quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O tempo dos jornais

Os jornais dependiam de um modo de vida que se foi extinguindo no novo milênio

João Pereira Coutinho | Folha

A crise dos jornais bateu à minha porta. Literalmente. Durante anos, a rotina era simples: acordava, saía, passava pela banca, abastecia-me com a mesma dieta (quatro jornais nacionais, três estrangeiros). O vendedor já nem fazia perguntas: quando me via, entregava a dose como se fosse um dealer profissional.

Depois, regressava a casa, preparava o café da manhã (muito café para uma manhã) e abria os jornais sobre a mesa da sala. Com uma lapiseira na mão, partia em busca da minha presa.

O ritual durava duas horas, às vezes três, dependendo das matérias. No fim, eu podia ostentar alguns recortes como se fosse um caçador orgulhoso. Várias vezes escrevi crônicas diretamente sobre a notícia impressa.

E quando, por acaso, eu me ausentava da cidade, nem aí o fornecimento parava: no meu regresso, tinha 10 quilos de papel à espera. Com uma tesoura, desbastava tudo para uns aceitáveis 4 ou 5 quilos.

A banca fechou no ano passado. O dealer, pesaroso, alegou a idade e a quebra do negócio. Já ninguém comprava jornais. Um dos diários que eu consumia era mesmo a única cópia que ele encomendava. 


Banca de jornal no centro de São Paulo, em foto de 2013 - Gabo Morales/Folhapress

Despedi-me do homem, ainda tentei mudar de dealer mas rendi-me ao ar do tempo: hoje, tomo o café da manhã (menos café para uma manhã) com um iPad à frente. Às vezes, ainda sinto a tentação de usar a lapiseira na tela luminosa, como se fosse um amputado que sente dores no seu membro inexistente. É triste. É patético. 

Não sou caso único. Lizzie Widdicombe, na New Yorker (versão digital, claro), oferece alguns números para dinossauros como eu: na década de 1950, havia mais de 1500 bancas de jornais em Nova York. Em 2019, restam trezentas. Um bom dia de negócio, para esses resistentes, é vender 50 jornais. 

Fato: o que não se vende em papel é consumido online. Aliás, a “crise dos jornais” pode ser explicada pela ascensão triunfal da internet. Eu próprio sou um traidor da minha classe.

Mas não só. Os jornais também dependiam de um modo de vida que se foi extinguindo com o novo milênio.

Para começar, um modo de vida lento, ou pelo menos mais lento do que a patética aceleração em que vivemos. Bem sei: os nossos antepassados sentiram o mesmo, sobretudo nos começos das três revoluções industriais. 

Mas nós estamos na quarta, afogados em hiper-conexão, o que não deixa de ser uma forma regressiva de comunicabilidade: a forma como a maioria consome notícias remete-nos para os tempos do telégrafo, em que a brevidade instantânea era a alma do negócio. 

Quem, de entre os leigos, tem uma hora para dedicar a um jornal? Quem tem meia hora, ou até 15 minutos?

O meu avô tinha. O meu pai também: o dia não poderia começar sem essa hora de leitura matinal. O que para eles era uma rotina para os nossos contemporâneos é um luxo bizantino. 

Por outro lado, não havia apenas disponibilidade de tempo. Havia disponibilidade intelectual: uma curiosidade permanente para conhecer algo mais do que os horizontes estreitos do próprio umbigo.

Hoje, na era narcísica das redes sociais, não temos propriamente leitores; temos “voyeurs” uns dos outros, sempre em canibalismo mútuo. Quando não estamos obcecados com as nossas neuroses, estamos obcecados com as neuroses dos outros. Não há negócio que resista a esse circuito fechado.

Pessimista? Não estou. É preciso não confundir o jornal (como objeto) e o jornalismo (a segunda mais antiga profissão do mundo, nas palavras de Paulo Francis). O segundo continuará por outros meios, ainda que o rumo permaneça nebuloso.

Mas terei saudades do jornal. Aliás, já tenho, sobretudo quando passo pelo lugar onde existia a velha banca.

É agora uma estação de patinetes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário