terça-feira, 16 de outubro de 2018

O acervo digital com as notas de engenharia de Leonardo da Vinci

Ao digitalizar as obras, o museu afirma que pretende fazer com que haja menos necessidade de manuseá-las, facilitando sua conservação

André Cabette Fábio | Nexo

FOTO: REPRODUÇÃO PÁGINAS DE ANOTAÇÃO USADAS POR LEONARDO DA VINCI

Nascido em 1452 no que hoje é território italiano, Leonardo da Vinci foi um importante intelectual e criador renascentista. Entre suas áreas de atuação no campo das artes estão pintura, música, escultura e literatura. Algumas de suas obras mais famosas são a pintura da Mona Lisa, o Homem Vitruviano e a Última Ceia. 

Em novembro de 2017, uma obra atribuída ao artista, Salvator Mundi, foi vendida por US$ 450,3 milhões na casa de leilões Christie’s, em Nova York, estabelecendo um recorde mundial. Ele também foi um grande explorador das ciências naturais e exatas. Da Vinci manteve cadernos nos quais anotava ideias, fazia cálculos e esboçava projetos de invenções - frequentemente ininteligíveis para observadores externos. 

Como as centenas de milhões pagas pelo Salvator Mundi indicam, a obra de Da Vinci é extremamente valorizada. Suas anotações não foram mantidas em um único acervo, mas pulverizadas em coleções privadas e instituições ao redor do mundo. 

Em agosto de 2018, uma dessas instituições, o Victoria and Albert Museum, de Londres, publicou online o conteúdo de dois dos cadernos de Leonardo da Vinci. Eles estão dispostos em uma galeria de fotos em alta resolução, que permite aproximar a imagem e observar detalhes. 

Anteriormente, o Acervo Real do Palácio de Buckingham havia feito um esforço similar, digitalizando anotações de da Vinci sobre anatomia. 

PÁGINAS DE ANOTAÇÃO DO CADERNO DE LEONARDO DA VINCI   

O material digitalizado pelo Victoria and Albert Museum faz parte do acervo da biblioteca do colecionador John Forster, doada ao museu em 1876. Os dois cadernos disponibilizados compõem, por sua vez um volume chamado de Codex Forster Primeiro, em referência ao seu antigo proprietário. 

O Codex Forster Primeiro foi elaborado por da Vinci no final do século 15, quando ele trabalhou como engenheiro hidráulico para a corte de Milão. Ele possui desenhos de instrumentos pensados para serem usados na escavação de canais e na mudança do curso de água. Há também tratados sobre geometria e sobre a mensuração de materiais sólidos. 

Em entrevista ao site focado em obras de arte The Art Newspaper, a curadora de coleções especiais, Catherine Yvard, afirma que os cadernos lembram o talento de da Vinci como engenheiro. 

“Os cadernos nos lembram que Leonardo era tanto engenheiro quanto artista. Quando ele escreveu no início dos anos 1480 a Ludovico Sforza, então senhor de Milão, para oferecer seus serviços, ele se apresentou como um engenheiro militar, mencionando suas habilidades artísticas brevemente, no final da lista.” 

Há outros três cadernos que compõem dois volumes, chamados de Codex Forster Segundo e Codex Forster Terceiro, produzidos entre 1487 e 1505. Segundo informações da curadoria do museu, publicadas pelo The Art Newspaper, o objetivo é que todo o material seja disponibilizado online até o ano de 2019, que marca 600 anos da morte de da Vinci. 

Ao digitalizar as obras, o museu afirma que pretende fazer com que haja menos necessidade de manuseá-las, facilitando sua conservação.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

A biblioteca online com os sons de milhares de animais selvagens

Mantida pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, a Macaulay Library registra sons da vida selvagem captados por pesquisadores desde 1929

André Cabette Fábio | Nexo

SAPO DA ESPÉCIE ANURA, UMA DAS REGISTRADAS NA BIBLIOTECA ONLINE

O crescimento da população de seres humanos e seu avanço sobre ambientes naturais têm levado à queda acelerada da população e da diversidade de espécies de seres vivos no planeta. 

Pesquisadores estimam que, desde o início da civilização humana, há 300 mil anos, a massa de plantas caiu pela metade. A retirada da cobertura vegetal é realizada, em geral, para dar lugar a atividades humanas, como lavouras e a criação de rebanhos, que tomam o lugar de insetos, pássaros, mamíferos e outros seres vivos que viviam nos ecossistemas retirados. 

Atualmente, humanos e rebanhos usados para a alimentação da espécie pesam mais que todos os vertebrados combinados, com exceção de peixes. 

A humanidade continua a crescer, e a redução da população de outros seres vivos continua em curso - a rápida mudança climática ligada ao aquecimento global tende a acelerar esse processo. Desde 1970, a população mundial de animais selvagens despencou 58%. 

Mantida pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, a Macaulay Library registra sons da vida selvagem captados por pesquisadores desde 1929, que são um testemunho da atual diversidade de espécies do planeta. 

Uma parte do material é disponibilizada na internet, no site Macaulaylibrary.org. É possível ouvir os sons emitidos por pássaros, mamíferos, artrópodes, peixes e répteis e anfíbios, como o sapo Anura da foto que abre essa reportagem. Grande parte das gravações ocorreu no habitat dos animais, em que seus cantos se misturam aos de outros seres vivos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Robô corrige milhões de links quebrados da Wikipédia



por Camilla Cássia da Silva | Tecmundo

Mais de 9 milhões de links quebrados da Wikipédia foram corrigidos pela equipe da Internet Archive - uma espécie de biblioteca digital, que reúne arquivos da web. Há mais de cinco anos, a organização tem armazenado em seu banco de dados, Wayback Machine, praticamente todas as URLs referenciadas em centenas de páginas da enciclopédia online. Isso foi possível graças ao IABot, um robô desenvolvido por voluntários da organização para rastrear ocorrências dos tipos “404” e “página não encontrada” nos arquivos da Wayback Machine.

Assim, quando a ferramenta encontra links quebrados, ela faz uma nova busca nesse banco de dados e os substitui por URLs válidas. O trabalho é realizado com o intuito de garantir que as informações da plataforma possam ser sempre confirmadas na seção de referências, localizada no final de cada página da Wikipédia. Segundo publicação da Internet Archive, isso garante que o site “permaneça preciso e verificável e, portanto, atende a uma das três principais políticas de conteúdo da Wikipédia: ‘verificabilidade’”.



A iniciativa é bastante útil não somente para garantir a veracidade do que é escrito na plataforma, mas também para auxiliar a localização de artigos originais sobre determinado assunto. Afinal, esse detalhe é muito importante para citações em estudos acadêmicos, por exemplo.Ainda vale ressaltar que o projeto não termina aqui. Além da Wikipédia, ele será estendido para outros formatos e mídias, incluindo demais páginas da internet, e-books e estudos científicos. Caso queira conhecer a infinidade de dados armazenados na Wayback Machine - como filmes e livros dos mais variados temas -, acesse o site da Internet Archive.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O acervo digital com publicações das colônias portuguesas

Projeto mantido por Universidade de Aveiro, em Portugal, reúne publicações e documentos das antigas colônias do país europeu em defesa da memória da lusofonia


Murilo Roncolato | Nexo

Em um livro de mil novecentos e tantos (não se sabe ao certo), o lusitano Luis Silveira escreveu que, “ao contrário dos Espanhóis”, na América não havia “povoações organizadas”. “As cidades do Brasil foram, pois, não só construídas de raiz, como livres de contaminação de exemplos locais”, disse em bom português. 

No entanto, com o tempo, o modelo urbano europeu sofreu alterações, com poucas exceções. “A Baía [Salvador], por exemplo, que foi cronològicamente e em importância a primeira cidade brasileira, é ainda, em perfil panorâmico, muito portuguesa.” 

O relato de além-mar está presente em “Ensaio de Iconografia das Cidades Portuguesas do Ultramar”, uma das diversas obras digitalizadas e acessíveis no site do Portal das Memórias de África e do OrienteO projeto, em atividade desde 1997, é mantido pelas universidades portuguesas de Aveiro e Lisboa e financiado pela Fundação Portugal-África. 

O projeto se define como um “instrumento fundamental e pioneiro na tentativa de potenciar a memória histórica dos laços que unem Portugal e a Lusofonia, sendo deste modo uma ponte com o nosso passado comum na construção de uma identidade coletiva aos povos de todos esses países”. 

Assim, o acervo reúne mais de 2,5 mil documentos históricos, frutos da relação entre Portugal e suas antigas colônias, como Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau (na China), Moçambique, São Tomé e Príncipe, além de Goa, Damão e Diu (Índia). 

Sobre Angola, país que se tornou independente apenas em 1975, e Brasil, o projeto diz ser “objetivo (...) incorporar também registros bibliográficos” de instituições desses países, mas “não foi possível até o momento, e apesar de várias tentativas, identificar” uma que “coordene o processo de identificação de acervos”.  

Em meio à papelada virtual, é possível encontrar diários oficiais de presidentes portugueses em visitas às colônias e até um conjunto de materiais didáticos usado para o ensino da língua portuguesa – como este abaixo, usado na alfabetização em Angola, datado de 1966, nove anos antes da independência do país africano.

FOTO: REPRODUÇÃO/UNIVERSIDADE DE AVEIRO

MATERIAL DIDÁTICO DISTRIBUÍDO EM ANGOLA EM 1966, ANTES DA SUA INDEPENDÊNCIA 

Álbuns da colônia de Moçambique 

O acervo destaca coleções como o catálogo de “Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique”, de 1929, uma coleção de 10 álbuns que mostram “vários aspectos da ‘Colónia de Moçambique’” em texto e imagem, diz o site. 

Moçambique, independente de Portugal desde 1975, é descrito como sendo um “distrito riquíssimo em florestas das mais variadas espécies, próprias para indústrias” e dono de um “belo clima”. “Os melhores pontos para a colonisação europêa [grafia original]”, afirma um dos álbuns oficiais. 

O material é rico seja pelo seu valor histórico, por retratar a infraestrutura local, a arquitetura das cidades, as práticas cotidianas da população local e sua cultura, seja pelo fato de tudo isso ser reportado do ponto de vista do colonizador português. 

Em um dos álbuns sobre “Raças, Usos e Costumes Indígenas”, há retratos de pretensão etnográfica sobre os diferentes “tipos de creados da capital da Colónia”, como o “pápo-sêco” com “áres de civilisádo”; o “mufano”, cuja atividade é servir chá; há registros de casamentos e ou ainda de “curandeiros”, dos quais “indígenas já pouco acreditam e que as autoridades perséguem”. 

De São Tomé e Príncipe 

Sobre a ilha do Atlântico há um “enorme acervo” digitalizado desde 2006. Há sobre o país e sua população fotografias sobre as cidades no início do século 20, seus “grupos culturais” e das suas antigas “roças” ou fazendas. Nesta imagem, o retrato da senzala, onde moravam os “serviçais” das roças, feito em 1911.  

FOTO: REPRODUÇÃO/UNIVERSIDADE DE AVEIRO
‘SENZALAS (HABITAÇÕES DOS SERVIÇAES) NA ROÇA GUEGUÉ - S.THOMÉ’ 

Cadernos coloniais 

O acervo conta ainda com os chamados “Cadernos Coloniais”, uma coleção com 70 livros publicados por uma antiga editora de Lisboa entre 1920 e 1960. “Os temas versados abrangeram as diversas colônias que na altura formavam o Império Português e os grandes obreiros dessa obra colonizadora”, descreve o site do projeto. 

Há exemplares que tratam, em texto e imagem, sobre a “África desconhecida” e outro, dedicado a contar histórias do folclore das populações locais, intitulado “Lendas negras”. 

FOTO: REPRODUÇÃO/UNIVERSIDADE DE AVEIRO

‘CASTRO SOROMENHO, OUVINDO NA LUNDA AS CURIOSAS LENDAS DO GENTIO’, NA EDIÇÃO SOBRE ‘LENDAS NEGRAS’ DOS CADERNOS COLONIAIS

sábado, 22 de setembro de 2018

Maior biblioteca de magia e ocultismo do mundo digitaliza seu acervo

Fundada em 1957, a Biblioteca de Ritman, ou Bibliotheca Philosophica Hermetica, só foi aberta ao público em 1984. Seu fundador, Joost Ritman, começou a juntar livros raros sobre espiritualidade quando ainda era adolescente, iniciando com uma edição do século 17 de Aurora, do filósofo alemão Jakob Böhme.

Em junho de 2016, Dan Brown, escritor e autor de livros como O Código Da Vinci e Anjos e Demônios e que havia feito várias pesquisas por lá durante seus processos criativos, anunciou uma doação de 300 mil euros para que a Biblioteca pudesse digitalizar seu acervo e tornar as obras acessíveis a um público maior.


Dos cerca de 4600 livros da Biblioteca de Ritman, pouco mais de 2100 já estão disponíveis online e podem ser acessados através do site Embaixada da Mente Livre. Há diversos estudos sobre temas como alquimia, astrologia, magia e outros temas caros ao ocultismo.

É importante ressaltar que as obras estão escritas em diferentes idiomas europeus, com predominância para textos em latim. Há também livros em inglês, francês, alemão e holandês, e a forma mais fácil de filtrar as buscas no catálogo é selecionar por Lugar de Publicação.





via Hypness

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Tabela Brasileira de Composição de Alimentos - TBCA


A versão 6.0 (2017) da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA) foi desenvolvida de forma integrada entre a Rede Brasileira de Dados de Composição de Alimentos (Brasilfoods), Universidade de São Paulo (USP) e Food Research Center (FoRC)/CEPID/FAPESP.

Esta versão apresenta duas bases de dados distintas, uma com dados analíticos originais relativos a alimentos da biodiversidade brasileira e outra com informações sobre o conteúdo de 34 componentes dos alimentos mais consumidos no Brasil, com o objetivo de permitir a avaliação da ingestão de nutrientes e facilitar o planejamento de planos alimentares e cardápios.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Para restaurar uma sociedade civil, comece com a Biblioteca


Essa instituição crucial está sendo negligenciada justamente quando mais precisamos dela.

A biblioteca pública é obsoleta?

Muitas forças poderosas na sociedade parecem pensar assim. Nos últimos anos, os declínios na circulação de livros encadernados em algumas partes do país levaram importantes críticos a argumentar que as bibliotecas não estão mais cumprindo sua função histórica. Inúmeras autoridades eleitas insistem que, no século XXI – quando tantos livros são digitalizados, tanta cultura pública existe on-line e muitas vezes as pessoas interagem virtualmente – as bibliotecas não precisam mais do apoio que já comandaram.

As bibliotecas já estão famintas por recursos. Em algumas cidades, mesmo as mais abastadas como Atlanta, filiais inteiras estão sendo fechadas. Em San Jose, Califórnia, na mesma rua do Facebook, Google e Apple, o orçamento da biblioteca pública é tão apertado que usuários com taxas de atraso acima de US $ 10 não podem pedir livros emprestados ou usar computadores.

Mas o problema que as bibliotecas enfrentam hoje não é irrelevante. De fato, em Nova York e em muitas outras cidades, a circulação de bibliotecas, a frequência de programas e a média de horas gastas em visitas estão em alta. O problema real que as bibliotecas enfrentam é que muitas pessoas as estão usando e, para uma variedade tão grande de propósitos, os sistemas de bibliotecas e seus funcionários estão sobrecarregados. De acordo com uma pesquisa de 2016 conduzida pelo Pew Research Center, cerca de metade de todos os americanos com 16 anos ou mais usaram uma biblioteca pública no ano passado e dois terços dizem que o fechamento de sua filial local teria um “grande impacto em sua comunidade. “

As bibliotecas estão sendo desacreditadas e negligenciadas precisamente no momento em que são mais valorizadas e necessárias. Por que a desconexão? Em parte, é porque o princípio fundador da biblioteca pública – que todas as pessoas merecem acesso livre e aberto à nossa cultura e herança compartilhadas – está fora de sincronia com a lógica de mercado que domina o nosso mundo. Mas também é porque tão poucas pessoas influentes entendem o papel expansivo que as bibliotecas desempenham nas comunidades modernas.

As bibliotecas são um exemplo do que eu chamo de “infraestrutura social”: os espaços físicos e as organizações que moldam a maneira como as pessoas interagem. As bibliotecas não apenas oferecem acesso gratuito a livros e outros materiais culturais, mas também oferecem coisas como companheirismo para adultos mais velhos, cuidados infantis de fato para pais ocupados, ensino de idiomas para imigrantes e acolhimento de espaços públicos para os pobres, sem-teto e jovens .

Recentemente, passei um ano fazendo pesquisas etnográficas em bibliotecas na cidade de Nova York. Repetidas vezes, lembrei-me de como as bibliotecas são essenciais, não apenas para a vitalidade de um bairro, mas também por ajudar a resolver todos os tipos de problemas pessoais.

Para as pessoas idosas, especialmente as viúvas, os viúvos e os que moram sozinhos, as bibliotecas são lugares de cultura e companhia, através de clubes do livro, noites de cinema, círculos de costura e aulas de arte, eventos atuais e informática. Para muitos, a biblioteca é o principal local onde eles interagem com pessoas de outras gerações.

Para crianças e adolescentes, as bibliotecas ajudam a incutir uma ética de responsabilidade, a si mesmos e aos vizinhos, ensinando-lhes o que significa pedir emprestado e cuidar de algo público, e devolvê-lo para que outros também possam tê-lo. Para os novos pais, avós e cuidadores que se sentem sobrecarregados quando assistem a uma criança ou a uma criança sozinha, as bibliotecas são uma dádiva de Deus.

Em muitos bairros, especialmente naqueles onde os jovens não são agendados para programas pós-escolares formais, as bibliotecas são muito populares entre adolescentes e adolescentes que querem passar mais tempo com outras pessoas da mesma idade. Um dos motivos é que eles são abertos, acessíveis e gratuitos. Outra é que os membros da equipe da biblioteca os recebem; em muitos ramos, eles até atribuem áreas para os adolescentes estarem uns com os outros.

Para entender por que isso é importante, compare o espaço social da biblioteca com o espaço social de estabelecimentos comerciais como a Starbucks ou o McDonald’s. Estas são partes valiosas da infra-estrutura social, mas nem todos podem se permitir freqüentá-las, e nem todos os clientes pagantes são bem-vindos para ficar por muito tempo.

Pessoas mais velhas e pobres muitas vezes evitam a Starbucks, porque a tarifa é muito cara e sentem que não pertencem. Os velhos frequentadores da biblioteca que conheci em Nova York disseram-me que se sentem ainda menos bem-vindos nos novos cafés, bares e restaurantes que são tão comuns nos bairros da cidade. Os fregueses da biblioteca, pobres e desabrigados, nem consideram entrar nesses lugares. Eles sabem por experiência que simplesmente ficar do lado de fora de um restaurante sofisticado pode levar os gerentes a chamar a polícia. Mas você raramente vê um policial em uma biblioteca.

Isso não quer dizer que as bibliotecas sejam sempre pacíficas e serenas. Durante o tempo que passei pesquisando, testemunhei um punhado de disputas acaloradas, brigas físicas e outras situações desconfortáveis, às vezes envolvendo pessoas que pareciam estar mentalmente doentes ou sob a influência de drogas. Mas tais problemas são inevitáveis em uma instituição pública dedicada ao acesso aberto, especialmente quando clínicas de remédios, abrigos para sem-teto e bancos de alimentos rotineiramente se afastam – e muitas vezes se referem à biblioteca! – aqueles que mais precisam de ajuda. O que é notável é quão raramente essas interrupções acontecem, o quanto elas são gerenciadas civilmente e com que rapidez uma biblioteca recupera seu ritmo depois.

A abertura e a diversidade que florescem nas bibliotecas da vizinhança já foram uma marca da cultura urbana. Mas isso mudou. Embora as cidades americanas cresçam de forma mais étnica, racial e culturalmente diversa, muitas vezes permanecem divididas e desiguais, com alguns bairros se afastando da diferença – às vezes intencionalmente, às vezes apenas pelo aumento dos custos – particularmente quando se trata de raça e classe social. 

As bibliotecas são o tipo de lugares onde pessoas com diferentes origens, paixões e interesses podem participar de uma cultura democrática viva. Eles são os tipos de lugares onde os setores público, privado e filantrópico podem trabalhar juntos para alcançar algo superior ao resultado final.

Neste verão, a revista Forbes publicou um artigo argumentando que as bibliotecas não serviam mais a um propósito e não mereciam apoio público. O autor, um economista, sugeriu que a Amazon substituísse as bibliotecas por seus próprios pontos de venda, e alegou que a maioria dos americanos preferiria uma opção de livre mercado. A resposta do público – especialmente dos bibliotecários , mas também dos funcionários públicos e cidadãos comuns – foi tão esmagadoramente negativa que a Forbes excluiu o artigo de seu site.

Nós devemos prestar atenção. Hoje, como cidades e subúrbios continuam a se reinventar, e como os cínicos afirmam que o governo não tem nada de bom para contribuir com esse processo, é importante que instituições como as bibliotecas obtenham o reconhecimento que merecem. Vale notar que “liber”, a raiz latina da palavra “biblioteca”, significa “livro” e “livre”. Bibliotecas representam e exemplificam algo que precisa ser defendido: as instituições públicas que – mesmo em uma era de atomização, polarização e desigualdade – servem como alicerce da sociedade civil. 

Se tivermos alguma chance de reconstruir uma sociedade melhor, a infraestrutura social, como a biblioteca, é exatamente o que precisamos.

Artigo publicado no Jornal The New York Times intitulado To Restore Civil Society, Start With the Library – Tradução do bibliotecário Sadrac Leite Silva (DT/SIBiUSP)

Sobre o Autor
Eric Klinenberg (@EricKlinenberg), professor de sociologia e diretor do Instituto de Conhecimento Público da Universidade de Nova York, é o autor do próximo livro “Palácios para as pessoas: como a infra-estrutura social pode ajudar a combater a desigualdade, a polarização e Declínio da Vida Cívica ”, a partir do qual este ensaio foi adaptado. #Library

via SIBi/USP

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

'Portal da Crônica Brasileira': Instituto Moreira Salles lança site com acervos de grandes escritores

'Portal da Crônica Brasileira' reúne textos de acervos pessoais que estão sob a guarda da instituição.

By Amauri Terto | Huffpost Brasil


Caricaturas dos escritores feitas por Cássio Loredano compõem visual do site. 

Rachel de Queiroz, Rubem Braga, Antônio Maria, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende. Seis dos maiores cronistas do País são a base do Portal da Crônica Brasileira, novo site do Instituto Moreira Salles (IMS) que reúne textos do gênero que estão sob a guarda da instituição.

As 2.519 crônicas disponíveis no site foram publicadas originalmente na imprensa e guardadas em recortes de jornais e revistas - tanto pelos autores quanto por seus familiares. Este material também integra um banco de dados de literatura do IMS que, segundo a instituição, reúne cerca de 10 mil textos de diferentes gêneros literários.

A ideia é que novos acervos de crônicas sejam compartilhados em breve. A primeira fase do site já conta com material vindo de fora do IMS. Os leitores podem acessar 816 crônicas de Rubem Braga, escritor cujo acervo pessoal está sob os cuidados da Fundação Casa Rui Barbosa.

Entre as características do portal que ampliam a experiência do leitor com os textos estão caricaturas feitas por Cássio Loredano e o espaço da "crônica do dia" em destaque na homepage. Além disso, o portal contará quinzenalmente com um coluna de seu editor, Humberto Werneck, intitulada Rés do Chão, abordando os aspectos e peculiaridades da crônica.

"Costuma haver uma confusão grande. As pessoas acham que a crônica é um gênero jornalístico. Não, a crônica é literatura. Ela, dentro do jornal, corre na contramão do que é jornalismo", explica Werneck no vídeo que anuncia o lançamento do portal.

"O jornalista é obrigado a ser objetivo, impessoal o tempo todo. A boa crônica muitas vezes permanece no leitor com a mesma aderência que tem um bom conto, um romance - embora ela não tenha nenhuma ambição disso", completa.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Os mapas e o tempo


Historiadores estão utilizando novas tecnologias de mapeamento para visualizar e investigar o passado

Por Leonardo Fernandes e Marcos Botelho Jr. | ComCiência

Apesar do nome, a cidade do Rio de Janeiro não foi construída ao longo de um rio. Alguns mapas do começo do século XVI, especialmente a carta náutica elaborada pelo almirante otomano Piri Reis, foram os responsáveis por confundir as águas da Baía de Guanabara. O erro foi consagrado oficialmente pelos portugueses quando fundaram, no topo do Morro do Castelo, o assentamento de São Sebastião do Rio de Janeiro em 1565. Mas uma coisa é certa nessa história: a busca por água potável para abastecer esse núcleo urbano foi o que moldou a metrópole que conhecemos hoje.

De acordo com o artigo Water and Social Space: Using georeferenced maps and geocoded images to enrich the history of Rio de Janeiro’s fountains (Água e espaço social: usando mapas georreferenciados e imagens geocodificadas para aprimorar a história das fontes do Rio de Janeiro, inédito em português), da historiadora americana Alida Metcalf, quando os primeiros moradores desceram a colina e construíram casas, lojas e igrejas ao longo das ruas retas paralelas à costa se viram cercados de pântanos, lagoas e mangues – mas, infelizmente, nada era adequado para beber. A cidade era abastecida de água doce graças ao trabalho dos aguadeiros, muito deles escravos africanos e indígenas que carregavam os recipientes nas cabeças.

A primeira fonte pública do Rio foi a da Carioca, concluída em 1723. O aqueduto que ligava o rio Carioca até a cidade levou seis décadas para ser completado. A fonte em si foi esculpida em Lisboa e enviada de navio para o Rio, onde foi instalada na praça hoje conhecida como Largo da Carioca. Tinha dezesseis bicos ornamentais de bronze e no topo do monumento reinava solene o brasão de armas de Portugal. O chafariz foi completamente reconstruído nos anos 1830, e durou até 1926 quando foi demolido. Mas parte da memória da mais importante obra de saneamento da cidade ainda permanece de pé, com a ponte dupla dos Arcos da Lapa que conecta os Morros de Santa Teresa e de Santo Antônio.

“A cidade foi amplamente abastecida com água através desse único aqueduto até o início do século XIX. As fontes públicas eram vitais para o Rio, não só de um ponto de vista utilitário, mas também social e político. Projetadas para serem esteticamente agradáveis, as grandes fontes ficavam em praças ou ao longo das ruas, e ao redor delas foi criado um espaço público. Se a limitada infraestrutura de água da cidade tinha uma vantagem, era dar aos escravos e aos negros livres um lugar onde poderiam se reunir, apesar de seu trabalho ser duro e longo”, afirma a professora titular do departamento de História da Universidade Rice no Texas, EUA.

Além do papel

A pesquisa de Metcalf sobre a história social do Rio examina como essa escassez de água foi usada para reforçar instituições como a escravidão, por exemplo. A cidade tinha a maior população de escravos urbanos das Américas na primeira metade do século XIX e um número significativo dessa força de trabalho era utilizada para transportar água e lavar roupa. Uma pesquisa difícil de empreender devido às inúmeras intervenções urbanas que a cidade passou.

Para estudar as grandes transformações na paisagem local como a construção de novos chafarizes e aquedutos e as drenagens e aterramentos, a pesquisadora recorreu à tecnologia de georreferenciamento de mapas históricos. Isto significa ligar um lugar no mapa histórico como um ponto central de um cruzamento de duas ruas, por exemplo, as coordenadas de latitude e longitude do endereço atual. Em 2011, em parceria com Farès el-Dahdah, diretor do Centro de Pesquisa em Ciências Humanas (HRC) da Rice University, eles criaram a plataforma ImagineRio, um atlas interativo da ocupação urbana da cidade do Rio de Janeiro, abrangendo desde 1502 até hoje em dia.

O projeto usa a precisão de dados captados via satélite para localizar antigas informações cartográficas, plantas baixas (tanto de edifícios construídos quanto de projetos abandonados) e documentos visuais de vários arquivos e bibliotecas do Rio de Janeiro. Um controle deslizante na parte superior do site permite que os usuários avancem para frente ou para trás no tempo.

Dependendo da época selecionada, mapas históricos georreferenciados aparecem em uma barra vertical à esquerda. É possível também acompanhar o curso de rios ao longo dos anos ou a expansão de ruas. A plataforma ainda alia iconografia à pesquisa, apresentando aquarelas, desenhos ou pinturas inspiradas em um determinado ponto da cidade. Uma nova parceria com o Instituto Moreira Salles tem adicionado fotografias históricas, como de Augusto Malta e Marc Ferrez, à plataforma. Cada imagem é geolocalizada, tornando-se possível visualizar o que o artista retratou em cima do mapa do período.

Para localizar o que os documentos oficiais não forneciam, Metcalf se baseou nas obras de pintores como o francês Jean-Baptiste Debret e o austríaco Thomas Ender que visitaram o Rio de Janeiro no início do século XIX em missões artísticas a convite do príncipe regente Dom João. Apesar de trabalhar para a corte e retratar com pompa a presença real na cidade, Debret registrou que as fontes públicas eram lugares onde os escravos não só trabalhavam como também conviviam, comiam juntos e cantavam. Já as aquarelas de Ender mostram que mesmo que a tarefa de levantar grandes jarros de água ou barris de madeira ​​exigisse fisicamente, os escravos são retratados na maioria das vezes conversando em volta dos chafarizes.

“O Rio foi uma cidade planejada, imaginada de inúmeras maneiras. Com o ImagineRio é possível não só visualizar como era o Rio no passado, mas também o que poderia ter sido. Quando um mapa é georreferenciado, ele está vivo de novo”, definiu Alida.

Novas fronteiras

Outra iniciativa que vem expandindo as possibilidades do estudo da cartografia histórica é a Biblioteca Digital de Cartografia Histórica da Universidade de São Paulo (USP). O acervo conta hoje com cerca de 70 exemplares digitalizados, que abrangem principalmente a América do Sul e o Brasil entre os séculos XVI e XIX. Através do site é possível acessar além das imagens em alta resolução, informações técnicas e editoriais de cada peça, assim como verbetes explicando o processo de produção, circulação e apropriação dos documentos cartográficos.  Criado em 2009, a Biblioteca ainda está em expansão: o objetivo é digitalizar os 280 mapas que integravam originalmente a coleção do Banco Santo e foram depositados na instituição.

O conjunto revela muito mais do que informações geográficas. Permite também perceber o imaginário europeu sobre o Brasil, retratado como uma terra exótica e incomensurável em diversos mapas. A historiadora Iris Kantor, professora do Departamento de História da USP e uma das coordenadoras do projeto, aponta que os mapas impressos não devem ser tomados como representação verossímil da realidade geográfica, sendo, em sua maior parte, produzidos para adornar as casas das famílias abastadas da época, e consumidos como objetos de prestígio e ostentação.

“São documentos que falam muito mais das concepções espaciais dos homens que fizeram esses mapas do que do espaço geográfico tal qual temos conhecimento hoje. Acho que revelam, sobretudo, esse desejo imperial de conquista, de presença da Europa no novo mundo”, afirma Kantor.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Como ficam as bibliotecas com o avanço da tecnologia?


Com os livros digitais e com a internet, a frequência de usuários em bibliotecas vem caindo exponencialmente

Abc do Abc

O universo da leitura, dos livros e das bibliotecas vem passando por transformações há algumas décadas. Em dez anos, a consulta aos livros nas bibliotecas de São Paulo, por exemplo, caiu 70% – de 2,3 milhões em 2007 para 733 mil em 2016, conforme dados obtidos em relatórios do Sistema Municipal de Bibliotecas.

Mesmo com o cenário de queda, especialistas e estudiosos indicam que a biblioteca persistirá. “Não podemos ver a tecnologia como se fosse um instrumento com o objetivo de aniquilar as bibliotecas. Gutemberg e tecnologia estão muito mais próximos do que poderíamos pensar”, defende Luiz Alexandre Solano Rossi, professor de Teologia no Centro Universitário Internacional Uninter.

O professor defende que haverá uma convivência pacífica dos livros impressos com os digitais. “Há espaço para ambos na comunidade de leitores”, alega. A revista americana The Atlantic, por exemplo, sugere que recursos tecnológicos podem ajudar os bibliotecários a atrair mais frequentadores. No Brasil, o Ministério da Cultura (MinC) está selecionando 20 bibliotecas públicas para receber uma ajuda de custo de R$ 100 mil reais com o objetivo de dispor recursos digitais para os leitores.

O termo biblioteca vem do grego e significa “depósito de livros”, mas Solano advoga uma definição mais ampla. “Bibliotecas são como templos que abrigam a memória criativa da humanidade”, diz. Ele acredita que manuscritos mais antigos e, portanto, raros, continuarão a ter seu espaço garantido nas estantes.

Papel facilita o aprendizado

Com o advento dos livros digitais, diversos estudos mostram que o esforço para ler na tela dificulta o aprendizado, conforme artigo publicado pela San Jose State University, em 2014. O jornal Washington Post também publicou, em 2015, que os livros impressos são preferidos pelos leitores, mesmo entre os nativos digitais.

Solano explica que a efetividade da mídia impressa no aprendizado tem relação com a cognição. “A experiência do livro impresso afeta todos os sentidos dos leitores e faz com que a relação entre eles se torne simbiótica, isto é, uma parte do livro fica impregnada no leitor e o livro leva consigo algo do leitor”, diz.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Como a mídia impressa sobrevive em um mundo digital?


Há anos batendo de frente com a onda cibernética que invade o mundo da comunicação, os veículos impressos parecem resistir e até achar espaço em meio ao mar saturado de informações sob demanda. Pelo menos é isso que o presidente do Skål Internacional São Paulo e vice-presidente do Núcleo de Turismo da ADVB, Aristides de La Plata Cury, defende em artigo enviado ao Portal PANROTAS.

Com o documento, intitulado "De Gutenberg a Zuckerberg: o papel vive!", o executivo põe em questão a atitude de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, de investir em uma revista impressa para explicar de que maneira esse meio ainda pode ser importante para alavancar negócios e fortalecer ainda mais as marcas. Leia o texto completo abaixo:

"O advento da revolução digital já suscitou incontáveis profecias, ao longo dos últimos 15 anos. Algumas delas vaticinaram a agonia e morte do rádio e mesmo da TV. 

Outras deram como certa a extinção iminente de livros, revistas e jornais impressos, por conta dos novos meios digitais cada vez mais ágeis, flexíveis, interativos e atraentes. Seria o fim de uma era, iniciada em 1455, com a Bíblia de Gutenberg.

O tempo foi passando, gigantes da web tornaram-se centrais multiconteúdos, turbinadas por algoritmos cada vez mais poderosos e resolutivos. Entre eles, está o hoje prosaico Facebook, de Mark Zuckerberg, um dos empreendedores de maior sucesso da história recente.

Nesse cenário, não deixa de surpreender anúncio feito por essa notória mídia social virtual, surgida em 4 de fevereiro de 2004, nos Estados Unidos. Atentem-se: o Facebook lança, no final de junho de 2018, na Inglaterra, a revista impressa Grow, edição trimestral, com distribuição gratuita em lounges de aeroportos e terminais ferroviários do Reino Unido.

Traz reportagens sobre inovação, liderança e tecnologia e também é enviada diretamente a executivos que pagam por publicidade dentro da plataforma no país. A editora-chefe da publicação é Kate Maxwell, colaboradora da Conde Nast e ex-diretora do grupo editorial Soho House & Co.

A corporação diz que a ideia do projeto de marketing de negócios surgiu há menos de quatro anos e nega que vá comercializar publicidade para exibir na revista impressa. Sustenta que compartilha conteúdo sobre liderança diretamente com seus clientes, por meio de um evento anual, além de canais de marketing on-line e off-line. E que já firmou parcerias com o Founders Forum, rede global de empreendedores à frente de empresas de tecnologia, e com a revista Vanity Fair.

O fato é que as profecias não contavam com esse paradoxo insólito, em que um dos expoentes dos meios digitais percebe a pertinência de uma ação aparentemente retrô para alavancar negócios e fortalecer ainda mais sua marca. Na esteira da Grow Magazine, está uma série de encontros fechados, ainda em 2018, na Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Suécia. Pauta: tratar de temas de interesse do mercado empresarial. E assim, o bom e velho evento corporativo, que alguns julgaram estar com os dias contados, segue vivo e influente.

Em última análise, esse case é oportuno e didático para se entender melhor os meandros da comunicação contemporânea, das vendas e do marketing. O caráter tangível, palpável e material das publicações impressas em papel sobrevive, endossadas pelas mãos de um dos ícones da era digital. E os eventos corporativos, em ambientes reais e protagonizados por pessoas em carne e osso, também são contemplados nessa ação inovadora, aparentemente um retrocesso, e por isso mesmo, desconcertante."

*Aristides de La Plata Cury, consultor e conferencista, é presidente do Skål Internacional São Paulo e VP do Núcleo de Turismo da ADVB

via Panrotas
Imagem: Internet

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Para a nova geração, experiência cultural vale mais do que a posse de objetos



Sou um assassino cultural. Não faça essa cara. Você também é. Eu sei que é romântico chorar quando uma livraria fecha as portas. Não sou alheio a essas lágrimas.

Mas convém não abusar do romantismo —e da hipocrisia. Fomos nós que matamos aquela livraria e o crime não nos pesa muito na consciência.

Falo por mim. Os livros físicos que entram lá em casa são cada vez mais ofertas —de amigos ou editoras.

De vez em quando, mais por razões estéticas que intelectuais, ainda cedo ao vício, sobretudo na ficção. Mas é um vício caro, cansativo, redundante. Já não tenho 20 anos.

Leia o artigo completo de João Pereira Coutinho, "Assassinos culturais", na Folha de S. Paulo.

E-Ink com 32 mil cores começa a ser produzido, mas não para e-readers

Nova tela está na quarta geração de displays E-Ink que conseguem reproduzir cores

Por André Fogaça | Tecnoblog

O E-Ink é uma maravilha tecnológica que faz telas de dispositivos parecerem papel de verdade – veja o Kindle, como exemplo. A tecnologia nasceu em preto e branco e brincando apenas com tons de cinza, mas hoje (28) foram entregues os primeiros modelos de telas que conseguem exibir até 32 mil cores diferentes.

A quantia, por maior que seja, ainda está longe do que consegue a TV da sua sala, que é capaz de trabalhar na casa das dezenas de milhões de cores. Porém, é um avanço para a tecnologia que tem como objetivo tornar um painel eletrônico visualmente idêntico ao que existe em papel de verdade.

Número de cores saltou
A nova tecnologia utilizada para esta quantidade de cores é chamada de Advanced Color ePaper, ou ACeP, e foi anunciada dois anos atrás. Sucessora de outras três telas coloridas e que são chamadas de Spectra, Prism e Triton, sendo a primeira com três pigmentos diferentes, indo até a Triston e suas 4.096 cores possíveis.

Tela feita com a tecnologia Advanced Color ePaper

Em sua versão mais recente, o display de E-Ink consegue trabalhar em resolução de 1600 x 2500 pixels em 150 pontos por polegada de densidade – a metade da densidade do que existe em revistas, por exemplo.

Calma que a notícia não é tão boa assim
A parte triste de tanta notícia boa é que a produção em massa deste tipo de tela será iniciada apenas no final deste ano. A notícia ainda pior do que a anterior é que não será no ano que vem que os Kindles contarão com um visual muito semelhante ao que revistas em quadrinhos entregam.

Cartazes feitos com telas ACeP

A tristeza vem de palavras do próprio diretor executivo da E-Ink, Johnson Lee, que comentou que leitores de e-books não estão no foco da empresa neste momento.

Se não estarão em leitores, certamente painéis e cartazes de locais bem tecnológicos serão feitos com E-Ink. Não custa nada sonhar em ler X-Men, com quase que todas as cores do gibi, na tela de um e-reader.

Com informações: Good E-Reader.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A inteligência artificial chega ao mundo das artes



Quando o assunto é futuro do trabalho, muitos estudos debatem como o desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial mais capazes vai colocar em risco milhões de empregos. Esses mesmos estudos apontam as profissões que têm mais ou menos chances de serem eliminadas, e aquelas cujas atividades envolvem criatividade e imaginação geralmente são citadas como imunes à automação. Porém essa imunidade pode estar com os dias contados.

Em outubro, a Christie’s, uma das mais famosas casas de leilão de artes do mundo, fundada em 1766, vai, pela primeira vez, leiloar um quadro criado inteiramente por inteligência artificial, em sua filial de Nova York. A peça, intitulada “Edmond de Belamy”, é o retrato de uma pessoa (que, aliás, nunca existiu) e foi feita por um algoritmo desenvolvido pela startup francesa Obvious, cujo lema é “Criatividade não é só para humanos”.

Para conseguir gerar as imagens, a Obvious utilizou uma técnica conhecida como GAN (acrônimo para generative adversarial network ou, em português, rede geradora adversária). Para entender melhor como ela funciona, conversei com Saulo Catharino, consultor em aprendizado de máquinas e diretor da empresa Bitrental.

O GAN é formado por duas redes neurais, uma conhecida como geradora e outra como discriminadora. Nesse caso dos quadros, a geradora foi ensinada a fazer desenhos aleatórios, tendo como base algumas especificações (por exemplo, como são retratos, eles precisam ter dois olhos, um nariz...). Já a discriminadora foi alimentada com uma imensa base de dados de 15 mil pinturas de retratos existentes dos séculos 14 a 20. Assim, conforme a geradora ia desenhando, a discriminadora media se esses desenhos se aproximavam daqueles da base de dados ou não. Com esse feedback, a geradora foi melhorando seu desempenho, até que conseguiu criar imagens similares, chegando ao resultado final. O uso dessa técnica faz com que os responsáveis pela Obvious se refiram às suas obras como parte de um novo movimento artístico, o “GAN-ismo”.

A empresa francesa não é a única a apostar em inteligência artificial criativa. Na Universidade de Rutgers, nos EUA, pesquisadores desenvolveram um algoritmo que consegue gerar cerca de mil imagens originais a cada vez que é acionado. E para testar esses trabalhos, colocaram-nos ao lado de outras obras criadas por humanos em um site onde pessoas puderam avaliá-los em termos de complexidade e inspiração. E alguns dos que foram produzidos pelo algoritmo tiveram uma avaliação superior.

Além de imagens, outras formas de expressão artística também estão sendo desenvolvidas por inteligência artificial: alguns algoritmos conseguem criar poemas “inspirados” em fotos (apesar de que o resultado nem sempre é dos melhores) e se aventurar no mundo da música. Ano passado, a cantora americana Taryn Southern lançou um álbum inteiro produzido por IA. E, em 2016, aqui no Brasil, o Spotify, em parceria com a empresa Kunumi, de Belo Horizonte, e o grupo de rap RZO, lançou uma música do rapper Sabotage, morto em 2003. Para isso, alimentou uma rede neural com diversas composições e manuscritos do artista. Com essa base, o algoritmo desenvolveu uma letra inspirada no estilo de Sabotage. A canção, aliás, chama-se “Neural”.

No entanto, essas iniciativas provocaram uma discussão: afinal, quadros, músicas ou outras obras criadas por inteligência artificial podem ser chamados de arte? A resposta é a mais em cima do muro possível: depende. Se avaliados apenas pelo aspecto estético, sim. Porém, se definirmos arte como uma forma de expressão de sentimentos, sensibilidade e personalidade de quem cria, fica complicado classificar inteligência artificial como artista, pois não existem (pelo menos ainda) algoritmos com essa capacidade.

Seja como for, o “Edmond de Belamy” irá a leilão em outubro, com preço estimado na casa dos US$ 10 mil. E você, faria um lance por essa obra?

Jornal do Brasil

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Biblioteca sonora dos ecossistemas


Fragments Of Extinction é uma biblioteca sonora dos ecossistemas mais antigos e diversos do planeta. Um trabalho de uma equipa coordenada pelo artista sonoro e investigador italiano David Monacchi.

Shifter (Portugal)

Uma equipe coordenada pelo artista sonoro e investigador italiano David Monacchi viajou pelas maiores áreas remanescentes de floresta primária próximas à linha do Equador, captou os sons desses ecossistemas e construiu uma biblioteca online que procura sensibilizar o público para a biodiversidade ameaçada pelas alterações climáticas e não só.

O projeto, intitulado Fragments Of Extinction, consistiu na captação durante 24 horas da paisagem sonora de diferentes habitats dessas florestas, considerados os ecossistemas mais antigos e diversos do planeta.

Porquê durante 24 horas? Porque representa o ciclo circadiano, isto é, o ciclo biológico pelo qual se regem quase todos os seres vivos e que é influenciado principalmente pela variação de luz, temperatura, marés e ventos entre o dia e a noite.

No Fragments Of Extinction, é possível ouvir os sons de diferentes habitats da ilha asiática de Bornéu, do continente africano e da Amazônia, numa viagem pelo patrimônio verde e vivo que é preciso preservar. O site apresenta também a história de cada expedição que a equipa de David Monacchi fez para a captação sonora, ilustradas com fotografias.

Monacchi e os seus colegas gravaram a floresta numa lógica tridimensional, registando os sons provenientes de todas as direções – de cima (onde estão os pássaros e macacos) e de baixo (lugar dos anfíbios e insectos). Os sons revelam, assim, a complexidade da rede de comunicação entre espécies diferentes e indivíduos da mesma espécie nestes ecossistemas.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O fim das bibliotecas?


Importante é o conhecimento, que pode estar em papiro, pergaminho, papel ou na tela
         
Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo
Imagem: Internet

Sempre senti o fascínio poderoso por bibliotecas. Tínhamos uma em casa, uma na escola e eu frequentava muito a Biblioteca Pública Municipal Olavo Bilac de São Leopoldo. Meu paraíso era próximo ao de Jorge Luis Borges: livros enfileirados.

Na faculdade, eu não tinha dúvida alguma: ter muitos livros era indispensável ao bom viver. Causa ainda certa espécie aos que hoje visitam minha casa que meu quarto seja decorado por uma imensa e belíssima foto de Yuri Seródio focando a Biblioteca Riccardiana de Florença. Deito e acordo com a representação de uma biblioteca. Silêncio, calma, livros, conhecimento: quase tudo é virtuoso no espaço de livros enfileirados.

Amo bibliotecas. O amor foi sofrendo golpes. Os primeiros são as mudanças. Cada vez que troco de casa tenho de avaliar quais os livros que realmente são importantes. Como me mudei há pouco, mais uma vez tive de avaliar coisas. Um exemplo: eu tinha uma extensa coleção de dicionários de português, praticamente todos os grandes léxicos da nossa língua. Avaliei mentalmente: qual foi a última vez que abri o volume físico do dicionário? Não consegui recordar. Deixei de necessitar? Pelo contrário, não consigo escrever um parágrafo sem buscar auxílio deles. Porém, como quase tudo, percebi que só uso versões digitais, rápidas de serem acessadas. Aqueles livros imensos estavam ali, belos, imponentes, com histórias, parados e sem uso além do valor simbólico na estante. Doei todos os que existiam em forma não virtual. Mantive apenas os mais antigos, como o Dicionário Analógico do padre Carlos Spitzer.

Muitos livros com reproduções de imagens artísticas tiveram o mesmo destino. Pensei em como consigo acessar em altíssima resolução afrescos da Capela Sistina, sem que eu precise guardar aqueles volumes gigantescos com fotografias dela ainda antes da restauração. Fiz uma sessão de “processos de Moscou” com meus livros. Ao contrário de um tirano como Stalin, ao menos dei a cada um o direito de se defender. Muitos reconheceram que sua culpa não estava na alma, mas no corpo. Por qual motivo manter volumes de peso enorme, acumuladores de pó, desafiadores de todas as estantes possíveis se algo melhor e mais rápido era possível na tela? Se alguém alegar que só consegue ler em papel, deve ter cuidado, aproxima-se o dia em que não apenas os livros físicos serão descartados, mas os leitores deles, ambos, aparentemente, obsoletos.

Ato contínuo: tentei doar a colégios públicos próximos ao meu antigo endereço. Nenhum aceitou. Levei os mais acadêmicos para minha universidade e a acolhida não foi entusiasmada. Consegui doar muitos para presídios, onde a falta de acesso fácil à internet ainda torna o livro físico um valor.

Talvez eu esteja vendo o fim da tradição de Alexandria e outros centros bibliotecários. Será que bibliotecas serão como as canetas-tinteiro que coleciono? Peças antigas, bonitas, evocativas, porém há muito suplantadas por similares mais práticas e fáceis?

Em janeiro estive em uma das maiores bibliotecas do mundo: a Britânica de Londres. Admirei uma exposição com a Magna Carta e outros documentos extraordinários. Ao subir aos andares mais elevados, encontrei, claro, quilômetros de estantes com livros de bela encadernação. O óbvio ocorria a minha frente: a maioria absoluta dos seus muitos frequentadores estava lendo em... tablets. A biblioteca era um espaço de silêncio e de wi-fi potente. Vi que as obras antigas e mais delicadas eram todas digitalizadas e a biblioteca oferecia uma enormidade de títulos para serem baixados.

Toda geração cria nostalgia com sua tecnologia, mesmo a superada. Eu, baby boomer, olho com simpatia uma fita K7. Sei que meus sistemas de baixar músicas garantem mais clareza de som e muito mais praticidade. O que me faz sorrir ao reencontrar a peça é, por certo, uma nostalgia da infância ou uma lembrança de que guardo segredos históricos do passado desconhecido pelos jovens. Que adolescente saberia hoje dar aquela “puxadinha” no braço do toca-discos para iniciar o movimento rotatório do disco de vinil? Qual a utilidade desse conhecimento? Nenhuma...

O importante é o conhecimento, não o livro. Quero aprender e não valorizar um suporte específico, o livro in-quarto em papel feito a partir de celulose. Conhecimento pode estar em papiro, pergaminho, papel ou na tela. O saber é o substantivo, os adjetivos são secundários. A rigor, nada se perderia com o fim dos livros físicos, escaneados, digitalizados, guardados na nuvem e acessíveis a ainda mais leitores. Morrendo minha geração, provavelmente, livros podem ser vistos como um console de telejogo. Alguém ainda lembra ou sente falta?

A minha biblioteca privada vem diminuindo e só conservo obras raras, livros afetivos ou autografados por escritores conhecidos. Baixo mais livros do que compro novos em papel. Suponho que, em alguns anos, prédios de bibliotecas serão como os templos egípcios no vale do Nilo: imensos, solenes, narradores pétreos de uma glória antiga e, sem fiéis ou sem deuses, apenas com turistas e selfies. Será que todos terão consciência de que aqueles templos foram construídos também porque havia saberes em bibliotecas?

Minha rinite melhorou com a novidade, minha alma sempre será melancólica com o fim dos livros físicos. Será que um dia terei no quarto só a senha do wi-fi e os computadores para ver fotografias? Sempre é preciso cultivar a esperança.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Agregadores de pesquisa buscam contribuir com o debate eleitoral


Em meio a uma das mais conturbadas eleições presidenciais desde a redemocratização, dois jovens veículos trouxeram uma inovação para o cenário brasileiro. Com inspiração americana, ferramentas do JOTA e do Poder360 — no ar desde abril e julho, respectivamente — reúnem pesquisas eleitorais de diferentes institutos e traçam a linha de evolução de cada candidato ao longo da campanha.

O agregador do JOTA é focado na eleição presidencial e, em sua primeira versão, leva em consideração apenas as pesquisas espontâneas — quando o entrevistado não é informado previamente quais os postulantes. “Quando lançamos o agregador em abril, ainda não sabíamos quem seriam os candidatos e optamos por não tentar fazer nenhum tipo de ajuste para agregar cenários em que os candidatos considerados são diferentes”, explica Guilherme Jardim, um dos responsáveis pelo projeto. Com o cenário definido, um agregador de pesquisas estimuladas será lançado pelo veículo em breve.

Segundo ele, a iniciativa do JOTA nasce em um contexto em que há novos institutos com novas metodologias e, paralelamente, alguns dos institutos mais tradicionais realizam menos pesquisas. “Toda essa quantidade de dados pode compor um grande ruído. A única forma de extrair sentido desse ruído é através de modelagem estatística”, aponta.

A ferramenta do Poder360, feita em parceria com a Google News Initiative e o Volt Data Lab, é mais ampla. Ela agrupa pesquisas para presidente, governos dos estados, prefeituras e Senado desde 2000, e leva em consideração todos os cenários de pesquisas estimuladas.

O agregador é um projeto antigo do diretor do veículo, Fernando Rodrigues, que desde 2000 compila e organiza pesquisas eleitorais em seu blog. “[Na ferramenta] tudo é visualizável, de acordo com o que o leitor queira comparar. É um serviço completamente aberto e gratuito, para acadêmicos, jornalistas e qualquer pessoa curiosa sobre as eleições recentes no Brasil”, aponta Mateus Netzel, editor-assistente do Poder que supervisionou a iniciativa.

Apesar de inovadores, os projetos não são inéditos. Desde 2014, o estatístico Neale Ahmed El-Dash agrega pesquisas do Brasil e de outros países no PollingData. El-Dash é doutor em estatística pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP, e defendeu tese sobre a metodologia das pesquisas eleitorais brasileiras.

É a primeira vez, no entanto, que veículos de mídia investem em iniciativas do tipo. A inspiração vem sobretudo dos já tradicionais agregadores utilizados nas eleições americanas. Em um paper, o pesquisador da Princeton Election Consortium Sam Wang afirma que em 2008 havia pelo menos 45 pesquisadores agregando resultados nos EUA. 

Dois exemplos são os americanos RealClearPolitics e FiveThirtyEight, inspirações do Poder360 para realizar o seu agregador. “O Poder e o Volt optaram por utilizar uma média móvel no período considerado para conseguir atenuar as diferenças entre metodologias e deixar a linha mais suave para uma visualização melhor”, explica Sérgio Spagnuolo, fundador do Volt Data Lab.

A ferramenta não tem o objetivo de acertar quem vencerá os pleitos: “Nós não temos a intenção de prever resultados ou indicar tendências futuras, e sim de mostrar o comportamento do desempenho do candidato nas pesquisas eleitorais, considerando diferentes cenários ao mesmo tempo”, ressalta Spagnuolo.

No caso do JOTA, o modelo se aproxima do criado pelos pesquisadores Simon Jackman e o Jeff Lewis no HuffPost Pollster. Para Jardim, esse é o mais adequado para o cenário brasileiro, já que o Brasil tem menos pesquisas do que os outros países. 

O agregador do JOTA inclui alguns procedimentos estatísticos para traçar a linha dos candidatos. A quantidade de dias que faltam para as eleições, bem como o tamanho da amostra e o tempo em que a pesquisa foi realizada são alguns dos pontos que são levados em consideração. “Também vamos adicionar house effects, isto é, a tendência de cada instituto favorecer um candidato ou outro — não de maneira intencional, que fique claro. De acordo com a metodologia de cada instituto, algum estrato da população pode ser sobrerrepresentado, dando uma vantagem para algum candidato. Isso pode ser controlado de maneira estatística”, explica Jardim.

Para ele, apesar de o agregador do JOTA incluir esses procedimentos, ainda há um longo caminho a percorrer. “Nós ainda estamos muito aquém dos resultados obtidos pelos americanos, que incorporam muito mais conhecimento subjetivo em seus modelos”, aponta o cientista de dados.

Paralelamente à ferramenta, Jardim e o sócio do JOTA, Fernando Mello, têm publicado análises escritas com base no agregador. “Óbvio que o agregador não funciona por si só, nós estamos sempre fazendo análises escritas para o público. Acreditamos que analisar resultados eleitorais significa analisar suposições e entender por quais razões algo funciona ou não”, afirma.

Download dos dados

Os dados utilizados pelo agregador do JOTA estão disponíveis para download por qualquer interessado. “Trazer informações decorrentes de análise estatística vai ao encontro de uma das missões do JOTA, que é garantir maior transparência ao debate público”, diz o editor de dados do veículo.

A ferramenta do Poder360 também disponibiliza a íntegra do banco de dados para os leitores. “O Poder360 é defensor da política de dados abertos. Com a ajuda dos parceiros, as informações estão acessíveis de forma amigável para visualização e download. É um serviço que reforça a intenção do Poder360 de fornecer informações relevantes e de qualidade sobre a política e o poder no Brasil, para elevar o debate público”, afirma Mateus Netzel.

via ABRAJI