sábado, 9 de novembro de 2013

A Literatura e o Futuro



O surgimento das mídias digitais abriu um horizonte de possibilidades de circulação da informação literária. Em vez de levar o livro impresso à morte fulminante, como alguns acreditavam, os e-books se afirmam como outro suporte de leitura, muito útil em determinados contextos devido à portabilidade. Os escritores Enéias Tavares e Fábio Yabu analisam o assunto.

Revista e

A literatura na era digital
por Enéias Tavares

Umberto Eco, em Apocalípticos e Integrados, cunhou os dois termos para aludir àqueles que leem o passado por um viés literário, social ou histórico. “Apocalípticos” seriam os críticos que vislumbrariam o passado com olhar saudosista, retendo dele sua perdida era de ouro. Diferentemente, os “integrados” defenderiam a leitura moderna, contemporânea, do passado, na qual interessaria mais o momento atual e suas revisões. Para o autor, os termos são apenas “genéricos” e “polêmicos”, pois não dariam conta das complexidades envolvidas. Neste ensaio, usarei as ideias de Eco para discutir a literatura na era digital.

Há aqueles, “apocalípticos”, que consideram o avanço tecnológico como brutalização do homem, como apagamento da memória, como substituição da energia psicológica e sentimental humana pela estrutura mecânica de chips, CDs, pen drives e seus correlatos. Para esses apocalípticos, o fim está próximo, não o fim do mundo ou o fim da humanidade, mas o fim da cultura ocidental como nós a conhecemos nesses últimos três milênios.

Para outros, “integrados”, a revolução virtual não passaria da continuidade do processo que forma nossa cultura, numa jornada que parte de uma tecnologia da palavra para uma tecnologia digital também fincada na palavra. “O que seria um computador senão uma moderna ‘caixa de palavras?’”, questionam. Para tais “integrados”, caberia aos educadores a responsabilidade de fazer o passado e a cultura serem lidos a partir das inovações tecnológicas e digitais da atualidade, estabelecendo um diálogo, não uma cisão.

Eco, sabiamente, evita os opostos e defende uma atitude intelectual moderada, que saiba fazer dialogar passado e presente, fazendo coabitar visões apocalípticas e integradas. Usando esses opostos, o “passado” da cultura e o “presente” da tecnologia, gostaria de propor uma reflexão sobre a literatura, a arte de registrar discursivamente a experiência do homem, em relação à internet, a rede mundial na qual informação e desinformação coabitam numa terra sem lei, sem fronteiras, sem limites, na qual apenas a pluralidade é a bússola.

Tal discussão é primeiramente perpassada pela relação algo estranha entre o livro e o computador. Muitos profetizam o fim do livro impresso diante da tela digital. Todavia, esse argumento é falho, pois opõe dois objetos que têm peculiaridades, objetivos e usos diversos. Aqueles que percebem a imprecisão da comparação “livros vs. computadores” afirmam com segurança que o objeto livro não irá desaparecer. O aumento anual de editoras e o sucesso crescente de feiras do livro indicam que tal opinião é a mais consoante à realidade atual. Diferentemente do que os críticos da tecnologia apregoavam no âmbito público ou privado, as pessoas estão lendo mais, comprando mais livros e refletindo de forma mais crítica.

Sobre esse dado, pergunto: haveria alguma explicação lógica para o aumento da tecnologia na era digital ser proporcional ao aumento do número de editoras, autores e livros? Aqui, é preciso diferenciar o objeto livro e sua leitura da experiência proporcionada pela internet, experiência que também exige leitura, porém difere do livro, que convida à leitura privativa, silenciosa, solitária. Já a leitura de uma página virtual contém em seu formato a urgência da informação instantânea. A essa urgência os jovens adicionam os players de música, os programas de download, os softwares de edição de textos, entre outros. Em outras palavras, o homem ou a mulher, diante de um livro, lê, ao passo que o homem ou a mulher diante de um computador lê, vê, escuta, relaciona, edita, clica e ainda conversa.

Assim, deve nos interessar bem mais a diferenciação desses dois processos de leitura do que a malfadada tentativa de aproximação, na qual livros e novas tecnologias saem perdendo. “Os bons tempos dos livros terminaram”, dizem os apocalípticos. “A tecnologia digital resolveu todos os problemas da comunicação impressa”, defendem os integrados. Porém, nem o livro quer o papel da tecnologia nem a tecnologia se assume como nova forma de livro.

Nesse sentido, cabe aludirmos a Ciberespaço, de Pierre Levy. Para ele, a informática e a internet não devem ser vistas como benignas ou nocivas, pois trata-se de ferramentas, tecnologias humanas, como a primeira delas: a linguagem. Essa origem marcou etimologicamente o sentido da própria palavra “tecnologia”. “Tecno”, do grego teknê (técnica), e “logia”, de logos (palavra). Ou seja, desde a primeira tecnologia humana, a da palavra, o que temos são ferramentas ou técnicas que permitem o aprendizado, a troca e a manutenção do conhecimento humano. Assim, valorar a tecnologia como boa ou ruim seria tão inadequado quanto valorar a invenção do telefone no seu contexto original. Trata-se de uma ferramenta que possibilita a troca de saberes, conectando diferentes pessoas, culturas, regiões, e, como tal, não encerra nem valores positivos nem negativos. Por isso Levy afasta a discussão das “ferramentas” e a aproxima daqueles que as “usam”: leitores e internautas.

Da literatura, a internet retira sua linguagem, suas histórias, seus mitos, o conhecimento que a organiza. Ainda mais, para muitos internautas, a internet se transformou numa possibilidade de algo ser publicado, visto, lido, ouvido. Por sua vez, a literatura muito ganhou com a internet na medida em que autores, romances, poemas, livros, editoras, são agora facilmente consultados, lidos, conhecidos e reconhecidos. A distância entre o autor e o público é agora diminuída na medida em que 90% dos romancistas atuais têm um site, um blog, ou se comunicam via Facebook ou Twitter. Como resultado desse acesso aos escritores e às obras, os leitores têm se tornado mais exigentes, mais críticos, mas seletivos.

Nesse ponto, o apocalíptico alfineta: “Mas não estaria a internet coibindo os jovens das experiências tradicionais de leitura? Afinal, mais tempo no Facebook, menos tempo com os livros”. Talvez, sim, mas ao mesmo tempo a internet cria leitores a cada dia, leitores mais atentos, profícuos, enérgicos, críticos. Os integrados profetizam: “Chegará a hora em que não haverá mais livros, apenas telas de computador”. “Talvez”, respondemos, “mas será que algum dia substituiremos laços reais por amizades, namoros e afetos apenas virtuais?” Creio que não, por isso a impressão de que um leitor dificilmente optará pela observação de pixels na tela em vez da sensação tátil e sensória do livro entre os dedos, numa materialidade que simboliza a própria relação comunicativa que se estabelece, via livro, entre o autor e o leitor.

Portanto, seria importante que pensássemos “A Literatura na Era Digital” em oposição a tantas outras eras passadas, como a moderna ou a industrial. Essa literatura morreu? Não. Apenas adaptou-se. Do mesmo modo, a literatura na era digital irá adaptar-se a um tempo em que as fronteiras foram relativamente abolidas, senão física e economicamente, ao menos no espaço da paisagem virtual. Assim, jovens autores podem hoje começar a publicar seus textos em páginas, blogs, revistas virtuais e em tantos outros espaços propiciados pela internet. Mesmo assim, caberá ao objeto livro o papel de separar o joio do trigo, de legitimar os autores pertinentes a sua era e de ignorar outros. Nesse aspecto, pergunto, será que algo mudou?

Finalizarei este ensaio refletindo sobre os desafios que escritores encontram e encontrarão cada vez mais ao objetivarem a comunicação com seus leitores. Seu desafio futuro será duplo. Primeiro, devem evidenciar no estilo, no formato, na estrutura dos seus textos, as múltiplas experiências de leitura que a contemporaneidade apresenta. Segundo, apresentar, no enredo dessa nova literatura, os paradoxos dessa distante proximidade, dessa longínqua intimidade, provocada pelos chats, pelos blogs, pelas redes sociais. Acredito que esse seja o paradoxo do nosso tempo e dos próximos. Enquanto isso, outros autores continuarão escrevendo romances em formatos tradicionais e a tratar dos temas humanos desde séculos: “O que é o homem?”, “Como nasce o amor?”, “Como se estrutura o desejo?”, “Qual o sentido da vida?”, perguntas para as quais, felizmente, nós ainda não temos respostas.

Comecei opondo “apocalípticos” e “integrados”. Finalizarei com o questionamento de um poeta. No início do século 20, T. S. Eliot perguntou: “Onde está a sabedoria na era do conhecimento? Onde está o conhecimento na era da informação?”. A pergunta persiste, agradando aos críticos da era digital. Eu responderia à questão do seguinte modo: sabedoria, conhecimento e informação podem ser encontrados no espaço múltiplo – impresso ou virtual, antigo ou moderno, de letras ou bits – entre a literatura e as nossas novas tecnologias.

Enéias Tavares é escritor, tradutor e professor da Universidade Federal de Santa Maria


“Sabedoria, Conhecimento e Informação podem ser encontrados no espaço múltiplo – impresso ou virtual, antigo ou moderno, de letras ou bits – entre a Literatura e as nossas novas Tecnologias”


Asimov e a roupa nova do imperador
por Fábio Yabu

Mais de uma década depois do advento do Napster e do MP3, é quase difícil lembrar como era a música antes da distribuição digital se tornar o principal meio de divulgação de artistas. Poucos lembram qual foi o último CD que compraram antes do iPod e do MP3 no carro. Uma geração que consome música jamais entrou numa loja para comprá-la. Tendo em vista a disrupção causada na indústria musical, muitos temem pelo futuro da indústria literária e da própria literatura em si. Os livros vão acabar? As livrarias terão o mesmo destino das lojas de CDs e das locadoras de vídeo? Os autores morrerão de fome? Ou estamos entrando numa nova era de prosperidade cultural? Existem bons argumentos que defendam os dois lados: nos Estados Unidos, enquanto a Amazon cresce em ritmo frenético, a Borders, uma das maiores redes de livrarias americanas, fechou as portas. O Brasil parece ir na contramão: o setor, segundo dados do Publishnews, cresceu entre 15% e 20% no último ano. No meio dessa avalanche de dados e achismos, em quem acreditar ou onde se esconder? Na opinião do escritor de obras infantis que sou, todos são meio como a roupa nova do imperador: você pode acreditar neles, se assim desejar.

Antes de comparar as indústrias musical e literária, é necessário observar que existe uma dissonância cognitiva sobre como as pessoas enxergam as duas. Ambas são artes, ambas são preciosas e inestimáveis por comporem a experiência humana. Mas alguns adjetivos se adaptam de maneiras muito distintas a cada uma delas. Veja a palavra “clássica”, por exemplo. A música clássica tem uma carga mais erudita, exclusiva talvez, enquanto a literatura clássica vem em tons de quase benevolência. Tchaikovsky é só para alguns, Machado de Assis é um herói nacional e sua leitura é obrigatória em escolas. Já a música “pop” é largamente difundida, gostar dos Beatles é quase uma exigência legal, enquanto a literatura pop, ainda que venda aos baldes, é sempre vista com nariz torcido: Dan Brown, Paulo Coelho e os quadrinhos que o digam.

Invisível ou não, visto-me com minha própria roupa de imperador e tomo partido pelos otimistas, que acreditam que, assim como aconteceu com a música, a literatura só tende a crescer ao dar as mãos à distribuição digital. Basta ver que a internet não acabou com a música nem tornou os músicos pobres, e, sim, eliminou barreiras. Eliminou empresários, produtores, gravadoras e centenas de outros intermediários entre o artista e seu público. Não foi a indústria que quebrou, mas o monopólio sobre o destino de artistas e obras. Felizmente, não é exagero dizer que a música prosperou: qualquer artista pode disponibilizar suas músicas, suas letras, seus clipes na internet e ganhar dinheiro com uma pequena base de fãs fiéis espalhados pelo mundo, algo que era impossível antes da digitalização.

Hoje, a tecnologia está oferecendo aos autores, aos editores e à própria literatura em si um momento histórico ainda mais importante. Nem mesmo Asimov, que criou o termo robótica e influenciou a ficção científica e a própria ciência, sonhou com as possibilidades que temos ao alcance dos dedos. Para o autor, morto em 1992, daqui a 200, 400 anos, todos os livros do mundo seriam armazenados na Biblioteca Computada Global, de onde poderiam ser retirados mediante requisição. Pouco mais de duas décadas de sua morte, a tal biblioteca está quase pronta e cabe no bolso de qualquer um. Tablets, smartphones, até mesmo videogames portáteis possuem aplicativos específicos voltados para a leitura de livros.

Meu adorado leitor Kindle pesa 200 gramas. Nele, cabem 1100 livros, segundo dizem. Se eu conseguisse bater minha sonhada meta de ler um livro por semana, levaria quase 21 anos para “ler” o aparelho inteiro. Só que mais importante do que a capacidade de armazenamento do aparelho, sob meu Kindle pesam mais de 500 anos de história: antes de Gutemberg, um livro era mais caro do que uma casa. Os livros eram privilégio de reis ou membros da Igreja; ler não era só exclusivo, mas desnecessário – não havia O QUE ler. Com a criação da prensa, os livros foram se popularizando e deram origem a gigantescos saltos culturais, coisas inimagináveis para a época, como bibliotecas, o surgimento de clássicos, a educação e a alfabetização em massa e a ascensão das livrarias. Os livros explodiram e se espalharam, transformando o mundo, os autores e os leitores. E hoje, aqui no futuro, ao contrário do que Asimov previra, não é necessário uma grande biblioteca armazená-los. Assim como a roupa nova do imperador, os livros se tornaram invisíveis. O futuro é brilhante, mas só enxerga quem quer.

Fábio Yabu é escritor, autor das séries Combo Rangers e Princesas do Mar e do livro A Última Princesa (Record, 2012), entre outros

“Os livros eram privilégio de reis ou membros da Igreja; ler não era só exclusivo, mas desnecessário – não havia o que ler”

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