato Lessa, garantiu que a instituição está preparada para receber o material. “Estamos construindo uma área nova na região portuária para expandir a armazenagem. Não podemos deixar de receber um acervo valioso como esse, e temos capacidade de guardá-lo com segurança”, garantiu.

Lessa explica que os papéis serão digitalizados e depois ensacados a vácuo. “Os jornais físicos serão microfilmados, digitalizados e acondicionados em sacos plásticos sem ar, o que dá para eles durabilidade infinita. Já estamos trabalhando no Jornal do Commércio e na revista O Cruzeiro, mas é preciso processar este material. Vai entrar na hemeroteca pouco a pouco”, acrescentou.

O presidente dos Diários Associados no Rio de Janeiro, Maurício Dinep, lembrou que a coleção tem exemplares raros. “Este acervo está guardado há anos e anos, sem acesso ao público. A Biblioteca Nacional já tinha parte microfilmada, mas com a doação será possível disponibilizar a coleção para o mundo inteiro pesquisar”, ressaltou.

A Biblioteca Nacional vai receber também precioso acervo musical. São 36.631 discos de vinil que eram do acervo da Rádio Tupi, emissora que faz parte do grupo dos Associados.

via Comunique-se

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Novo portal disponibiliza acervo histórico da fotografia nacional

Brasiliana fotográfica, inicialmente com 2 mil fotos, vai ao ar nesta sexta (16). Site reúne imagens da Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles.

Do G1, em São Paulo


Avenida Paulista, São Paulo, em 1902 (Foto: Guilherme Gaesnly/Acervo BN)

A Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles lançam nesta sexta-feira (17) o portal Brasiliana fotográfica, uma iniciativa para valorizar a fotografia brasileira e promover a discussão sobre a preservação do patrimônio fotográfico digital.


Foto de 1909 mostra índios Botocudos em Santa Leopoldina, no Espírito Santo (Foto: Walter Garb/Acervo BN)

Inicialmente, o portal irá disponibilizar 2 mil fotos selecionadas dos acervos das duas instituições. Do IMS, destacam-se as coleções Mestres do Século XIX, Coleção Gilberto Ferrez, Coleção Brascan 100 Anos no Brasil, Coleção Pedro Corrêa do Lago e Coleção Dom João de Orleans e Bragança. Da Biblioteca Nacional, estarão disponíveis conjuntos como a Coleção D. Teresa Cristina Maria (registrada no Programa Memória do Mundo da Unesco como Patrimônio da Humanidade), álbuns contendo retratos de artistas brasileiros e estrangeiros, colotipias de A. Ribeiro e estereogramas de Revert Henrique Klumb.

O portal é o: http://brasilianafotografica.bn.br. Os usuários poderão pesquisar as imagens, salvar suas pesquisas e compartilhá-las nas redes sociais. A cada semana, novas galerias de imagens serão destacadas e, periodicamente, curadores convidados farão comentários e reflexões sobre as fotografias escolhidas.


Retrato de Pedro II, Imperador do Brasil, em 1883 no Rio de Janeiro (Foto: Joaquim Insley Pacheco/Acervo BN)


Missa campal celebrada em ação de graças pela abolição da escravatura no Brasil no campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 1888 (Foto: Luiz Antonio Ferreira/Acervo Instituto Moreira Salles)


Avenida do Palácio, em Manaus, no ano de 1890 (Foto: George Huebner/Acervo Instituto Moreira Salles)

Verdade Aberta


A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo lançou um site com o resultado de sua investigação. Cada seção do relatório, lançado em 12 de março de 015, tem sua versão multimídia, com centenas de materiais complementares - imagens, vídeos, áudios, mapas. Com uma navegação simples, direta, limpa, é um exemplo de design bem resolvido. Todo o conteúdo é licenciado em Creative Commons 4.0, o que significa liberdade para cópia, inclusive para fins comerciais. Lucas Pretti, jornalista responsável pela estratégica digital, conta que originalmente o relatório era "só um PDF gigantesco, voltado para pesquisadores", mas houve um trabalho de abrir as informações para que fossem facilmente encontradas no Google ou no Facebook. verdadeaberta.org

via Le Monde diplomatique Brasil

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Colaboração do céu

Nascida no Brasil, a plataforma Google Earth Engine é utilizada na elaboração de mapas sobre vários temas a partir de imagens de satélite

Yuri Vasconcelos | Revista Fapesp


© Lucas Cavalcante / USP
Região agrícola da cidade de Bakersfield, na Califórnia, nos Estados Unidos: máscara vermelha mostra plantações de algodão


Em novembro de 2013, o cientista Matthew Hansen, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, publicou na revista Science o primeiro mapa digital em alta resolução da cobertura florestal de todo o planeta e as transformações sofridas por ela entre 2000 e 2012. No fim do ano passado, foi a vez de pesquisadores do Joint Center Research da União Europeia revelarem um mapeamento completo das fontes de água da Terra, feito a partir de imagens de satélite em um nível de detalhamento nunca visto. E, a partir de 2012, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), uma organização ambiental com atuação na região Norte do país, passou a divulgar alertas mensais de desmatamento e degradação da Floresta Amazônica. As três iniciativas usam uma plataforma tecnológica desenvolvida pelo gigante norte-americano Google, chamada Earth Engine, cujo projeto nasceu no Brasil e teve participação decisiva de pesquisadores nacionais.

“O Google Earth Engine é uma plataforma tecnológica para análise de dados ambientais em escala planetária. Ela disponibiliza imagens de satélite produzidas nos últimos 40 anos, atualizadas diariamente, e fornece as ferramentas necessárias e um massivo poder computacional para cientistas e outros interessados detectarem mudanças e tendências na superfície terrestre, nos oceanos e na atmosfera”, explica a cientista da computação Rebecca Moore, líder da equipe Earth Engine, na sede do Google em Mountain View, nos Estados Unidos. “A plataforma é uma ferramenta que democratiza o acesso a dados de satélite, transformando pixels em conhecimento.  É justo dizer que o Earth Engine foi concebido no Brasil e guiado por cientistas brasileiros, notadamente os pesquisadores Carlos Souza Júnior, do Imazon, e Gilberto Câmara, do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais].”

Versão mais sofisticada, avançada e robusta do que o Google Earth – o popular programa computacional que permite a visualização de modelos tridimensionais do globo terrestre –, o Earth Engine também possibilita a elaboração de detalhados mapas do planeta, agregando imagens de satélites, mas vai além. Uma vantagem da plataforma é permitir aos pesquisadores fazer cálculos e processamento de dados na própria nuvem de computadores do Google, o que facilita a extração de informações das imagens. Para se ter uma ideia da facilidade oferecida por esse sistema, Hansen, da Universidade de Maryland, dispôs de 10 mil computadores do Google trabalhando em paralelo, totalizando 1 milhão de horas de processamento. Esse exército computacional analisou 700 mil imagens do satélite Landsat, o equivalente a 20 trilhões de pixels, para produzir o mapa global das florestas do mundo com uma resolução de apenas 30 metros. “Uma tarefa que teria levado mais de 15 anos para ser concluída em um único computador foi finalizada em poucos dias com o Google Earth Engine”, ressalta Rebecca.

© Google Engine
álise temporal do desmatamento na Amazônia: ocupação humana entre 1984 e 2012 ao longo da rodovia BR-364 em Rondônia

Hoje, mais de 3 mil cientistas e instituições ao redor do mundo empregam a plataforma em suas pesquisas. “Com o Earth Engine, pretendemos enfrentar desafios globais em áreas como segurança alimentar, disponibilidade de água, saúde pública, mudanças climáticas e gestão de recursos naturais escassos”, diz Rebecca. A ideia de criar uma ferramenta com esse potencial surgiu em 2008, quando a pesquisadora do Google esteve em Brasília para lançar o Google Earth Solidário, projeto que coloca os sistemas Earth e Maps à disposição de organizações sem fins lucrativos para que possam dar visibilidade às suas causas. “Num intervalo de uma apresentação sobre como os índios suruís usavam tecnologias Google para proteger suas terras, Carlos Souza Júnior se aproximou e disse que, apesar de o Earth e o Maps serem fantásticos, ele sentia uma carência por novas tecnologias de mapeamento que suportassem um monitoramento ambiental em larga escala – um sistema que fosse capaz de mapear, medir e monitorar o desmatamento da Amazônia, por exemplo”, recorda-se Rebecca. O Imazon tinha habilidade técnica e científica para fazer isso, mas estava limitado pela enorme quantidade de imagens de satélite e recursos computacionais exigidos – levava semanas para rodar a análise de desmatamento da organização em um único computador. “Foi, então, que percebemos que este era um desafio em ‘escala Google’.”

A partir daí intensificaram-se os contatos do pesquisador brasileiro e sua equipe com o Google e várias reuniões foram realizadas no Brasil e na Califórnia, nos Estados Unidos, onde fica a sede da companhia. Em 2009, a empresa norte-americana e o Imazon mostraram durante a Convenção do Clima em Copenhague, a COP-15, um protótipo do Google Earth Engine. No mesmo ano, o pesquisador Gilberto Câmara, que na época era responsável por vários produtos do Inpe relacionados ao monitoramento da Floresta Amazônica, foi convidado a participar da criação da plataforma. “Câmara nos orientou sobre uma série de características e configurações de dados que o Earth Engine deveria ter, como, por exemplo, a capacidade de realizar análises temporais. E recomendou que apoiássemos os pesquisadores a fazerem análises de mudanças na cobertura terrestre ao longo do tempo”, diz Rebecca, que estará em João Pessoa, na Paraíba, no fim deste mês de abril para participar do XVII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Ela irá falar sobre as tecnologias de mapeamento Google na sessão especial “Big Data em observação da Terra: infraestruturas e análises espaço-temporais”.

© Google Engine
... ocupação humana entre 1984 e 2012 ao longo da rodovia BR-364 em Rondônia

O primeiro projeto operacional a usar o Google Earth Engine foi um sistema de monitoramento florestal criado pelo Imazon. Em 2012, quatro anos após o contato inicial com o Google, a organização lançou no Rio de Janeiro, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, seu novo Sistema de Alerta de Desmatamento alimentado pelo Earth Engine (SAD-EE). “O Google tornou as coisas mais simples. A integração de nosso Sistema de Alerta de Desmatamento, lançado em 2008, com o Google Earth Engine reduziu drasticamente o tempo despendido por nossa equipe para fazer o gerenciamento de dados e imagens de satélite. O SAD-EE representou uma revolução na forma de monitorarmos nossas florestas. Com ele, conseguimos produzir alertas de desmatamento por meio de boletins de forma rápida, permitindo um combate mais eficaz contra o desmatamento ilegal”, diz Souza Júnior, que é geólogo e pesquisador do Imazon, que tem sede em Belém (PA).

A primeira grande vantagem oferecida pelo SAD-EE, segundo o pesquisador, é que os dados e as ferramentas de processamento de imagens de satélites, edição de mapas digitais e validação do mapeamento estão disponibilizados e rodam nos computadores do Google. Com isso, o tempo necessário para pré-processamento, análise, divulgação dos dados e geração dos alertas reduz-se consideravelmente. A segunda vantagem é a possibilidade de integração com sistemas de comunicação móvel, com smartphones e tablets, e com a rede de computadores da internet. “Isso facilita o acesso aos alertas de desmatamento e de degradação florestal por parte dos usuários”, ressalta Souza Júnior. Ele destaca, ainda, o enorme potencial colaborativo do SAD-EE, que permite a qualquer pessoa fornecer dados e informações coletados em campo e em tempo real.

Além do Imazon, pelo menos uma dúzia de pesquisadores e instituições brasileiras usam o Earth Engine. Uma delas é o Instituto Centro da Vida (ICV), organização não governamental ambientalista sediada em Cuiabá (MT), cujo foco são projetos que conciliem a produção agropecuária e florestal com a conservação e a recuperação do ambiente. “Um diferencial dessas tecnologias é  agilidade no acesso e no processamento de dados de sensoriamento remoto”, conta o engenheiro florestal Ricardo Abad, coordenador do Núcleo de Geotecnologias do ICV. O instituto possui diversas atividades em campo, como experimentos de restauro de áreas de preservação permanentes (APPs) e nascentes, além de trabalhos com intensificação de pecuária. Dados desses experimentos são adquiridos, armazenados e compartilhados por meio de ferramentas que têm como base as tecnologias Google Geo.

“Depois de coletarmos em campo imagens de alta resolução – seja com balões, pipas ou vants [veículos aéreos não tripulados] –, nós as arquivamos no Maps Engine, uma plataforma voltada ao armazenamento e compartilhamento de dados geoespaciais. Paralelamente, usamos smartphones com sistema Android que acessam formulários eletrônicos para realizar a coleta de informações em campo usando o Open Data Kit. Esses dados, por sua vez, são armazenados na nuvem Google, permitindo que sejam acessados de qualquer lugar do planeta onde exista internet”, diz Abad. Open Data Kit, ou simplesmente ODK, é um aplicativo que permite a coleta de dados e o envio deles a um servidor on-line com dispositivos móveis Android.

Técnicos e pesquisadores do ICV também empregam as ferramentas Google para verificação de imagens dos alertas de desmatamento emitidos pelo Imazon e Inpe. “A facilidade de acessar imagens muito recentes possibilita grande agilidade na geração de relatórios que podem subsidiar ações de fiscalização. Usamos a plataforma Google Earth Engine para gerar classificações multitemporais de uso e cobertura do solo e, assim, constatar o avanço de culturas, pastagens e reservatórios de usinas hidrelétricas, entre outros, que acabam provocando desmatamento”, diz Abad. “Recentemente, utilizamos essas imagens para verificar o enchimento de um reservatório de uma recém-construída hidrelétrica no rio Teles Pires, que faz a divisa dos estados do Pará e Mato Grosso, constatando o alagamento de extensas áreas de florestas.”

© Google Engine
Primeiro mapa digital das florestas existentes no planeta feito com imagens de satélite

O Earth Engine está também sendo empregado pelo pesquisador Lucas Schmidt Cavalcante, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), para identificar e monitorar culturas agrícolas por meio de imagens de satélite. O objetivo final desse monitoramento é melhorar as estimativas de produção. “Não sou da área de sensoriamento remoto e meu contato com esse campo se deu no ano passado, durante um estágio de quatro meses que fiz no Google na Califórnia”, explica Cavalcante, que é formado em Ciências da Computação. “Naquela ocasião, percebi que o Earth Engine poderia ter uma aplicação interessante para os métodos de classificação que estava desenvolvendo em meu mestrado, com bolsa da FAPESP. A finalidade é estudar tecnologias capazes de detectar diferentes culturas agrícolas. Também planejo avaliar as áreas de plantação de cana-de-açúcar em São Paulo.”

Durante o período em que estagiou no Google, entre maio e agosto de 2014, Cavalcante trabalhou com o time responsável pelo desenvolvimento do Earth Engine. “Meu objetivo foi expandir a API do Earth Engine para possibilitar a análise de séries temporais nos dados de satélite. Fui responsável por implementar um algoritmo que faz a detecção de distúrbios e identificação de tendências em áreas de vegetação. Por exemplo, ele é capaz de detectar áreas de desmatamento e determinar quanto tempo durou esse processo.”  API, sigla em inglês para interface de programação de aplicativos, é um conjunto de rotinas e padrões de programação para acesso a um aplicativo de software ou plataforma baseado na web.

“A cultura da cana tem grande importância para o Brasil e o estado de São Paulo responde por cerca de 60% da produção nacional. Logo, ser capaz de estimar e acompanhar a produção canavieira é de fundamental importância”, diz ele, ressaltando que a iniciativa de buscar ferramentas de sensoriamento remoto para melhorar o monitoramento da produção agrícola no mundo foi uma das ações propostas durante reunião dos ministros de Agricultura dos países que integram o G20 – grupo de nações mais desenvolvidas do planeta – realizada em Paris em junho de 2011.

Na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente, a engenheira cartógrafa Arlete Meneguette, professora do Departamento de Cartografia, tem amplo conhecimento das soluções Google Geo. Além de ensinar o uso dessas ferramentas aos seus alunos, ela atua na capacitação de cartógrafos, educadores e outros profissionais que utilizam esses sistemas. Com doutorado em fotogrametria pela Universidade de Londres, na Inglaterra, Arlete é voluntária do Google Maps, líder do Grupo de Educadores Google em Presidente Prudente e revisora regional do Google Map Maker, que permite aos internautas adicionar elementos inéditos no Google Maps e no Google Earth.

“Há democratização de acesso porque os usuários se tornam produtores e consumidores de informação georreferenciada”, destaca Arlete. “Quando contextualizada e significativa, a geoinformação pode se transformar em conhecimento espacial. É nesse ponto que o Google se destaca, porque organiza as informações do mundo e as torna mundialmente acessíveis e úteis.”

© Google
Cacique Almir Suruí conheceu o Google Earth...

Em suas pesquisas sobre geocolaboração – estratégia que permite que profissionais da área e voluntários gerem dados georreferenciados utilizando mapas cognitivos, navegadores GPS, sensores móveis e ferramentas de mapeamento na web –, a professora da Unesp tem validado plataformas de mapeamento colaborativo e participativo do Google. “Fiz uma escolha deliberada por elas, porque são as mais difundidas e utilizadas, e eu percebia uma necessidade de fundamentação teórico-metodológica em seus adeptos”, diz. “A cartografia colaborativa ganha cada vez mais importância por dar oportunidade aos usuários de contribuir com seu conhecimento local para aprimorar os mapas usados por milhões de pessoas.”

Suruís vigiam o próprio território 

Além de ser relevante para cientistas em universidades e instituições de pesquisa do Brasil, as tecnologias Google Geo também são um instrumento vital para os suruís, grupo indígena que vive nos estados de Rondônia e Mato Grosso. A aproximação entre os indígenas brasileiros e a gigante da computação teve início em 2007, quando, ao visitar uma lan house, o cacique Almir Suruí conheceu o Google Earth e viu seu potencial para preservar o patrimônio e as tradições de seu povo.

© Google
... e percebeu o potencial para preservar as terras de seu povo

Em seguida, Almir, agraciado como “Herói da Floresta” pelas Nações Unidas em 2013, convidou a equipe do Google Earth Solidário, comandada por Rebecca Moore, para visitar sua tribo e ensiná-los a usar as ferramentas de mapeamento Google para proteger a floresta e a cultura de seu povo. Os membros da tribo aprenderam a criar e postar vídeos no YouTube, marcar a localização de conteúdos e inseri-los no Google Earth, compartilhando sua história e modo de vida. Em 2012, com apoio do Google, os indígenas lançaram o Mapa Cultural Suruí durante o Fórum de Sustentabilidade Empresarial da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável realizada no Rio de Janeiro.

Os suruís, que só tiveram o primeiro contato com o homem branco em 1969, também aprenderam a usar smartphones para vigiar seu território e registrar casos de extração ilegal de madeira. Dessa forma, atuam na proteção da reserva florestal onde vivem. Com o celular, eles capturam fotos e vídeos com marca de localização por GPS, fazem o imediato upload no Google Earth e alertam as autoridades para o desmatamento. Eles também utilizam o Open Data Kit para monitorar o estoque de carbono de sua floresta e negociar no mercado de crédito de carbono. “Os suruís foram o primeiro povo indígena do mundo a vender créditos de carbono com certificação internacional”,
afirma Rebecca.

Em janeiro deste ano, a equipe do Google Earth Solidário participou de um encontro com mais de uma dezena de líderes indígenas em Cacoal (RO), interessados em replicar em seus territórios a bem-sucedida experiência dos suruís no manejo das tecnologias de mapeamento Google. O treinamento de índios dessas tribos dos estados de Rondônia, Pará e Amazonas deve ocorrer ainda este ano, segundo o Google.

dica da Maria Aládia

segunda-feira, 13 de abril de 2015

INPE é a segunda instituição no ranking latino-americano do Google Scholars


De acordo com a última atualização do Google Scholars, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) é o segundo centro de pesquisa na América Latina e o 32º no mundo, entre 8.000 instituições, do Ranking Web (Webometrics). Os critérios de avaliação levam em consideração uma série de dados disponíveis na internet, que estão agrupados pelos indicadores de visibilidade, de atividade (Google), números de páginas web, quantidade de arquivos (docx, pptx, pdf, etc) e números de artigos no Google Scholars.

No ranking dos cientistas brasileiros, o pesquisador Walter Gonzalez, da Divisão de Geofísica Espacial do INPE, aparece na 87ª posição. O ranking considera cientistas de todas as áreas do conhecimento e utiliza o indicador h-index como critério de colocação. O h-index igual a 44 de Gonzalez significa que o cientista do INPE possui 44 artigos de sua autoria citados em outros artigos pelo menos 44 vezes. Como critério de desempate, o Google Scholars utiliza o número total de citações de artigos do pesquisador, que no caso de Gonzalez, 8.707.

A participação dos cientistas no Google Scholars é voluntária e apesar de o Web Ranking não ter como objetivo principal ranquear instituições e pesquisadores, a avaliação é bastante utilizada no meio científico e acadêmico como indicador de produtividade científica.

O ranking dos pesquisadores brasileiros está no link http://www.webometrics.info/en/node/102; e das instituições latino-americanas, em http://research.webometrics.info/en/Americas/Latin_America

via INPE

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O calvário dos e-books

Os livros digitais dão sinais de perda de fôlego nos países desenvolvidos e ainda não têm relevância nos negócios das editoras brasileiras

João Varella | IstoÉ Dinheiro

Em queda: as vendas do Kindle, lançado pela Amazon de Jeff Bezos, despencaram, segundo varejista inglês ( foto: Ben Margot)

Poucos setores ficaram imunes ao avanço da tecnologia digital. A indústria fonográfica, por exemplo, foi a primeira a sentir os efeitos da digitalização, que levou as principais empresas da área quase à bancarrota no início dos anos 2000. A televisão sente os efeitos da internet, com o surgimento de um telespectador que quer assistir o que quer, na hora que desejar e no dispositivo que for mais conveniente. A Netflix é o grande expoente dessa nova era. Diante disso, muitos viram no Kindle, lançado em 2007, o começo do fim do livro impresso.

O aparelho da Amazon, de Jeff Bezos, tinha tudo para fazer para a indústria editorial o que o iPod fez para o setor musical. Ledo engano. Para surpresa geral, as editoras abraçaram os livros digitais (e-books). E logo descobriram que a margem de lucro das versões digitalizadas era o dobro da tradicional, mesmo com um preço mais baixo. Era um sinal de que a transição, considerada inevitável, do livro de papel para o digital seria feita sem grandes solavancos. Só faltou combinar com o leitor. Nos países desenvolvidos, o livro digital começa a dar sinais da falta de fôlego.

Executivos da maior cadeia de livrarias da Inglaterra, a Waterstone, declarara ao jornal Financial Times que as vendas de Kindle simplesmente desapareceram. A perda de impulso já atingiu a Simon & Schuter, membro do “Big Five”, grupo dos cinco maiores conglomerados do mundo (Penguim Random House, Hachette, HarperCollins e Macmillan completam o time). Subsidiária do grupo de mídia CBS, a S&S registrou queda nas vendas de 3,8%, para US$ 778 milhões. O lucro caiu 5,6%, para US$ 101 milhões. Uma razão para o ano ruim foi a redução no ritmo das vendas digitais.

A fatia diminuiu de 24,4% em 2013 para 23,2% no ano passado. Não se trata de casos isolados. A consultoria americana Gartner aponta que, em 2017, os e-readers como o Kindle venderão 10 milhões de unidades, número 50% menor do que as vendas do ano passado. Com a estagnação, a alternativa é ler e-books nos tablets, que também estão passando por um declínio de vendas, e smartphones. “São aparelhos que dispersam, oferecem opções demais de entretenimento e não são apropriados para a leitura longa”, afirma Eduardo Melo, fundador da consultoria de livros digitais Simplíssimo.

Por que aparelhos como o Kindle enfrentam esse calvário? O rechaço tem a ver com sua função única. O consumidor, ao que tudo indica, quer fazer mais tarefas com uma tela. Isso fez com que as principais empresas do segmento, como Amazon e Kobo, passassem a investir na produção de tablets. Se nos países ricos os e-books patinam, no Brasil, eles nunca deixaram o gueto editorial. Apenas 2% dos R$ 5,3 bilhões faturados com livro no Brasil vêm de ebooks, segundo levantamento da Fipe de 2013 (dado mais recente). A Biblioteca Nacional, por exemplo, expediu 16.564 ISBNs (código de identificação dos livros) para e-books no ano passado, apenas 1% a mais que no ano anterior. 

De 2012 para 2013, o crescimento havia sido de 10%. Diversas iniciativas voltadas para e-books foram abandonadas, como o selo Breve Companhia, da Companhia das Letras, empresa da Penguim Random House, que publicava obras inéditas direto na mídia digital. Ela foi descontinuada no fim do ano passado. “No momento, estamos repensando o enfoque”, diz Fabio Uehara, editor de e-books da empresa. “Temos outros lançamentos digitais previstos para este ano.” A fadiga também atinge o varejo. “Crescemos dois dígitos, mas esperava um crescimento muito maior”, afirma Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura, que comercializa ebooks e e-readers da Kobo.

“Apesar de ser muito novo, esse mercado já mostra certa saturação”. A japonesa Rakuten, dona da Kobo, ainda é otimista. A empresa aumentou sua aposta nos livros digitais ao comprar a distribuidora de e-books Overdrive por US$ 410 milhões, em março deste ano. Amazon, Saraiva e Livraria Cultura não fornecem dados de vendas no Brasil, mas quem acompanha o setor não vislumbra um grande apelo dos e-readers. “No Brasil a leitura acontece em smartphones”, afirma Tiago Ferro, fundador da E-Galáxia, plataforma de intermediação entre autores e profissionais do mercado editorial a fim de editar e publicar e-books.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A força do impresso

Martin Sorrell, presidente da WPP, maior agência de publicidade do mundo, diz que as revistas são mais eficazes do que se pensa. Por isso, é preciso repensar as estratégias de comunicação

Rodrigo Caetano | IstoÉ Dinheiro


Tradição e qualidade: as revistas proporcionam maior engajamento por parte dos leitores ( foto: Masao Goto Filho/Ag. Istoé)

A internet mudou para sempre a forma como as pessoas se comunicam. Essa transformação atingiu, por consequência, todos os meios de comunicação. A velocidade do online provocou uma revolução na publicidade. Na última década, muitas agências e anunciantes previram a morte dos veículos impressos. Não faltaram especialistas para dizer que marcas tradicionais do jornalismo, como The New York Times, The Wall Street Journal, The Economist, Le Monde, Time e Der Spiegel, apenas para citar algumas, estariam condenadas ao ostracismo, caso não embarcassem em uma estratégia brutal de digitalização.

Essa visão catastrófica, no entanto, parece ter chegado ao fim. Quem diz isso é Martin Sorrell, fundador e presidente da WPP, maior agência de publicidade do mundo. Sorrell, ele próprio um defensor da transição para o online, no passado, afirmou em março, em um evento da Broadcasting Press Guild, associação britânica de jornalistas, que é preciso repensar a eficácia dos meios de comunicação tradicionais. “Talvez as revistas e os jornais sejam mais eficazes do que as pessoas estão supondo”, disse o publicitário. Os veículos impressos, segundo Sorrell, proporcionam maior engajamento das pessoas, algo fundamental para as marcas das empresas neles citadas.

Os leitores tendem a reter mais informações quando leem no papel, em comparação ao meio digital. Por esse motivo, os anunciantes devem se preocupar mais em medir esse engajamento, em vez de se guiar apenas pelo tempo gasto em cada veículo, afirma Sorrell. Trata-se de uma grande mudança de posicionamento do próprio publicitário, que chegou a dizer, há alguns anos, que seus clientes estavam gastando muito dinheiro com a mídia impressa. Sorrell não está sozinho nessa cruzada contra a radicalização digital. Para Nizan Guanaes, sócio-fundador do Grupo ABC, maior empresa publicitária do Brasil, as revistas e os jornais estão sendo subvalorizados.

“Não conheço ninguém importante que não leia jornal e revista, seja no papel, seja em plataformas digitais”, afirma Guanaes. “A web não vai acabar com isso, mas ela certamente tirou o impresso da zona de conforto, forçando os veículos a se reinventarem e evoluírem.” Esse mesmo fenômeno já pode ser identificado, também, no mundo dos livros. Os e-books, que preconizaram a morte dos livros, estão com as vendas estagnadas (saiba mais aqui). Isso não quer dizer que o meio digital esteja perdendo força. O que acontece é um melhor entendimento, por parte da publicidade, sobre o papel de cada mídia na vida das pessoas.

“O leitor, na verdade, não faz essa distinção entre online e papel”, afirma Adrian Ferguson, vice-presidente de mídia da agência DM9DDB. “O que importa é a qualidade da informação.” Nesse ponto, os veículos impressos, mais tradicionais, ganham no quesito credibilidade e padrão de jornalismo. Nos últimos anos, a grande maioria dos “furos” jornalísticos que precipitaram grandes acontecimentos no País, como o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, o mensalão e o petrolão, veio das revistas. “As revistas impressas mantêm viva a tradição do jornalismo relevante e de qualidade.

Por isso, vão prevalecer e participar, como protagonistas, da evolução digital da comunicação”, afirma Caco Alzugaray, presidente executivo da Editora Três. “O meio revista, notoriamente, oferece ao anunciante uma atenção e uma credibilidade únicas”, diz. “Foi importante o Martin Sorrell, uma voz publicitária de peso ímpar, engrossar o nosso coro.” O presidente da Editora Abril, Alexandre Caldini, diz que Sorrell verbalizou uma percepção que algumas agências brasileiras já perceberam. “Elas sabem que muitas marcas foram construídas a partir de ações no meio revista”, afirma.

Os próprios títulos, como Veja, IstoÉ, Exame e Dinheiro são marcas fortes, que passam credibilidade e influenciam a opinião dos leitores, lembra Caldini. “A combinação de marcas de qualidade, com jornalismo de qualidade e impacto na comunidade é matadora. E vai continuar matadora, tanto no papel quanto nos meios digitais”, diz ele. A credibilidade do jornalismo tradicional é importante para as empresas anunciantes. “Não adianta tentar construir uma marca usando apenas 140 caracteres”, afirma Eduardo Tomiya, diretor da Millward Brown Vermeer.

“A forma mais eficiente de se construir marcas fortes e com grande reputação é por meio do uso de veículos de mídia que produzem bom conteúdo”, diz Flávio Pestana, diretor de mercado anunciante do jornal O Estado de São Paulo. Não é verdade, também, que a circulação de revistas e jornais esteja caindo vertiginosamente. No ano passado, as revistas sofreram uma leve redução de tiragem, em parte compensada pelo crescimento das edições digitais – mesmo na internet, as pessoas preferem os veículos tradicionais. No caso dos jornais, a tiragem se manteve estável, com crescimento, também, do meio digital e das assinaturas. Não por acaso, o jornal The Washington Post, que derrubou o presidente Richard Nixon em 1974, foi comprado pelo magnata digital Jeff Bezos, dono da Amazon, em 2013.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A Amazon avança


A Amazon fará a sua maior aposta para expandir a venda do Kindle desde a tímida estreia no Brasil, em 2013. Vai praticamente dobrar o número de pontos de venda do leitor digital - hoje, é possível comprá-lo apenas em 91 locais. A Amazon fechou um acordo para vender o aparelho nos 49 supermercados do Carrefour e está prestes a fechar com mais trinta lojas do Ponto Frio e das Casas Bahia.

via Lauro Jardim | Veja

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Rede social para deprimidos

Em espaço virtual aberto por cientistas americanos, pacientes treinam em conjunto formas de controlar a doença

Isto É

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology decidiram usar o espaço virtual como mais uma estratégia para auxiliar no controle da depressão e da ansiedade. Cientistas da instituição criaram uma rede social na qual os pacientes compartilham suas experiências e, mais do que isso, aprendem a exercitar as técnicas terapêuticas consigo e com os outros integrantes da rede. “Não é simplesmente um lugar no qual as pessoas falam sobre suas doenças e a forma como lidam com elas”, explicou à IstoÉ Robert Morris, criador da iniciativa. “Elas praticam umas com as outras os métodos cientificamente comprovados.”



Na rede, os internautas registram eventos que pioram seus sintomas e as maneiras que acham adequadas para reinterpretá-los. Em geral, os pacientes manifestam padrões de pensamentos associados à manifestação das enfermidades e ao desencadeamento de crises. Se perdem o emprego, por exemplo, a tendência é acreditarem que serão incapazes de encontrar outro. No site, há informações sobre as formas de identificar esses pensamentos e de aprender a enxergá-los de outra forma.

A medida em que os usuários tornam-se mais hábeis nesse processo, melhoram seus próprios sintomas e ficam aptos a sugerir orientações aos outros participantes. “Desejamos que as pessoas usem essa habilidade várias vezes não apenas como resposta aos seus gatilhos mas para ajudar os outros”, disse Morris.

O sistema - ainda em fase final de montagem - conta com algumas ferramentas do Facebook para reduzir o risco de que os internautas se desconectem. Em um estudo de eficácia, ficou provado que a adesão é grande. Pacientes que participaram de um grupo estimulado a somente escrever sobre suas dificuldades usaram o recurso dez vezes em três semanas, por uma média de três minutos. No mesmo período, os usuários da rede entraram em média 21 vezes, com participações que duraram cerca de nove minutos.

Onde estão as bibliotecas?


JB Alencastro,Especial para Diário da Manhã

Visitando um jovem amigo talentoso, logo ao entrar em seu apartamento, uma parede inteira de livros na sala de estar. Poderia dizer que fiquei estupefato, mas não, a felicidade me invadiu e dali não sairia mais, por dias. Meu velho pai diria que se conhece uma pessoa pelos livros que leu e pelos que tem – o que não é a mesma coisa – e principalmente pelos que ele deseja ler.

Vou a várias casas em ricos condomínios fechados e nem mais pergunto onde é a biblioteca. Ela inexiste. A maioria tem um “home theather”, que subleva o belo hábito de ir ao cinema e nunca é comparável ao mesmo. São casas frias de pé direito alto, paredes sem quadros e o rastro dos livros, na sala, no banheiro, nos quartos, no corredor, na varanda, na beira da piscina, sumiu. São assépticas como um centro cirúrgico com o chão de porcelanato e aquele cheiro irritante de limpeza.

Quando me lembro da pilha que está na minha cabeceira, e que nunca acaba, sempre renovada, exceto o “Eu profundo e os outros eus” de Pessoa, fico pesaroso. O que fazem as pessoas antes de dormir? Veem televisão? Aquela caixinha de bobagens que agora concorre cabeça a cabeça com as redes sociais da Net? O barulho, a luz intermitente, tudo isso leva a um sono ruim. Diferente do livro que fecha seus olhos naturalmente e o transporta para dentro do mundo de sonhos que ele oferece.

Confesso-lhes que até comprei um “tablet” e nele baixei uns livros técnicos e a narrativa patagônica de Jules Verne “Le Phare du bout du monde”, originalmente publicada em versão remanejada em 1905 e republicada em 1999 de acordo com o livro de 1903. Esses recursos eu reconheço que são úteis. Você carrega consigo a sua biblioteca. Mas não é a mesma coisa.

Livros têm textura e cheiro. Livros podem e devem ser expostos, emprestados, dedicados, compartilhados. Além – é claro– autografados ou dedicados. E a biblioteca é o berçário dos livros e nunca seu cemitério. Assim como os sebos são as praças literárias, as praias cheias de surpresas onde o sol de uma nova leitura brilha em edições já esgotadas.

Não é à toa que um dos meus ídolos se chama Mindlin, o maior bibliotecário do Brasil e da América do Sul e sua doação espetacular feita antes de falecer, para a USP. Mindlin e seus 38.000 volumes com raridades e curiosidades, uma festa para todos que ele juntou durante seus noventa e cinco bem vividos anos. Que lê muito geralmente vive mais. A atividade cerebral é fundamental para perdurar a chama.

Lembro-me do primeiro livro que li, uma biografia de Alexandre, O Grande. Aquilo me despertou uma vontade enorme de conhecer os caminhos que ele passou, de saber sobre outras figuras emblemáticas mundiais, de ir à biblioteca de Alexandria. Eu tinha cinco anos. Crianças gostam de aventuras, não de Machado, Eça ou Camões. Um dos erros comuns é a formação de leitores. Eles têm que ser atiçados pelo texto, enlaçados e conquistados, para depois conhecer as nuances estilísticas e linguísticas.

A biblioteca tem esse papel, junto com os pais e os professores. O exemplo é fundamental. Venho de uma família de grandes leitores, pai, mãe e tia. As recomendações eram plurais, desde os discursos de Cícero e Catilina, passando por Victor Hugo e minha querida Eponine, até o campeão de vendas Harold Hobbins e seus títulos bombásticos. A obra completa de Monteiro Lobato lida no colégio… Isso me formou como pessoa e aos poucos a poesia tomou conta de mim. Desde Camões até Manoel de Barros, passando por Drummond e Vinícius e sem nunca abandonar Pessoa, o maior de todos na nossa língua.

Depois veio a necessidade de ler no original, de ir aos países em que viveram os grandes autores, e conhecer in loco as solenes e aconchegantes bibliotecas nacionais, além de pequenos sebos de ruas tristes de centro da cidade ou bairros que um dia moraram ilustres escritores e agora são tomados por comércio de 1,99.

A melhor coisa que faço sozinho é ler. E um dos grandes orgulhos que tenho é saber que meu pai não se tornou nome de rua, mas sim de biblioteca. E que a sabedoria dele e de minha mãe, ainda hoje me arrebata por livros e livros e as duas bibliotecas que em casa cuido e guardo.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Memória do clima será recuperada em arquivo digitalizado

Ao todo, 12 milhões de documentos com dados meteorológicos serão digitalizados e recuperados pelo Ministério do Meio Ambiente

Armazenamento dos dados em um centro de documentação centralizado garantirá a segurança e a integração da memória do clima do Brasil

Informações sobre secas, tempestades e outros eventos climáticos ocorridos no País desde o século 19 serão recuperadas com a conclusão de ação financiada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), que está prevista para este ano.

Mais de R$ 6 milhões foram investidos, por meio do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima), no projeto do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), órgão ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Estudada de maneira histórica pelas autoridades brasileiras, a previsão do tempo entrou como aliada nas medidas de combate e adaptação ao aquecimento global. A iniciativa inclui a digitalização, conversão, importação e armazenamento em formato digital no banco de dados do órgão federal. 

Acervo

Ao todo, 12 milhões de documentos com dados meteorológicos desde o fim dos anos 1800 fazem parte do acervo do INMET. Como se encontram em papéis amarelados, os arquivos não podem ser usados, atualmente, para estudos climáticos e de frequência de fenômenos e desastres naturais de natureza atmosférica.

O armazenamento dos dados em um centro de documentação centralizado garantirá a segurança e a integração da memória do clima do Brasil. Além disso, a migração para o banco de dados já existente facilitará as consultas e o intercâmbio de informações com os setores acadêmicos, públicos e privados de maneira mais rápida e eficaz.

Curiosidade

Apesar de o INMET ter sido criado em 1909, os primeiros registros das condições meteorológicas no País remontam ao fim do século 19. Estes documentos históricos foram produzidos em diversos formatos de papel, que vão de livros e cadernetas até formulários de registradores.

Neles, eram inseridas informações numéricas pontuais, resultantes da coleta de dados realizadas por um observador ou registros contínuos por equipamentos mecânicos.

Além da dificuldade de acesso, o manuseio rotineiro dos arquivos provoca a perda de resistência e o envelhecimento precoce da documentação. Para que possam ser digitalizados, os livros e cadernetas foram armazenados, em caráter transitório, em um galpão na sede do INMET, em Brasília.

Saiba mais

Pioneiro no apoio a pesquisas e programas de mitigação e adaptação, o Fundo Clima é um dos principais instrumentos da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC). Com natureza contábil e vinculado ao MMA, é administrado por um comitê formado por representantes de órgãos federais, da sociedade civil, do terceiro setor, dos estados e dos municípios.

Apesar de considerado um fenômeno natural, o efeito estufa se intensificou nas últimas décadas, acarretando mudanças climáticas. Estas alterações resultam do aumento descontrolado das emissões de gases como o dióxido de carbono e o metano. A liberação dessas substâncias é consequência de atividades humanas como o transporte urbano, o desmatamento, a agricultura, a pecuária e a geração e o consumo de energia.

Fonte: Portal Brasil | Ministério do Meio Ambiente 

Acervo da família sobre Vladimir Herzog será aberto ao público


Ivo Herzog, um dos filhos do jornalista, afirmou nunca ter visto todos aqueles documentos, jornais e fotografia

A família de Vladimir Herzog, jornalista assassinado nas dependências do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) durante a ditadura militar, doou seu acervo, com documentos, fotos, matérias publicadas e até cartas pessoais, ao Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) esta noite (26). O acervo estará disponível ao público para consulta até o mês de outubro, quando a morte de Herzog completa 40 anos.

A viúva do jornalista, Clarice Herzog, disse que juntou o material ao longo de 40 anos, desde a morte de Vlado, como ela o chama, em 25 de outubro de 1975. “Eu fui juntando, fui juntando e, de repente, cheguei à conclusão de que não é uma história minha, é uma história da sociedade, é uma história que tem que ser documentada. Se aquilo ficasse comigo, nunca chegaria para a sociedade”.

“Foi difícil dar [o acervo], porque eu fiquei umas quatro horas selecionando todo o material e veio muita coisa durante essa seleção que me comoveu muito, que mexeu muito comigo. Eu revivi tudo, mas eu tinha que passar para a frente essa história do Vlado”, acrescentou, emocionada.

Ivo Herzog, um dos filhos do jornalista, afirmou nunca ter visto todos aqueles documentos, jornais e fotografias, porque se trata de um assunto muito dolorido. “Eu nunca vi esse material, estou vendo pela primeira vez hoje, esse arquivo era da minha mãe. É um assunto do qual eu mantinha distância”.

“[Doar o acervo] é uma maneira nossa de colaborar com aquelas pessoas que queiram pesquisar, conhecer sobre esse período, que tenham acesso a mais material. Esse é um material que mostra um pouco do caminho que a gente seguiu nesses 40 anos, tentando a busca da verdade e da justiça no caso Herzog”, completou.

Para a coordenadora do Cedem, Sonia Maria Troitiño Rodriguez, o assassinato do Vladimir Herzog é um dos casos mais simbólicos sobre o sistema de tortura no Brasil. “Receber esse conjunto de documentos significa preservar e dar acesso à sociedade ao registro de um período bastante obscuro da história brasileira”, disse.

Todo o material passará por um processo de conservação, depois receberá tratamento arquivístico e, posteriormente, será digitalizado. Até outubro, os documentos estarão disponíveis para consulta pública.

Na noite de hoje, houve ainda a apresentação dos trabalhos da Comissão da Verdade da universidade (CV-Unesp), instalada há um ano, com o objetivo de pesquisar e esclarecer os impactos da ditadura civil-militar dentro da instituição. A presidente da CV-Unesp, Anna Maria Martinez Corrêa, informou que existe um acervo de entrevistas com professores, funcionários e estudantes, que começou a ser produzido em 1990 e que serviu de base para os trabalhos. A previsão é de que mais dois anos serão necessários para a conclusão. Outra documentação utilizada foi uma pesquisa feita em jornais da capital e do interior, já que a universidade tem campi espalhados por todo o estado de São Paulo.

A comissão identificou prisões, tanto de docentes quanto de alunos, nas unidades de Assis, Rio Claro, Marília, Araçatuba e Rio Preto. Alguns professores foram destituídos ou transferidos de uma unidade para outra, sem que fossem consultados. Houve ainda invasões policiais nos campi de Botucatu e de Assis, de acordo com Anna Maria.

Fonte: Agência Brasil

terça-feira, 31 de março de 2015

Instituto lança portal que mostra perseguição a cientistas durante o regime militar

Nesta terça-feira (31/03), o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) lançou, em parceria com o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), o portal Ciência na Ditadura com o objetivo de mostrar os danos causados pelo período à vida acadêmica nacional. 



Página reúne cientistas perseguidos durante a ditadura no Brasil

Segundo o jornal O Globo, o site fará um levantamento de cientistas, pesquisadores e professores universitários que foram perseguidos ou tiveram suas carreiras prejudicadas por conta da ditadura.

Até o momento, o projeto conta com 471 participantes, entre cientistas, professores e alunos da época. Todos receberam verbetes e contaram qual era a sua área de pesquisa e que tipo de sanções receberam do regime. 

"A repressão atingiu a todos. Não mirava só quem tinha liderança política dentro das universidades, mas também quem tinha liderança acadêmica", disse Alfredo Tolmasquim, coordenador de História da Ciência no MAST e um dos idealizadores do projeto. 

via Portal Imprensa