sábado, 1 de março de 2014

Leitores ameaçam livrarias

 Quem está ameaçando as livrarias não é a Internet, e sim o leitor

por Janer Cristaldo


Quando falo em revolução, gosto de citar Camus. Urge fazer uma distinção entre a revolução e o movimento de revolta. Spartacus não é um revolucionário, ele não quer mudar os princípios da sociedade romana. Ele se bate para que o escravo tenha direitos iguais aos do senhor, recusa a servidão e quer a igualdade com seu amo. Esta vontade de igualdade o conduzirá ao desejo de tomar o lugar do amo.

A revolução, por sua vez, é a mudança total. A partir da concepção astronômica de revolução – movimento que fecha um ciclo, que passa de um regime a outro após uma translação completa – Camus precisa sua definição. A revolução implica uma mudança do regime de governo. Para que uma mudança econômica seja uma revolução econômica é preciso que ela seja ao mesmo tempo política. Sejam seus meios sangrentos ou pacíficos, é a mudança política, a mudança de governo, que distinguirá a revolução da revolta. Esta dicotomia fundamental é posta em relevo pela frase célebre, citada por Camus: "Não, Sir, não se trata de uma revolta, mas de uma revolução".

Quando se saudou a revolução da Internet, pensava-se em velocidade de transmissão de dados, aceleração das comunicações, do comércio, revolução na imprensa e no mundo editorial. Pensava-se em uma revolução digital. Leio na Wikipedia:

“Essa popularização (da Internet) deu início a revolução digital, que modificou completamente, a sociedade. O número de pessoas que navegam na Internet cresce a cada dia que passa. Um novo mundo cheio de vantagens e facilidades foi descoberto. Informação, interatividade, relações pessoais, negociações, notícias, compras e outras necessidades do dia-a-dia ganharam um grande espaço na web. O mundo está diminuindo e não há distância geográfica que a Internet não possa proporcionar uma aproximação das pessoas que dela utilizam para manter contatos entre si.

“A globalização da Internet é muito maior do que a que veio com as grandes navegações, que ampliaram o mercado. O trabalho feito nos parâmetros da revolução industrial tornou-se muito menos eficaz do que o mercado que a Internet propõe nos dias de hoje. O comércio online explodiu, trazendo uma nova forma de negociação entre os consumidores e as empresas, sem a necessidade de um vendedor para intermediar a compra. Também na medicina, na educação, nas artes e na economia, a Internet revolucionou e possibilitou uma melhoria com sua evolução rápida e avassaladora”. 

O que ninguém estava pensando era no fechamento de cinemas, jornais, editoras e livrarias. Da Rússia ao Brasil, passando pela Europa, o fenômeno só se expande. Leio no Diário da Rússia:

Um estudo feito pela União Livreira da Rússia mostrou que o mercado de livros do país está sofrendo com a queda de circulação, fechamento de livrarias e com o receio das editoras de apostar em novos lançamentos. Segundo os dados apresentados pela pesquisa, total de exemplares circulados neste ano em relação ao mesmo período em 2011 diminuiu 21,6%.

Isto não é necessariamente uma novidade, pois a circulação de livros na Rússia está caindo há alguns anos, mas antes era observada também uma expansão no número de títulos. No entanto, ao longo dos últimos seis meses, houve também uma diminuição na quantidade de publicações. Um dos motivos o receio das novas pequenas editoras de se arriscar, publicando apenas os livros de vendagem garantida.

Por outro lado, as pessoas estão cada vez mais dispostas a comprar livros eletrônicos na Rússia. Neste ano, o volume de negócios da empresa Litres, a maior vendedora de e-books, teve um aumento de quase 100% em relação ao primeiro semestre de 2012. Mas a venda de livros digitais contribuiu em apenas 2% para o mercado, enquanto nos Estados Unidos a contribuição dos livros eletrônicos chega a 25%, e na Grã-Bretanha, a 13%. 

Lemos no Estadão de hoje:

Internet e crises ameaçam livrarias da Europa 

Na Espanha, mais de cem espaços fecharam as portas desde 2009; no Reino Unido, foram 400 falências só em 2012 No coração de Barcelona, a Llibreria Catalònia não resistiu e fechou no ano passado, depois de 88 anos de existência. Ela havia sobrevivido à Guerra Civil, a um incêndio e transformações políticas. Mas não resistiu à pior crise na Europa em 70 anos, somada à mudança radical gerada pela internet no hábito de consumo dos leitores e as grandes redes comerciais. O local de 800 metros quadrados passaria a ser um McDonald's.

Em toda a Europa, centenas de livrarias estão fechando as portas em Barcelona, Londres, Lisboa, Roma ou Paris, num movimento que não considera nem a tradição nem o papel literário que esses lugares ocuparam para esses países. 

Em Barcelona, a Catalònia registrou uma queda de 40% de suas vendas desde 2009. "Sobre a crise geral se soma ainda a crise do livro", explicou Miquel Colomer, ex-gerente da Catalònia. Para ele, porém, não é o e-book que está matando as livrarias, mas sim a distribuição pela internet, fenômenos como a Amazon e ainda o fato de que as pessoas simplesmente deixaram de comprar guias de turismo ou outros livros técnicos, além, obviamente, da taxa recorde de desemprego no país. 

Sua livraria não foi a única a fechar as portas. A tradicional Rumor, no bairro de Chamartín, em Madri, também seguiu o mesmo caminho. No início deste ano, foi a Altair que não aguentou depois de 17 anos de atividade na capital espanhola. Em Barcelona, a livraria Anocray Delfin, aberta em 1956, também acabou fechando.

De acordo com a Confederação Espanhola de Livreiros, mais de cem livrarias encerraram atividades pelo país desde 2009. Mais de 1,2 mil postos de trabalho foram abolidos e pelo menos outras 500 livrarias, de um total nacional de 3,5 mil, estão ameaçadas. Em cinco anos, as vendas desse setor caíram pela metade.

Revolução, vá lá! Mas devagar, dirão os homens da indústria do livro. Por toda a parte, livreiros e editores falam desta consequência natural da Internet como se fosse um apocalipse provocado pelas forças do Mal. Ora, não era preciso ser profeta para intuir que a prensa de Guttenberg acabaria não só com o mercado dos copistas como também com a posse do poder por uma elite endinheirada. Quem mais perdeu foi a Igreja: os fiéis podiam então ler a Bíblia e discutir com os padres.

O cinema vai pelo mesmo caminho. Se as telas de 60 e mais polegadas já traziam o cinema para casa, sem os inconvenientes de deslocar-se para ir até uma sala, as TVs gigantescas e os DVDs deram um rude golpe nos exibidores. Exceto no Brasil, onde uma sala em São Paulo, que teve de fechar as portas por inviabilidade econômica, reabrirá em maio próximo, financiada pelo Estado. Admirável país este nosso, que agora não só financia o filme como também a sala de exibição. Só falta pagar o espectador, o que não me espantaria.

Volto às livrarias. Continua a reportagem do Estadão:

Em Portugal, outro país que atravessou uma profunda crise, o número de "vítimas" supera a marca de 120 desde 2007. A ideia de que se poderia passear por toda Lisboa indo de livreiro em livreiro está cada vez mais ameaçada. Algumas das mais tradicionais, como a Sá da Costa no Chiado, não resistiram depois de quase cem anos de história. Nem mesmo um manifesto que circulou por Portugal, em 2013 restabeleceu o lugar. "A zona do Chiado foi cenário de uma devastação", declarou o comunicado dos moradores locais. 

Mas um dos maiores impactos foi sentido no Reino Unido. Segundo dados da Experien, em 2005 existiam 4 mil livrarias no país. Em 2013, esse número caiu para apenas 1,8 mil. Só em 2012, foram 400 falências registradas, sete vezes mais que em 2011. Considerando apenas as livrarias independentes, o número, pela primeira vez em 30 anos, ficou abaixo de mil. Em fevereiro 2013, eram 1.028 lojas. Em janeiro de 2014, o número já era de 987. 

Na França, a realidade é parecida e as redes de distribuição online já ocupam 15% de todo o mercado editorial do país. Desse total, 70% é dominado pela Amazon, com a Fnac vindo na segunda posição. 

O que a repórter esqueceu – ou ignora – é que nos anos 70, com sua política de preços baixos, a Fnac francesa estava matando livrarias. Sempre oferecia o melhor preço. O leitor xeretava o livro o livro em uma livraria qualquer. Na hora de comprar, comprava na Fnac. O problema assumiu tais proporções que Mitterrand baixou lei, proibindo oferecer mais de 20% de desconto em qualquer livro.

O consumidor quer conforto, preço baixo, rapidez na entrega. Se posso colocar mil, dois, cinco mil livros em um aparelho que pesa 1200 gramas, não há muitas razões para portar um livro que pesa meio quilo. Isso sem falar no espaço nas prateleiras e apartamentos. Tenho amigos que compraram um apartamento anexo para sua biblioteca. Esta época morreu. Quem está ameaçando as livrarias não é a Internet, e sim o leitor. O processo recém está começando e só se intensificará, à medida em que as gerações mais novas, que foram embaladas com smartphones e tablets, foram substituindo as antigas, mais afeitas ao livro-papel.

Mais ainda: os dias do escritor estão contados, pelo menos como entendemos hoje o escritor, esse profissional quase mítico e distinto dos demais mortais, que sabe de tudo e não é especializado em nada. Os críticos, se críticos ainda houver, que só se dignam a comentar livros em papel, desaparecerão. Escritor será todo aquele ... que quiser ser escritor. 

Já vivemos esta época. A ditadura das editoras, distribuidores e livreiros, dos queridinhos das universidades e amigos do Rei, a médio prazo será resquício de uma época morta e bem sepultada. O que espanta é que isto ainda não tenha ocorrido.

É uma revolução, Sire!

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