domingo, 16 de dezembro de 2018

'Redes sociais deixam sociedade mais vulnerável'

Em livro, cientista diz que propagandas alimentam a intolerância e a falta de informação e recomenda deletar redes

Por Bruno Romani  - O Estado de S.Paulo


Jaron Lanier escreveu livro sugerindo abandono de redes sociais

Para algumas pessoas, a promessa de ano-novo não é perder peso ou parar de fumar, mas sim largar as redes sociais. O cientista da computação, escritor e filósofo da tecnologia Jaron Lanier pode dar uma ajuda com isso. Com a autoridade de quem na década de 1980 cunhou o termo “realidade virtual” e acabou contribuindo para que pessoas se conectem em mundos virtuais, ele oferece argumentos para deixar de vez o Facebook e afins. 

Em Dez Argumentos para Você Deletar Agora as Suas Redes Sociais (Editora Intrínseca, R$ 34,90), lançado em maio nos Estados Unidos e em novembro no Brasil, Lanier estrutura seu argumento contra as redes sociais no modelo de negócios baseado em anúncios publicitários. Segundo ele, as propagandas são usadas para manipular as pessoas, o que resulta na perda de empatia, no aumento da intolerância e na falta de informação – além do impacto negativo na felicidade e na capacidade econômica da sociedade.

O Estado conversou com ele para saber se as redes sociais, ou os usuários dela, têm salvação. A seguir, trechos da entrevista. 

Estadão: A sociedade está doente por conta das redes sociais?

Jaron Lanier: Sim. A sociedade sempre esteve doente. As sociedades sempre foram violentas e escolheram políticos ruins. Frequentemente, as sociedades entram em guerra civil. Todas essas coisas sempre existiram. As mídias sociais não estão inventando esses problemas, mas estão deixando a sociedade mais vulnerável. Na rua, existe todo tipo de vírus, bactéria e agentes de doenças. Se tem uma coisinha errada com você, como não ter dormido direito ou estar muito estressado, você pode ficar doente. É o que acontece com as redes sociais. A maneira como as sociedades ficam doentes é tradicional. Em todo o mundo, quando há uma tendência de redução de violência e de tensões civis, ela é revertida assim que propriedades do Facebook surgem, como o WhatsApp. As mídias sociais deixam a sociedade vulnerável a problemas que poderia evitar. 

É possível tornar as redes sociais melhores?

Sim. Tem de mudar o modelo de negócios. Eles precisam determinar um prazo, tipo: em três anos não aceitaremos dinheiro de anunciantes e isso nunca acontecerá de novo. Vamos mudar para um modelo de assinatura ou de pagamento conforme você usa, ou de micropagamentos. E assim o usuário não seria o produto. Se não mudar o modelo de negócios, não há esperança.

As redes deveriam ser pagas e livres de propagandas?

Acredito que as pessoas deveriam pagar pelo serviço e também receber por suas contribuições quando alguma delas se populariza. Isso poderia fazer a economia crescer e beneficiar muita gente. As redes sociais deveriam ser livres de propagandas e pagas por aqueles que podem pagar. Deveria existir também uma maneira de acomodar aqueles que não podem pagar. Acredito que isso pode ser feito facilmente. Veja a Netflix. As pessoas pagam, mas elas podem encontrar versões piratas e gratuitas dos filmes a qualquer hora. Só que a experiência é melhor quando é paga. Isso significa que até agora, a Netflix não tem sido tão ruim quanto o YouTube, que espalha propagandas. É um modelo que funciona e serve como exemplo. 

O WhatsApp não opera com algoritmos. O sr. o considera uma rede social?

O WhatsApp tem mudado gradualmente e se assemelhando mais com uma propriedade do Facebook. Os fundadores saíram de lá em protesto. Quando o WhatsApp começou, as pessoas estavam lá compartilhando mensagens. Porém, ele mudou para ter uma estrutura mais voltada à personalização de comunicação e preparada para planos de negócios que usam os dados das pessoas. Assim que a arquitetura passou a suportar isso, abriu as portas para agentes nocivos e sofisticados.

Existe alguma rede social que o sr. recomenda?

Não tenho nenhuma conta, porque não acho que há redes sociais boas o suficiente. Uma maneira de medir se uma rede social é boa ou não é se ela está sendo usada pelos agentes de Vladimir Putin para manipular eleições ou sociedades. Se você utilizar esse teste, você diria que todas as propriedades do Facebook são terríveis, que o Twitter é terrível, você diria que o Reddit é terrível, você diria que o YouTube é terrível (risos). Porém, há uma série de outras que os agentes parecem não ter encontrado uso. Isso significa que ou os agentes não ligam ou essas redes não se tornaram terríveis. O Snapchat talvez não seja terrível. O LinkedIn não parece ser tão ruim, embora tenha sido criticado de outras maneiras. Mas não existe nenhuma da qual eu gostaria de fazer parte.

Deixar as redes, segundo Lanier

1. Manipulação. As redes sociais são usadas para alterar e manipular o comportamento das pessoas, que, assim, perdem o livre-arbítrio sem perceber. Um exemplo é como os algoritmos por trás desses serviços percebem que o usuário gosta de determinado produto ou assunto e, a partir disso, começam a bombardeá-lo com propagandas que sutilmente tentam convencê-lo a consumir, mesmo que isso não seja uma prioridade

2. Vício. As redes são viciantes, especialmente por conta de como as pessoas sentem prazer por meio de curtidas e seguidores. Com isso, elas mudam seu comportamento para continuar recebendo atenção. 

3. Agressividade. Tornam as pessoas mais agressivas, trazendo para a superfície o que seria seu lado mais “babaca” – e nem pessoas aparentemente gentis estariam livres do problema.

4. Empatia menor. As redes reduzem a empatia que as pessoas sentem umas pelas outras, pelo fato de oferecerem conteúdo personalizado e impedirem de saber o que o outro usuário está vendo

5. Debates inúteis. A falta de um conteúdo comum torna qualquer debate uma conversa sem sentido, pois um usuário não consegue enxergar o contexto de onde parte o ponto de vista de outro. Tudo isso somado explicaria como qualquer assunto em rede social tem potencial para acabar em bate-boca.

6. Notícias falsas. As redes são uma ferramenta poderosa para a disseminação de notícias falsas, com muitas contas falsas e pessoas que não existem, alterando a percepção da realidade – com robôs agindo nas redes sociais em volume gigantesco, a realidade passaria a ser moldada por agentes que não têm uma percepção legítima do mundo. 

7. Política impossível. Sem debates e com chuva de notícias falsas, torna-se impossível fazer política. Lanier cita como exemplo as eleições presidenciais nos EUA, onde as redes tiveram papel fundamental na eleição de Donald Trump

8. Discriminação. As redes permitem que grupos racistas, xenófobos, machistas, etc, se organizem e ataquem iniciativas legítimas para combater esses males

9. Efeito econômico. Redes têm um impacto negativo na economia, já que apenas alguns influenciadores, além das próprias redes, vão faturar com as participações e contribuições de todos os usuários. Enquanto isso, pessoas como artistas e tradutores, entre outros, terão uma vida cada vez mais difícil, conforme os algoritmos das redes se tornam cada vez mais sofisticados

10. Metafísica. De acordo com Lanier, as redes odeiam a sua alma

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